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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

UM HOMEM PODE AMAR UMA PEDRA


Um homem pode amar uma pedra
uma pedra amada por um homem não é uma pedra
mas uma pedra amada por um homem

O amor não pode modificar uma pedra
uma pedra é um objecto duro e inanimado
uma pedra é uma pedra e pronto

Um homem pode amar o espaço sagrado que vai de um homem a uma pedra
uma pedra onde comece qualquer coisa ou acabe
onde pouse a cabeça por uma noite
ou sobre a qual edifique uma escada para o alto

Uma pedra é uma pedra
(não pode o amor modificá-la nem o ódio)

Mas se a um homem lhe der para amar uma pedra
não seja uma pedra e mais nada
mas uma pedra amada por um homem

Ame o homem a pedra
e pronto


Emanuel Felix

Legenda: fotografia de Gérard Castello-Lopes

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Sonho que salto, que nado, que corro, que brinco. Sonho que estalo de riso, atravesso o rio de um salto, me perseguem muitas viaturas e nunca me alcançam.

Frantz Fanon

Legenda: fotografia de Gérard Castello-Lopes

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

POSTAIS SEM SELO


O sentido da vida é procurar qualquer sentido.

Carlos Drummond de Andrade

Legenda: fotografia de Gérard Castello-Lopes

quarta-feira, 17 de junho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Portugal:
Um pouco mais de civilização e talvez fosse um país. Um pouco mais de desatino e daria decerto um bom romance. Falta-lhe tudo: o pé, o golpe de asa.

Hélia Correia
                                                                                                                       
Legenda: fotografia de Gérard Castello-Lopes

quinta-feira, 30 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


Quem nasce pobre, tarde ou nunca se endireita.
A imagem romântica da miséria atrasou cem anos um país pobre.

Agustina Bessa Luís em Caderno de Significados

Legenda: fotografia de Gérad Castello-Lopes

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O MEDO COMO GESTO DO QUOTIDIANO


Em Julho de 1977, Miguel Torga, queixava-se, amargamente, da qualidade da classe política. E mesmo assim, naquele tempo, ainda podíamos encontrar meia dúzia de personalidades a quem poderíamos chamar políticos, políticos responsáveis.

Essas personalidades não deixaram escola.

A escola dos políticos de hoje, foram as juventudes partidárias.

Entraram por ali dentro, quando ainda deviam andar a brincar com carrinhos, não souberam o que eram necessidades, a vida, como Jerónimo disse ao Pedro e meteram meia dúzia de lérias na cabeça, que repetem infindàvelmente, tornaram-se cínicos, imorais, aprenderam os passos para, oportunamente, se tornarem corruptos.

O país para esta gente, apenas existe em tempos de eleições, quando enchem o peito de ares e dizem que vão fazer isto e aquilo.

Não fazem nada. Apenas irão tratar das suas vidinhas.

O espectáculo que esses políticos deram nos últimos vinte dias, tornou-se patético.

Visto de longe, onde as coisas também não são muito diferentes, Portugal é um país ingovernável.

Ontem, Cavaco Silva disse o que poderia ter dito há dez dias.

Ter-nos-ia poupado à cegada que o país, amorfo, desesperado, assistiu pelas televisões.

O filho do sr. Teodoro da bomba de gasolina, regressa à sua eterna irrelevância.

Ainda vai a tempo de umas férias na mansão de Boliqueime.

O país lamenta que, tal como o Vitor, Aníbal não possa pedir a demissão.

Voltando a Miguel Torga:


Já perdemos quase tudo.

Mas temos medo de quê?

Legenda: fotografia de Gérard Castello-Lopes

sexta-feira, 21 de junho de 2013

POSTAIS SEM SELO


Quando chegou a casa eram quase sete horas. Tinha-se demorado um bom bocado no Terreiro do Paço, sentado num banco, a olhar os cacilheiros que iam para a outra margem do Tejo. Estava um belo fim de tarde, e Pereira quis ficar a gozá-lo. Acendeu um charuto e aspirou o fumo avidamente. Estava sentado num banco em frente ao rio e junto dele veio sentar-se um mendigo com um acordeão que começou a tocar velhas canções de Coimbra.

Antonio Tabucchi em Afirma Pereira, Quetzal Editores, Lisboa 1995.

Legenda: fotografia de Gérard Castello Lopes.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO,...


Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas – armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de faláeia imensa.
E todos eram povo e em nome del’ falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do pais no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o OteIo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa – defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.


Santa Bárbara, Fevereiro 1976
(aniversário de uma tentativa heróica de conter uma noite que duraria décadas)

Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão, Moaraes Editores, Lisboa Setembro de 1982


Legenda: fotografia de Gérard Castello Lopes

terça-feira, 17 de abril de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

À CONVERSA...



