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domingo, 10 de maio de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

O FINAL DA GUERRA EM LISBOA


Não houve qualquer meio de impedir os portugueses de, nos primeiros dias de Maio de 1945, virem para as ruas, euforicamente, festejar a vitória dos aliados face à besta nazi.

Tão pouco isso interessava aos propósitos de hipocrisia neutral de Salazar.

Por isso as tolerou.

Sempre esteve com Deus e com o Diabo.

Tinha eu pouco mais de um mês de vida, mas por esses dias por estas ruas, lá andaram o meu avô e o meu pai.

O meu avô contava que, nas ruas, apareceram bandeiras portuguesas, britânicas, norte-americanas, francesas e… bandeiras do Benfica, habilidade, contava ele, utilizada para representarem a bandeira da União Soviética.

Numa entrevista, de que não tenho indicação de nome e data do jornal, José-Augusto França confirma a versão do meu avô:

Mais tarde, soube que por cá os meus amigos tinham andado em grandes festas e que se fizeram manifestações a festejar a vitória dos aliados, apareceram uns paus sem bandeira e até bandeiras do Benfica. Eram, evidentemente, a homenagem aos aliados soviéticos, cujo nome não podia ser mencionado

José Gomes Ferreira, em Intervenção Sonâmbula, também refere o episódio:

No entanto, o povo berrava nas ruas a sua alegria com lágrimas e bandeiras (muitos empunhavam apenas paus nus com imaginárias bandeiras vermelhas da pátria dos sovietes), ainda com alguns ingénuos a quererem convencer-se de que a mágica queda do salazarismo aconteceria no dia seguinte.

Quem não dançou, quem não cantou, quem não soltou vivas e morras nessa noite? Mas entre aqueles milhares e milhares de pessoas, recordo-me sobretudo – é curioso como certas imagens sobrenadam na memória em detrimento de outras – recordo-me do Fernando Lopes Graça então 30 anos mais novo, a mancar, com os pés doridos de tanto marchar pelas pedras de Lisboa

Texto publicado em 2 de Maio de 2015.

sábado, 9 de maio de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS



Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

O FIM DA GUERRA

O dia 8 de Maio de 1945 é a data oficial da derrota da Alemanha Nazi na Segunda Guerra Mundial.

Os aliados tinham acordado que o dia 9 de Maio de 1945 seria o da celebração da vitória. Contudo, os jornalistas ocidentais lançaram a notícia da rendição mais cedo do que o previsto.

A União Soviética manteve as celebrações para a data combinada e, ainda hoje, é nesse dia que a vitória é celebrada.

Em Lisboa, milhares de pessoas vieram para a rua vitoriar o fim da guerra.

O meu avô muitas vezes me falou desse dia heróico, da alegria, do entusiasmo dos anti-salazaristas que vieram para a rua com bandeiras inglesas, americanas, e bandeiras do Benfica que, por vermelhas que são, representavam a União Soviética, também presente em paus sem qualquer bandeira.

Nunca tive a confirmação da história das bandeiras do Benfica, de que o meu avô falava, estarem presentes nas manifestações.

Quando pedia uma confirmação ao meu pai, apenas recebia um sorriso.

Passei a ligar o eventual acontecimento aos entusiasmos do meu avô que, normalmente, se apresentava às pessoas como republicano histórico, benfiquista e anti-clerical.

Das bandeiras do Benfica não encontrei escritos, mas das bandeiras sem pau, acabei por encontrar.

Fazem parte da primeira história de O Mundo e os Outros do José Gomes Ferreira:

Hoje, no oitavo dia do mês de Maio de mil novecentos e quarenta e cinco, acabou na Europa a segunda guerra mundial. «Até que enfim!» - zumbiu a meu lado a voz melíflua dum cavalheiro de olhos acendidos de entusiasmo, de conjuntivite e lugar-comum.
«Até que enfim!», concordei eu, confuso de alegria, saltando do eléctrico para me embeber numa multidão ruidosa com bandeirinhas nas mãos, nas tranças das garotas, nos gritos dos cortejos – Vitória! Vitória – e nos paus de vassoura sem bandeiras.

