«Era inevitável que o Fidel, pela idade e pela doença,
tivesse que retirar-se um dia. E não é insignificante que a transição de um
homem que foi tantos anos o condutor de um país, ao chegar a hora da retirada,
se faça de uma maneira mecânica, automática r sem traumas. Ainda falta saber o
que é que vai acontecer, porque por aquilo que vimos a renovação geracional que
terá de haver não aconteceu ainda. Continua a ser a velha guarda, o que não me
parece mal porque se é uma velha guarda que está pensando que efectivamente há
que mudar e prepara essa transição. Cuba não é fácil. Porque castritas ou
fidelistas, gente que em Cuba considera que Castro é quase um deus é
muitíssima, estão lá e querem pelo menos que se respeite a figura e mais tarde
a memória desse homem.»
Em 2003, Saramago
desagradado com a execução de três dos autores do desvio de um barco, escreveu:
«Cuba não ganhou nenhuma heroica batalha fuzilando
esses três homens, mas perdeu a minha confiança, destruiu as minhas esperanças
e defraudou as minhas expectativas.
Aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá o seu
caminho, eu fico.»
Fidel, um grande homem. Acabou como ditador e é
preciso dizer que começou por acabar com um ditador, Fulgencio Batista. Com
qualidade rara, a coragem, cortou com a sua própria situação de privilegiado e
arriscou a liberdade e a vida. Aqueles que amocharam em situações semelhantes -
e em Portugal ainda há gerações em que a escolha foi posta - deveriam não se
esquecer de que houve um Fidel que fez o que eles deveriam ter feito e não
fizeram. Que os tíbios reconheçam: "Honra aos que souberam dizer não quando
o não era necessário e nós não estivemos à altura de o dizer." E depois
podiam, com mais mérito, criticar o Fidel liberticida. Acresce ainda que para
lutar contra a ditadura Fidel não pôde contar com o exemplo da admirável
América: ela era madrinha de Batista e madrasta de Cuba. Longe de Deus, não
sei, mas tão próximo dos Estados Unidos - naqueles tempos, pelo menos - era
mais difícil ser democrata. Poder tomado, Fidel tirou partido do seu jeito para
o simbólico: caqui, charuto, barbas... Ora, os ícones - que se mostram muito,
por definição - têm de função mais própria escamotear. Esse Fidel das
fotografias romantizou o que foi; e ajudou a enganar sobre o que aí vinha. Os
factos acabaram por ser: o ditador Fidel assassinou muitos e a todos os seus
compatriotas tirou a liberdade. Ao combatente de grande causa, honra. Ao
tirano, vergonha. E a todos nós, uma lição de história.
Angelina Barbosa
e Pedro Serrano, os tradutores, para a Relógio d’Água, das Poesias de Bob
Dylan, anotaram sobreA Hard Rain’s A-Gonna Fall:
Escrita durante a crise dos mísseis cubanos, em
Outubro de 1962, a canção reflecte a angústia da possibilidade de uma guerra
nuclear provocada pelo braço de ferro entre Kennedy e Khrusschev. Diz Dylan
que, quando a escreveu, pensava não lhe restar muito mais tempo para escrever
outras canções, pelo que pôs tudo quanto conseguiu nesta, como se fosse uma
canção contendo várias canções.
A estrutura da letra da canção baseia-se em «Lord
Randall», uma canção que Dylan aprendeu com Martin Carthy.
Como mero gosto
pessoal, tenho que esta é uma das grandes canções de Bob Dylan.
Neste tempo que
decorre sobre a morte de Fidel, lembrei-me da canção, como também me lembro
daqueles tempos de angústia, que não sei bem se, após Trump, não poderão estar
de volta.
Numa carta,
datada de 15 de Maio nesse mesmo ano de 1962, José Rodrigues Miguéis escrevia a
José Saramago:
O mundo está muito complicado, mas não o acho
suficientemente absurdo para perder a esperança.
Que se continue
a acreditar em Miguéis.
