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domingo, 12 de janeiro de 2020

OLHAR AS CAPAS


A Pequena Morte

Hélia Correia
Elogio da Obra: Ernesto José Rodrigues
Black Son Editores, Lisboa, Janeiro de 1986

Pode a serenidade destas rosas
atravessar a noite
sem que a esfolhem
os comovidos ares?

Sem que este perigo
_este sabor a perigo_
empalideça as mais
sombrias pétalas?

Ou esperarão, acaso,
com seus olhos
impotentes de flor,
com seu disforme e pútrido
alimento,
esperarão, inclinados,
exalando perfumes tumulares?

Vigiarão teu cerco, salivando,
escorrendo ânsias carnais;
seguirão o teu corpo,
palpitando
inchadas como um sexo
ouvindo as garras?

Assistindo ao amor,
aos instrumentos
e paixões do amor,
à crueldade,

mordem, pedindo sangue,
essas obscenas,
ferozes bocas:

com sua antiga vocação
de rosas
_a de vestir
cadáveres,
a de ornar
os vencidos despojos,
virão, sorrindo,
sobre a minha morte.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

OLHAR AS CAPAS


O Número dos Vivos

Hélia Correia
Capa: João Carlos Albernaz
Relógio d’Água, Lisboa, Dezembro de 1982

- Não sei se gosto dele – segredava no quarto, de luzes apagadas, quando as duas faziam confidências.
- Quando ele estiver longe, logo a menina vê se gosta ou não. É para isso que servem as saudades.
Romana suspirava, virava-se na cama:
- Não sei. Bem precisava de saber.
- Se fosse agora o tempo das fogueiras, já se podia ver. É quando a gente sabe se vai casar ou não.
- Como?
- Com clara de ovo. Num copo cheio de água. E com uma alcachofra. Também dá.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Soma

Hélia Correia
Capa: Arranjo gráfico sobre gravura de Cruz Filipe
Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1987

Passava com o filho dois domingos por  mês e para eles convocava gripes e enxaquecas, na fuga dessas horas em que nada encontravam para dizer um ao outro- Aquilo a que se chama a voz do mesmo sangue perdera-se, sem eco, nem eles dabiam quando: de repente, uma tarde em que toda a linguagem se tornara impossível e uma antiga ternura se debatera entre eles como entre os lados deslizantes de um poço, numa mudez de bicho muito ferido, a afundar-se, a despedir-se para sempre; ou fora-se apagando aos poucos, devagar, desde o divórcio, emurchecendo como tudo a que a raiz falece, enquanto o rapazinho fabricava o seu mundo usando os materiais que lhe vinham à mão e onde não se incluíam, do pai, nem as palavras, nem os desejos, nem os preconceitos.

sábado, 13 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Montedemo

Hélia Correia
Capa: Ana Leão
Colecção Imagem do Corpo nº 7
Ulmeiro, Lisboa, Novembro de 1983

Mais tarde alguns lembraram que tudo começou naquele domingo seco em que a terra tremeu. Coisa sem importância, num instante sentida noutro instante acalmada, nem mesmo Irene a tonta pensou que lhe servisse de mote em pregação. Um tremor ligeirinho no afrouxar da noite, hora de moribundos e de bêbados, todos pensando que se balouçavam em líquidos maternos, quentes e protectores. Os outros, muito poucos, que estavam acordados: mulheres suspensas do tossir das crias, velhos apunhalados por insónias, tinham ficado na dúvida se fora realmente o chão que se ondeara numa sacudidela ou se tontura provocada por um sangue de repente engrossado ao de cima dos olhos. O padre chegou mesmo a confessar que achara muito estranho terem tocado os sinos apenas com aquele abanãozico. Mas a manhã nasceu radiosa e gelada, e o próprio mar parecia tão sem peso, tão dançarino e limpo de pecado, que o assunto passou ao esquecimento. 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


A Luz de Newton

Hélia Correia
Ilustrações: Alice Aurélio
Relógio d’ «Água, Lisboa s/d

Era uma vez um homem que nascera para sábio. Ora, às vezes, tal facto aborrecia-o muito. Sempre com o nariz enfiado em livros velhos, sempre a escrevinhar relatórios para enviara aos outros sábios que moravam longe – naquele tempo não havia telefone -, sempre a pensar e a repensar, a fazer contas, a espreitar para os céus e para os caldeirões, que coisa! Então não tinha direito a descansar?
Parou e foi abrir uma janela. O sol – se bem que fosse um sol inglês estava cheio de força naquele dia – entrou por ali dentro, todo entusiasmado, porque era muito raro o permitirem-lhe fazer uma visita àquele laboratório. Com a pressa, tropeçou contra um prisma de vidro e desfez-se nas suas sete cores. Surgiu um arco-íris na parede.
O sábio percebeu tudo o que se passara e ficou ainda mais aborrecido.
- Pronto! Agora estraguei o mistério que havia no Arco-Íris do céu! Não passa de um espectro da luz solar que se refracta nas gotinhas de água. Acabaram-se as histórias sobre as panelas de ouro escondidas no lugar em que ele toca na terra. Ninguém mais terá nele a túnica de Íris, mensageira dos deuses, nem o sinal da paz entre Jeová e os homens. Mas que grande chatice!
Para desanuviar, foi dar um passeiozinho. Mas, como estava pouco habituado a andar, depressa se cansou. Sentou-se à sombra de uma macieira. E vai, caiu-lhe um fruto em cima da cabeça. Estava a saboreá-lo com delícia quando gritou de novo:
- Que chatice!
Descobrira, ali mesmo, as leis da gravidade.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


