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quinta-feira, 11 de julho de 2019

QUOTIDIANOS


As cerejas estão a acabar.
Parece que o Verão chegou a Portugal.
A corrupção alastra nas autarquias.
Não há meio de sabermos o que se passou realmente no roubo de armamento em Tancos.
Vítor Constãncio recebe de reforma do Banco Central Europeu 17 mil euros e 17 mil de Portugal. O que fez na estranja não é público, o que (não) fez em Portugal vai-se sabendo aos poucos, mas perdeu a memória e Joe Berardo continua a rir-se.
Soube-se agora que a campanha de Cavaco Silva á presidência da República beneficiou de dez cheques de 25.000 euros provenientes do saco azul gerido por Ricardo salgado no BES.
Soube-se hoje que somos menos, que estamos mais envelhecidos e que a taxa de pobreza diminuiu um pouco mas continua elevada e que afecta os jovens até aos 18 anos e os adultos com mais de 65 anos.
As televisões, diariamente, ocupam horas e horas e horas e horas de futebol.
Hélia Correia, uma escritora portuguesa, venceu o com o seu livro Um Bailarino na Batalha venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Talvez alguma televisão tenha gasto 3 segundos com a notícia.
Dizem que a chuva talvez volte amanhã.
A certeza é que quando as cerejas acabarem, só as voltaremos a ver lá para o Natal, vindas do Chile, a preços astronómicos.
No dia 20 de Julho, um sábado, às 21H30 irei rever, na Cinemateca, Belarmino, esse belo filme de Fernando Lopes.
No meio disto tudo, lembrar que Mário de Carvalho começa assim o seu livro Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina:

«Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, “ensembles”, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.»

sexta-feira, 10 de maio de 2019

SARAMAGUEANDO


Voltamos às páginas do Joaquim Vieira em José Saramago Rota da Vida.

Vieira conta que José Saramago, vivendo na Parede com Ilda Reis e a filha Violante, inscreve-se «como o sócio nº 488 do Clube Nacinal de Ginástica da Parede, dedicando-se ao ténis como a sua actividade física favorita. E surpreendentemente publica no suplemento «Cultura e Desporto», do jornal «O Benfica», em início de 1956, um longo artigo intitulado «É tempo», onde não fala de desporto mas sim de «atitude do homem cristalizado diante da arte moderna, para fazer uma apaixonada apologia das vanguardas estéticas.

Joaquim Vieira não conta, mas José Saramago foi sócio do Sport Lisboa e Benfica e tal como se pode ler no catálogo da exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos em 1999 tornou-se Sócio Honorário Desportivo do Sport Lisboa e Benfica.

Há um curioso recorte do Mário Castrim, numa crítica, publicado no semanário Tal & Qual, a um programa, bem idiota, dos princípios da SIC, que dava pelo nome de Os Donos da Bola:

«O momento mais alto do programa aconteceu na Assembleia do Benfica transmitida em directo. Levantou-se para falar o sócio Jorge Máximo. “O galardão máximo da literatura foi entregue a José Saramago. Ainda por cima, José Saramago é do Benfica. Vamos daqui dar uma salva de palmas a esse grande homem, a esse grande português. Somos campeões do mundo em literatura! É isso que nós, benfiquistas, não podemos perder no nosso humanismo».
Fico siderado. Uma vontade doida de rir e não ser capaz. Porque aquilo é mesmo assim. Todos agora nos sentimos campeões do mundo em literatura, todos e não apenas os benfiquistas. Está aí a grandeza so Saramago: dar força ao nosso humanismo».

Algures, José Saramago reflecte que o futebol tem o velho problema: ou é bem, ou mal jogado.

Numa entrevista que deu a Afonso de Melo, e publicada em A Bola Magazine de Novembro 1998, José Saramago fala dos seus desencantos com o futebol.

