Mostrar mensagens com a etiqueta François Truffaut. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta François Truffaut. Mostrar todas as mensagens

sábado, 7 de janeiro de 2017

LER PODE SER MELHOR QUE VIVER


Pode-se viver sem ler?

Pode, mas vive-se pior.

Há discursos sagrados em redor dos livros mas nada impede que Pepe Carvalho, o célebre detective de Manuel Vasquez Montalban, doente pelo Barcelona, bom garfo, amante de um bom cognac e um “puro” , também de boleros, admirador de mulheres nas “ramblas”, pusesse o detective de Manuel Vasquez Montalban, todas as noites acender a lareira com as páginas das suas leituras preferidas.

Num país de iletrados não é difícil encontrar ignorantes.

Pena é que sejam burros ao ponto de, orgulhosamente, afirmarem que nunca leram um livro, como se isso fosse uma prova de entrada no reino dos céus.

Números velhos, talvez de 2004, mostravam que 1 em cada 10 portugueses não sabe ler ou escrever. São os analfabetos absolutos. Depois há os alfabetizados (teoricamente) que não lêem (90% dos portugueses) e os que lêem, mas não sabem interpretar, nem assimilar o que lêem.

Conheço criaturas que frequentaram, ou tiraram um curso superior, sem ter um único livro em casa, mesmo do que andaram a cursar.

Como tudo isto acontece?

Diz quem andou por lá, que há estupendas “sebentas” nas nossas faculdades.

Cabe aqui a história do petiz a quem o Raul Solnado perguntou se gostava de ler e que lhe respondeu: “Evito!”
       
          Os nossos livros estão empoeirados
           canecas de cerveja ensinam melhor,
           a cerveja dá-nos  prazer,
           os livros só aborrecimentos.

Fia-te nos que gostam de ler, desconfia quando alguém te diz que não tem tempo para ler, dizia o meu avô, um leitor compulsivo.

Os pobres não lêem porque não têm meios e os ricos porque não querem.

É mais fácil passar o tempo a olhar para a televisão. Outros há que desviam o dinheiro que têm para outras prioridades: comprar um carro topo-de-gama, comprar uma casa na praia, férias em Punta Cana ou qualquer outro lugar exótico.

Lê-se porque sim, porque não se pode deixar de ler. 

A leitura é um hábito que, no entanto, necessita de constante exercício porque quando se perde o hábito de ler, a necessidade de ler, o prazer de ler, corre-se o risco de não se recuperar.

Não é bem como andar de bicicleta...

François Truffautt adaptou ao cinema um livro de Ray Bradbury: Farenheit  451.

Filme e livro perturbantes.

Ler é pecado, quem pensa é um fora da lei.

 Não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar, cantava o José Afonso,  Mao Tsé Tung  dizia que ler demasiado é prejudicial, Júlio César, na peça de Shakespeare, desconfiava de Cássio porque era magro e porque lia muito.

Escreveu Paul Valery que os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a humidade, os animais, o tempo, e o seu próprio conteúdo.

William Wrigley, milionário da pastilha elástica, ao mobilar o seu sumptuoso apartamento, em Chicago, deu ordens à secretária: Meça-me aquelas prateleiras e compre-me os livros suficientes para mas encher. Arranje-me uma data de livros de um verde e um encarnado vivos e com uma batelada de letras douradas. Quero uma vista catita.

Livros para completar a mobília, dizia o Eça de Queiroz.

Jorge Luis Borges afirmou que o paraíso, se existe, tem a forma de uma biblioteca e o poeta francês Stéphane Mallarmé sabia que tudo no mundo existe para se transformar em livro.

Nota do Editor: o título é uma frase do Jorge Silva Melo


Legenda: pintura de Di Cavalcanti

quinta-feira, 23 de junho de 2016

QUOTIDIANOS


Ele estava a ler-lhe Rilke, um poeta que admirava, quando ela adormeceu com a cabeça no travesseiro dele. Gostava de ler em voz alta e lia bem, numa voz confiante e sonora, ora baixa e grave, ora retumbante, ora excitante. Enquanto lia nunca desviava os olhos da página e apenas interrompia para estender o braço para a mesinha-de-cabeceira e pegar num cigarro. Era uma voz que a transportava até um sonho povoado de caravanas que iniciavam uma viagem a partir das cidades rodeadas de ameias, com homens barbudos vestidos com túnicas. Tinha-o escutado durante alguns minutos, fechara os olhos e adormecera.


