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sábado, 14 de março de 2020

OLHAR AS CAPAS


O País das Uvas

Fialho d’Almeida
Revista e prefaciada por Álvaro Júlio da Costa Pimpão
Livraria Clássica Editora, Lisboa 1946

-Eu bem na sinto! eu bem na sinto!
E os dias lúcidos vão inundar de tonalidades esses subsolos de florestas perdidas nos fundos bucólicos da província. Uma virgindade cerra as espessuras, e imacula as sombras das árvores, cuja cúpula, por cima, estrela o azul impecabilíssimo do céu. E pelas ramas que se engalfinham, se enlaçam, procuram, frémitos d’asas, num mistério de núpcias. Nenhum canto de natureza infecundo! o mesmo amor que sobe da terra, a revigorentar os arvoredos, comunica-se aos ninhos, cinge os canais de pássaros, extravasa no ar como uma nafta de bodas bíblicas, e comunica-se aos ninhos, cinge os casais de pássaros, extravassa no ar como uma nafta de bodas bíblicas, e comunica-se, aspira-se, vai-se  infiltrando em toda a parte.
-Eu bem na sinto! eu bem na sinto!  

A SECRETA LOUCURA DE VOZES LONGÍNQUAS


Infuência do meu avô paterno, que odiava os meses de Janeiro e Fevereiro – dizia ele: «acabam-se as festas do Natal e ficamos nas sombras de dois meses de tristeza-quase-trevas, restando-nos aguardar os primeiros salpicos da Primavera que há-de chegar!» – sempre consegui ultrapassar esse sentimento depressivo, mas este ano, vá lá saber-se porquê, fui-me deixando afundar. 

Em todos os outros, e são  mesmo, muitos muitos, resolvia o problema com alguns gins, muita música, os livros e os filmes do costume.

Mas de repente, vi-me metido nesta quarentena-covid-19 em que alguém, a propósito do escritor Rui Nunes, dizia que nos sentimos sitiados, que nos resta ouvir da boca dos pardais as últimas que nos vão dando conta da inexistência de Deus, ao mesmo tempo que Alexandre O’ Neill salta ao teclado do computador para lembrar  que o medo vai ter tudo e é isso exactamente o que o medo quer.

Volto às pedras do cais, olho este rio que é um mar, e será tempo de esquecer melodramas e cenas melanco-apatetadas.

E a Primavera vem aí, «bem na sinto», como escreveu Fialho d’Almeida em excerto que vão encontrar em Olhar as Capas, livro que veio da biblioteca do meu pai, livros velhos que, nestes dias sem palavras, andei folheando, ao mesmo tempo que lhes espanejava o pó.

Legenda: imagem de Mihai Criste

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A REPÚBLICA TRÊS MESES DEPOIS



Numa crónica no “Jornal de Notícias”,  por ocasião das comemorações dos 100 anos da Implantação da República, Manuel António Pina escrevia:

“No centenário da implantação da República, juntamente com o fim dos privilégios de sangue e a adopção do princípio republicano, festejou-se algo que não existiu: um regime democrático.
A I República foi estruturalmente antidemocrática, não só tendo instaurado a censura, perseguido sindicatos e organizações de trabalhadores, proibido manifestações, promovido a intolerância e a violência política, mas sobretudo rejeitando o voto universal e excluindo do colégio eleitoral a imensa maioria analfabeta da população portuguesa (bastará dizer que, em 1910, havia 850 mil eleitores recenseados que, com a lei eleitoral republicana de 1911, ficaram reduzidos a 400 mil).”

Num artigo de opimião, datado de 31 de Dezembro de 1910, e incluído no seu livro “Saibam Quantos…”, Fialho d?Almeida escrevia:

“Há três meses completos que esta Lisboa é uma imensa cloaca de “cidadonismo” arremangado e bestiaga, emporcalhando as ruas de manifestações sem objecto, e fazendo consistir a vida cívica n’um fervilhar d’escumalha que dá vivas e morras a heroes transitórios e a patriotasnos arrivistas. A gente tranquila pergunta quando é que esta feira d’alarves fingindo envergaduras de revolucionários conscientes, e quando é que a vida estudiosa e comercial reintegra outra vez Lisboa na sua pacatez d’estudo  e de trabalho”




Como o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita, foram-se abrindo os caminhos para, dezasseis anos depois da implantação da República, eclodir o pronunciamento militar que ficou para a História com a designação de “Movimento de 28 de Maio” e que há-de dar origem ao advento do salazarismo.

“Infelizmente, há muita coisa que parece só eu posso fazer.”, Salazar, numa nota oficiosa, datada de Abril de 1935.

Nota:  No texto de Fialho d’Almeida, manteve-se a ortografia da época.