No dia 8 de Maio de 1945 eu tinha 50 dias.

Legenda: Quem se encostar à barra mansa do British-Bar e olhar a estante das garrafas, verá esta fotografia.
No dia 8 de Maio de 1945, a fachada do BB ostentava as bandeiras norte-americana, portuguesa e britânica. A outra não está.

Texto publicado em 8 de Maio de 2013.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

OLHARES


Refugiados da II Guerra Mundial em Portugal.
Muitos destes refugiados conseguiram chegar a Portugal mercê de vistos passados por Aristides Sousa Mendes, contrariando ordens expressas de Salazar e da PVDE.
Portugal era um país de trãnsito, trânsito para a América, quer por via marítima, quer por via aérea.
Estima-se que quarenta mil refugiados viveram por alguns dias, outros alguns meses. em Portugal.

Recorda-se o diálogo, no findar do filme Casablanca:

Capitão Renault: O avião para Lisboa. Gostava de ir nele?
Rick: Porquê? O que há em Lisboa?
Capitão Renault: Aviões para a América.

Ou o livro Uma Noite em Lisboa de Erich Maria Remarque:

Demorei-me a olhar fixamente para o navio. Profusamente iluminado, o barco aguardava fundeado no Tejo. Embora estivesse em Lisboa há já uma semana, ainda não me habituara à sua iluminação exuberante. Nos países por onde anteriormente passara, à noite as cidades jaziam escuras como minas de carvão, e uma lanterna nas trevas era mais temível do que a peste na Idade Média. Eu vinha da Europa do século vinte.
A embarcação era um navio de passageiros; estava a receber carga. Eu sabia que o barco tinha partida marcada para a tarde do dia seguinte. À luz crua das Lâmpadas despidas, caixotes de carne, peixe, conservas, pão e legumes iam sendo acamados no porão; os estivadores levavam bagagens para bordo, levantando grades e fardos tão silenciosamente como se nada pesassem. O navio estava a ser preparado para uma travessia – como a arca no tempo do dilúvio. Era uma arca. Cada navio que deixava a Europa naqueles meses de 1942 era uma arca. A América era o Monte Ararat e o nível das águas enchentes aumentava de dia para dia. Há muito que tinham submergido a Alemanha e a Áustria, alagavam agora A Polónia e Praga; Amesterdão, Bruxelas, Copenhaga, Oslo e Paris haviam já sido inundadas, as cidades de Itália tresandavam de infiltração e nem a Espanha estava a salvo. A costa portuguesa tornara-se na última esperança dos fugitivos para quem a justiça, a liberdade e a tolerância eram mais importantes do que a pátria e os meios de subsistência. Portugal era uma ponte para a América. Quem não conseguisse alcançá-la, estava perdido, condenado à morte lenta num dédalo de consulados, esquadras de Polícia e repartições públicas, onde os vistos eram sempre recusados e as licenças de trabalho e residência impossíveis de se obter, uma selva de campos de internamento, pesadelos burocráticos, solidão e saudade onde se definhava perante a indiferença generalizada. Como é habitual em tempos de guerra, medo e sofrimento, o indivíduo deixava de existir como ser humano; só uma coisa importava: possuir um passaporte válido

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

OLHARES


Nesta margem de olhares, onde tudo cabe, passei há dias pelo Jardim Fernando Pessa, ali na Avenida de Roma, onde em tempos recuados esteve o Cinema com o mesmo nome, de boas memórias, e agora é local de assembleias municipais.

Fernando Pessa é um nome que não é estranho aos portugueses.

Andava por Lisboa e para o telejornal da estação pública fazia pequenas reportagens,  mostrava as mazelas da cidade e terminava com aquele: «e esta hein?!»