Legenda: fotograma do filme Domicilio Conjugal de François Truffaut

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O LIVRO É UM OBJECTO DE PRAZER


Temos andado às voltas com velhos editores, gente que gostava realmente de livros.

Também há espaço para novas editoras que vivem fora do mosqueiro dos aglomerados-de-ditos-editores.

Com dificuldades mas prosseguem o seu trabalho.

Casos da Tinta-da-China, da Guerra e Paz, da Letra Livre, da & etc e trago agora a Orfeu Negro, de que se apresentou, há dias, Os Filmes da Minha Vida de François Truffaut.

È um livro pensado, cuidadosamente impresso e que dá gozo manusear.

Após o Índice, deparamos com a ideia original de como ficamos a saber com que caracteres o livro foi composto.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Sim, realmente, neste filme os aviões fazem amor.

François Truffaut em Os Filmes da Minha Vida

OLHAR AS CAPAS


Os Filmes da Minha Vida

François Truffaut
Tradução Luís Lima
Introdução: Francisco Valente
Capa: Rui Silva
Orfeu Negro, Lisboa, Maio de 2015

Por que razão Estradas do Inferno é um bom filme, apesar de tudo? Porque as cenas entre Janet leigh e John Wayne são dirigidas com uma arte, uma invenção, uma inteligência de todas as imagens; porque o erotismo deste filme é do mais insidioso, do mais subtil, do mais eficaz e mais refinado que existe. Não esquecerei a cena em que John Wayne tem de revistar Janet Leigh enfiada numa combinação forrada com bolsos oblíquos no peito e no baixo-ventre; não esquecerei o momento em que, a baloiçar o pé, a aviadora atira, pela abertura da porta, as suas cuequinhas para serem inspeccionadas ; não esquecerei Janet em camisa de dormir no avião, na Rússia, em todos os lugares, Janet na sua melhor forma. Mas, como se sabe, as mulheres são um assunto especial para Sternberg; constrangido a filmar também aviões, durante metade do tempo soube humaniza-los com uma mestria por vezes transtornante; quando o aparelho pilotado por Janet Leigh aparece no céu, a voar ao lado do avião pilotado por John Wayne, e ouvimos inteligivelmente em pleno ar o diálogo apaixonado que eles mantêm via rádio, somos invadidos por uma emoção perfeitamente pura, criada por meios poéticos; quanta invenção e beleza a embargar-nos a garganta. O propósito do filme, repito, é imbecil e propagandista, mas Sternberg contorna-o constantemente, e as lágrimas vêm-nos aos olhos diante de tamanha beleza quando, por exemplo, o avião mecho e o avião Fêmea se procuram, se encontram, se sobrepõem, se agitam e se acalmam e voam por fim a lado a lado. Sim, realmente, neste filme os aviões fazem amor.


(Da crítica ao filme Estradas do Inferno de Josef von Sternberg, 1957)

sexta-feira, 24 de julho de 2015

OS PÁSSAROS




Como não lembrar os estranhos acontecimentos em Bodega Bay , contados por Alfred Hitchcock  em  Os Pássaros?

Podemos saber de muita coisa mas, por vezes, algo nos escapa.

Ninguém sabe por que inofensivos pássaros atacam os habitantes de uma pacata vila.

Tão pouco se fica a saber se voltarão a atacar.


Fez bem em não fornecer o motivo da acção agressiva das aves. O filme é nitidamente uma especulação, uma fantasia.

Será mesmo?

Talvez seja por isso que o filme de Alfred Hitchcock não termina com o clássico The End.

Algures na Cornualha, em Aberdeen, em qualquer lugar, algo pode acontecer com pássaros.


quinta-feira, 19 de março de 2015

POSTAIS SEM SELO


Todos devemos deixar qualquer coisa atrás de nós, ao morrermos, dizia o meu avô. Um filho, um livro, um quadro, uma casa, uma parede ou um par de sapatos. Ou ainda um jardim plantado de flores. Qualquer coisa que a mão tocou e para onde irá a alma no instante da morte, E quando as pessoas olharem essa árvore ou essa flor que plantámos nós, estamos lá, sob os seus olhos.

