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sexta-feira, 13 de julho de 2018

DE QUE ARMAS DISPOREMOS


 De que armas disporemos, se não destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Hélia Correia

quinta-feira, 5 de abril de 2018

ERA ASSIM QUE PENSÁVAMOS A TERRA


                                 Ao Rui Sousa Fernando

era assim que pensávamos a terra
com um rosto secreto impraticável
entre as rochas da tarde
quando as margens cresciam
com frutos
de um parto recentíssimo e audaz

guardávamos uma nervo uma ameaça
no extremo de uma flor
e ali     diziam
habitava o alarme e a conquista

sobra a coxa lavrada dos países
um novo pão um círculo
alastrava

Hélia Correia em Poesia 70

Legenda: fotograma de Primavera Tardia

domingo, 3 de abril de 2016

ABRIL



Outra vez Abril
Já lá vão 42 anos.
Parece que foi ontem.
E tanta coisa aconteceu.
Por este mês, vou mostrar algumas capas dos discos que, aqui pela casa, eram tocadas antes da sonhada madrugada.
25 de Abril sempre!

Pare, Escute e Olhe

Lado 1
Pare, Escute e Olhe

Lado 2

Arte Poética

Arte Poética

Poema: Hélia Correia

Música: José Jorge letria

Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão



quinta-feira, 5 de novembro de 2015

POEMA


Ouço o incêndio, as fábricas. O berço
do suor interrupto. Ouço às vezes quem se ama
onde o amor não há – apenas morre
no clandestino abrir.
Ouço às vezes quem rompe os mapas cerce
e então na noite recupera as loucas
emigrações da história. Ouço crescendo
secamente os filhos no rancor e na linfa.
Astuciosamente recolhendo as vastidões adversas.
Ouço em momentos fartos o entulho,
desdobrada a raiz, fundar o mês da heresia,
a sábia recriação do sumo.
Ouço o arado. A luz. Profundamente
os barcos segregados na propensão do mar.
Ainda quem a medo desagregue
a centenária paz:
- os homens,
onde os ouço, aqui recordo
as origens compradas do terror.
Os homens, onde os ouço, aqui confirmo
suas mãos.

Hélia Correia

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

ANTIMUSA




o  poema
encontrei-o na rua.
Suportei-o nas coisas desiguais
O merceeiro punha maçãs à porta mas
os meninos vendiam pentes.
Talvez o meu poema tenha morado
nos pés descalços
por isso trago vozes pó cansaço
trago um poema sujo
com cheiro a lenha e a caminhos
trago um poema que quero agreste
e malcriado.

O poema encontrei-o nas flores
O  jardineiro cantava baixo.
As palavras que trago talvez
ele as dissesse antes de mim
por isso o meu poema se diz terra
vem suado    dorido
e com orvalho colado aos ombros

O poema colhi-o nos outros
havia homens que falavam de coisas belas
há daquelas palavras que só se dizem
de mão em mão.
Foi daí que nasceram
todas as aves do meu poema.

Talvez os barcos também trouxessem versos
algum dia
mas foi com eles que aprendi
os espaços vazios.
Os homens partem de madrugada
foi por isso
que enchi o meu poema de comboios
e o fechei em volta
A rima, desisti-a    no passeio
um mendigo tocava
Foi então que fiquei com um poema cego.
Um poema de mãos fechadas

Há quem saiba de angústias e de luas.
Por mim,
Trago-te os dias por que passo
nada mais.

Hélia Correia

(1969)

legenda: fotografia de Vivian Maier

domingo, 29 de março de 2015

POEMA PARA A CATARINA


A criança crescendo aprende o medo
sabe do vento os ombros intranquilos
descobre a gestação da flor      o riso
e a frequência anónima dos dias.

Arrisca
inventa o pão com lábios antiquíssimos
a cor feroz do trigo e da magia
alonga o espaço circular do mundo

Hélia Correia

(1970) 

quinta-feira, 5 de março de 2015

POESIA DE CIRCUNSTÃNCIA

Eu sei que o tempo passa
e as tempestades mudam de lugar.

Sei que amanhã
ninguém  entenderá os nossos poemas.
Que ninguém saberá estes minutos dolorosos
de mascarar palavras
com palavras

Mas sei também que é grande
este momento
em que nós somos um machado.
Em que somos um corpo que constrói
ss suas próprias mãos;

Mas sei também que é grande
este momento em que
passamos com o tempo.

