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domingo, 7 de junho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

OS IDOS DE JUNHO DE 1974

No dia 10 de Junho de 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos do Movimento Democráticos dos Artistas Plásticos pintou, no Mercado da Primavera em Belém, um enorme mural.
Entre muitos outros pintores, participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.

Vergílio Ferreira no seu Diário:

Dois amigos pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá». De modo que também lá estive.»


Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.

O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Durante o dia, o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxera.

O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras  notórias da ditadura eram caricaturadas.

O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor, que fazia de Cardeal Cerejeira, proferia estas palavras:

Senhor Presidente da República. Senhor Presidente do Conselho. Filhas, artistas e filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.

Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do povo, salvo seja…

Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:

O programa que transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.


A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .

 No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:

Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.

Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.

Legenda:
a)      Pormenor do mural colectivo tirado de Entre as Brumas da Memória
b)      Fotografia da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974
c)      Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de 1974.

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

Texto publicado no dia 16 de Junho de 2014.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

À VOLTA DO CORETO ENTRE EMOÇÃO E MEDO


…Salazar, o professor de Coimbra, morria em farsa de Parque Mayer, vítima doméstica dos seus calos, não dizendo coisa com coisa à sua Senhora Maria, durázia, surpreendida fielmente (contava-se) em combinação, no quarto da clínica. Cada qual seu destino, devido «fatum», «Shiksal» nacional… Tempo é de o escrever – em respeito que pelos ditadores não pode haver, sem ódio nem piedade trinta anos de história decorridos. Pois que seja, nestas memórias, no desprezo que a história promete em sua moral! Eu encontrava-me em Almoçageme nesses dias, em casa do Fernando e da Emília Azevedos, com a Mahité, e saímos a ver as pessoas na praça da aldeia. Como pareciam elas? Olhando-se silenciosas, à volta do coreto, entre emoção e medo, decerto sinceros ambos, nas águas da mesma história longa, longamente vivida – sofrida por muitos, lucrada por poucos, inútil para todos. «Peçonha em água-benta» – dissera Afonso Lopes Vieira.

José-Augusto França em Memórias Para o Ano 2000

quarta-feira, 10 de junho de 2015

PAINEL DE LIBERDADE


Naquele primeiro 10 de Junho em liberdade, que não mais foi Dia da Raça, uma enorme festa transformou o Mercado da Primavera, em Lisboa, num grito de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Nesse espaço 48 artistas plásticos, (tantos como os anos de ditadura) das mais variadas tendências, pintaram um enorme painel colectivo ( 24 metros de comprimento por 4,5 de altura)  em que cada um, à sua livre maneira, pintou as suas cores da liberdade.

A parede dividida em 48 quadrados, piso térreo e dois andaimes marcando o primeiro e segundo pisos.

O calor era muito e alguns artistas trabalharam em tronco nu.

Assim ficaram distribuídos os 48 quadrados:

 1 – Margarida Tengarrinha
 2 – Sá Nogueira
 3 – João Abel manta
 4 – Júlio Pereira
 5 – Henrique Manuel
 6 – Palolo
 7 – Artur Rosa
 8 – Ângelo de Sousa
 9 – Nuno Sam-Payo
10 – Lima de carvalho
11 – Teresa Magalhães
12 – Guilherme Parente
13 – Fátima Vaz
14 – Manuel Peres
15 – René Bartholo
16 – João Vieira
17 – Jorge Martins
18 – Querubim Lapa
19 – Manuel baptista
20 – Eduardo Nery
21 – Charrua
22 – Helena Almeida
23 – Costa Pinheiro
24 – Jorge Pinheiro


25 – Júlio Pomar
26 – David Evans
27 – Alice Jorge
28 – Emília Nadal
29 – Fernando Azevedo
30 – Vespeira
31 – Rogério Ribeiro
32 – José Escada
33 – Vítor Palla
34 – Tomás Mateus
35 – António Domingues
36 – Menez
37 – António Sena
38 – Justino Alves
39 – Eurico
40 – Sérgio Pombo
41 – João Moniz Pereira
42 – Nikias Skapinakis
43 – Vítor Fontes
44 – Jorge Vieira
45 – Ana Vieira
46 – Maria Velez
47 – António Mendes
48 – Carlos Calvet

Fiquei sempre com a ideia de que não foi dada a esta obra colectiva, expressão do reconhecimento e da solidariedade dos Artistas Democráticos para com o Movimento da Forças Armadas, o devido valor.