Ray Bradbury em Fahrenheit 451

Legenda: imagem do filme Fahrenheit 451 de François Truffaut.

domingo, 17 de novembro de 2013

POSTAIS SEM SELO


Passo o tempo lendo ou escutando música. Voltamos sempre ao princípio, estamos perdidos!

Manuel António Pina

Legenda: imagem do filme Fahrenheit 451.

sábado, 30 de março de 2013

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Não vi todos os filmes de Alfred hitccock.

O ciclo sobre Hitchcock que, durante o mês de Março, a Cinemateca esteve a exibir, serviu para recticar algumas lacunas.

Levei algum tempo a perceber, e a gostar, de Hitchcock.

Cada um tem os seus gostos, os seus olhares, mas se tivesse que mencionar os meus cinco filmes preferidos de Httchcock, a lista ficava assim:

A Janela Indiscreta
Vertigo
39 Degraus
O Homem Que Sabia Demais
Os Pássaros.

Quando François Truffaut esteve largamente, muito largamente, à conversa com Alfred Hitchcock, disse-lhe que de todos os seus filmes, os preferidos eram Difamação e Janela Indiscreta.


Devido a um acidente, um repórter fotógrafo L. B. Jeffries (James Stewart) ficou imobilizado no seu apartamento, com uma perna engessada. Como entretenimento para as horas que passam, observa os comportamentos dos vizinhos do prédio em frente: uma solteira desesperada por companhia, um músico que tenta encontrar a inspiração nas bebidas alcoólicas, um casal que mima o cão como se fosse um filho… isto até ao momento em que a observação de Jeff o leva a suspeitar que um crime foi cometido no prédio e o fotógrafo decide envolver a sua noiva (Grace Kelly) e um detective amigo (Wendell Corey) numa perigosa investigação. A evolução dos acontecimentos dá-lhe razão e, por fim, o assassino (Raymond Burr) atravessa o pátio e atira pela janela o nosso repórter que escapa… com a outra perna partida.

O filme é um apanhado de pequenas histórias que se desenrolam no pequeno mundo das traseiras de um prédio.

James Stewart  era um voyerur.  Lembro-me (Hitchcock a falar com Truffaut) de uma crítica a propósito. A menina Lejeune escreveu no London Observer que Rear Window era um filme «horrível» porque havia um tipo a olhar constantemente pela janela. Penso que ela não deveria ter escrito que era horrível. Sim, o homem era um voyeur, mas não seremos todos voyeurs?


Garanto-lhe que nove em cada dez pessoas, se virem do lado de lá do pátio uma mulher a despir-se antes de se deitar ou simplesmente um homem a arrumar o quarto, não conseguem evitar o olhar. Poderiam desviar o olhar, dizendo: »Isto não é não me diz respeito»; poderiam fechar as persianas, mas, ora! Não fazem nada disso, ficam a olhar.


O cinema está repleto de brilhantes e comovedoras cenas de beijos. 

As cenas finais do Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore, são uma montagem feita a partir dos cortes de cenas de beijos, e outras, que o padre, censor-mor-da-comunidade, determinava, depois de, sem sombra de pecado, se ter regalado a ver tudo.

Há quem diga que os beijos que Grace Kelly, o vulcão debaixo de gelo, como lhe chamava Hitchcock, troca com James Stewart neste filme,  são dos mais belos  da história do cinema. François Truffaut, se não o afirma categoricamente, está perto disso. João Bénard da Costa pensa que o mais belo será entre John Wayne e Maureen O´Hara em O Homem Tranquilo. 

Estas coisas valem o que valem… pelo que, sem qualquer classificação beijocal, apenas direi que são grandes momentos de cinema.

 A primeira aparição de Grace Kelly, no apartamento de James Stewart ,dá-se sem nós a vermos, apenas a sua sombra vai-se desenhando na face de James Stewart que está sentado, a dormitar, na cadeira de rodas.