Mas marco de trabalho histórico, Pessa, durante a II Guerra Mundial, foi locutor da secção portuguesa da BBC.

O capacete usado pelo jornalista, em Londres, está exposto na universidade King's College, na capital britânica.

No entanto,  o olhar da placa com o nome do jardim, levou-me para histórias longínquas, não vividas, apenas de ouvir contar, de ler.

Nasci com o findar da guerra e, já crescidote, ouvia o meu pai contar a maneira como o Pessa, depreciativamente, com o «h» britânico bem aspirado, pronunciava «Hitler».

«Até logo. Hem? Não faltes. O que é que o Pessa dirá hoje?
Ontem disse que as coisas estão difíceis, mas que é preciso ter esperança, os povos não se deixarão vencer pela barbárie. Até me chegaram as lágrimas aos olhos. Vê lá, pá, se não tiveres tempo jantas em casa e ficas lá. Não, não está muita gente, a do costume. Já sabes do fuzilamento dos reféns em Paris? Também foi o Pessa que disse ontem. Também disse que foram pelos ares um data de comboios com tropas alemãs.
Naquele tempo, àquela hora, as ruas ficavam vazias. Amigos e familiares reuniam-se à volta do aparelho de rádio, um RCA minúsculo. Fechavam-se bem as portas, punha-se o rádio baixinho para não ser ouvido pelos vizinhos. Fazia-se um grande silêncio. O coração apertado de angústia, os dedos nervosos enclavinhados. Chegavam notícias. Chegavam de longe. Chegavam na voz de Fernando Pessa.»

(Montagem de duas crónicas de crítica televisiva, sobre Fernando Pessa, do Mário Castrim, publicadas no Diário de Lisboa.)

Falar da II Guerra Mundial é recado para lembrar o seu fim e a festa que foi por este país, principalmente em Lisboa.

Como contou José-Augusto França em entrevista ao Expresso de 1 de Fevereiro de 2014:

«Mais tarde, soube que por cá os meus amigos tinham andado em grandes festas e que se fizeram manifestações a festejar a vitória dos aliados, apareceram uns paus sem bandeira e até bandeiras do Benfica. Eram, evidentemente, a homenagem aos aliados soviéticos, cujo nome não podia ser mencionado.»

Ou José Gomes Ferreira, em Intervenção Sonâmbula:

«No entanto, o povo berrava nas ruas a sua alegria com lágrimas e bandeiras (muitos empunhavam apenas paus nus com imaginárias bandeiras vermelhas da pátria dos sovietes), ainda com alguns ingénuos a quererem convencer-se de que a mágica queda do salazarismo aconteceria no dia seguinte.
Quem não dançou, quem não cantou, quem não soltou vivas e morras nessa noite? Mas entre aqueles milhares e milhares de pessoas, recordo-me sobretudo – é curioso como certas imagens sobrenadam na memória em detrimento de outras – recordo-me do Fernando Lopes Graça então 30 anos mais novo, a mancar, com os pés doridos de tanto marchar pelas pedras de Lisboa.»

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

TRUMPALHADAS



Lê-se em A Tempestade de Shakespeare que «o inferno está vazio e os diabos andam por aí.»

São muitos os que andam mas, por hoje, citamos Vladimir Putin, Donald Trump e Kim Jong-un.

O presidente russo afirmou que será impossível resolver a crise coreana apenas com a aplicação de sanções e exercendo pressões sobre Kim Jong-un.

«O programa de Pyongyang é uma grave violação das resoluções do Conselho de Segurança da ONU, mina o regime de não-proliferação e cria uma ameaça à segurança do nordeste da Ásia.»

Pelo seu lado, o embaixador da Coreia do Norte em Madrid disse que «isto é apenas um assunto entre nós e os americanos. O meu país ainda está tecnicamente em guerra com os Estados Unidos e os outros povos do mundo, não têm que se preocupar com as nossas armas nucleares».

