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terça-feira, 15 de agosto de 2017

ONTEM LÁ EM BAIXO NO CANAL


Dizes que tudo é muito simples e interessante
isso torna-me muito melancólico, como se lesse um grande romance Russo
estou tão aborrecido
é quase como ver um mau filme
se não for, mais frequentemente, como ter uma doença aguda no rim
valha-nos deus que não é nada no coração
nada relacionado com gente mais interessante do que eu
yak yak
que pensamento divertido
como pode alguém ser mais divertido que o próprio
como pode alguém não ser
podes emprestar-me o teu quarenta e cinco
só preciso de uma bala de preferência de prata
se não se pode ser interessante pelo menos que se seja uma lenda
(mas odeio essa trampa toda)

Frank O'Hara em Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço

domingo, 23 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Vinte e Cinco Poemas à Hora Do Almoço

Frank O’Hara
Selecção tradução, prefácio: José Alberto de Oliveira
Colecçaõ Documenta Poética nº 27
Assírio &Alvim, Lisboa, Março de 1995


Por que eu não sou pintor

Eu não sou pintor, sou poeta.
Porquê? Penso que preferia ser
um pintor, mas não sou. Bom,

Mike Goldberg, por exemplo
está a iniciar um quadro. Eu apareço.
«Senta-te e toma uma bebida» diz
ele. Eu bebo; nós bebemos. Reparo
Tu tens SARDINHAS aí.»
«Sim, eu precisava de qualquer coisa ali.»
«Oh». Eu saio e os dias passam
e eu apareço de novo. O quadro
avança, e eu saio, e os dias
passam. Eu apareço. O quadro
está terminado. «Onde estão as SARDINHAS?”
O que resta são apenas
letras. «Era demasiado», diz Mike.

E eu? Um dia estou a pensar numa
cor: laranja. Escrevo uma linha
acerca de laranja. Em breve é uma
página que está cheia, não de linhas, de palavras.
Depois outra página. Deveria haver
muitíssimo mais, não laranja,
Palavras, como é terrível o laranja
E a vida. Os dias passam. Acontece ser
Em prosa, sou um verdadeiro poeta. O meu poema
Está terminado e ainda nem sequer mencionei
O laranja. São doze poemas, chamo-lhes
LARANJAS. E um dia numa galeria
Vejo o quadro de Mike, chamado SARDINHAS.

sábado, 16 de junho de 2012

O QU'E QUE VAI NO PIOLHO?


Já trouxe ao piolho um poema de Frank O’Hara, retirado do seu livro Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço.

Trago-vos um outro.

Chama-se A Industria Cinematográfica em Crise e é retirado da Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana, publicada pela Futura, em 1973, com secção, tradução e prefácio de Manuel Seabra.

É uma deliciosa viagem pelo cinema americano, uma homenagem a todo esse fabuloso tempo: actrizes, actores, os filmes de uma vida.

Mas a César o que é de César.

Não tenho a antologia da Futura.

O poema encontrei-o, há muito tempo, num blogue e guardeio-o.

Reparo, agora, que não encontro o nome desse blogue.

Lamento bastante.

Não a vós, revistas intelectuais e periódicos especializados,
com as vossas incursões de alto nível à pomposidade das formigas;
não a ti, teatro experimental, em que Fruição Emotiva
se une a Visão Poética perpetuamente; não a ti,
Grande Ópera ao ar livre, óbvia como um ouvido (embora
estejas perto do meu coração); mas a ti, Indústria Cinematográfica,
é a ti que eu amo!

Em tempos de crise, todos temos que decidir constantemente a quem amamos,
E honrar a quem o merece: não para a minha governanta engomada, que me ensinou
como ser mau e não ser mau em vez de bom (e se apoderou ultimamente
ela própria desta informação);
não para a Legião Americana, que odeia toda a gente, mas para ti,
glorioso Ecrã de Prata, trágico Technicolor, amoroso Cinemascópio,
dilatada Vistavision e assustador Som Estereofónico com todas as
tuas celestiais dimensões e reverberações e iconoclasmos! Para
Jeanette MacDonald de cabelo e lábios em chama e pescoço comprido, comprido; para
Sue Carrol sentada para a eternidade no pára-choques avariado de um carro
a sorrir; para Ginger Rodgers com o seu canudo de pajem como uma salsicha
nos ombros irregulares; para Fred Astaire dos pés, com a sua voz de pêssego em almíscar; para
Eric Von Stroheim, o sedutor de esposas alpinistas e ofegantes; para os
Tarzans, todos e cada um (não consigo convencer-me a preferir
Johnny Weissmuller a Lex Barker, não consigo!) para Mae West num trenó coberto de peles,
para o seu esplendor de bordel e observações irónicas; para Rudolph Valentino da lua,
em paixões avassaladoras; e, lunar também, para a meiga Norma Shearer; para
Miriam Hopkins deixando cair a taça de champanhe do iate de Joel McCrea
e chorando para o mar listrado; para Clark Gable salvando Gene Tierney
da Rússia; e para Allan Jones salvando Kitty Carlisle de Harpo Marx; para
Cornel Wilde tossindo sangue nas teclas do piano enquanto Merle Oberon ralha; para
Marilyn Monroe nos seus pequenos saltos de agulha vagueando pelas cataratas do Niágara; para
Joseph Cotten intrigando e para Orson Welles intrigando; e para Dolores del Rio
comendo orquídeas ao almoço e partindo espelhos; para Gloria Swanson reclinando-se,
e para Jean Harlow reclinando-se e saracoteando-se e para Alice Faye reclinando-se
e saracoteando-se e cantando; para Mirna Loy sendo calma e sensata; para William Powell
na sua espantosa urbanidade; para Elisabeth Taylor florescendo, sim, para ela
e para todos os outros, os grandes, os quase grandes, os contratados, os extras
que passam rapidamente e voltam em sonhos dizendo as suas duas ou três linhas,
o meu amor!
Por longo tempo possais iluminar o espaço com as vossas maravilhosas actuações, atrasos,
e declarações, e que o dinheiro do mundo resplandecentemente vos cubra
quando descansais após um longo dia sob as lâmpadas kleig com os rostos
aos grupos para nossa edificação, da maneira como as nuvens vêm muitas vezes à noite
mas os céus operam no sistema estelar. É um divino precedente
que vós perpetuais! Girem, bobinas de celulóide, como a grande terra também gira!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