 Entretanto acorda e beijam-se. 


A outra cena é quase no final do filme. 


James Stewart, para fugir ao criminoso estatela-se no pátio e parte a outra perna. Deitado no chão vê o rosto de Grace Kelly aproximar-se do seu.seu. Ela não o beija, mas uma madeixa de cabelo vai caindo lenta e suavemente sobre o rosto de Stewart.


É agora o tempo de vos apresentar dois diálogos do filme.


Logo a abrir, o longo diálogo entre a enfermeira e James Stewart, é um primor de graça.  Na troca de palavras, vindo a talhe de foice a inteligência, a enfermeira diz-lhe: 

Inteligência: Nada tem causado tanto sarilho à raça humana!

O outro diálogo ocorre durante uma das conversas entre Jeff e Lisa, quando esta faz desesperadas tentativas para provocar o casamento com Jeff, que não  está muito virado para isso:

Lisa – Gostava de ser criativa!

Jeff – Mas tu és minha querida! Tens um grande talento para criar situações difíceis!

Lisa – Achas?

Jeff – Claro! Como passar a noite aqui sem seres convidada.

Lisa – A surpresa é o mais importante elemento do ataque.

Do texto da Cinemateca:

Pode chamar-se-lhe um «filme de câmara». A notável articulação entre os espaços do interior do apartamento de Stewart e o pátio e as traseiras dos vizinhos é o resultado de
Um dos mais fabulosos trabalhos de designing da história do cinema. 

terça-feira, 5 de março de 2013

OLHAR AS CAPAS


Hitchcock Diálogo com Truffaut

François Truffaut, com a colaboração de Helen Scott
Tradução: Regina Louro
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 1987

O MacGuffin é um expediente, um truque, uma senha, chamamos a isso um ginmick.
Sabe que Kipling escrevia frequentemente sobre as Índias e sobre a luta dos Britânicos contra os indígenas nas fronteiras do Afeganistão. Em todas as histórias de espionagem que evocam esse ambiente havia, invariavelmente, roubo dos planos da fortaleza. Era o MacGuffin. MacGuffin é, portanto. O nome que se dá a este género de acção… os papéis, roubar… os documentos, roubar… um segredo. Na realidade isto não tem importância e os lógicos fazem mal em procurar a verdade no MacGuffin. No meu trabalho, sempre pensei que os «papéis», ou os «documentos», ou os «segredos» da fortaleza devem ser extremamente importantes para as personagens do filme mas sem qualquer importância para mim, narrador.
Agora, de onde é que vem o termo MacGuffin? Lembra um nome escocês e podemos imaginar uma conversa entre dois homens num comboio. Um diz ao outro: «Que embrulho é aquele que você pôs na rede?» O outro: «Ora! É um MacGuffin.» E o primeiro «O que é isso, um MacGuffin?» O outro: «Olhe, é um aparelho para apanhar leões nas montanhas Adirondak!» O primeiro: «Mas não há leões nas Adirondak!» Então o outro conclui: «Nesse caso não é um MacGuffin.» Esta anedota mostra-lhe o vazio do MacGuffin… o nada do MacGuffin.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Estas coisas valem o que têm de valer ou o que cada um quer que valham.

Para uns muito, para outros assim assado, para outros nada.

Soube-se agora que Vertigo, de Alfred Hitchcock, foi eleito o melhor filme de todos os tempos pela revista Sight and Sound, publicação do British Film Institute, deixando para trás Citizen Kane de Orson Welles, que estava há 50 anos no top.

A revista, que de dez em dez anos, convida um painel de jurados especializados na área para nomear os melhores filmes de sempre, publicou nesta quarta-feira os novos resultados. Desta vez, ao contrário das últimas cinco décadas, os 846 distribuidores, críticos e académicos votaram na sua maioria no filme de Hitchcock.

Aos poucos, Vertigo, interpretado por James Stewart e Kim Novak,tem vindo a ocupar o lugar que, muito injustamente, durante anos não lhe foi reconhecido.