Eu fui sócio do Benfica com os meus oito ou nove anos, Por influência do meu pai, claro está!, ele era um benfiquista ferrenho, no tempo do Estádio das Amoreiras, com aquelas bancadas e aquele peão de terceiro mundo. Mas depois as mudanças de vida levaram-me por outros caminhos. Não me apetecia estar a sair de casa para ver um jogo. Nunca fui suficientemente entusiasta para andar de bandeira e cachecol e toda essa parafernália que fez com que o espetáculo se tenha deslocado do campo para as bancadas. O que, aliás, está de acordo com os atuais costumes do Mundo. Além do
mais desagradei-me.

Também não quero estar aqui com a conversa saudosista do «antigamente  é que era bom». Mas a verdade é que, nessa época, o jogador tinha o seu clube, e clube e jogador estavam pegados um ao outro. A camisola era uma coisa respeitável. Quase como uma outra bandeira. E o Benfica viveu o orgulho de só ter jogadores portugueses...Num tempo não muito distante. E agora o que é que acontece? Caiu-se num exagero. Onde estão hoje o Benfica, o Sporting, o F.C.Porto? O futebol não passa de um negócio. Desapareceu uma certa solidariedade de grupo. Isso fez-me desinteressar pelo futebol. O futebol converteu-se num espetáculo e já nada tem praticamente de desporto. Apenas isso.

Sobre o Benfica e o futebol, já Saramago andara às voltas na longa conversa que manteve com João Céu e Silva. O jornalista pergunta se um desafio de futebol lhe causa entusiasmo.

Não. O meu pai levava-me e eu gostava mas não me entusiasma. Nunca fui de transferir para onze pessoas que estão ali no campo a dar pontapés numa bola as emoções que eu deixaria sair por outras razões e por outros motivos, Gostava de ver um bom jogo mas mesmo isso também é bastante relativo, o que eu queria sobretudo era que o Benfica ganhasse mesmo que a equipa jogasse mal. Eu deixei de ser sócio do Benfica há uma quantidade de anos. Eu era o sócio 1322 e hoje estaria entre os primeiros e mais antigos, talvez fosse o número três ou quatro. Enfim, as coisas mudam e nesse tempo era um princípio absolutamente radical de que o Benfica só utilizaria jogadores portugueses. E assim foi, durante uma quantidade de anos, depois – isto é um negócio como outros – com a compra e venda de jogadores e as transferências tornou-se num espectáculo um pouco lamentável, às vezes bastante lamentável. E não quer dizer que uma pessoa na vida profissional, que não tenha a ver com o desporto, se encontrar um trabalho melhor e mais bem remunerado não saia de onde estava e vá para outro lado. Portanto, não se pode estranhar que um jogador de futebol o faça, além de que essa coisa de amor à camisola é uma treta.

O meu avô meteu-me, aos 6 anos, o vício do futebol, mais concretamente do Benfica. Anos mais tarde não deixou de me dizer que as coisas mais importantes da vida não se escolhem.

António Mega Ferreira, benfiquista assumido, gosta de ver os jogos sozinho para poder fazer figuras tristes à vontade, porque em matéria de futebol não se pode ser razoável, ou como disse o cineasta João Botelho, outro benfiquista: «a paixão pelo futebol é um dos lados dos comportamentos irracionais das pessoas».

Albert Camus dizia que o melhor que sabia sobre a moral e as obrigações dos homens, devia-o ao futebol.

«Aprendi rapidamente que uma bola nunca nos chega de onde a esperávamos. Isso serviu-me para toda a vida».

Mas fechamos os taipais com o escritor Mário de Carvalho:

«A maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do joga da bola e meter na cadeia essa pardalada.»

Legenda: fotografia de José Saramago em 1933, tirada do catálogo exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos

terça-feira, 7 de maio de 2019

É ISTO O FUTEBOL!


