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sábado, 2 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Outro Tempo Outra Cidade

Mário Ventura
Capa: Manuel Dias sobre «A Parábola dos Cegos» pintura de Brueghel
Livraria Bertrand, Lisboa. Novembro de 1979

Um dia há-de dizer-se que nunca existiu em Portugal um verdadeiro fascismo. E isso só servirá para encobrir uma amarga verdade: a de que todos, mas todos estivemos envolvidos e comprometidos nesta farsa trágica que se abateu sobre nós. Quando não se pode transformar a sociedade em que vivemos, porque nos falta a força para isso ou por não o desejarmos com muita intensidade, acabamos por aceitar, involuntária mas resignadamente, que ela nos transforme e corrompa. Porquê e como, é uma coisa que não se sabe nem se pode sentir. Vê tu como este palhaço do Marcelo Caetano, que chegou a iludir e a manter em expectativa tanta e tão boa gente, crente de que o fascismo se deixaria liberalizar, acabou decorrido um a afalar das colónias e da guerra:
«O bom combate é o de poupar a nossa África às calamidades das independências fictícias, proclamadas por meio de autodeterminações ilusórias que, em homenagem a mitos reinantes, sacrificam os verdadeiros interesses dos povos e comprometem a paz no mundo.»

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Por favor olha: onde estive, onde o capim passava do ombro, a morte passava e a melancolia.

Fernando Assis Pacheco em Catabalanza, Quilolo e Volta

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

VISTA PARCIAL DUMA ALDEIA DURIENSE


Há nesta aldeia oitocentas almas,
mas vinte, pelo menos, têm o corpo
lá longe, em terras de África. É a guerra.
As cartas vão chegando como sopros.

Chegam as cartas e algumas notas de banco.
O sô Manso já comprou um fogão a gás.
Enquanto o filho arrisca a pele, ele
vive um pouco melhor. Coisas da paz.

De lá perguntam, como vai a cava,
se as raparigas têm paciência, claro!,
se o vinho é bom, se os filhos obedecem.

Aqui, o dia vem depois da noite,
mastigam-se as ideias com o caldo
e, às vezes, as mulheres empalidecem.

António Cabral em Os Homens Cantam a Nordeste

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

RELACIONADOS


Dedicatória em Lugar de Massacre de José Martins Garcia

OLHAR AS CAPAS


Lugar de Massacre

José Martins Garcia
Capa: José Teófilo Duarte
Círculo de Leitores, Lisboa, Junho de 1991

O aprumo do capitão quebrava-se em tais explosões. O capelão sorria, possivelmente em nome de Cristo, mas também para não voltar a São Domingos, onde cama e mesa doíam muito mais que uns palavrões encaixados na hora do jogo.
- Não posso com a vossa seita! – rosnou o capitão. – E vou-te explicar, capelão do tanas, porque é que não gramo a vossa seita. Por causa de vocês estou aqui há seis meses sem ver uma loura de verdade.
- Ora, ora… - amenizava o capelão. – Então a culpa é minha?
- É, sim senhor. Se vocês não existissem, ninguém me tinha mandado seguir a carreira das armas.
- Mas… o livre arbítrio…
- Livre arbítrio, a puta que te pariu! Fiquei órfão aos cinco anos e a minha tia, religiosa e estúpida, deu-me a escolher: ou missionário, ou guerreiro. Não quis ser padre, por causa das mulheres. Tive de ser guerreiro. Se a minha tia não fosse uma idiota, com a cabeça cheia de tretas de padres, não me tinha acontecido isto… e a esta hora eu estava com uma loura, em qualquer parte do mundo. Percebes, capelão de Belzebu?
- Ai dos fornicadores! – avisou o capelão.
- Ai do raio que te parta, digo eu! A minha tia, na sua última carta, dava graças a Deus por eu estar no mato, porque lhe chegou aos ouvidos que a tropa, nas cidades, é só andar nas putas. Estás a ver isto? Põem um  gajo no mato, sem mulher, sem um cinema, sem nada, com riscos de apanhar um tiro nos cornos… E a minha tia agradece ao Senhor, porque assim o sobrinho está livre dos pecados da carne…

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O DECRETO-LEI Nº 353


Rómulo de Carvalho, nas suas Memórias, chega ao tempo de contar aos seus  tetranetos (pág. 294) a Revolução de 25 de Abril de 1974.
Iremos acompanhar alguns desses passos.
E Rómulo começa a explicação, exactamente, por aquele Decreto-Lei que vai despoletar o processo que nos conduz à tal madrugada de Abril:

Em 13 de Julho de 1973 veio publicado no Diário do Governo (nome que então se dava ao periódico onde o Governo publicava as suas decisões) um decreto-lei (nº 353) que introduzia alterações ao acesso dos militares aos diversos postos das suas carreiras. Estava-se então, e já desde 1961, em guerra nos territórios das nossas colónias africanas, ou seja, nas províncias ultramarinas como Salazar determinou que se chamassem para que fossem mais nossas. Angola ou Moçambique eram províncias de Portugal como o são o Minho ou o Algarve, com a simples diferença de se situarem noutro continente. Os povos dessas províncias de além-mar, tinham-se revoltado, mais uma vez na sua história, contra o colonizador e, no momento a que me estou referindo, já andávamos em guerra com eles há 12 anos.
(…)
Compreende-se que os profissionais das forças armadas, os oficiais do chamado Quadro Permanente, fossem para a guerra de África. Era a sua profissão. (…) As circunstâncias, porém, tornavam insuficiente o número de oficiais de profissão, exigindo popr mobilização forçada, a chamada de muitos outros indivíduos, para vestirem farda e embarcarem para o Ultramar. (…) Assim se criou um quadro de oficiais, fora do quadro permanente. Eram os oficiais milicianos que tiveram de deixar os seus afazeres, envergaram uma farda e seguirem para a África. A esses, o Governo procurava por todos os modos, despertar o brio profissional.

O referido decreto 353 destinava-se exactamente a cativar os desinteressados oficiais milicianos proporcionando-lhes vantagens que obviamente irritaram os oficiais de profissão, vantagens de promoção e de remuneração que até poderiam vir a permitir que um miliciano se sobrepusesse a um profissional. 

Rómulo de Carvalho em Memórias

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

MADRINHAS DE GUERRA


Local publicado no Beira Baixa, semanário que se publicava em Castelo Branco, de 18 de Março de 1956.
Para além destes, havia mais pedidos de madrinhas e e redactor finalizava:

«O pedido aí fica à consideração das gentis leitoras.» 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

POSTAIS SEM SELO


Em situações difíceis nos coloca este tempo, gostaria de adoptar um tom bastante neutro mas a situação mo impede e neutro não me posso aceitar.

Eduardo Guerra Carneiro em Alguma Palavras

sexta-feira, 5 de maio de 2017

MAS GANHA OITO CONTOS!...


Carta de Jorge de Sena, datada de 9 de Março de 1969, para Eugénio de Andrade:

Trago muitas e cruciantes saudades. Não direi da minha casa que me pareceu encolhida e desconfortável; não direi do país que me entristeceu profundamente, com o seu ar de decadência enxovalhada, a amargura dos melhores, e a resignação dos pequenos (uma mãe que se lamentava de o filho estar mobilizado em África, logo acrescentou, com um sorriso de consolada satisfação que ele ganhava oito contos…) mas dos amigos que é quase impensável para mim que não possa rever a bel-prazer. Agora é que compreendo a diferença de quando parti para o que seria uma ausência de quase dez anos: oficialmente eu não partia, e em conformidade não me despedira. Desta vez, foi diferente. E não sei se não é pior do que antes, de um ponto de vista geral: é que não havia saída para o país, mas esperava-se que um dia haveria, e presentemente é claro, demasiado claro, que a não há, e que ninguém ou quase ninguém sequer a deseja. Como viveria quem se habituou a apenas a sobreviver?


A frase da mãe do soldado fará parte do poema «Uma vez eu…», em que Jorge de Sena refere também as fanfarronadas de António Spínola, mais o seu livro «Portugal e o Futuro», bem como os acontecimentos do 16 de Março.
O poema escrito em Santa Bárbara está datado de 21 de Abril de 1974 e faz parte de «40 Anos de Servidão».
É este o poema:

                           I

Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Áfricas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!