Scottie (James Stewart, antigo inspector da polícia demitido por causa da sua tendência para as vertigens, é encarregado por um velho amigo de lhe vigiara a mulher, Madeeleine (Kim Novak, muito bela e cujo estranho comportamento leva a recear um suicídio. Ele vigia a mulher, segue-a, salva-a de um afogamento voluntário, apaixona-se por ela, mas não consegue, devido às vertigens, impedi-la de se precipitar do alto de um campanário.

Sentindo-se responsável pela sua morte, é acometido por uma depressão nervosa, depois retoma uma vida normal até ao dia em que encontra na rua a sósia de Madeleine. Não era a mulher, mas sim a amante do amigo de Scottie, e foi a mulher deste que foi lançada, depois de morta, do alto do campanário.

Os amantes diabólicos tinham montado esta maquinação para fazer desaparecer a importuna, contando tirara partido da doença de Scottie, que o impediria de subir Madeleine atá ao alto do campanário.

Quando, no fim, Scottie compreende que Judy era Madeleine, arrasta-a à força até ao campanário, supera a vertigem, vê a jovem aterrorizada cair no vazio com ao abalo e vai-se embora. Se não feliz, pelo menos liberto.

Esta é a sinopse feita por François Truffaut para o livro que reine as muitas conversas que manteve com Alfred Hitchcock. (1).

Este filme de Hitchcock provoca sempre acaloradas discussões. Porque cada espectador que o vê, interpreta-o à sua maneira, consoante sentimentos secretos do seu gosto e, nunca se chega a um consenso, o que apenas, para além resto, serve para valorizar o filme.

Curiosamente, nas citadas conversas de Truffaut com Hitchcock, Truffaut nunca revela um grande entusiasmo pelo filme, os seus favoritos são Janela Indiscreta, em que o acompanho, e Difamação.

O próprio Hitchcock considera que o filme não foi um êxito nem um fracasso, deu para cobrir as despesas, o que na visão de Hitchcock é um fracasso.

Por fim, e para que se veja o quão discutível são estas listas dos melhores-seja-do-que fôr, são estes, para quem votou no inquérito da Sight and Sound os dez melhores filmes de sempre:

1. Vertigo – A Mulher que Viveu Duas Vezes (Hitchcock, 1958)

2. Citizen Kane - O Mundo a seus Pés (Welles, 1941)

3. Viagem a Tóquio (Ozu, 1953)

4. A Regra do Jogo (Renoir, 1939)

5. Aurora (Murnau, 1927)

6. 2001- Odisseia no Espaço (Kubrick, 1968)

7. A Desaparecida (Ford, 1956)

8. O Homem da Câmara de Filmar (Dziga Vertov, 1929)

9. A Paixão de Joana d'Arc (Dreyer, 1927)

10. (Fellini, 1963)


(1)   Hitchcock Diálogo com Truffaut, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1967.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

RAY BRADBURY (1921-2012)


Na terça-feira, com 91 anos, morreu o escritor Ray Bradbury.

Aos 7 anos deixou-se encantar com os livros de Edgar Allan Poe, para aos 17 anos, numa revista de ficção científica.

Curiosamente foi François Truffaut que meu a conhecer Ray Bradbury.

Em 1966 adaptou ao cinema Fahrenheit 451, que é a temperatura a que um livro se inflama e consome.

Truffaut dizia que o argumento devia 60% ao romance de Bradbury e 40% a ele próprio.

Foi o seu amor pelos livros que o levou a fazer o filme.

Numa qualquer futuro, um regime totalitário decreta que os livros são perigosos e manda-os queimar.




Bem os livros foram banidos Não faz mal, vamos decorá-los.

 Carlos Ruiz Zafón em A Sombra do Vento:

Por que é que se queimam os livros? Por estupidez, por ignorância, por ódio… vá-se lá saber.

Final de Fahrenheit 451:

Montag sentia em si o lento remoinho das palavras, as suas lentas vibrações. E, quando a sua vez chegasse, que poderia dizer, que poderia oferecer, num dia como aquele, para aliviar a fadiga da viagem? Para tudo o que existe há uma época. Sim. Era isso. Um tempo para guardar silêncio e um tempo para elevar a voz. Sim, mas que mais, que mais? Alguma coisa, alguma coisa…
E nas duas margens do rio nascia uma árvore da vida, dando doze vezes frutos e um cada mês; e as folhas dessa árvore serviam para curar as nações.
“Sim, pensou Montag, eis o que vou reter para o meio-dia. Para o meio dia…
“Quando chegarmos à cidade.(1)
  
Em 1985 Bradbury publicou A Morte é Um Acto Solitário. (2)

Bradbury dedica-o  a três amigos e à memória de Raymond Chandler, Dashiell Hammmett, James M. Vain e Ross Macdonald.