Depois de ter perdido em Barcelona por três bolas a zero, o Liverpool deu uma reviravolta na eliminatória vencendo o clube catalão por quatro bolas de diferença e ganhando o direito de estar na final da Champions.
Um jogo épico, um hino ao futebol que, jogado desta maneira, faz dele um dos maiores espectáculos do mundo.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

NOTÍCIAS DO CIRCO



Segundo o Jornal de Notícias, há câmaras ainda a pagar os estádios do Europeu de Futebol de 2004 e algumas têm elevadas dívidas em empréstimos contraídos na altura. Ao todo, falta pagar 107,4 milhões de euros e a de Leiria é a que tem a factura mais pesada.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

QUOTIDIANOS


Os dirigentes de pacotilha e o jornalismo de sarjeta, estão a matar o futebol em Portugal.
Artur Portela Filho, numa entrevista ao Público:
«... o país, aliás, é o futebol, e vice-versa. Isso é potencialmente fatal, pode vir a ser fatal, está a ser fatal para todos nós.»

domingo, 9 de setembro de 2018

ETECETERA


Na passada sexta-feira abriu, nos jardins do Palácio de Cristal, a Feira do Livro de Porto que fechará stands no dia 23 de Setembro.

Nas muitas iniciativas dos organizadores da feira, consta a atribuição da Tília  que este ano homenageia José Mário Branco, um dos maiores nomes da Música Portuguesa.

José Mário Branco junta-se, como recebedor da tília, a Mário Cláudio, Vasco Graça-Moura, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner Andresen.

José Mário Branco editou recentemente um duplo álbum de inéditos, datados de 1967 a 1999, quebrando um silêncio de vários anos.


ZECA

À boleia de José Mário Branco cabe trazer o registo de um triste episódio em que se viu envolvido o nome de José Afonso.

A incontrolável vaidade pessoal de José Jorge Letria, músico e cantor menor e hoje presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, levou-o a declarar o compromisso de que os restos mortais de José Afonso deveriam ser transladados para o Panteão Nacional :

«É este o tributo e é esta homenagem que Portugal deve a quem como mais ninguém o soube cantar em nome dos valores da liberdade, da democracia, da cultura e da cidadania», lê-se no comunicado. Assumimdo a Sociedade Portuuesa de Autores assume publicamente o compromisso de lutar por este legítimo e inadiável ato de consagração que deverá coincidir com os 90 anos do nascimento [de José Afonso] e com os 45 anos do 25 de Abril.»

José Jorge Letra gosta de dizer que andou de braço dado com o Zeca mas, se verdade isso é, podemos dizer que não aprendeu NADA!

De imediato, os herdeiros de José Afonso, que ficaram surpreendidos com a proposta, rejeitaram a transladação dos restos mortais de José Afonso para o Panteão Nacional:

«José Afonso rejeitou em vida as condecorações oficiais que lhe haviam sido propostas. Foi, a seu pedido, enterrado em campa rasa e sem cerimónias oficiais, em total coerência com a sua vida e pensamento. Por isso, apesar da meritória intenção que inspira a proposta, é a sua vontade que deve ser respeitada.»

SLB


Sabe-se que o mundo do futebol é uma podridão generalizada.

Razão tinha o escritor Mário de Carvalho quando, há longo tempo, disse numa entrevista que «a maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do joga da bola e meter na cadeia essa pardalada.»

José Pacheco Pereira no Público:

