Um novo livro de
versos da Fiama – alta, misteriosa, hierática, olhos de Minerva. Olhos sábios.
O livro – Barcas Novas
– mental, cerebral, bem feito mas fortemente influenciado pelo Cabral de melo
neto, o mais recente estragador involuntário dos poetas jovens portugueses.
Ainda não são os versos
que a Fiama traz nos olhos.
Naqueles tempos em
que se abriam janelas para que as correntes de ar pudessem entrar, batessem na
cara, juntávamo-nos ao redor de discos e livros, trocávamos impressões,
experiências e admitíamos aquele saber que guardamos nas dobras improváveis do
tempo, que era possível a chegada de um dia claro. A isto se poderia chamar a
memória da esperança. Era disto que se faziam os dias daqueles tempos.
Quando já depois de, ouvidos os discos, muito conversados, razoavelmente
bebidos, o Zé Leal lembrava sempre que ficava na memória um som. Um som simples
das ausências, das mãos que se fizeram abertas. Ficava também o silêncio.
Depois era a debandada. A manhã a anunciar-se, era o começo de mais um dia
trabalho.
"Para a próxima quem é que trás os discos?”
Hoje já não servem as palavras com que dantes se faziam as conversas entre nós.
Gastas as palavras, outros os olhares, diferentes os interesses.
Este EP de 33 rpm é o 4º Caderno de composições de Fernando Lopes Graça
“compostas em estilo singelo para recreação da gente nova portuguesa – Oito
Canções das Barcas Novas”.
Os poemas são de Fiama Hasse Pais Brandão, cantados por Celeste Lino, Manuel
Pico, acompanhados, ao piano, por Olga Prats.
O disco, como habitualmente, não indica a data de gravação. Talvez 1972. O
preço, esse, pode ver-se no canto superior esquerdo: 73 escudos e 50 centavos.
O texto de apresentação, incluído no disco, é de Mário Vieira de Carvalho,
escrito num tempo em que era crítico musical e acreditava que existiam amanhãs
para serem cantados.
Mais tarde, muito depois de escritas estas palavras, seria secretário de Estado
da Cultura de um governo de José Sócrates. Dizem as más-linguas que ele e a
ministra, para além de umas guerras intestinas e perfeitamente inúteis
(Cinemateca, São Carlos etc.) não deixaram nada de registo. Também só agora é
que o Primeiro-Ministro reconhece que errou ao não apostar mais na Cultura e
que tenha sido tratada “como um parente pobre”.
Pois!...
Adriano Correia de
Oliveira, de parceria com Rui Pato, também musicou este poema de Fiama.
Faz parte do EP da
Orfeu Elegia (1967) e na Obra Completa de Adriano, editada em
CD, no ano de 2007, pela Movieplay, aparece integrado
no disco A Noite dos Poetas.