Um curioso mosaico do policial negro que se lê com agrado, mesmo que não atinja os picos do género.




Em Veneza, Califórnia, ano de 1949 uma meia dúzia de personagens administram a sua solidão: – um escritor de novelas policiais, um inspector frustrado, uma melómana, obesa q.b. que se enrola em comida e áreas de ópera, uma beldade espampanante de nome Constance Rattigan, e A.L. Sharank.

Um poeta escreveu na parede do quarto do filho:

A solidão é boa para não se estar sozinho.

O livro tem um começo espantoso que, só por si, obriga à sua leitura:

Veneza, na Califórnia, tinha, nos velhos tempos, muito que a pudesse recomendasse a quem gostasse de estar triste. Era o nevoeiro quase todas as noites, e era, ao longo da costa, o gemer das máquinas nos poços de petróleo, e o bater da água suja nos canais, e o zumbir da areia a roçar as vidraças, quando o vento assobiava à volta das praças e ao longo das ruas desertas.
Era no tempo em que o pontão de Veneza, a cair aos bocados, morria no mar. E podia ver-se então gigantesca ossada de dinossauro, a montanha-russa, a coberto ou a descoberto, com o vaivém das marés.
No fim de um longo canal, viam-se as caravanas de um circo, decrépitas, para lá atiradas e abandonadas. E quem olhasse para as jaulas, à meia-noite, veria que lá dentro havia vida – peixes e camarões de ´+agua doce, que andavam ao sabor da maré. E tudo isto, afinal, era o circo do tempo, feito ruína, desfazendo-se em ferrugem.

Ray Bradbury, que agora nos deixou, recusou-se sempre a publicar os seus livros em formato electrónico, dizendo que as pessoas tinham gadgets a mais e, um dia confessou:

A coisa mais divertida da minha vida é levantar-me cada manhã e correr para a máquina de escrever porque tenho uma ideia nova.

(1)   Fahrenheit 451, Livros do Brasil, Lisboa Outubro 1999.

(2)   A Morte É Um Acto Solitário, Publicações Dom Quixote. Lisboa Janeiro de 1987.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

POSTAIS SEM SELO


Sempre que vejo um adulto de bicicleta, volto a confiar no futuro da raça humana.

Henry Wells

Legenda: cena do filme Jules e Jim de François Truffaut, 1962 com Jeanne Moreau, Oskar Werner e Hemri Serre

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ELE FOI O MAIOR DE TODOS NÓS


François Truffaut morreu no dia 21 de Outubro de 1984. Tinha 52 anos.

Este foi o texto que Jorge Leitão Ramos escreveu no Diário de Lisboa:



No dia 21 de Maio de 1985 a RTP 2 exibiu O Homem Que Gostava das Mulheres.
Esra é a ficha do filme, publicada no semanário Sete:


No dia  de Março  de a RTP 2 exibiu O Homem Que Gostava das Mulheres.
Esra é a ficha do filme, publicada no semanário Sete:

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Se fosse vivo, François Truffaut faria hoje 80 anos.

Com Truffaut é obrigatório dizer que estamos perante um cineasta amável, que fazer filmes era a sua felicidade suprema, que amava as mulheres, bem sei que as pernas de uma  mulher marcam o compasso do mundo e não há na mulher um aspecto, a não ser os outros aspectos, que se compare à beleza das suas pernas,  mas que, sobretudo,  amava profundamente o cinema, e que tudo fez para que todos gostassem de cinema.

Assim seguiu as pisadas de Alfred Hitchcock, por quem tinha grande admiração, quando disse que a melhor maneira de respeitar o público era dar-lhe prazer, a tal fatia de bolo que ele dizia que devia ser um filme.