«O interessante e pouco surpreendente exercício de contenção de danos que sucessões de adeptos do Benfica, célebres, consagrados, eminentes juristas, e homens que só eles sabem quem são, fazem, com a cumplicidade activa da comunicação social reduzida a esta miséria, tem como objectivo dizer que, se houve ilegalidades, elas foram de um homem ou dois e não atingem o clube, nem essa coisa contraditória nos seus termos, chamada a “verdade desportiva”. Isto porque uma das sanções previstas, em absoluta teoria e em absoluta impossibilidade prática, inclui a proibição do clube jogar por uns meses e anos, ou ser despromovido para uma divisão inferior. A tese é que nenhum jogo foi ganho ou perdido, a célebre “verdade desportiva”, por causa de uma malfeitoria de espionagem ilegal ao sistema judicial e a várias bases de dados públicas, para obter informações sobre processos judiciais e dados sobre árbitros.
A questão é muito simples: na história da corrupção em Portugal há quatro componentes, três de cima, e uma de baixo. Completam-se como peças de um jogo, neste caso o jogo do nosso atávico atraso nacional. Nacional, português, nosso, que todos nós pagamos para alguns receberem. As três de cima são as dos grandes: a corrupção na política, nos negócios e no futebol, profundamente interligadas. A de baixo, é a pequena corrupção do dia a dia, que os portugueses praticam como quem respira e que, entre outras coisas, gera o pano de fundo para toda a corrupção, nem que seja pela fragilíssima condenação de ilegalidades quando são parecidas com as que os de baixo praticam. São tudo valentões contra a corrupção, no café e nas caixas de comentários e Facebooks, mas depois, como se vê no futebol, fecham os olhos tão forte que até dói.»

A FECHAR

«Lembrei-me de pedir a João Semedo que me contasse como tinha ido viver para o porto. Ele sorriu com a pergunta, deve ter coçado a cabeça no seu gesto típico e a resposta foi algo como: “o Partido precisava de gente no Porto” –m o Partido era então, o PCP – “e eu fui para o Porto”. Não havia na sua voz qualquer laivo de distanciamento em relação às razões dessa decisão, pelo contrário. João Semedo tornou-se profundamente um portuense e um homem que vivia a cidade do porto. Ter ido para o porto por militância partidária e cívica – uma coisa que hoje não se faz e quase ninguém imaginaria fazer – era provavelmente para ele a melhor razão para se ter tornado portuense».

Rui Tavares, artigo na morte de João Semedo, publicado no Público.

sábado, 2 de junho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Os sportinguistas são conhecidos pelo seu existencialismo torturado.

Pedro Mexia

Legenda: primeira página de A Bola.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Que é feito de Manuel Pinho?
Deixámos de saber.
Os jornais, as televisões, apenas se ocupam da crise que assolou o Sporting.
Horas e horas, dias e dias a falar de futebol.
Ocupassem as televisões tanto tempo a discutir, livros, exposições, filmes, teatro, os nossos problemas concretos, como por exemplo, e para não ir mais longe, a recente despenalização da eutanásia, e outro galo nos cantaria, seríamos bemmenos javardos.
Eu até gosto de futebol, mas isto até nem é futebol...
Porra!, é demais.

Legenda: recorte do Expresso s/d

sexta-feira, 9 de março de 2018

FUTEBOL, TRICÔ E CAMISOLAS SUJAS




Ferreira Fernandes, hoje, no Diário de Notícias

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

NOTÍCIAS DO CIRCO


Circo montado.
Política. Futebol. Justiça.
Ninguém se entende, uma confusão de todo o tamanho.
Tudo a deixar um pacato cidadão no limiar do vómito.
Um apelo aos livros.
Alexandra Alpha a falar na página 29 do livro com o mesmo nome e da autoria de José Cardoso Pires:
«Isto não é um país, é um sítio mal frequentado.»

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

VELHOS RECORTES


Recorte do Jornal de Notícias de 11 de Julho de 2011.
Lembro-me de, por alturas da euforia do Euro 2004, ter lido:

«Nenhum país decente constrói dez estádios para um Europeu.»

domingo, 13 de agosto de 2017

RELACIONADOS



O aparelho de rádio tinha um caixilho de madeira e a face era como uma máscara cega, olhos e boca em panos. Havia a mesma melancolia nos brados dos relatos, nas sinfonias, nas novenas de Fátima e na voz quebrada dos discursos de estado. Como se o espírito nos desse sinal do holocausto, alheadas sobre o enlace das silhuetas: estarmos vedadas de tanta finura, veemência ou persuasão. Ainda hoje me assola a tristeza desses sons que não escuto e me temo de um rádio aberto em surdina à minha beira. Vivíamos sob esse rumor a que só mais tardiamente demos sentido, quando o hóquei patinado se tornou uma paixão cívica.