Oh, onde estiveste, meu filho de olhos azuis?
Oh, onde estiveste, meu jovem querido?
Tropecei na encosta de seis montanhas brumosas
Caminhei e rastejei por seis estradas sinuosas
Entrei pelo meio de sete florestas tristes
Estive na orla de uma dúzia de oceanos mortos
Penetrei dez mil milhas na boca de um cemitério
E é dura, e é dura, é dura, é dura
E é dura a chuva que vai cair
Oh, o que viste, meu filho de olhos azuis?
Oh, o que viste, meu jovem querido?
Vi um recém-nascido rodeado de lobos ferozes
Vi uma estrada de diamantes que ninguém usava
Vi um ramo negro que gotejava sangue
Vi um quarto cheio de homens com martelos sangrentos
Vi uma estrada branca toda coberta de água
Vi dez mil palradores cujas línguas estavam todas
destroçadas
Vi armas e espadas cortantes nas mãos de criancinhas
E é dura, e é dura, é dura, é dura
E é dura a chuva que vai cair
E o que ouviste, meu filho de olhos azuis?
E o que ouviste, meu jovem querido?
Ouvi o som dum trovão, rugia um avisos
Ouvi o bramir duma onda que podia afogar o mundo
inteiro
Ouvi uma centena de tamborileiros cujas mãoas
flamejavam
Ouvi dez mil a sussurrar e ninguém e escutar
Ouvi uma pessoa a morrer de fome, ouvi muita gente a
rir
Ouvi a canção dum poeta que morreu na valeta
Ouvi o soluço de um palhaço que gritou na viela
E é dura, e é dura, é dura, é dura
E é dura a chuva que vai cair
Oh quem encontraste, meu filho de olhos azuis?
Quem encontraste, meu jovem querido?
Encontrei uma criança junto a um pónei morto
Encontrei um homem branco que passeava um cão preto
Encontrei uma mulher jovem cujo corpo ardia
Encontrei uma rapariga, ela deu-me um arco-íris
Encontrei um homem ferido de amor
Encontrei um outro homem ferido de ódio
E é dura, é dura, é dura, é dura
É dura a chuva que vai cair
Oh o que farás agora, meu filho de olhos azuis?
Oh, o que farás agora, meu jovem querido?
Vou voltar lá para fora antes que a chuva comece a
cair
Caminharei para as profundezas da mais profunda e
sombria floresta
Onde as pessoas são muitas e as suas mãos estão
completamente vazias
Onde as bolinhas de veneno inundam as suas águas
Onde a casa no vale se funde na suja e húmida prisão
Onde a face do carrasco está sempre bem escondida
Onde a fome é torpe, onde as almas são esquecidas
Onde a cor é o negro, onde nada é o número
E hei-de contá-lo e pensá-lo e dizê-lo e respirá-lo
E espelha-lo da montanha para que todas as almas
possam vê-lo
Então erguer-me-ei no oceano até que me comece a
afundar
Mas saberei bem a minha canção antes de começar a
cantar
«O comandante-chefe da revolução cubana morreu esta
noite às 22:29».
Foi assim que o
Presidente Raúl Castro anunciou a morte de Fidel Castro.
«El Comandante»
morreu aos 90 anos.
Emocionado, Raúl
castro terminou o anúncio da morte com a frase:
«Até à vitória,
sempre».
Goste-se ou não
dele, Fidel marca uma era na História do século XX.
Tinha 14 anos
quando Fidel e os seus guerrilheiros desceram da Sierra Maestra para mostrarem
ao mundo que Cuba, a América Latina, não mais seria o quintal e o bordel da
mafia americana.
A vitória
daquelas gentes sobre os americanos foi a de um David contra Golias.
Ficou-me o
fascínio, o lugar da utopia, a marca de um imaginário revolucionário que
perdura.
No que a Cuba
diz respeito, há alguns conflitos comigo mesmo, o coração, as razões, mas já
estou velho para mudar.