É esse amor pelo cinema que é notável em Truffaut.

Morreu cedo demais e sentimos desesperadamente a falta que nos faz, nenhum outro cineasta nos fez tanta falta para seguir o que então disseram os seus pares.

Também é bom, quando o inevitável acontece, sentir a falta de alguém.

Jean Pieer Léaud, o seu actor preferido,,nas exéquias, no cemitério de Montmartre, disse aos jornalistas:

Direi o mesmo que Truffaut depoais da morte de Jean Renoir: sentir-lhe-ei a falat toda a vida.                        

Chamaram-lhe um enorme fazedor de sonhos e nunca deixou de dizer:
 Faço filmes para realizar os meus sonhos de adolescente, para me sentir bem e, se possível, para fazer os outros sentirem-se bem. Para muitos o cinema é uma escrita; para mim será sempre um espectáculo, onde não é permitido aborrecer as ou dirigir-se só a uma parte do auditório. Como todos os s autodidactas, antes de tudo pretendo convencer.

Delicio-me com A Sereia do Mississipi, dá-me um gozo imenso ver O Homem que g
Gostava das Mulheres, perturbo-me, a roçar a angústia, com Jules e Jim, mas todos os seus filmes têm sempre qualquer coisa que não permitem falar de tempo perdido quando os olhamos.,

François Truffaut teve uma paixão sem medida por Liliane Dreyfus, mas o cínico, o oblíquo  Goddard, pode-se adivinhar porquê, tratou de destruir essa paixão.
Quando se zangaram Truffaut lembrou-lhe:
Eu sabia que tinhas tentado seduzir Liliane dizendo-lhe “François já não te ama, está apaixonado por Marie Dubois que entra no seu filme” e eu achei isso lamentável, mas comovente sim, porque não, comovente, no limite.

Entre Liliane e Truffau, as coisas nunca se compuseram e a história não acabou nada bem. Ela acabou por casar com outro só para ooirritar, mas também disse:

François foi uma grande paixão na minha vida. E creio que também contei muito para ele, porque ao longo dos anos conservou essa espécie de amizade, fidelidade e ciúme a meu respeito. Era um desses homens que nunca conseguimos deixar.

Mais não é preciso dizer e, também, mais não quero dizer.

O cinema, o meu cinema é a memória de François Truffaut.

Saudá-lo nos seus 80 anos, esteja lá onde estiver, é pagar uma dívida.

De gratidão.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

POSTAIS SEM SELO



Memorizem versos de poesias. Um dia darão mais jeito que um livro de cheques.

Maria João Seixas

Legenda:  imagem de O Homem Que Gostava das Mulheres, François Truffaut, 1977.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Lisboa, Elevador da Bica.

Cena do filme de François Truffaut “Angústia”, realizado em 1964.

Pierre Lachenay, um intelectual de meia idade, numa viagem a Lisboa para dar uma conferência, conhece Nicole, uma lindíssima hospedeira de bordo. De volta a Paris, iniciam uma relação mas Nicole diz-lhe que a relação nunca iria resultar. Franca, a mulher de Pierre, descobre o recibo de umas fotografias. Levanta-as e dirige-se ao restaurante o Pierre almoça sozinho. Atira-lhe as fotografais e mata-o com uma espingarda, sem saber que a relação dele com Nicole já tinha acabado.

Baseado em factos reais, “Angústia” é um dos filmes mais sombrios de François Truffaut, uma história de adultério filmada a preto e branco.

François Truffaut: “A proporção do filme que é pura ficção é relativamente pequena porque eu prefiro trabalhar a partir de factos tal como eles são apresentados nos jornais e a partir de conhecimentos que eu experimentei ou que me foram contados por amigos. Gosto que os meus filmes sejam autenticados pela vida”.

Nicole é interprtado por Françoise Dorléac, irmã de Catherine Deneuve que viria a falecer num acidente de automóvel, em 1967, enquanto Pierre Lachenav é interpretado por Jean Desailly e Franca Lachenay por Nellu Benedetti.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

OLHAR AS CAPAS


François Truffaut

Paul Duncan
Capa Andy Disi
Taschen, 2004

Fazer um filme é melhorar a vida