Maria Velho da Costa em Missa in Albis

Rashid: é a primeira casa que vejo sem televisão.
Paul : Já tive uma, mas estragou-se aqui há uns anos e nunca me decidi a substituí-la. De qualquer das maneiras, prefiro não ter nenhuma. Odeio essas porcarias.
Rashid: Mas assim não pode ver os jogos. Disse-me que era fã dos Mets
Paul: Ouço pela rádio. Assim consigo ver muito bem os jogos. O mundo está na nossa cabeça, lembras-te?

Paul Auster em Smoke

A recordação mais antiga que tenho é a de um rádio. O meu pai chegou a casa com uma caixa, e tirou de lá de dentro uma Pilot Baby. Depois o meu pai disse que ia chegar um técnico para montar a telefonia, e nós ficámos todos muito excitados com aquilo, sobretudo uma tia minha que era um bocado nervosa. O técnico chegou, olhou para a mesa onde estava o rádio, olhou para a ficha, e disse "Isto não pode ficar aqui", e arrastou a mesa até à ficha. Depois ajoelhou-se, ligou o rádio, começou a sintonizá-lo, e ouviram-se uns ruídos estranhíssimos (imita esses ruídos). De repente a casa ficou inundada de música. Teria talvez 4 anos. Recordo-me do meu pai encostado ao rádio a ouvir música. Eu fiquei proibido de mexer no rádio, claro. 

Raul Solnado em Infância de Sarah Adamopoulos

A voz aguda do Abelaira (que anda aflito com as provas de “Enreada Amena” contou-me ontem:
- No domingo fui à “matinée” do São Jorge onde se me deparou a seguinte imagem “assombrosa” (palavra de muito agrado do Abelaira): vários espectadores, de rádio portátil na mão e auscultador no ouvido, não perdiam uma sílaba do relato do futebol. Enquanto assistiam, interessados, ao desenrolar da intriga na tela.
Meu Deus! Já não lhe basta um espectáculo. Querem dois ao mesmo tempo! E não tardará o dia em que levarão também uma televisãozinha de bolso para pôr no colo e espreitar, de vez em quando, um episódio qualquer de folhetim parvo.
Em resumo: encher a vida.

José Gomes Ferreira em Passos Efémeros, 1º Volume dos seus Dias Comuns

A MINHA AMIGA RADIO


Agora que a bola voltou a rolar, a sério, nos relvados do Reino, lembro os meus tempos dos relatos de futebol na rádio. Escrevi rádio mas gosto mais de dizer telefonia.

Quando o futebol era jogado apenas nas tardes de domingo, Inverno às três da tarde. Verão às quatro da tarde.

No restaurante que a Aida teve em Almoçageme, não descansámos enquanto não pusemos, na parte da tasca um velho rádio, que só dava onda média e ondas curtas. E nem sempre!

Assim como uma velha crónica do brasileiro Maurício Neves:

«No princípio era o verbo. O Flamengo era pouco mais do que o burburinho do rádio, composto pelo alvoroço dos locutores e pelo chiado das ondas médias, que meu pai tentava reduzir girando o botão maior, o da sintonia. Pacientemente. Às vezes mexia na antena, mudava o aparelho de lugar alguns milímetros, com o cuidado tenso de quem desarma uma bomba. De repente a voz de bluesman de Jorge Curi enchia a sala: “Anooooteeem... Teeeeempo e placaaaarr no maaiooorrrr do muuuundoooo...” Eu sabia poucas coisas. Mas sabia que maior do mundo era como Jorge Curi chamava o Maracanã, e sabia que logo ele estaria gritando um gol de Zico. Aliás, Zico não. Um gol de Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai seguia olhando o rádio, onde estava escrito Philco acima da tela metálica e furadinha. O som enchia a sala de heróis que circulavam ao redor de nós. Uma sucessão de espectros rubro-negros: Zico tocava a Adílio, que driblava um e abria para Júlio César, o entortador, que entortava um, dois, três, e a bola voltava para Zico que então virava Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai sorria olhando para o rádio: o Flamengo saía dali.»