Hélia Correia
(1968)

Legenda. Desenho de Cipriano Dourado.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

INDIGNAÇÃO


O horror calou tudo, declararam.
Depois de Auschwitz
Continuámos a falar, porém – sem ambição.
Reconhecendo o inalcançável,
Baixando o olhar.
Pois o que pode a fala? Por que dizem
Que, cantada, faz de arma?
Se com ela não nos municiamos.
Se, com a morte de uma Grécia antiga,
Perdemos o condão de nomear
Deuses e sentimentos e até
As pequenas moléculas, enfim, nomear o real
Que, naquele caso, incluía o tremendo e a maravilha?
Esses, os que levavam para a praça
Quezílias, sim, projectos e também,
E, sobretudo, uma noção de polis
E de uma paridade vigiada,
Severamente vigiada.
Os Gregos, esses
Que narravam o medo para que o medo
Se tornasse visível, prisioneiro
Na teia do poema,
Se não compreensível, pelo menos
Transformado em espectáculo – essa Grécia,
Essa Atenas perfeita, mais perfeita
Que qualquer utopia, a rapariga
Inesperadamente transformada
Numa ruína,
Esses – que não existem
E nos deixaram assustados, sós,
Sob o sem-rosto, sós,
Sem as ferramentas adequadas,
Sem pensamento,
Sem esses deuses temperamentais
Que tomavam partido nos combates,
Nós, os abandonados, os que não
Sabem sequer como aplacar
E a quem,
Nós, os emudecidos,
Irmanados com os sem-terra, nós,
Os futuramente esfomeados,
Bárbaros com os pés no alcatrão,
Bebedores de petróleo, como pode
De novo a praça,
A Ágora, juntar-nos?
Transformados em porcos, por feitiço,
Pela malevolência,
Exactamente
Como na Odisseia,
Não sabemos
- e os Gregos esqueceram –
Como é que tal feitiço
Se desfaz? 

Hélia Correia, poema publicado no Público de 21 de Janeiro de 2012.

terça-feira, 8 de abril de 2014

ARTE POÉTICA


Por motivos vários, o canto de intervenção, antes do 25 de Abril, possui mais interesse, também qualidade, principalmente ao nível dos poemas, do que aquele que se seguiu ao Movimento dos Capitães.

Fácil é perceber-se o porquê.

Este Pare, Escute e Olhe de José Jorge Letria é um bom exemplo do que se afirma.

Editado em 1971 tem no seu lado B Arte Poética, um bonito poema de Hélia Correia para o qual Letria fez a música e que foi largamente cantado nos tempos do combate à ditadura.

Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.


Por motivos nunca explicados (omissão tipográfica, qualquer outra…) a canção apenas referia a autoria de José Jorge Letria.

 Não sei se em edições posteriores foi feita a rectificação, mas recordo-me de um protesto publicado no República de 19 de Outubro de 1971.

Já agora, publique-se o texto, é do silêncio que vos falo, que José Jorge Letria fez publicar na contracapa do disco:

Foi mais de um ano de silêncio (depois do primeiro disco-fracassado). Mais de um ano de silêncio inteiramente assumido. Voluntariamente aceite. É fora dos circuitos normais (televisão, rádio, promoção, venda) que, dolorosamente, sem trincheiras nem disfarces, se descobrem os amigos (?), que se aprende a abominar a hipocrisia e a falsa coerência, a miséria das intenções, a ignorância das coisas elementares.

É no silêncio (um certo silêncio, entenda-se), que se descobre a utilidade das palavras. O seu fogo. A sua forma exacta. A sua acutilante facilidade de chegar onde mais ninguém chega. E ao mesmo tempo a sua infinita pobreza. A sua enorme timidez. Sim, porque as palavras são tímidas. Haverá alguém que duvide?