Como é que consegue fotografar pessoas que em principio não querem ser fotografadas?

Sebastião Salgado respondeu:

Eu vou para aqueles sítios inacessíveis e vivo lá durante seis meses antes de tirar uma fotografia.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

POSTAIS SEM SELO


O homem começa a envelhecer quando as lamentações começam a tomar o lugar dos sonhos.

John Barrymore


Legenda: fotografia de Gérard Castello-Lopes

sábado, 14 de janeiro de 2012

OS JUSTOS


Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.


Jorge Luis Borges

Legenda: fotografia de Gérard Castello-Lopes

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

PRIMEIRAS MEMÓRIAS


Uma das suas primeiras memórias, era a da mãe a partir de comboio, enquanto ele lhe dizia adeus da estação onde ficara com o pai.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

AINDA SOBRE GUARDA-REDES


Tendo andado por aqui a falar do Victor Damas, do Bento, e por guarda-redes, ocorre-me uma velha crónica do José Neves de Sousa, publicada no extinto semanário “Sete”,

Fala do tempo em que Julio Iglesias, antes de, com as suas cantorias, começar a dar cabo das cabecinhas das meninas e das balzaquianas, foi guarda-redes suplente do Real Madrid.

Atente-se:

“Ilustre multimilionário: aplausos para uma voz. Talvez não se recorde de mim: recuando no tempo (viajando até 1963) eu estava naquela fila de jornalistas que, na Embaixada de Espanha, em Lisboa, participou na Conferência de Imprensa em que o Real Madrid adiantava que não tinha medo nenhum do Benfica.

Este seu distante amigo botou umas perguntas: responderam os Puskas e os Gentos, a gente importante dos “merengues”, você (simples guarda-redes suplente, mas já a abarrotar de dinheiro por via do papá cirurgião-mor) nem abriu o bico.

Hoje, pagam-lhe fortunas só para cantarolar umas tretas que reviram os olhos das meninas.

Naquele tempo, daí a horas, o Real apanhava cinco na Luz, o Eusébio foi um portento, o Julito nem saiu da lateral: mudar de “portero” não adiantava nem atrasava, elas entravam como bólides, o pagode só queria o Eusébio e até estou em crer que você, ilustre personagem hoje mundial, nem sequer deu um autógrafo. Era bonitão, mas não funcionava como “craque” dos relvados. Entrava mudo e saía calado.

Agora entra a desfazer-se em melaço e sai em ombros. É isso que me leva a ficar cismando como o mundo vira. Sei lá se continuaria “pobretanas” caso tivesse também feito uma agulha a 180 graus e me tornasse (por exemplo) piloto de helicóptero, caçador em safaris, político profissional ou pianista para baile.

Você, Julito, nasceu confortavelmente, em berço de ouro: teve tempo para fazer experiências e até antes de ser marido da esbelta senhora que lhe deu dois filhos, já tinha tido nos braços meio mundo de misses espampanantes.

Eu tive de me governar com a prata da casa. Desculpe se não me vir no Estoril: ir ao Casino para o rever (um quarto de século depois do anonimato da futura vedeta) dava cabo do orçamento lá de casa e os “indios” tinham de travar os serrotes dentais.

Mas, em espírito, estou ao pé de si: é impossível deixar de admirar-se quem é esperto e sabe bem governar a vidinha. E vá aparecendo, a malta gostará de o ver um dia que se faça uma festa para a terceira idade, a rapaziada do nosso tempo tiver uma lagrimazita ao canto do olho e você der uma borla. Talvez a única de uma vida onde só o cifrão tem sido comandante.

Aquele (longínquo) abraço do admirador Neves de Sousa”.

Legenda: Fotografia de Gerard Castello Lopes

quarta-feira, 13 de abril de 2011

POSTAIS SEM SELO


“O António Torrado costuma dizer que para escrever uma história basta olharmos pela janela”

Alice Vassalo Vieira.

Legenda: Fotografia de Gérard Castello Lopes

terça-feira, 22 de março de 2011

A APRENDIZAGEM DO OLHAR


Pode-se ensinar a técnica, o manuseamento correcto da máquina, a escolha certa dos tempos de exposição, as virtudes da profundidade de campo, os mecanismos complicados da revelação e da ampliação, as regras antigas da composição. Pode até ensinar-se a imitar o que os outros fizeram. O que não se ensina (o que não quer dizer que não se aprenda) é a ver. E é bom que assim seja. Se todos tivéssemos o olhar do Cartier Bresson, todos fotografaríamos como ele, o que, além de monótono, seria triste. A aprendizagem do olhar faz-se só. Não serve adoptar um olhar dum mestre senão para tentar ir mais longe que do que ele ou, por rebeldia, fazer o que ele não fez.