Há dias, numa das suas crónicas no Diário de Notícias, Ferreira Fernandes escrevia que a questão passava por pôr um colete-de-forças a Kim Jiong-un, e terminava «mas como?», desabafando de seguida;

«Que jeito nos davam os deuses.»

A embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas pediu esta segunda-feira que o Conselho de Segurança da ONU adote «as medidas mais fortes que for possível» para responder à Coreia do Norte, as meias medidas não chegam porque Kim Jong-Un «está a implorar por uma guerra».

Aproveitando a maré, Donald Trump twittou  que vai permitir  ao Japão e à Coreia do Sul «comprarem uma quantidade substancialmente maior de equipamentos militares altamente sofisticados aos Estados Unidos».

Apenas negócio?!...

domingo, 3 de setembro de 2017

RECEIA-SE O PIOR!


Se ninguém – mas quem? – põe termo a esta escalada de desenfreada loucura  e estupidez, onde iremos parar?

O louco norte-coreano, eram oito e meia em Portugal, fez explodir uma bomba de hidrogénio que provocou um abalo que, servindo-nos da escala de Richter, se situa nos 6,3.

O louco americano já reagiu escrevendo que «a conversa de apaziguamento com a Coreia do Norte não vai resultar. Ele só percebe uma coisa.»

Entretanto, o presidente chinês disse:

«Graças aos esforços conjuntos de todos os países, a paz global reinou durante mais de meio século. Contudo, conflitos incessantes em algumas partes do mundo e pontos quentes estão a colocar desafios.»

domingo, 11 de dezembro de 2016

QUOTIDIANOS


O tempo passeava com mansas lentidões quando chegou a guerra. Meu pai dizia que era confusão vinda de fora, trazida por aqueles que tinham perdido seus privilégios. No princípio, só escutávamos as vagas novidades, acontecidas no longe. Depois, os tiroteios foram chegando mais perto e o sangue foi enchendo nossos medos. A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circula agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos. Aos poucos, eu sentia a nossa família quebrar-se como um poste lançado no chão. Onde eu sempre tinha encontrado meu refúgio, já não restava nada. Nós estávamos mais pobres que nunca.

Mia Couto em Terra Sonâmbula

domingo, 11 de setembro de 2016

UM BEIJO DE ENORME ALEGRIA


Com 92 anos, morreu a enfermeira que foi beijada por um marinheiro no final da segunda guerra mundial.
Apenas foi um extravasar de alegria.
O marinheiro beija a enfermeira como vira nos filmes, apenas um extravasar de uma alegria, de um dia muito feliz para a Humanidade.
Uma história bonita.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

TRÁGICAS ODISSEIAS


A trágica realidade é esta:

Desde o início do ano, que agora finda, já chegaram à Europa, utilizando as mais diversas rotas, 1.005.504 migrantes.

Um aumento de cinco vezes em relação a 2004.

A maioria acantona-se em campos de refúgio, ao frio e à chuva, aguardando uma autorização de emprego, que tarda em chegar, e muitos terão que regressar aos países de origem.

Fogem da guerra, da miséria, da fome, dos mais diversos tipos de perseguições.

E não falamos dos que, naufragando, não chegaram a um destino.

Na terra de onde vêm não os querem, na terra para onde vêm, também não.

Gente sem espaço, à deriva, à espera de uma ténue esperança, à espera da morte.

A Europa perde-se em discussões banais, ressaltam as divisões e os ódios, faz por esquecer uma solidariedade que teimaram em apregoar como bandeira.

Uma catástrofe que levamos para o novo ano.

Outros mais, se nada for feito.

Onde está Deus?, perguntam os que acreditam.

Perguntemos, antes, pelos homens que se vão demitindo de encontrar uma solução para o drama destes seres humanos.