Os relatos do futebol pela rádio.

As perfeitas tardes de domingo de um tempo perdido para sempre, vozes que ainda ouço apesar de já não andarem por aqui.

As tardes de domingo, os jogos a começarem todos à mesma hora, os relatos na Emissora Nacional, as marchas do John Philip de Sousa, enquanto se aguardava a ligação ao estádio, o Artur Agostinho, o Amadeu José de Freitas, o Nuno Brás e era apenas o relato de um jogo, mais tarde passaram a dois: «atenção Nuno, jogada perigosa».

João César Monteiro, em As Recordações da Casa Amarela, deitado na cama do quarto alugado, ouvindo, num rádio de pilhas, o relato da Emissora Nacional. A voz do locutor, de repente, grita: «golo do Benfica», o João César ergue-se, de braços no ar a vitoriar o golo.

Manuel Alegre, no seu livro Alma, recorda essas tarde de relatos de futebol nas tardes de domingo, a voz de Alfredo Quádrios Raposo que eu já não apanhei:

…os jogos de domingo e os relatos de Alfredo Quádrios Raposo, o melhor locutor desportivo de todos os tempos. Nesse tempo não havia transmissões directas e ao fim das tardes de domingo ainda não se sabiam os resultados. Era preciso esperar pelo resumo da primeira parte e o relato da segunda, que eu ouvia no RCA, em companhia dos meus amigos que não tinham rádio. Ouvíamos então a voz inconfundível de Alfredo Quádrios Raposo anunciar os golos do Peyroteu, os tentos do Julinho, as grandes jogadas do Vasques e do Travassos, os cortes de cabeça de Feliciano, os dribles de Mariano Amaro, a recepção de bola com o peito de Francisco Ferreira, capitão do Benfica. E as defesa do Azevedo, do Capela, do Martins, do Barrigana, as intercepções do Guilhar, os remates fulminantes de Araújo. Ou os nomes raros dos jogadores do Sul, como o Abraão e o Grazina, do Olhanense, o Patalino e o Massano, do Elvas. Eram momentos inesquecíveis, sobretudo quando havia jogos entre os grandes. A minha irmã por vezes ia espreitar por detrás do aparelho e nenhum de nós compreendia muito bem como era possível o jogo estar a decorrer nas Salésias, em Alvalade, no Campo Grande ou na Constituição e nós em Alma a ouvir o relato como se estivéssemos a ver. Seguíamos as palavras, as entoações de voz, as mudanças de ritmo, as pausas. E víamos. Era uma forma de ficção, quase sempre mais verdadeira do que a realidade. Nunca ninguém relatou como Alfredo Quádrios Raposo. Ele era a nossa ligação à capital, ao Estádio, ao jogo. Durante muito tempo ele foi a nossa festa, todos os domingos, ao fim da tarde.
Os jogadores viviam na nossa imaginação como figuras de lenda. Conhecíamo-los apenas das fotografias dos jornais, da revista Stadium e dos cromos que comprávamos embrulhados em rebuçados para depois colarmos numa caderneta. Mas era na voz de Alfredo Quádrios Raposo que verdadeiramente víamos os jogadores. Entravam em nossa casa, todos os domingos, ao fim da tarde. Vinham na voz daquele locutor de quem nunca vi o rosto nem faço a mínima ideia de como era, se alto ou baixo, se magro, se gordo, se velho, se novo. Era uma voz, um brado na tarde triste, um drible, um centro cruzado, um remate de cabeça, uma defesa para canto, uma recarga, um golo. Primeiro no RCA, depois no Telefunken trazido da Alemanha por Tiago de Faria, meu tio, que o deu a meu pai, juntamente com uma espingarda, a troco de uma edição rara, senão mesmo a primeira, da Arte de Bem Cavalgar a toda a Sela, de D. Duarte.
Também esses velhos aparelhos, quando aqueciam, tinham um cheiro. Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar, com Feliciano à ilharga, mais um golo do Sporting contra o Belenenses, no Estádio das Salésias.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

