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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A ROSA DOENTE


A rosa que adoece
é um leito e um corpo.
Penetrou nela o verme
que em segredo a destrói.

É um verme invisível
um insecto da noite.
A vida destruída:
oculto obscuro amor.

Gastão Cruz em A Teoria da Fala

sábado, 29 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Cadernos do Meio-Dia
Nº 5

Coordenação de António Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Fernando Moreira
Ferreira, Hernâni de Lencastre
Capa: Baptista
Edição dos Coordenadores, Faro, Fevereiro de 1960

Ruínas

Um sopro passará sobre a cidade
e ela será relevo de destroços
sob os ossos sem cor desmedulados
das gerações que nunca nascerão

As raízes queimaram-se na terra
ruíram pelas ruas casas feridas
e os homens vão nascendo para a morte

Há na cidade um ritmo de ruínas
em todos nós um ritmo de ruínas

há partos glaciais dentro da morte

Poema de Gastão Cruz

domingo, 19 de maio de 2019

METÁFORA


Escolho o silêncio assunto antigo para
falar deste domingo: descrevê-los
o silêncio o domingo será como
falar da escuridão e que metáfora
mais certa se as há certas, para a ínfima
luz própria metafórica do dia

A tua voz então vem como nave
a si mesma sulcar-se, na penumbra
tornando-se, não sei se mais igual
ou mais diversa do escuro sentido
do sentido, o tema interrompendo
do poema: o silêncio o domingo

Gastão Cruz

Legenda: imagem de Brent Benger

domingo, 24 de março de 2019

O SOM DO MUNDO


Releio poemas mudo-os de lugar
no livro que crescendo devagar
me exaspera, por vezes um poema
faz-me crer que prendi acaso o tema

quer ao som das palavras quer ao mundo
outros talvez como este nem ao menos
chegam ao fim ou terminados caem
no limbo conhecido de múltiplas esperas

e é o mesmo mundo que me inspira
que de dizer me impede os sons precisos
dia após dia até que (por fim ditos
os segredos no vácuo do silêncio

tanto tempo retidos, o amor
que da vida nunca se solta e é isso
que o torna algumas vezes impossível)
a espera recomeça em novos limbos


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 15 de março de 2019

BARCO


Vou hoje começar a recordar-te
embora a luz entrando sob o arco
escasso da realidade possa dar-te
a ilusão ainda de que o barco

simplesmente balouça mas não parte
Já partiu afinal do porto parco
onde vieste perceber a arte
de nada ser; no mesmo barco marco
lugar como num ventre: igual escala
é a perda da vida que ganhá-la

Gastão Cruz

Legenda: pintura de Edward Hopper

terça-feira, 21 de agosto de 2018

OLHAR AS CAPAS

A Doença

Gastão Cruz
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Novos Poetas nº 7
Portugália Editora, Lisboa, Novembro de 1963

No fogo das estradas é que
o medo de ter
tempo de mais as mãos pousadas
no amor nas espáduas
na amargura do rio
é que molhar as mãos
na água dos joelhos e andar
um pouco mais ainda sobre o fogo
das pernas e alcançar a terra
o ar do tronco o vapor o
movimento infindável do corpo em torno
do amor é que o mar as estradas
é que a locomoção por sobre a mágoa
no fogo das estradas é que tudo
se pode incendiar

domingo, 22 de abril de 2018

OLHAR AS CAPAS



Teoria da Fala

Gastão Cruz
Capa: Fernando Felgueiras
Cadernos de Poesia nº 24
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1972

Canção da Ama

Quando as crianças cantam sobre a relva
e nos vales as vozes se confundem
as memórias da minha juventude
crescem e o meu rosto empalidece.

Vinde, já não há sol
e o vapor da noite alastra.
A vossa primavera e o vosso dia – em jogo foram gastos;
o inverno e a noite sê-lo-ão em disfarce.