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domingo, 5 de maio de 2019

OLHAR AS CAPAS


Memórias De Um Peão Nos Combates Pela Liberdade

Sacuntala de Miranda
Capa: António Eduardo Borges de Sousa
Colecção Garajau nº 100
Edições Salamandra, Lisboa, Abril de 2003

Foi o Zé quem, em Setembro de 1957, me levou à Seara Nova, na Rua Luciano Cordeiro, onde começava a preparar-se a campanha para a apresentação de uma lista de deputados da oposição por Lisboa, sob a orientação do velho Câmara Reis, um senhor calvo, ainda cheio de alegria e boa disposição, não obstante a sua avançada idade. Não havia candidatos, a não ser Câmara Reis, e os estudantes que se ofereceram para ajudar foram destacados para ir, em grupos de três ou quatro, pedir a várias personalidades notáveis que acedessem a candidatar-se. A mim coube-me, entre outras, a tarefa de ir, com o Luís Bernardino e com o Ernâni pinto Basto, visitar Ferreira de Castro e pedir-lhe que se candidatasse à Assembleia Nacional na lista da Oposição. O velho escritor olhou-nos com infinita simpatia, sorriu e perguntou: “Vocês já têm vinte anos? (Na verdade, dos três, só eu tinha mais de vinte anos.) São umas crianças. Queriam que eu fosse para a Assembleia Nacional? Nem pensem nisso. Eu não nasci para fazer política.” E despediu-nos com o mesmo sorriso paternal e muitas pancadinhas nas costas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

OLHÓ PACHECO! SACANA LIBERTINO ESCRITOR


Esperávamos, ansiosos, pela serenidade de Setembro mas acontecem-nos temperaturas agostonianas. Resta-nos hoje um, breve, mergulho na segunda entrevista que o Crocodilo que Voa guardou de Luiz Pacheco, publicada em O Inimigo de Abril de 1994 e teve a conduzi-la Baptista-Bastos: «Olhó Pacheco! Sacana Libertino Escritor»:

Fala de outros autores:

O Saramago. Gosto imenso do Saramago como pessoa, como camarada do partido, e pelas suas capacidades de trabalho. Devo-lhe muitos favores e finezas e atenções.
O Saramago é o grande vencedor do 25 de Novembro. Escrevia umas coisas no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias, confundiu o Beckett com o Ionesco, enfim, coisas a esquecer. E aquele Manual de Pintura e Caligrafia é uma chatice. Ele tem um romance que escamoteia, Terra do Pecado, e eu não sei porque é que ele não o republica, não o envergonha nada, aquele romance datado, em comparação com outros da mesma época. Daqui a cinquenta anos, depois da morte dele, vai haver um editor espertalhão que o publicará… Mas o Saramago avançou com o Memorial do Convento, e é o grande impacte. Mas temos de ter cuidado com o que dizemos.

Que significa essa precaução?

É que há toda uma maquinaria editorial, E um tipo sabe que, se mete lá a mão, levam-nos o braço e o corpo todo, se possível a alma e o resto… a pilinha… Já antes do memorial, o Saramago tinha publicado Levantado do Chão, ao qual dediquei uns artigos no Diário Popular, que me impressionou muito. E até as peças de teatro dele são coisas muito giras. Que Farei com Este Livro?, está muito acima do que por aí se faz. Republicou, mais tarde, na Caminho, a sua poesia, um horror!, e ele bem sabe que é um horror. O Memorial é excepcional. O Ano da Morte de Ricardo Reis é uma montagem bem feita. A Jangada de Pedra não consegui ler aquilo de fio a pavio. O Evangelho li duas páginas e pensei. «Nunca li a Bíblia, já não vou ler isto!» É muito comprido. Já não tenho tempo nem vista. Dei-o ao meu filho.

E os outros? Já que estamos numa espécie de listagem.

Gajos que considero fora da carroça: o Ferreira de Castro, o Fernando Namora, o Lobo Antunes (que já não consigo ler, não leio mesmo), o Vergílio Ferreira. Este é um grande escritor, lá isso é, e tem uns três livros muito bem conseguidos, é um tipo de craveira mental, mas tem deixado escapar alguns disparates indesculpáveis. E isso é muito triste num escritor como o Vergílio Ferreira, que também não posso detestar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

QUE ME DEIXOU UM POUCO PERPLEXO


Em Amsterdão, Outubro de 1970, António José Saraiva escreve a Óscar Lopes e a dado ponto anda às bicadas ao neo-realismo português:

Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que me parece impróprio) não há um ínico grande escritor neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.
E não há só uma invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do redol e outros.
(…)
Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço d’Arcos.
Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte.


Legenda: Ferreira de Castro

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

OS NEO-REALISTAS DE LISBOA NÃO ME GRAMAM


Carta de Óscar Lopes para António José Saraiva, enviada do Porto em 2 de Setembro de 1969:

Ninguém em Portugal criticou mais desassombradamente os neo-realistas do que eu. O próprio E.L. parece valorizar muito mais o Carlos de Oliveira, o Cochofel, o Joaquim Namorado do que eu! Eu seria incapaz de consagrar um ensaio à poesia de Namorado, com quem aliás me dou bem. Os neo-realistas de Lisboa, em geral, não me gramam, e, como sabes, há uns 11 anos cozinharam um artigo bota-abaixo que o Alexandre Pinheiro Torres assinou. E nunca fui grande admirados do Ferreira de Castro, como creio que tu.
                                 

Legenda: Ferreira de Castro