Houve mesmo  quem lhe chamasse uma manifestação oportunista.

O painel acabou por ficar armazenado em instalações situadas perto do local onde foi pintado.

Em 1981, o painel seria totalmente destruído após um estranho incêndio que destruiu todo o armazém-

Legenda
- pormenor do painel em fotografia copiada de Portugal Anos 70 de Joaquim
  Vieira.
- Júlio Pomar pintando o painel fotografia em HelenaVaz Silva com Júlio Pomar.

sábado, 25 de abril de 2015

E ENTÃO O QUE É QUE SE HÁ-DE FAZER?...


Não havia muito por onde me informar na circunstância: telefonei ao Fernando Azevedo, que, já sabia, mas não sabia de nada e, apesar do segundo ou terceiro telefonema da mãe, bem certa já do que acontecia e dos seus perigos, fui rua acima até ao Rato, talvez por referência histórica visivelmente inútil, que não havia Rotunda no saco, e não encontrei ninguém; tornei a casa e saí depois rua abaixo até à Misericórdia onde as pessoas começavam a animar-se, com correrias para o Carmo, em gáudio de rapaziada, e outras gentes a rondar, à espera, interpelando-se a medo, ainda. Não quis (ou tive medo de) continuar, voltei a ouvir em casa as notícias excitadas da rádio – e as transmissões das forças fiéis, apanhadas em grande surpresa e susto, a comunicarem para um comandante tido como chefe das operações, que, felizmente para ele, não deixou nome na história desse dia. Falavam as forças do Camões,não hostilizadas, na verdade, mas talvez porque o povo julgasse que eram também revolucionárias – dizia o seu oficial. E no Rossio? Interrogava o general. Não se sabia nada. Havia que mandar um pelotão a saber! Pois tinha sido mandado,mas não dera mais sinal de si… E no Carmo? Pois estava uma multidão de gente ao lado da tropa, a cercar o quartel da Guarda. Era preciso mandar um avião bombardear, receitou então o General. Mas, assim no centro da cidade? duvidava o major. Pois era, pois era… reflectia o Estado Maior, ante a dificuldade em que não tinha pensado. Era a guerra tal e qual como o meu caro Raul Solnado a contara! Ficou gravado e sabe-se com certeza o nome dos oficiais, generais e não, em causa, pobres diabos apanhados numa história que se fazia historieta, à altura deles. Um só, brigadeiro de seu posto, e à paisana resistiu, no Terreiro do paço…
No Carmo tinham achado refúgio Marcelo Caetano e uns tantos ministros; alguns choravam o emprego perdido, ele foi digno e triste, sabendo há muito como tudo estava perdido, no Estado Novo que sempre servira, por convicção, ambição e final sacrifício. Depois viria um general de passado carregado mas oportunamente achado, à falta de outro, para dar salvação ao caso – e recomeçar uma história republicana havia quase meio século interrompida. Na medida das possibilidades destes dias incertos.

José-Augusto França em Memórias Para o Ano 2000.

Legenda: fotografia  tirada do Catálogo 25 de Abril, Cinemateca Portuguesa, Lisboa, Abril de 1984. 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

OLHARES


Íamos então de casa em casa, e pelas ruas fora conversando, à noite quando ruas e noite em Lisboa, e em café de tertúlia (o Casais, o Pedro, o Soromenho, o Zé Blanc, o Lourenço quando vinha a Lisboa, o Azevedo, o Lemos, o Vespeira; era no Chave de Ouro; não falando das “missas do Marinho”, no Palladium, quando cafés havia também.