O Separar das Águas

Hélia Correia
Capa: Teresa Ferrand
A Regra do Jogo, Porto, Maio de 1981

Aquele foi o ano em que os santos tremeram e cravaram em Deus os seus olhares perplexos, as forças do demónio, que a espada e a fogueira por tento e tanto século haviam sepultado, ganhavam para o Mal um terço do planeta; os Bolcheviques tinham triunfado.
Foi o ano em que Deus, envelhecido, e já um tudo-nada cautelosos, mandou a sua mãe que abalasse em recado a terras portuguesas que, apesar da República, pareciam ser ainda as de melhor ouvido para admoestações.
Foi este o ano em que José sebastião, soldado, enxugando no lenço o suor do alívio, esconjurou definitivamente a sombra mal-cheirosa das trincheiras. Isto não porque a guerra tivesse terminado, mas porque a filha única do coronel Pimenta de Albuquerque, grávida de dois meses, se lançou da janela do seu quarto casando-se a seguir com o ditoso amante.

sábado, 20 de agosto de 2016

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A Fenda Erótica

Hélia Correia
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa, Março de 1988

Eu era rapazinho quando Maruja entrou na minha vida. Apareceu a morar com os avós num andar do meu prédio. E era ruiva, via-se que ninguém conseguia domar aquela imensa rama de cabelos que chispava, feroz, em torno da pele melada e dos olhos muito azuis. Usava golas brancas, quadradas sobre as costas, de modo a por assim exibir prova das suas ascendências marinheiras. O pai, contava ela, morrera num naufrágio, deixara-se afundar com o navio. E ela própria já dera a volta ao mundo. Sobre a mãe não falava e, como tinha o dom tão raro nas crianças de inspirar confiança e esfriar tentativas de mais intimidade, nunca nenhum de nós lhe perguntou por ela. À Maruja, as perguntas que podiam fazer-se eram sobre piratas ou ruelas chinesas – jamais sobre a família ou hábitos domésticos.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS


A Casa Eterna

Hélia Correia
Capa: José Antunes
Círculo de Leitores, Lisboa, Abril de 1991

Fala de Bento Serras, cobrador de bilhetes, nascido e morador em Amorins:
«Diz que quer contar tudo dos princípios?
Dos princípios a gente nunca sabe.
Quando é o caso de se lhe pôr a vista em cima, já o que quer que seja vai no meio…
Pois eu do homem não me lembro, não. Diz que seria fácil de lembrar, mas não para mim que tenho esta cegueira.
Cegueira é modo de falar, entende. Não me fixo. É assim como umas sombras. Dizem para onde querem ir, eu marco e marco, boto-lhe as notas gradas entre os dedos, os trocados na mala, e vai que não vai, volta que volta, e é noite, e é manhã, e nem reparo. Podia levantar-se aí uma cidade por obra do demónio, é um supor, uma cidade dessas que se perdem de vista na direcção de cima, e eu não dava por ela, tão cego ando.
Pois o homem não vi. Se veio na carreira, se foi no meu serviço, não no vi.
Sendo segunda, que podia ser, vau para aí um povo, um corropio. Diga. É a feira, pois. Sacas e trouxas, criançada, vinhos. Parece isto uma terra dos Brasis. Que, não se exagerando, eu não condeno. Não tenho é alegria. Falta-me muito o ar. Desde pequeno, sim, nem eu estou certo de quando começou. É isto que lhe digo. Ninguém sabe os princípios.
O tal homem? Pois não, minha senhora, fosse ele como fosse, eu não no vi.»

sábado, 1 de agosto de 2015

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Insânia

Hélia Correia
Capa: Fernando Mateus
Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1996

A verdade é que Talívio sonhara sempre com aquele regresso. Ao contrários dos outros emigrantes, não se antevia a desfiar riquezas até porque, pensava, de um dia para o outro toda a gente aparecera servida de automóvel, e de vivenda, e de cartão de crédito. Queria-se a discursar para os Levadeiros, a conduzi-los por aqueles caminhos da emoção política que em França ele conhecera apenas em surdina, manietado pela sua condição. Todos lhe apreciavam o talento de estratego nas lutas sindicais, tanto mais que obviamente ele não podia usá-lo em benefício da vaidade. No seu próprio país, sim, brilharia, mesmo falhando, como lhe falhavam, princípios de bom sangue na família. «Numa democracia como a vossa, qualquer labrego vai a chefe de governo», diziam-lhe os  colegas ao ouvido, entendendo com isto dar-lhe estímulo.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Villa Celeste

Hélia Correia
Capa: António Pimentel
Ulmeiro, Lisboa, Abril de 1985

Tudo o que é bom se acaba, ora aí está. Era Coisa tão viva, tõ parecida aos trigais – com flores e alimento – esta revolução que, vejam lá, murchou, fez o seu tempo, Tinha sido preciso aproveitar, colher, recomeçar tudo pelo princípio. Dormiu-se pouco onde era de dormir, dormir, dormiu-se muito onde era de esforçar. Isto dizia Teresinha, envelhecendo, aos raros habitantes da «Celeste».