Chego agora ao final da minha defesa mas não
a acabarei, como os advogados geralmente fazem, pedindo que os acusados sejam
libertos. Não posso pedir liberdade para mim enquanto os meus camaradas sofrem
na ignominiosa da Ilha dos Pinheiros. Enviai-me para lá, para que me junte a
eles e partilhe do seu destino. É compreensível que os homens honestos sejam
mortos ou presos numa República em que o Presidente é um criminoso e um ladrão.
Para vós, Meretíssimos Juízes, a minha
sincera gratidão por me haverdes permitido exprimir-me, livre de desprezíveis
destrições. Não guardo amargura contra vós e reconheço que, em certos aspectos,
tendes sido humanos. Sei que o Presidente deste Tribunal. Homem de uma
impecável visa privada, não consegue disfarçar a sua repugnância perante o
corrente estado de coisas que o obriga a tomar decisões injustas.
Mas um problema mais sério está ainda para
resolver nesta sessão: as decisões a tomar quanto ao assassinato de setenta
homens, ou seja, quanto ao maior massacre que jamais conhecemos. Os culpados
continuam em liberdade e de armas na mão – armas que contìnuamente ameaçam os
cidadãos. Se todo o peso da lei não cai sobre os culpados, por causa da
cobardia ou do domínio sobre os tribunais, e se, em tal caso, todos os
magistrados e juízes se não demitirem, causais-me pena. E lamento a vergonha
sem precedentes que recairá sobre o poder jurídico.
Sei que estar na prisão será, para mim, tão
duro como alguma vez o foi para alguém, rodeado de ameaças cobardes e perversas
torturas. Porém, não temo a prisão, tal como não temo a fúria do miserável tirano
que roubou as vidas a setenta dos meus camaradas.
Condenai-me. Isso não importa. A História me
absolverá.
Nota do
editor: A História Me Absolverá é o
texto da alegação dirigida por Fidel de Castro ao Tribunal que o julgou, à porta
fechada, após o insucesso da sua primeira insurreição, em 26 de Julho de 1953,
contra o regime de Batista.
Desde o dia 21,
que um entusiasmado Otelo Saraiva de Carvalho encontra-se de visita a Cuba.
Vou a Cuba para tomar contacto com a revolução cubana
a caminho do socialismo. Vou com os olhos e os ouvidos abertos para ver as
experiências já adquiridas para, depois poder incentivar a nossa revolução.
Terá sido, no
decorrer desta visita que Fidel de Castro colocou a Otelo a possibilidade de
Havana se envolver no conflito angolano, correspondendo a um apelo do MPLA.
Fidel também
queria saber qual seria a recção do governo português.
Otelo ficou de
dizer qualquer coisa mas ter-se-á «esquecido».
Em 1977, numa
passagem de Costa Gomes por Havana, Fidel de Castro disse-lhe:
Quando um dia
lhe perguntaram o que pensava de John Kennedy, Che Guevara respondeu:
É com certeza muito boa pessoa mas é Presidente dos
Estados Unidos.
Sobre a recente aproximação
diplomática entre Cuba e os Estados Unidos, Fidel de Castro disse:
Não confio na
política dos Estados Unidos nem troquei qualquer palavra com eles- Tal não
significa – longe disso – a recusa de uma solução pacífica para os conflitos.
Goste-se ou não, ninguém pode escamotear que Fidel de Castro marcou, para sucessivas gerações, uma era.
Ainda marca.
Faz hoje 85 anos.
Por ocasião de um aniversário da Revolução Cubana disse:
O que hoje se exprime desta tribuna não é exactamente o mesmo homem desse dia; é só alguém muito menos jovem, que tem o mesmo nome, que veste da mesma maneira, que pensa do mesmo modo, que sonha como então.
Não hesita em classificar a democracia como lixo e tem o cuidado de dizer que se algum país socialista se quiser tornar capitalista, temos que o respeitas, do mesmo modo que ninguém pode interferir no destino dos que desejaram permanecer socialistas.