                         II

O general combateu heroicamente nas Guinés
(todos os generais são heróicos porque não se arriscam
todos os dias como os soldados, mas só às vezes
quando visitam a »frente» para mostrar aos soldados
que têm colhões como eles, e os soldados acreditam),
foi largamente louvado pelo governo, muito promovido,
e começou a pensar que aquilo não levava a nada
e era mesmo um mau negócio para a União Fabril
(e oq eu é mau para a CUF é mau para a pátria, é claro).
Pensou então que a guerra não se ganhava,
que o país não aguentava (será que alguma vez
havia pensado nessas evidências desde o princípio?),
e que a sua popularidade entre os soldados da Guiné
correspondia a um papel salvador da pátria
para tirá-la da encrenca. Ressuscitou
a ideia da semi-federação, agitou
os imperialismos brasileiros em relação à África dita portuguesa
(que são mais velhos que o Brasil como nação),
E botou livro saudado como enorme êxito nacional e internacional.
Mas a extrema-direita – ou sejam aqueles
que acabam por acreditar eles mesmos nos mitos que impõem aos outros
- não gostou. Os jovens centuriões estavam todos
de olhos fitos na imagem paterna, de monóculo, herói
das Guinés e mais partes. E pensaram em pôr-se
pacificamente em marcha como no 28 de maio
que assim ganharam contra a República há cerca de cinquenta anos.
Mas era dia de futebol. Os soldados estavam todos
Preocupados em quem ganharia o jogo, e tristes
De o perderem na televisão. Outros centuriões
Acharam que não havia chegado o momento.
E assim as colunas motorizadas encontraram-se
frente  a frente ao pé dos Alguidares de Baixo,
e os revoltosos deixaram-se prender entre vivas
ao Benfica, ao Sporting, ou outro clube qualquer.
Na estrada, cruzavam-se as colunas motorizadas,
É tristíssimo isto, por certo, de todos os pontos de vista.
Mas – quem há-de fazer crer a um povo
usado por séculos que os acontecimentos
(para que não o ouvem nem consultam) lhe dizem
respeito? Se o livro do general é um grande êxito,
quem há-de convencer esse povo de que lhe diz
respeito uma questão de salvar-se o que está
para ver como é que fica? O povo, como pode,
sobrevive, entre futebol e emigração. O resto
lê com esperança, com raiva, ou com desânimo,
o livro do general que, silencioso, não comenta
dos jovens centuriões que se precipitaram. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que  num soluço suspenso
chora cá dentro de nós?

Natália Correia em As Maças de Orestes.

Legenda: Rocha de Conde de Óbidos: embarque de tropas para a guerra colonial.
Não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

SONHOS


Deixei de me entender com os livros do António Lobo Antunes.
Já não os leio.
Aguardo, apenas, a chegada da reunião, em livro, das suas crónicas na Visão.
O último volume é o Quinto, publicado em Outubro de 2013.
Não percebo porque a Leya tarda em publicar outro volume.
Talvez perceba: não gostam de livros, não estimam os seus autores.
Não vislumbro qualquer outra justificação.
Sim, leio as crónicas do Lobo Antunes na Visão, mas não é a mesma coisa.
A crónica publicada em 30 de Março de 2017, leva-me a servir do site da revista e transcrevê-la aqui.
Quando a acabarem de ler, se é que já não a leram, perceberão o porquê: 