Para que não seja demasiado tarde.

domingo, 15 de novembro de 2015

POSTAIS SEM SELO




Alexandre O’Neill, Do Poema Pouco Original do Medo

PARA MEMÓRIA FUTURA



No meio do Atlântico, George W. Bush, Tony Blair, e José Maria Aznar, com Durão Barroso a servir de mestre de cerimónias, reuniram-se, na tarde de 16 de Março de 2003, para decretarem o início da guerra do Iraque.

Um mundo, já de si desorganizado e perigoso, entrou em roda livre.

sábado, 14 de novembro de 2015

domingo, 18 de outubro de 2015

CRIMINOSOS!!!




Uma cambada de idiotas tarados e criminosos.
Podem limpar as mãos à parede pela merda que fizeram.
O grave é que ninguém os condena.
Ninguém os julga.
Andam por aí!

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

QUEM PÕE FIM A ESTE TRÁGICO NEGÓCIO?


O Papa Francisco denunciou os fabricantes e traficantes de armas, "manchados com o sangue de tantos inocentes".
A 02 de Setembro, o Japão assinava o instrumento de rendição incondicional, pondo fim à Segunda Guerra Mundial.
Francisco pediu que "no mundo de hoje não se volte a viver os horrores e sofrimentos terríveis de tragédias como aquela".
No entanto, sublinhou o papa, o mundo continua "a viver" estas tragédias e recordou as "minorias perseguidas, os cristãos perseguidos e a loucura da destruição".
"Que não haja mais guerra. Este é o grito dos nossos corações, dos corações de todos os homens e mulheres de boa vontade", afirmou. 

domingo, 24 de maio de 2015

É BOM NÃO ESQUECER


O auto proclamado Estado Islâmico, um misto de loucos e mercenários e sabe-se lá mais o quê, tomou a cidade de Palmyra, cujas ruínas arqueológicas são património da Humanidade. 

Receia-se o pior.

O caos há muito que está lançado no Oriente.

Umas semanas atrás, Barack Obama enquadrou pela primeira vez o aparecimento e posterior expansão do grupo terrorista Estado Islâmico no contexto das decisões de política externa americana:

O Estado Islâmico é uma consequência direta da Al-Qaeda no Iraque, que cresceu da nossa invasão. É um exemplo de uma “consequência não-intencional”, razão pela qual devemos geralmente apontar antes de disparar.

Saddam Husseuin, Khadafy eram o que eram mas mantinham um controlo sobres aqueles territórios.

Todos os que sonhavam com primaveras árabes, com a queda daqueles ditadores, podem agora olhar no que tudo isso deu.

Já antes Noam Chomsky tinha dito:

 Toda a gente está preocupada em acabar com o terrorismo. Bem, há uma maneira muito fácil: parem de participar nele.

terça-feira, 5 de maio de 2015

domingo, 3 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


LeVine em Hollywood

Andrew Bergman
Tradução: Manuel Granjeio Crespo
Capa: João B.
Série Negra mº 03
A Regra do Jogo, Edições, Lisboa, Outubro de 1970

Os anos a seguir à guerra foram bestiais para os detectives particulares, Nunca od houve melhores, nem antes nem depois. Ninguém acreditaria quantos soldados contactaram olhos vivos para descobrir no mais confidencial dos segredos o que é que as suas mulherzinhas teriam andado a fazer para se entreterem durante a guerra. DE manhã à noite os bares de Nova Iorque estavam apinhados de soldados cheios de importância contando a interlocutores simpatizantes como as miúdas francesas os tinham afrancesado, as miúdas alemães os tinham blitizado e as miúdas inglesas lhes tinham palmado os pacotes de chá. Depois, quando saíam, iam a correr para telefonar para gajos como eu, subitamente receosos de que as esposas e as noivas tivessem como eles aproveitado a guerra para explorar um pouco da cor local.

sábado, 2 de maio de 2015

O FINAL DA GUERRA EM LISBOA, 1945


Não houve qualquer meio de impedir os portugueses de, nos primeiros dias de Maio de 1945, virem para as ruas, euforicamente, festejar a vitória dos aliados face à besta nazi.

