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terça-feira, 16 de outubro de 2018

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Como as crónicas do Luís Miguel Mira continuam à volta das canções, seguimos os caminhos percorridos nos textos já publicados e entramos em modo banda sonora.
Já não no tempo em que os animais falavam, mas já há longos, longos anos, ainda havia cassettes e aparelhos para as reproduzir, gravei cerca de 360 minutos tirados dos fabulosos LPs que o Miguel possui de Gram Parsons e de Emmylou Harris. Mais tarde passeia-as para CDs.
Mas para honras à crónica crónica, fui buscar My Hour of Darkness e Brass Buttons.
As outras canções são de minha baixa recriação: We'll Sweep Out The Ashes, Big Mouth Blues, , Sin City e, inevitavelmente, Love Hurts.












GRAM PARSONS - GARDEN OF MEMORIES


Há uns bons anos atrás contei-vos as peripécias que rodearam a morte de Gram Parsons, em Setembro de 1973, e disse-vos que o que restara do corpo dele tinha sido enterrado em New Orleans.

Não foi bem em New Orleans, mas sim em Metairie, que é uma espécie de Amadora lá do sítio mas, à escala americana, longe, muito mais longe…

Estando tão perto, não poderia deixar de lá ir, custasse o que custasse à minha Querida Companheira de viagem  (“Cemitérios…! Sempre os cemitérios…!! Que graça é que isso tem…!!??)



O meu GPS, que se portou razoavelmente bem durante as quatro semanas da viagem, não sei se por medo ou por qualquer tipo de superstição, sempre se baralhou todo quando o mandei ir para cemitérios, e este não foi exceção. Valeu-me a simpatia de um senhor carteiro que, tocando duas vezes à porta de uma moradia num bairro dos subúrbios, teve a gentileza de atravessar a rua para me explicar que o cemitério ficaria umas milhas mais à frente, na estrada principal,  defronte da loja do Popeye…


E assim foi…
À entrada daquele cemitério para gente rica, como era a Família de Parsons, senti-me eu próprio o fiel guardião da memória dos Shilohs, da International Submarine Band, dos Byrds de “Sweetheart of the Rodeo”, dos Flying Burrito Brothers, dos Fallen Angels e dos álbuns a solo com a Emmylou Harris.

Com a ajuda do diligente rececionista, que me explicou que a campa ficava junto de um banco de cimento branco e me fez um “croquis”, não tive dificuldade em a encontrar.




Ela dava ares de não ser visitada há muito tempo. Estava cheia de porcaria  acumulada, ervas secas, pequenos bocados de ramos de árvore e tudo o que pudermos imaginar num cemitério a ser levado pelo vento…


Limpei tudo com as minhas próprias mãos, carinhosamente, e dei por mim com a sensação de estar, inconscientemente, a fazer festas naquela lápide de ferro.  E só depois reparei no que estava lá escrito, citação de “In My Hour of Darkness”, que faz parte do álbum “Grevious Angel”:



“Another young man safely strummed his silver string guitar
And he played to people everywhere
Same say he was a star but he was just a country boy
His simple songs confess and the music he had in him
So very few possess”
A que se seguia outro curto epitáfio:
“Your soul lives on through your music
Your spirit lives on in our hearts”

Estava uma bonita tarde de sol, o lugar era belíssimo e a tranquilidade absoluta, em pleno contraste com a angústia e a agitação em que Parsons tinha vivido os últimos tempos da sua vida.

Havia tempo para interiorizar e gerir as minhas próprias emoções….

Senti que tinha de lhe fazer uma pequena homenagem, mas o quê e como, que nem uma simples flor tinha visto à venda na entrada do cemitério…?  Podia ter trazido um charro e uma garrafa de Jack Daniels, mas não faz muito o meu estilo e seria de mau gosto lembrar-lhe ali, naquele sítio, a mistura que o conduzira à morte…



Não havendo vivalma nas vizinhanças para se assustar com a minha pobre voz, resolvi cantar alto e bom som. E a primeira coisa que me veio à cabeça foi “Brass Buttons”, que Parsons compôs em memória de sua mãe:

“Brass buttons, green silks and siver shoes
Warm evenings, pale mornings, bottle of blues
And the tiny golden pins that she wore up in her hair"

Despedi-me, prometendo-lhe que nos voltaríamos a ver em breve quando tivesse oportunidade de o ir visitar a  Waycross, onde passou uma boa parte da sua adolescência e a cujas árvores gostava de subir para ouvir o vento.
Just a Sweet country boy

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

sábado, 21 de fevereiro de 2015

MAIS UM ADEUS A MAIS UM BOM AMIGO


Estava eu a dar uma mija com o Bobby Keys em Innsbruck, depois de um concerto – altura em que o Bobby se costumava sair com umas bocas divertidas. Mas desta vez via-o bastante sério. Até que me diz: «Tenho uma má notícia para te dar… O Gram Parsons morreu.» Foi como um pontapé no plexo solar. Olhei para ele. O Gram, morto? Eu achava que ele até limpo tinha ficado, que estava tudo a correr bem, «Não conheço os pormenores. Só sei que morreu.» Foda-se. Nunca sabes como é que uma coisa destas te vai afectar. O choque nunca vem de uma vez só. Mais um adeus a mais um bom amigo.
Soubemos mais tarde que o Gram esteve limpo até se deixar levar outra vez. Tomou uma dose normal. «É só uma dose…» Mas depois da cura o corpo tinha perdido resistência e foi quanto bastou. É o erro fatal dos agarrados. O processo de desintoxicação já é um choque em si mesmo. Depois pensam: «É só um chuto pequeno», quando na verdade estão a tomar a mesma dose que antes, quando tinham o corpo habituado e cheio de resistências – senão nem a cura era tão dura. É então que o corpo diz: «Que se foda, desisto.» Se não tens mesmo forças para resistires, então faz o seguinte: lembra-te da primeiríssima dose que tomaste e tira-lhe um terço.

Keith Richards em Life