E uma, duas vezes por mês é isto. Aconteceu a noite passada, por exemplo, em que estava no Ninda, nas Terras do Fim do Mundo, sentado numa cadeira de tábuas de barrica, ao lado do Ernesto Melo Antunes, ambos a olharmos a chana ao longe enquanto um pelotão chegava da mata, desfeito de cansaço, com o alferes à frente, quase a arrastar espingarda. Pegada à antiga casa do chefe de posto, agora em ruínas, onde eu dormia, um milheiral seco a restolhar até ao arame farpado. Se o MPLA quisesse podia apanhar-me à mão. Dormia sozinho, nessa casa, e uma ocasião pedi ao Ernesto que me deixasse ter lá comigo o meu furriel enfermeiro. Duas espingardas defendem-se melhor que uma. Disse-me que um oficial não podia estar na companhia de um sargento. Limitei-me a responder-lhe que, se me caçassem, ele iria aguentar-se com essa culpabilidade para toda a vida. Ficou calado, a lutar consigo mesmo, mas não me respondeu, e eu meti-me sozinho na casa do chefe de posto. Colocou-me uma sentinela mais perto, mandou abater parte do milho, de tempos a tempos dava com ele a rondar a casa. Os caniços murmuravam a noite inteira e eu de arma destravada ao lado. Sabia que o MPLA vigiava de muito perto o Ninda e mais tarde o escritor Pepetela, também Prémio Camões, também meu amigo, ganho depois da guerra, contou-me mais de ocasião que pensaram várias vezes caçar--me ali mas que aparecia sempre um problema logístico qualquer a impedir a manobra, até que me transferiram para o Chiúme, o mais horrível buraco onde estive na vida. Só de lá saí para a Baixa do Cassanje, quase no outro extremo de Angola, onde não havia guerra, apenas ameaças de minas, um lugar de beleza imensa com um rio, o Cambo, cheio de crocodilos. De regresso a Portugal, em 73, durante a preparação do 25 de Abril, a minha amizade com o Ernesto estreitou-se ainda mais, tornando-se uma relação de irmãos. Nunca me zanguei com a sua resposta de que um oficial não dorme com um sargento. A companhia do Ernesto foi a que sofreu menos baixas porque a disciplina era férrea. Quando perdemos o primeiro rapaz foi o único momento em que os seus olhos mudaram. Disse-me uma só frase
– Tinha jurado que os levava a todos
e de facto quase levaste, Ernesto, quase levaste. E da mesma forma que aceitei que um oficial não dorme com um sargento tenho a certeza que entenderias se te despejasse uma rajada no pêlo. A guerra é realmente uma coisa muito estranha. Depois morreste com a mesma serena coragem com que viveste sempre. Um ou dois dias antes disseste-me:
– Esta manhã acordei todo molhado. Não me deixes morrer sem dignidade
quando a única coisa que eu podia fazer era estar ao teu lado: como éramos ambos oficiais era permitido. 
E, enquanto agonizavas, pensava no milho do Ninda. Claro que se fosses sargento seria impossível estarmos ao pé um do outro. Mas eras um tenente-coronel e não cessavas de olhar-me, não pedindo nada, ambos à paisana, os dois quase civis, os dois separando--nos para sempre um do outro, com uma parte de nós em Ninda, nas Terras do Fim do Mundo. A guerra acabara há anos. Nenhum de nós se achava de camuflado, nenhum de nós viu chegar um pelotão da mata, com o alferes à frente, esbodegado de cansaço. Agora temo-nos encontrado nos meus sonhos, onde o milho restolha e onde, de vez em quando, umas explosões. Mas não faz mal. Daqui a pouco colocamos um tabuleiro numa mesita, dispomos as peças de xadrez por ordem e, como em cada dez vezes, tu ganhas nove, enquanto o milho da antiga casa do chefe de posto vai cantando, cantando. Afinal foi a ti que o MPLA levou. Daqui a nada é a minha vez e se tiver tempo construo uma defesa indiana do rei que te vais ver grego para dar cabo dela. A seguir, vamos espreitar os crocodilos ao rio e falar de poesia. Lembras-te do Victor Hugo que me deste quando te despacharam para São Salvador do Congo? Há por ali umas passagens que te queria ler alto.

Legenda: ilustração de Susa Monteiro, Visão.

sexta-feira, 17 de março de 2017

FOI HÁ 50 ANOS




Já está à venda uma nova edição de O Canto e as Armas de Manuel Alegre, comemorativa dos 50 anos da 1ª edição.

No meu exemplar pode ler-se:

Este livro edição do autor foi composto e impresso em Novembro de 1967 na Tipografia do Carvalhido no Porto.

A capa, composta a partir de uma fotografia de Eduardo Gageiro, não tem indicação de autor.

Deste livro, Adriano Correia de Oliveira, retirou poemas, musicou-os, e ao álbum não teve qualquer dúvida em dar-lhe o mesmo nome do livro.

A primeira faixa do álbum, E de Súbito um Sino, é também o primeiro poema do livro, cujos primeiros versos são ditos pelo actor Ruy Mendes:

Eis como tudo
entra de súbito
pelas palavras:
a terra e o mar
as mãos e as vozes.
Tua guitarra
 povo. Teu génio.

E o teu silêncio
É de súbito um sino
Tocado pelo vento

Em todas as aldeias do meu sangue.


Poemas e canto que marcam toda uma geração, e não só uma geração, diga-se.

Esta nova edição de O Canto e as Armas tem prefácio de Mário Cláudio.