José-Augusto França, num velho JL sem data, evocando Jorge de Sena.

Legenda: o Palladium, na Avenida da Liberdade, junto ao Elevador da Glória, é hoje um asséptico e indistinto Centro Comercial

segunda-feira, 16 de junho de 2014

OS IDOS DE JUNHO DE 1974


8 a 14 de Junho

FOI DETIDO Saldanha Sanches, director do Luta Popular, órgão central do MRPP.
Dezenas de militantes desfilaram da Praça do Chile até à Praça do Areeiro, gritando slogans: Abaixo a nova Pide e Liberdade para Saldanha Sanches.

Segundo Maria José Morgado, que presenciou a prisão levada a cabo por polícias à paisana, esta prisão visou sobretudo atingir o MRPP e o “Luta Popular” e está integrada num conjunto de medidas repressivas contra os marxistas-leninistas-maoistas”. 

“É uma medida da coligação burguesa no poder contra a classe operária e a sua vanguarda
organizada.

NO DIA !0 DE JUNHO DE 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos do Movimento Democráticos dos Artistas Plásticos pintou, no Mercado da Primavera em Belém, um enorme mural. Entre muitos outros pintores , participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro. MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.

Vergílio Ferreira no seu Diário:
Dois amigos pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá». De modo que também lá estive.



Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.
O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Durante o dia o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxe.

O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras  notórias da ditadura eram caricaturada.

O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor que fazia de Cardeal Cerejeira o artista que proferia estas palavras:

Senhor Presidente da República. Senhor presidente do conselho. Filhas, artistas e filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.


Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do povo, salvo seja…


Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:

O programa que transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.


A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .

 No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:

Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.
Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.

OS ARMADORES da pesca da sardinha afirmam que não suportam as exigências dos pescadores.

FORAM INTERROMPIDAS , em Argel, as negociações com o P.A.I.G.C.
Mário Soares:

É preciso fazer notar, neste momento, que incidentes desta ordem são perfeitamente comuns e até direi, quase naturais Há dificuldades da nossa parte, há dificuldades da parte deles.

PROSSEGUE  a greve na Timex.

O RECONHECIMENTO do direito à independência por Portugal é reclamado  pelo MPLA como condição essencial para o cessar fogo.

Sá CARNEIRO numa entrevista a um jornal do Brasil afirmou que o Governo Provisório é uma verdadeira equipa.

Legenda:
a)      Pormenor do mural colectivo tirado de Entre as Brumas daMemória
b)      Fotografia da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974
c)      Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de 1974.

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

MEMÓRIAS


Andando a navegar pela blogosfera, fui desaguar ao “blogue” Frenesi Loja que se dedica a vender, na blogosfera, livros em 2ª mão. Acabei por saber que Calos Faria morrera em Janeiro deste ano.. Este é o texto retirado da Frenesi:

“Lisboa, 1966
Editora Lux, Lda.
1.ª edição [única]
19,5 cm x 13,2 cm
80 págs.
capa impressa a duas cores e relevo seco
exemplar manuseado mas muito aceitável, miolo limpo
COM EXTENSA DEDICATÓRIA DO AUTOR ASSINADA E DATADA
30,00 eur

Carlos Faria, ou Karlos Faria, tendo nascido no Ribatejo foi autor de expressão açoreana, e nessa qualidade, aquando do seu recente (Janeiro de 2010) falecimento, foram os escritores Eduardo Bettencourt Pinto e Onésimo Almeida os únicos que o celebraram. Aí, no arquipélago, co-fundou suplementos literários como Glacial (no jornal A União) ou Basalto (no Correio dos Açores). Entre as dedicatórias dos seus poemas de Lisboa pode ser traçado o lugar poético de um convívio a todos os títulos interessante, a saber: José Gomes Ferreira, Herberto Helder e Mário Cesariny. E são, precisamente, os poemas dedicados a estes dois últimos aqueles que mais nos revelam acerca dos nossos anos sessenta: «Cloridrato de Heroína» e «Flash».
Do segundo:
«Bêbedo de lua
recito António Nobre e Becquer
pelas ruas de Nova York...
– certo de que na América ninguém repara
como na Europa ninguém ouve!
– “Eh, sailor! Where do you come from?”