A Porto Editora comprou a Assírio &Alvim.

Com disse António Lobo Antunes:

Estamos nas mãos dos grandes grupos editoriais para quem só o dinheiro e as vendas contam. Esta é a verdade. Olhem à vossa volta, se houver cinco livros bons na livraria já não é mau. Esta é a verdade.

Se bem que à frente da parte editorial esteja Manuel Alberto Valente, um homem experiente, que sabe e gosta de livros, a Porto Editora não deixa de ser um grande grupo que, primordialmente, tem o lucro como seu único horizonte.

Prometem respeitar integralmente o espirito da Assirio & Alvim, mas não passam das habituais palavras de circunstância.

Vem esta abertura a propósito de Frank O’Hara, poeta norte-americana que descobri através das campanhas de baixos preços que a editora fazia.

Desconfio que esses tempos não voltarão…

Chama-se o livro Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço.

José Alberto Oliveira, que fez a tradução, escreve no prefácio:

Para concluir quero deixar escrito por extenso e em boa caligrafia que o percurso que me conduziu ao enorme prazer de ler e traduzir O’Hara teve o seu primeiro passo nos “longínquos” anos setenta, em que o “jornalismo do sucesso” talvez não fosse ainda o que é hoje e Joaquim Manuel Magalhãs podia em “A Capital” manter uma coluna, em beneficio da divulgação da poesia e de quem o queria ler.

Sim, apesar de tudo, como era diferente o jornalismo, a cultura em Portugal.

O poema de O’Hara que trago aqui ao Piolho chama-se Avé Maria:

Mães da América
                           deixem os vossos filhos ir ao cinema!
tirem-nos de casa sem eles saberem o que planeais
é certo que o ar livre é bom para o corpo
                                                                 mas quanto à alma
que cresce na escuridão, adornada por imagens prateadas
e quando envelhecerdes como tendes de envelhecer
                                                                                  não vos hão-de odiar
nem criticar nem hão-de saber
estarão nalgum país encantador
que viram pela primeira vez numa tarde de Sábado ou de gazeta

talvez até vos agradeçam
                                        pela primeira experiência sexual
que só custou um quarto de dólar
                                                     e não perturbou a paz do lar
saberão de onde vêm os rebuçados
                                                       e os sacos de pipocas gratuitos
tão gratuitos como sair antes de o filme acabar
com um estranho agradável cujo apartamento é no
                                                       Céu na Av. Terra
perto da Ponte Williamsburg
                                             ó mães tereis feito tão felizes
os putos porque se ninguém os apanhar no cinema
não aprenderão a diferença
                                           e se isso acontecer será puro gozo
e de qualquer forma ter-se-ão divertido a valer
em vez de vagabundearem no pátio
                                                         ou no quarto deles
                                                                                        odiando-vos
prematuramente pois que ainda não fizestes nada horrivelmente
maldoso
excepto mantê-los afastados das alegrias mais sombrias
                                                                           o que é imperdoável
portanto não me culpem se não seguirem este conselho
                                                                           e a família se desunir
e os vossos filhos ficarem velhos e cegos frente à televisão
                                                                                             vendo
filmes que não os deixastes ver quando eram novos

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Lana Turner desmaiou!
Eu deambulava e de repente
começou a chover e a nevar
e tu disseste que caía granizo
mas o granizo acerta na cabeça
com força por isso estava a nevar
e a chover e eu tinha tanta pressa
ia ao teu encontro mas o tráfego
comportava-se exactamente como o céu
e subitamente vi um cabeçalho
LANA TURNER DESMAIOU!
não há neve em Hollywood
não há chuva na Califórnia
eu estive numa data de festas
e portei-me de forma desgraçada
mas nunca tive um desmaio
oh Lana Turner amamos-te levanta-te

Frank O’Hara em Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço, Assírio & Alvim, Lisboa, Março 1995