Que começa assim:

O convívio com um texto no espaço que o justifica, quando não resulta de um privilégio da nossa escolha, poderá corresponder a uma consequência da força das circunstâncias. Calhou-me dialogar com O Canto e as Armas nas bolanhas da Guiné onde cumpria a minha comissão de serviço militar obrigatório, e no verbo «cumprir», e no adjectivo «obrigatório », não pouco se insinuará do animus que terá comparecido à leitura. Não se tratando de uma proposta «neonefelibata», igual às que aliás informavam boa parte da poesia que nesse tempo se ia escrevendo na chamada «Metrópole», o texto de Manuel Alegre engastava o «espírito» no exacto lugar que o segregara, e onde o subscritor destas linhas se encontrava. Eu estava numa guerra, e numa guerra injusta, na qual muitos se envolviam desmotivadamente, como estaria qualquer leitor de Moby Dick a bordo de um baleeiro de Nantucket, e em busca do Leviatã branquíssimo, ou de Guerra e Paz na estepe gelada da Campanha da Rússia, e sob o comando de Napoleão. E quanto ao vocabulário estruturante de toda a obra literária, eis que coincidia ele com o que por então povoava a nossa fala quotidiana, percorrida por «bazucas e morteiros e estilhaços», por «granadas», e por «metralhadoras». Não me recordo de outro livro, a não ser talvez o de Job, eleito em momentos de infortúnio, que se me tenha amassado tão imediatamente no sangue.
Mas O Canto e as Armas assegurar-nos-ia ainda, a muitos, e a mim também, a permanência de um horizonte longínquo, o da terra europeia que nos fora berço, evocando o regaço da Mãe superlativa, por quem clama ao que se diz cada soldado antes de ascender a herói ou, o que valerá o mesmo, ao plano de quem «jaz morto e arrefece». Era a absoluta ruralidade que investia por aquelas páginas, conforme à grande paisagem, natural e humana, que a desertificação não avassalara ainda, e que haveria de enquadrar os anos seguintes. Despertavam de facto por ali criptomnésias de um pequeno paraíso agro-pastoril, «arados» e uma «espiga», ou «uma flor de verde pinho», a pontuar «oitenta e nove mil quilómetros quadrados».

Alguns dos poemas de Praça da Canção, como os deste livro, registam o aparecimento de um tal País de Abril, adivinhações, sonhos de Manuel Alegre.

É em O Canto e as Armas que está Poemarma, onde a dado ponto se pode ler:

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Assim foi, como alguns, cada vez menos, se lembram.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL


O Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e SatíricaNatália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.


O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia por Fátima «apareceu» a três pastorinhos.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Comentava as montras de próteses: «O que não se diz do fascismo é que aleija toda a gente, para sempre.»

Maria Velho da Costa em Missa in Albis

terça-feira, 22 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Se a guerra pode reduzir-se a números, não há estatísticas para a solidão, a ansiedade, o medo, o sofrimento, a dor.

João Paulo Guerra em Memória das Guerras Coloniais

COM 19 ANOS E SEM EMPREGO


Recorte da secção «Cartas ao Director» do Diário Popular de 26 de Novembro de 1972.

ADEUS ATÉ AO MEU REGRESSO


Num poema de Eduardo Guerra Carneiro em Algumas Palavras:

Horas vieram certas horas
chegaram com amigos certos
Sei lá agora Sei que partem os amigos
e se vão para longe Não sei deles
Viajam alegres sem dinheiro certo
Outros que não vão morrem na guerra
que nos fere e dói que mais não seja
por ser guerra em vão.

Guerra Colonial.

A imensa tragédia de uma geração, de um país.

E há guerras que não acabam nunca.

Ou como escreveu António Lobo Antunes:

Pode esquecer-se a guerra, mas ela não nos esquece. Deu cabo da nossa juventude e há-de dar cabo da nossa velhice.

Segundo uma investigação dos historiadores Miguel Cardina e Susana Martins, citado pela Lusa, o número de militares do Exército Português que desertaram entre 1961 e 1973 ultrapassou os oito mil.

Este número, baseado em fontes militares, é um número que peca por defeito e refere-se ao período entre 1961 e 1973. É bastante acima de oito mil e é um número importante porque, até agora, não tínhamos dados sobre o pessoal já incorporado e mostra que a deserção é um fenómeno mais complexo do que que aquilo que se considerava.
Temos dados que indicam que entre 1967 e 1969 cerca de dois por cento dos jovens que são chamados à inspeção foram refratários. Este número é certamente superior ao número dos desertores. Os faltosos são aqueles que nem sequer se apresentam à inspeção. Dados de 1985 do Estado-Maior do Exército indicam que cerca de 200 mil terão abandonado o país. Na década de 1970, cerca de vinte por cento dos jovens que deveriam fazer a inspeção já não se encontravam no país, refere Miguel Cardina.