Tão pouco isso interessava aos propósitos de hipocrisia neutral de Salazar.

Por isso as tolerou.

Sempre esteve com Deus e com o Diabo.

Tinha eu pouco mais de um mês de vida, mas por esses dias por estas ruas, lá andaram o meu avô e o meu pai.

O meu avô contava que, nas ruas, apareceram bandeiras portuguesas, britânicas, norte-americanas, francesas e… bandeiras do Benfica, habilidade, contava ele, utilizada para representarem a bandeira da União Soviética.

Numa entrevista, de que não tenho indicação de nome e data do jornal, José-Augusto França confirma a versão do meu avô:

Mais tarde, soube que por cá os meus amigos tinham andado em grandes festas e que se fizeram manifestações a festejar a vitória dos aliados, apareceram uns paus sem bandeira e até bandeiras do Benfica. Eram, evidentemente, a homenagem aos aliados soviéticos, cujo nome não podia ser mencionado

José Gomes Ferreira, em Intervenção Sonâmbula, também refere o episódio:

No entanto, o povo berrava nas ruas a sua alegria com lágrimas e bandeiras (muitos empunhavam apenas paus nus com imaginárias bandeiras vermelhas da pátria dos sovietes), ainda com alguns ingénuos a quererem convencer-se de que a mágica queda do salazarismo aconteceria no dia seguinte.

Quem não dançou, quem não cantou, quem não soltou vivas e morras nessa noite? Mas entre aqueles milhares e milhares de pessoas, recordo-me sobretudo – é curioso como certas imagens sobrenadam na memória em detrimento de outras – recordo-me do Fernando Lopes Graça então 30 anos mais novo, a mancar, com os pés doridos de tanto marchar pelas pedras de Lisboa


No prédio onde está o British-Bar, em Março de 1945 içaram-se as bandeiras portuguesa, britânica e norte-americana.


Legenda: fotografia da Fundacionmapfre

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

INDIGNAÇÃO


O horror calou tudo, declararam.
Depois de Auschwitz
Continuámos a falar, porém – sem ambição.
Reconhecendo o inalcançável,
Baixando o olhar.
Pois o que pode a fala? Por que dizem
Que, cantada, faz de arma?
Se com ela não nos municiamos.
Se, com a morte de uma Grécia antiga,
Perdemos o condão de nomear
Deuses e sentimentos e até
As pequenas moléculas, enfim, nomear o real
Que, naquele caso, incluía o tremendo e a maravilha?
Esses, os que levavam para a praça
Quezílias, sim, projectos e também,
E, sobretudo, uma noção de polis
E de uma paridade vigiada,
Severamente vigiada.
Os Gregos, esses
Que narravam o medo para que o medo
Se tornasse visível, prisioneiro
Na teia do poema,
Se não compreensível, pelo menos
Transformado em espectáculo – essa Grécia,
Essa Atenas perfeita, mais perfeita
Que qualquer utopia, a rapariga
Inesperadamente transformada
Numa ruína,
Esses – que não existem
E nos deixaram assustados, sós,
Sob o sem-rosto, sós,
Sem as ferramentas adequadas,
Sem pensamento,
Sem esses deuses temperamentais
Que tomavam partido nos combates,
Nós, os abandonados, os que não
Sabem sequer como aplacar
E a quem,
Nós, os emudecidos,
Irmanados com os sem-terra, nós,
Os futuramente esfomeados,
Bárbaros com os pés no alcatrão,
Bebedores de petróleo, como pode
De novo a praça,
A Ágora, juntar-nos?
Transformados em porcos, por feitiço,
Pela malevolência,
Exactamente
Como na Odisseia,
Não sabemos
- e os Gregos esqueceram –
Como é que tal feitiço
Se desfaz? 

Hélia Correia, poema publicado no Público de 21 de Janeiro de 2012.