SARAMAGUEANDO


Francisco Geraldes, jovem jogador do Sporting, que no banco de suplentes lê José Saramago, sem lugar na equipa de Jorge Jesus, foi emprestado ao Rio Ave que, para apresentação do jogador, prescindiu daquelas fotografias chapa 5 e publicou no site do clube a imagem que acima se vê.
A inteligência é sempre um prazer!

sábado, 15 de julho de 2017

SARAMAGUEANDO


Tanto quanto se sabe, os jogadores de futebol não são dados a leituras de livros, do que quer que seja, talvez os diários desportivos façam parte dos seus interesses de leitura.

São mais de ouvir músicas e jogos de telemóvel, jogarem uma suecada ou coisa semelhante.

Quando perdem um jogo têm sempre uma frase engatilhada:

«É preciso levantar a cabeça e pensar no próximo jogo.»

Que seja!

Mas agora, o jovem Francisco Geraldes, jogador do Sporting, foi apanhado no banco de suplentes, e antes de um jogo amigável com o Valência, a ler O Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago.

A Fundação José Saramago aproveitou a jogada, sinalizou outros livros de Saramago, meteu-os num envelope e colocou uma mensagem:

«Francisco Geraldes, quando voltarem estarão mais reforços à espera! Um abraço, boa época e boas leituras!»

Quando chegar à página 226 o jovem Francisco Geraldes, quem quer que seja, há-de ler:

«A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem a ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixou-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejam os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar pratos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele.»

terça-feira, 4 de abril de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


Há uns bons anos atrás, numa entrevista ao suplemento Mil Folhas do jornal Público, o escritor Mário de Carvalho disse: «a maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do jogo da bola.»

Pedro Tadeu, hoje, no Diário de Notícias insurge-se contra os acontecimentos do fim-de-semana no mundo portuga da bola: um adepto deitado no chão a ser pontapeado por um polícia, um árbitro agredido com uma joelhada no nariz aos dois minutos do jogo Rio Tinto-Canelas do campeonato distrital do Porto:

domingo, 30 de outubro de 2016

OLHARES



Vista parcial, e recente, do Estádio da Tapadinha.

Tirando o Campo Grande, a velha estância de madeira, e a Luz, a Tapadinha é o estádio onde mais vezes vi jogar o Benfica.

Por motivos que não consigo vislumbrar, nunca lhe perguntei, nunca disso falámos, o meu avô ia sempre, ver o Benfica jogar com o Atlético.

Também me lembro de irmos ao campo do Oriental, o Engenheiro Carlos Salema na célebre Azinhaga dos Alfinetes, mas nunca pusemos os pés nas Salésias, no Restelo, ou em Alvalade.

Talvez porque, tanto o Atlético como o Oriental, fossem clubes populares, gente operária.

O Belenenses era o clube dos ricos, até tinha como sócio, Américo Tomaz, o cabeça de abóbora do regime salazarista/marcelista e o Sporting, bom, o Sporting enfim… nem vale a pena falar…
lembrava-se sempre do tipo da legião portuguesa que, de pistola em punho, entrou cabine adentro, ou do ultra Cazal Ribeiro.