Segue-se a reprodução de um artigo de João Paulo Guerra publicado, em Abril de 1999, no Diário Económico:

De acordo com dados oficiais do Estado-Maior General das Forças Armadas, morreram nas guerras coloniais de Angola, Guiné e Moçambique 8.831 militares portugueses – 3.455 em Angola, 3.136 em Moçambique e 2.240 na Guiné. Segundo a mesma fonte, 4.280 militares (48,5%) morreram em consequência directa de acções de combate e 4.551 (51,5%) em acidentes diversos nos teatros de operações. Em 1974, já depois do 25 de Abril e até às assinaturas dos diversos acordos de cessar-fogo, ainda morreram 530 militares portugueses nas colónias, 159 dos quais em acções de combate.
De acordo com a Resenha Histórico-Militar, publicada pelo Estado-Maior do Exército, as Forças Armadas sofreram nos três teatros de guerra 27.919 feridos, 15.452 dos quais em acções de combate (55,3%).  A Associação dos Deficientes das Forças Armadas e o Departamento de Psicoterapia Comportamental do Hospital Júlio de Matos calculam que entre 30 mil e 100 mil combatentes ficaram a sofrer de distúrbios pós-traumáticos do stress de guerra. 
Entre 1961 e 74 foram recenseados pelas Forças Armadas 1.140.000 mancebos para prestarem serviço militar, dos quais foram incorporados e mobilizados para a guerra 820 mil (72%). Portugal manteve, em média, durante os anos de guerra 55.029 militares em Angola, 31.910 em Moçambique e 20.876 na Guiné. 
Segundo dados oficiais, os faltosos e refractários atingiram em cada ano 18% do contingente, em média, constituindo a emigração o principal destino de tais jovens. As estatísticas oficiais referem que o número de desertores dos três teatros de guerra foi de 181 – 101 de Angola, 59 da Guiné e 21 de Moçambique. 

sábado, 17 de setembro de 2016

QUE O ESQUECIMENTO NÃO VENÇA A MEMÓRIA


O 25 de Abril, enquanto golpe militar, criou condições políticas para acabar com a guerra, mas a guerra não acabou dentro das pessoas. Ninguém queria ouvir falar daquelas situações de isolamento, emboscada, bombardeamentos de napalm, cabeças cortadas. Incomodava os que cá ficaram e nada sabiam e os que de lá tinham voltado.


Manuel Alegre, Expresso 3 de Setembro de 2016

terça-feira, 2 de agosto de 2016

MNF


António Lobo Antunes em Os Cus de Judas.

Cecília Supico Pinto.

Em Janeiro de 2008, Sílvia Espirito Santo publicou o livro Cecília Supico Pinto – O Rosto do Movimento Nacional Feminino, Esfera dos Livros, Lisboa.

Sinopse do livro, feito pela editora:


«Dei tudo o que tinha. O Movimento foi a minha vida! (…) Os militares e o trabalho no Movimento foram, de certo modo, os filhos a que me dediquei.» Em 1961, Cecília Supico Pinto fundou o Movimento Nacional Feminino. Uma organização independente do Estado que congregava as mulheres portuguesas no auxílio moral e material aos soldados que lutavam nas antigas colónias portuguesas. Durante treze anos, Cecília Supico Pinto multiplicou-se em viagens entre a metrópole e as «províncias ultramarinas», ameaçadas pelos movimentos independentistas. Cilinha, como era conhecida, vestiu o camuflado, dormiu em tendas de campanha, esteve debaixo de fogo e embrenhou-se no mato de África, mesmo quando um acidente a obrigou a andar de muletas e com um pé engessado. Tudo em nome de uma missão. Na bagagem levava mantimentos, recordações e anedotas para contar aos soldados portugueses. Cilinha foi a primeira-dama do Estado Novo de Salazar, «um verdadeiro príncipe», que apreciava a sua alegria, ria-se das suas anedotas, admirava a sua frontalidade e escutava os seus conselhos. Garante que, muitas vezes, o aconselhou a ir a Angola. O presidente do Conselho resistiu sempre. Elogiada por muitos, mas principalmente criticada por outros tantos.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

PRESSÕES!...


Recorte da secção «Factos e Documentos» da Seara Nova, Dezembro de 1963.