Conheci o Carlos Faria em 1967, na cave-estúdio-casa que o  pintor Artul Bual tinha na Amadora.

Carlos Faria dizia-nos, então:

“Pânico é com Todos!” e “Pânico é incombustível”

O Helder Pinho delirava com aquela história do Pânico em plena ditadura salazarista, o Hugo Beja não percebia bem, o Armindo não tinha pachorra para excentricidades daquelas, por mim achava-o um tipo divertido. Grandes jantaradas naqueles restaurantes baratos que então havia no Bairro Alto. Andava sempre entre Angra do Heroísmo e Lisboa, a que chamava cidade pânica de reles silêncio, Kapital do Medo.

Em 1967 enviou-me o postal com o galo de Barcelos e nas costas escreveu um poema a que chamou “Epitáfio Pânico ao Galo de Barcelos”:

Um galo português é só pescoço!
- Ais de melancolia!
- “Bico” calado!
- Orelha Murcha!
- Olhos de Cegueira!
- Medo no peito!
- Coração no rabo!
- Doces, cornos farpados!
- Cornos de ½ Leca!

Depois fui para a tropa e nunca mais o vi.

Também nunca mais vi o Armindo, e o Hugo Beja passou um dia, como cliente, pela “Mariazinha” mas a Aida só se lembrou de quem era, quando já tinha saído, depois de deixar uma série de desenhos na toalha de papel, que acabámos por emoldurar e  pôr na parede da tasca e que o pintor Fernando Azevedo, cliente da “Mariazinha”, achava um belo e curioso traço.

O Helder Pinho morreu em 2003 com 55 anos. Jornalista desde os princípios de A Capital,”em 1968, não entendia a vida sem excessos e  morreu de um fulminante ataque cardíaco.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

OLHAR AS CAPAS


O Embargo

José Saramago
Ilustrações de Fernando de Azevedo
Estúdios Cor, Lisboa, Natal de 1973

A editora “Estúdios Cor”, todos os anos por Dezembro, fazia publicar um pequeno livrinho, com um Conto de Natal, escrito pelos autores da casa.

Tenho o de José Gomes Ferreira, publicado no Natal de 1957, o de José Rodrigues Miguéis publicado no Natal de 1960.

Este é o de José Saramago publicado em 1973, e, penso, que terá sido o último que a “Estúdios Cor” publicou.

A abrir o livro pode ler-se:

“Com os votos sinceros de BOAS FESTAS, Estúdios Cor, Natal de 1973.

“O Embargo
” é um conto que, em Fevereiro de 1978, José Saramago incluirá no seu livro “Objecto Quase”.


“Acordou com a sensação aguda de um sono degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher se esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse voltar a adormecer já, acabaria por ter o dia estragado. Faltou-lhe porém ânimo para levantar-se, para tapar a janela: preferiu cobrir a cara com o lençol e virar-se para a mulher que dormia, refugiar-se no calor dela e no cheiro dos seus cabelos libertos. Esteve ainda uns minutos à espera do sono, inquieto, a temer a espertina matinal. Mas depois acudiu-lhe a ideia do casulo morno que era a cama e a presença labiríntica do corpo a que se encostava e, quase a deslizar num círculo lento de imagens sensuais, tornou a cair no sono.”

Nota do Editor: Este livro faz parte da Biblioteca da Casa por cortesia de Luís Miguel Mira