O meu paidizia-lhe que há de tudo nos clubes, o Silva Pais, director da Pide, era sócio do Benfica, tantos outros exemplos...

O meu avô não desarmava e acrescentava que esse, realmente, era uma filho da dita, mas era nosso, quanto aos outros não havia desculpa...

O meu pai encolhia os ombros, e, como o Silva Pais não fazia parte da minha colecção de cromos da bola, só mais tarde tive o enquadramento deste diálogo do meu pai com o meu avô.

O Atlético era o clube do Ernesto, do Ben David, do Germano, mais tarde campeão europeu pelo Benfica e de três excelentes argentinos de que só lembro o Imbelloni e onde Sebastião Lucas da Fonseca, vulgo Matateu, jogou depois de, em 1964, ter abandonado o clube rival Os Belenenses.

O Oriental era o clube do França, do Leitão e onde terminaram carreira o Azevedo, guarda-redes que foi do Sporting e o benfiquista Rogério Lantres de Carvalho, vulgo Pipi.

O Atlético foi fundado em 18 de Setembro de 1842, e resultou da fusão do União Football de Lisboa de Santo Amaro e o Carcavelinhos Football Clube de Alcântara.

O Clube Oriental de Lisboa foi fundado em 8 de Agosto de 1946, resultou da fusão  de três clubes da zona de Marvila: o Chelas Futebol Club, Marvilense Football Club e Grupo Desportivo “Os Fósforos”. 

OLHARES



Vista parcial, e recente, do Estádio da Tapadinha.

Tirando o Campo Grande, a velha estância de madeira, e a Luz, a Tapadinha é o estádio onde mais vezes vi jogar o Benfica.

Por motivos que não consigo vislumbrar, nunca lhe perguntei, nunca disso falámos, o meu avô ia sempre, ver o Benfica jogar com o Atlético.

Também me lembro de irmos ao campo do Oriental, o Engenheiro Carlos Salema na célebre Azinhaga dos Alfinetes, mas nunca pusemos os pés nas Salésias, no Restelo, ou em Alvalade.

Talvez porque, tanto o Atlético como o Oriental, fossem clubes populares, gente operária.

O Belenenses era o clube dos ricos, até tinha como sócio, Américo Tomaz, o cabeça de abóbora do regime salazarista/marcelista e o Sporting, bom, o Sporting enfim… nem vale a pena falar…
lembrava-se sempre do tipo da legião portuguesa que, de pistola em punho, entrou cabine adentro, ou do ultra Cazal Ribeiro.

O meu paidizia-lhe que há de tudo nos clubes, o Silva Pais, director da Pide, era sócio do Benfica, tantos outros exemplos...

O meu avô não desarmava e acrescentava que esse, realmente, era uma filho da dita, mas era nosso, quanto aos outros não havia desculpa...

O meu pai encolhia os ombros, e, como o Silva Pais não fazia parte da minha colecção de cromos da bola, só mais tarde tive o enquadramento deste diálogo do meu pai com o meu avô.

O Atlético era o clube do Ernesto, do Ben David, do Germano, mais tarde campeão europeu pelo Benfica e de três excelentes argentinos de que só lembro o Imbelloni e onde Sebastião Lucas da Fonseca, vulgo Matateu, jogou depois de, em 1964, ter abandonado o clube rival Os Belenenses.

O Oriental era o clube do França, do Leitão e onde terminaram carreira o Azevedo, guarda-redes que foi do Sporting e o benfiquista Rogério Lantres de Carvalho, vulgo Pipi.

O Atlético foi fundado em 18 de Setembro de 1842, e resultou da fusão do União Football de Lisboa de Santo Amaro e o Carcavelinhos Football Clube de Alcântara.

O Clube Oriental de Lisboa foi fundado em 8 de Agosto de 1946, resultou da fusão  de três clubes da zona de Marvila: o Chelas Futebol Club, Marvilense Football Club e Grupo Desportivo “Os Fósforos”.