Texto e fotografia de Gérard Castello-Lopes

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

GÉRARD, FOTÓGRAFO


Um belo dia de sol de Inverno, há uns cinco ou seis anos atrás, em Paris, estava eu sentado num restaurante perto da nova Cinemateca Francesa, lá para os lados de Bercy,  a terminar  um almoço tardio, quando vejo entrar, com a imponência do seu ar aristocrático e dos seus quase dois metros de altura, o Gérard Castello Lopes.  Sentou-se não muito longe de mim, pediu uma água e pôs-se a ler alguns documentos que trazia consigo. De tempos a tempos olhava para o relógio, como se se fizesse tarde e estivesse à espera de alguém que não chegava.

Fiquei a admirar à distância aquela bela figura de Homem, de ar a um tempo  digno e nobre, mas bondoso e afável, que já antes havia encontrado nos corredores da Gulbenkian e da Cinemateca, bem como no documentário que o Fernando Lopes lhe havia dedicado e que se chama, precisamente, “Gérard, Fotógrafo”.

À saída, porque trazia o aparelho comigo, enchi-me de coragem e fui cumprimentá-lo, eu que até tenho alguma timidez e não sou muito dessas coisas. Mas apeteceu-me e foi uma coisa natural… Lembrei-me de uma história que ele tinha contado já não sei onde (talvez no tal documentário…): um dia em Paris avistara na rua o seu “Mestre” Henry Cartier Bresson e apressou-se a cumprimentá-lo para lhe dizer o quanto o admirava e o quanto ele havia influenciado a sua vida e a sua obra. Mas o “Mestre” reagiu mal  à abordagem e afastou-se de uma forma brusca e altiva, deixando o pobre Gérard estupefacto e sem palavras.

Por isso lhe comecei por dizer, já de pé e junto à sua mesa, qualquer coisa como isto: “espero que não me leve a mal e não me faça a mim o que Cartier Bresson lhe fez a si, mas gostava de o cumprimentar e de lhe agradecer o que fez pelo Cinema e pela Fotografia no meu país”. Gérard reagiu com surpresa mas pôs de imediato no rosto um sorriso terno e gentil. Acho, até, que ficou algo envergonhado por se estar de repente a ver como uma figura pública num tempo e num lugar onde menos o esperava. Disse-me que estava à espera da mulher e do filho, mas que eu me podia sentar para falarmos um pouco. Agradeci-lhe e respondi-lhe que estava preso e já atrasado com compromissos profissionais, o que até era verdade. Ainda me perguntou se eu era Fotógrafo e eu respondi-lhe que era daqueles que gostava mais de ver do que fazer... Fotógrafo só de fotografias turísticas, em viagem. Ele riu-se e disse-me que não encarasse essas fotografias com um sentido assim tão pejorativo, porque muitas das fotografias de que mais gostava foram feitas exactamente assim, em viagem… Desejei-lhe boa sorte e pedi-lhe desculpa pelo incómodo. E foi a última vez que o vi.

De Gérard admirava muitas coisas e a mais longínqua das quais seria o inesquecível genérico dos “Filmes Castello Lopes” da minha adolescência, negócio de família que havia gerido com o seu irmão. Aliás, a única vez que ouvi Gérard falar em público foi precisamente na abertura do ciclo de homenagem que a Cinemateca dedicou aos “Filmes Castello Lopes”, há uns bons anos atrás. Mas admirava-lhe, sobretudo, as fotografias, e acho que ninguém fotografou as gentes deste país como ele.

Esta fotografia que aqui vos deixou é, para mim, emblemática do portugalzinho do final dos anos 50 inícios de 60. Um país triste e alegre, rigorosamente vigiado…

E que dizer do olhar daquela rapariga de Óbidos sentada à janela…? Que me acompanha por todo o lado….

Mas Gérard tinha um imenso pudor e entendeu que não podia continuar a ferir a intimidade das pessoas fotografando-as sem a sua autorização prévia. Dedicou-se, então, à natureza, às paredes dos edifícios abandonados, aos reflexos na água depois da chuva,  às diversas formas de rochas e rochedos… Que eu saiba,  as únicas figuras humanas que voltou a expor publicamente foram as de seu filho, David.

Li ontem no “Público” que Gérard falecera em Paris, aos 85 anos, com a doença de Alzeimer e apeteceu-me escrever-lhe este texto.

Texto de Luís Miguel Mira

Legenda: "Lisboa 1967", fotografia de Gérard Castello Lopes

sábado, 12 de fevereiro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.

José Saramago

Legenda: Fotografia de Gérard Castello-Lopes que, com 85 anos,  morreu, hoje, em Paris.