Para mim conservo a certeza de que está tudo ainda por fazer. Não são meia dúzia de discos ou de frases publicitárias, publicamente ditas, que definem uma música e lhe dão a necessária consistência. Desfaçam-se pois os equívocos. Já não é sem tempo. A quem me ouvir deixo, entretanto, a possibilidade de transformar em acto (ou quase) o que no canto se propõe. Se isso não acontecer fico, pelo menos, com a certeza de ter levado até ao fim a minha ingenuidade. Ou seja o silêncio donde partiu. Para os que ficarem pelo caminho vai também a minha saudação.



domingo, 26 de fevereiro de 2012

ZECA


Quero falar-te e o coração, de comovido,
Perde as palavras que juntara para ti.
Cantar-te sei e apenas isso faz sentido.
Menino de oiro,
Vem sentar-te aqui.
Menino de oiro,
Vem sentar-te aqui.

Por todo o ano é tempo de cantar janeiras.
Mulher da erva, ainda agora a vi passar.
Por mar profundo, terra e todas as fronteiras
Venham mais cinco
Mil p’ra te saudar.
Venham mais cinco
Mil p’ra te saudar.

Pode o sol morrer de velho,
Pode o gelo arder também.
Mas a voz que de ti nasce
Já não morre com ninguém.

No céu cinzento, o astro mudo ainda revela
Um bater de asas, o disfarce do seu pé.
Bebem do sangue, comem tudo, olhai, cautela
O que faz falta
Já se sabe o que é.
O que faz falta
Já se sabe o que é.

Junta-te a nós, ó bairro negro, vem, falua,
P’la noite fora até que se erga o sol do Verão
Solta as amarras, sopra, ó vento, continua,
Que este homem não
Se foi embora, não.
Que este homem não
Se foi embora, não.

Pode o sol morrer de velho,
Pode o gelo arder também.
Mas a voz que de ti nasce
Já não morre com ninguém.

Hélia Correia

Nota do editor:
Poema de Hélia Correia para uma música de Janita Salomé e que faz parte do álbum L’Amar de Filipa Pais.

Legenda: Cartaz encontrado em A Cinco Tons.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

ARTE POÉTICA


ZIP ZIP
ZIP 30 020/S

Pare, Escute e Olhe - José Jorge Letria
Arte Poética - Hélia Correia/José Jorge Letria

Tal como "Erguer a Voz e Cantar" de António Macedo, “Arte Poética”, a faixa B deste single, foi largamente cantada, antes do 25 de Abril, em convívios estudantis e trabalhadores.

Trata-se de um bonito poema de Hélia Correia com música de José Jorge Letria.

Não sei se, em posteriores edições, alguma vez foi feita a devida correcção, mas no disco não consta a autoria do poema “Arte Poética”. Mesmo em espectáculos públicos de então, pelo menos aos que assisti, José Jorge Letria não mencionava o nome de Hélia Correia.

Bom, mas isto são coisas que já lá vão e é bem provável que alguma rectificação tenha sido feita.

Na contracapa José Jorge Letria deixou escrito um texto em que pretende dar a conhecer as dificuldades sentidas na edição dos seus discos. Não apenas suas dificuldades, de outros também:

“Foi mais de um ano de silêncio (depois do primeiro disco-fracassado). Mais de um ano de silêncio inteiramente assumido. Voluntariamente aceite. É fora dos circuitos normais (televisão, rádio, promoção, venda) que, dolorosamente, sem trincheiras nem disfarces, se descobrem os amigos (?), que se aprende a abominar a hipocrisia e a falsa coerência, a miséria das intenções, a ignorância das coisas elementares."É no silêncio (um certo silêncio, entenda-se), que se descobre a utilidade das palavras. O seu fogo. A sua forma exacta. A sua acutilante facilidade de chegar onde mais ninguém chega. E ao mesmo tempo a sua infinita pobreza. A sua enorme timidez. Sim, porque as palavras são tímidas. Haverá alguém que duvide?"Para mim conservo a certeza de que está tudo ainda por fazer. Não são meia dúzia de discos ou de frases publicitárias, publicamente ditas, que definem uma música e lhe dão a necessária consistência. Desfaçam-se pois os equívocos. Já não é sem tempo. A quem me ouvir deixo, entretanto, a possibilidade de transformar em acto (ou quase) o que no canto se propõe. Se isso não acontecer fico, pelo menos, com a certeza de ter levado até ao fim a minha ingenuidade. Ou seja o silêncio donde partiu. Para os que ficarem pelo caminho vai também a minha saudação."

"Arte Poética"

”Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão”