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quinta-feira, 2 de abril de 2020

MUITO BREVEMENTE E PARA ACABAR DE VEZ COM HANK WILLIAMS


Museu Hank Williams, na Commerce Street. Discos, cartazes, roupa, manuscritos de letras de canções, instrumentos musicais e o Chevrolet azul claro, que já vos mostrei, apesar de ser rigorosamente proibido tirar fotografias no interior...  
   
Estátua de Hank Williams à entrada de Riverfront Drive, junto ao rio Alabama, numa das extremidades de Commerce Street. 


O atual e muito seleto Club 50/50, em Montgomery Street, era nos anos 50 o Elite Café, onde
Hank Williams atuou em público pela última vez, num espetáculo de beneficência em favor da  Associação de Músicos de Montgomery.  O verdadeiro último espetáculo a solo foi em 
Austin, no Texas, no dia 19 de Dezembro.
Mas no dia 28 de Dezembro Hank estava tranquilamente aqui sentado à mesa a comer um steak quando lhe perguntaram se não se importava de subir ao palco e cantar um par de canções. 
Hank aceitou, cantou quatro e Lovesick Blues” terá sido  a última que alguém o viu cantar em vida. Agradeceu, regressou à  mesa e acabou de comer o steak




Circular Hank Williams, em torno do cemitério de Montgomery




Memorabilia diversa.

Texto e fotos de Luís Miguel Mira.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

HANK WILLIAMS - OS FILMES


Se Hank Williams não teve sorte em muitas coisas na vida, o certo é que também  a não teve no que  toca aos filmes que sobre ela se debruçaram.

Que eu saiba existem três, um de 1964 e os restantes dois bastante mais recentes. Nenhum deles teve estreia comercial em Portugal, embora em relação ao primeiro não o possa afirmar com  absoluta certeza…

I Saw the Light”, realizado em 2016 por Marc Abraham com Todd Hiddleston como protagonista, não teve direito a estreia comercial mas passou há um ano e picos nos canais Telecine.

Para mim é o melhor dos três, embora longe de poder honrar devidamente a memória de Hank Williams.

O narrador do filme é o produtor e compositor Fred Rose, que foi o grande impulsionador da carreira de Hank, e tudo se passa em “flashback”. Começa com o casamento na tal bomba de gasolina da Texaco, e depois revisita os momentos mais relevantes da sua carreira.  Neste aspeto, é o mais fidedigno dos três filmes, embora se arraste demasiado na relação de Hank com a mulher, Audrey,  para depois meter a martelo o “downfall” de Hank de forma muito pouco credível.

A música do filme é interpretada pelo próprio ator Todd Hiddleston, com o apoio de uma banda, The Saddle Spring Boys. Não é má e não é por ela que o gato vai às filhoses…

The Last Ride”, realizado em 2011 por Harry Tomason com Henry Thomas como protagonista debruça-se, tal como o próprio nome indica, sobre os dois últimos dias da vida de Hank Williams.


Mas mais valia que se tivesse dito que o filme era “inspirado em…”, tal a distorção que é feita em relação à realidade dos factos, incluindo o trajecto da própria viagem... 

O filme, que não deixa de ser simpático se nos esquecermos de Hank Williams,  não pretende ser mais do que a história de uma amizade que em pouco tempo se desenvolve entre quem conduz a viatura e quem vai no banco traseiro.  Mas, entre outras coisas, não consta que Charlie Carr tenha encontrado a mulher da sua vida durante essa curta viagem nem, muitos menos, que Hank Williams lhe tenha deixado as chaves do belo Chevrolet azul claro como herança…!

A música não se faz sentir muito durante o filme, mas foi editado o CD com o suposto “soundtrack” no qual, entre outros intérpretes, aparece a filha de Hank, Jett Williams.

Para o fim reservei-os o pior…

Your Cheatin’ Heart” foi realizado em 1964 por Gene Nelson e tem George Hamilton como protagonista. 

É o único dos três filmes que, embora muito brevemente, evoca a infância de Hank, quando ele andava com uma caixa de engraxar sapatos aos ombros para ganhar uns cobres e a aprender música com Rufus “Tee-Tot” Payne.  Mas é um filme sem ponta por onde se lhe pegue, que se borrifa na verdade dos factos, faz de Hank um pobre pateta e não tem outro objetivo senão meter uma música a martelo de cinco em cinco minutos.  

O melhor do filme ainda consegue ser a música, interpretada pelo filho de Hank, Hank Williams Jr. Mas perdoe-se ao rapaz o ter participado neste objeto  ultrajante para a memória do seu pai, porque o pobre miúdo não tinha, na altura,  mais do que 15 anos de idade…


A culpa deste desastre não é tanto do ator e realizador Gene Nelson mas, sobretudo, do produtor Sam Katzman que, depois de ter deixado o seu nome ligado a alguns curiosos filmes de ficção-científica de série B nos anos 50, descobriu o filão dos teen-agers nos anos 60 e encadeou, com a MGM,  uma série de banais filmes musicais com os ídolos da adolescência (Elvis, Roy Orbison, Johnny Cash e até Astrud Gilberto e os Herman’s Hermits…), todos eles de muito baixo orçamento, mas que lhe deram a ganhar rios de dinheiro.      

Gente deste calibre não morre em quartos de hotel, a não ser em trabalhos de esforço com uma ou duas boas companhias… E, muito menos, no banco traseiro de um automóvel, com a cabeça encostada à janela…

Morre em Hollywood ou em Miami. Refastelados à beira de uma piscina, calções, uma camisa berrante com palmeiras e florzinhas, um boné à Trump na cabeça e um último cocktail colorido na mesinha do lado...    

Texto de Luís Miguel Mira

terça-feira, 31 de março de 2020

HANK WILLIAMS OU A SOLIDÃO ACOMPANHADA


“He sang fron his heart, took the pain for his fans
Who watched the pain in his heart
Them they sat and they clapped their hands”

Tim Hardin, “Tribute to Hank Williams”

Nas suas “Chronicles Vol. 1” Bob Dylan afirma que Hank Williams era a sua grande referência até ter mergulhado em Woodie Guthrie.

E vai mais longe. Conta que quando soube da morte de Hank naquele dia 1 de Janeiro, fez figas para que não fosse verdade. Quando se deu conta, diz ele, foi como se uma árvore gigantesca tombasse com estrondo, ou um peso enorme lhe tivesse caído em cima dos ombros... 

Muitas décadas depois a devoção de Dylan ainda não tinha esmorecido e ele foi um dos impulsionadores do muito agradável projeto coletivo “The Lost Notebooks of  Hank Williams” (2011), no qual colaborou também o seu filho Jakob, feito com base em letras e ideias para canções deixadas em esboço por Hank Williams.

Há muitas maneiras de entrar em Hank Williams.

Dylan é um “construtor de canções” e nas “Chronicles” espraia-se longamente sobre a “estrutura  das canções”, a “aritmética das silabas”,  os pilares em que assenta   a “arquitetura” de uma poesia cantada... 


A mim faltam-me conhecimentos e nunca lhe poderia entrar por aí…

Mas basta-me ouvir um simples acorde e sei, de imediato, que estou numa canção de Hank Williams. Muito antes  de começar a ouvir a sua voz anasalada, que parecia tão estranha para a “Country” como a da Billie Holiday o era para o Jazz vocal.

Quanto às canções, prefiro entrar-lhes pela porta da solidão…

Não conheço, de facto, cantor nenhum cuja música evoque tantas vezes a palavra “lonesome”,  seja nos títulos seja nas próprias letras das canções.

As canções de Hank Williams são um rosário de infortúnios, tristezas, desencontros, sonhos perdidos,  esperanças esfumadas...

Um perfeito melodrama em longa rotação e talvez seja por isso que eu, gostando tanto de melodramas, delas também tanto gosto.

Na Folk dos anos 60 cantava-se muito “it takes a worried man to sing a worried song”, e  tomo de empréstimo a ideia para vos garantir que  “it takes a lonely man to sing a lonesome song”…

Muitos dos personagens das canções de Hank Williams foram destroçados por uma mulher:

“Like a bird that’s lost its mate in flight
I’m alone and, oh, so blue tonight
Like a litle peace of driftwood in the sea
May you never be alone like me

I believe those lies you told me
When you whispered “Deer, I worship thee!”
Now here I am, alone and blue
All because I loved no one but you

I gave up my friends, I left my home
When you promised to be mine alone
Now you’re gone, our love could never be
May you never be alone like me”

(“May You Never Be Alone” - 1949)

                         ou

“Hear that lonesome whippoorwill
He sounds too blue to fly
The midnight train is whinning low
I’m so lonesome I could cry

The silence of a falling star
Lights up a purple sky
And as I wonder where you are
I’m so lonesome I could cry”

(“I’m só Lonesome I Could Cry - 1949)

                  ou ainda

“Take this chains from my heart and set me free
You’ve grown cold and no longer care for me
All my fate in you is gone, but the heartaches linger on
Take this chains from my heart and set me free

Take this tears from my eyes and let me see
Just a spark of the love that used to be
If you love somebody new, let me find a new love too
Take this chains from my heart and set me free”

(“Take This Chains From My Heart” - 1952)


Mas apesar de usados e enganados, parecem guardar dentro de si uma enorme saudade:  

“I had a woman who couldn’t be true
She made me for my money and she made be blue
A man needs a woman that he can lean on
But my leanin’ post is done left and gone
She’s long gone, and now I’m lonesome blue”

(“Long Gone Lonesome Blues - 1950)

                     ou

“Today I passed you on the street
And my heart fell at your feet
I can’t help it if I’m still in love with you

Somebody else stood by your side
And he looked so satisfied
I can’t help it if I’m still in love with you

A picture from the past came slowly stealin’
As I brushed your arm and walked so close to you
Then suddenly I got that old time feelin’
I can’t help it if I’m still in love with you”

(“I Can’t Help It (If I’m Still in Love With You)” - 1951) 

O cúmulo do sofrimento, para eles, parece ser verem, ao longe,  a sua antiga companheira casar-se com outro:

“I have the invitation that you sent me
You wanted me to see you change your name
I couldn’t stand to see you with another
But dear I hope you’re happy just the same

Wedding bells are ringing in the chapel
That should be ringing out for you and me
Down the aisle with someone else you’re walking
Those wedding bells will never ring for me”

(“Wedding Bells” - 1949)

                            ou

“I’ll pretend I’m free from sorrow
Make believe that wrong is right
Your wedding day will be tomorrow
But there’ ll be no teardrops tonight

Why, oh why,  should you desert me?
Are you doing this for spite?
And If you only want to hurt me
There’ ll be no teardrops tonight”
      
(“There’ll be no Teardrops Tonight” - 1949)


Para depois imaginarem, mais tarde, o seu próprio filho chamar pai a outro homem:

“Tonight my head is bowed in sorrow
I can’t keep the tears from my eyes
My son calls  another man daddy
The right to his love I’ve been denied

My son calls another man daddy
He’ll never know my name nor my face
God only knows how it hurts me
For another to be in my place”

(“My Son Calls Another Man Daddy” - 1950)

E chegarem à conclusão que ninguém sente a sua falta e que a sua morte mais não deixará do que indiferença:

“Everybody’s lonesome for somebody else
But nobody’s lonesome for me
Everybody’s thinking about somebody else
But nobody thinks about me

When the time rolls around me to lay down and die
I’ll bet I’ll have to go and hire someone to cry
Everybody’s lonesome for somebody else
Nobody’s lonesome for me”

(“Nobody’s Lonesome For Me” - 1951)

Outras vezes, porém, a culpa da solidão e do sofrimento é apenas deles e dos pecados que terão cometido na vida:

“I’m a rolling stone, all alone and lost
For a life of sin, I have paid the cost
When I pass by, all the people say
“Just another guy on the lost highway”

I was just a lad, nearly twenty-two
Neither good or bad, just a boy like you
And now I’m lost, too late to pray
Lord I’ve paid the cost on the lost highway”

(“Lost Highway” - 1948”)

                  ou

“All alone, I bear the shame
I’m a number, not a name
When the evening train goes by
I heard that lonesome wistle
All I do is sit and cry
When the evining train goes by
I hear that lonesome whistle blow

I’ll be locked here in this cell
‘till my body’s just a shell
And my hair turns whiter than snow
I’ll never see that girl of mine
Lord I’m in Georgia doing time
I heard that lonesome wihstle blow”

(“(I Heard) That Lonesome Whistle - 1951)

                   

Hank Williams tinha um espécie de pseudónimo, Luke The Drifter, sob o qual  interpretava canções de forte inspiração religiosa, a maior parte das vezes declamadas, sussurradas, muito mais do que cantadas, com um discreto acompanhamento musical. 

Como em “Beyond the Sunset” (1950), uma das mais bonitas:

“Beyond the sunset, oh blissful morning
When with our Saviour, Heaven is begun
Earth’s toilling ended, oh glory downing
Beyond the sunset, when day is done”

Bob Dylan conta que ouvia as canções de Luke The Drifter até à exaustão, nelas se envolvendo com tal fervor que saia a acreditar, piamente, na bondade dos homens...

Uma vez, no Texas, Hank Williams era suposto cantar num piquenique gigante, mas naquele dia não estava pr’aí virado. Tentou baldar-se mas os promotores do evento encostaram-no à parede, porque centenas de pessoas já tinham pago o seu bilhete de acesso e haveria distúrbios, pela certa...

Aborrecido, Hank rendeu-se à evidência. Mas quem subiu ao palco naquele dia não foi ele, mas Luke The Drifter…

Agora imaginem aquelas centenas de texanos de tronco nu, uma caneca de cerveja numa mão e uma perna de borrego na outra, à espera de poderem cantar e rodopiar, apanharem com um sermão acerca dos pecados nesta terra e dos desígnios do Senhor…!

Teve dificuldades em abandonar o local e, apesar de tudo,  muita sorte, porque no Texas de outros tempos teria saído dali nu, mergulhado em alcatrão e coberto de penas de aves…!

Mas Hank Williams não era sempre assim tão sério nem sempre assim tão triste…


Quando se sentia bem cantava os prazeres desta vida, como em “Jambalaya”, dedicada a um dos principais petiscos do Louisiana, com a qual me lembro de ter, numa noite bem regada,  massacrado os meus amigos com todas as versões que dela tinha, e eram muitas, garanto-vos, começando em Fats Domino e acabando na Emmylou Harris...:

“Goodbye Joe me gotta go me oh my oh
Me gotta go pole the pirogue down the Bayou
My Yvonne the sweetest one me oh my oh
Son of me gun we’ll have big fun on the Bayou
Jambalaya and a crawfish pie on a filé gumbo
‘cause tonight I’m gonna see my cher amio
Pick guitar, fillet fruit jar and be gay-o
Son of the gun we’ll have big fun on the Bayou”

(“Jambalaya (On the Bayou)” - 1952)

  E até dava, de vez em quando, uma de Quim Barreiros:

“Say hey good loookin’, what ya got cookin’ ?
How’s about cookin’ something up with me?
Hey sweet beby, don’t you think maybe
We can find us a brand recipe?”

(“Hey Good Lookin’” – 1951)

Mas ninguém lhe levava a mal….

Poderíamos continuar por aí fora, mas não vos quero maçar mais…

Ponhamos uma destas músicas a tocar...

Apaguemos a luz, façamos silêncio e acabemos a história dando, de novo, a palavra a Bob Dylan...   

“When I hear Hank sing, all movement ceases, the slighter whisper seems sacrilege”


Legenda:

- Capa de uma das muitas colectâneas de canções de Hank Williams
- Guitarra de Hank Williams no “Country Music and Hall of Fame Museum”, de Nashville
- Placa no “Hall of Fame”, no mesmo Museu
- Vista geral do Hall of Fame
- Postal do Museu HW de Montgomery 

segunda-feira, 30 de março de 2020

SAM SHEPARD - MR. WILLIAMS


No seu livro de crónicas de viagem “Days Out of Days” (2010), que na minha edição francesa se chama “Chroniques des Jours Enfuis”,  Sam Shepard tem um texto acerca da morte de Hank Williams.

Não é das melhores peças saídas da mão do autor de “Crónicas da América”, mas tem a enorme vantagem de se poder juntar a nós à conversa, como que aderindo à versão da morte no hotel.

Nessa crónica a história é contada através do porteiro do hotel, que jura ter visto Mr. Williams morto e bem morto… Morto e rígido como uma estaca… E terá sido o médico, com a injeção que lhe deu, quem o matou...

Mas vestiram-no assim mesmo...

Um fatinho azul claro.

Uma camisa de um branco imaculado.

Uma gravata amarela com uma pequena palmeira bordada a meio.


Botas de um preto cintilante, com pequenas guitarras e notas de música encrostadas.

E um chapéu Stetson branco creme bem enfiado na cabeça.

Arrastaram-no assim até ao carro, o “chauffeur” de um lado, o porteiro do outro.

Ao atravessarem o “hall”  de entrada o rececionista meteu-se com eles, perguntando se Mr. Williams não teria bebido um copito a mais…

Mas o mais estranho, conta ele, é que, apesar de morto, um estranho ruído rouco saia da boca de Mr. Williams, como um impercetível som de folhas levadas pelo vento. O murmúrio da morte, certamente, o último pedaço de ar que se escapa do corpo...  

Vê-se tanta coisa quando se é porteiro de um hotel, mas uma destas nunca antes tinha visto.

Um som terrível, de facto.


Estranha coisa esta um homem que passou a sua vida inteira a cantar como um pássaro sublime, acabar os seus dias com um som como este…




PS:

A crónica de Sam Shepard é muito curta e anexo-a, para quem por ela se interessar.

Texto de Luís Miguel Mira

domingo, 29 de março de 2020

ANDREW JACKSON HOTEL, KNOXVILLE


Na autoestrada 40 a caminho de Nashville, onde nos esperava um concerto do Gordon Lightfoot no Ryman, fiz um pequeno desvio para Knoxville, como tinha previsto.

Quando cheguei ao centro da cidade estava aflito para ir à casa de banho e meti o carro no primeiro parque de estacionamento que encontrei.  Era uma espécie de Posto Turístico que servia, também, de Receção para visita à casa de um importante general lá da terra que havia participado na Guerra da Secessão.

Entrei por ali adentro a correr em direção ao wc e à saída fui falar com o empregado que se encontrava ao balcão. Por sorte era o dia de encerramento da casa do general e safei-me comprando dois ou três postais.

Porque tinha de alimentar a  conversa, perguntei-lhe o que já muito bem sabia, isto é, se aquele grande edifício que ficava  ali atrás, “Andrew Jackson Building”, era o antigo “Andrew Jackson Hotel” onde Hank Williams tinha passado a sua última noite antes de morrer.  

A sua resposta foi:  “That depends on the story you believe in...

Sorri-lhe e percebi que, como era natural, ele sabia do que estava a falar…. É que há várias versões acerca da morte de Hank Williams.

Mas façamos um “flashback” e contemos a história do princípio.

Já tínhamos visto que naquele malvado ano de 1952, Hank Williams estava de rastos.

Tinha-se divorciado e casado quase logo de seguida com outra mulher, por pura vingança, decerto…

Andava ou tinha andado envolvido com uma outra mulher, de quem esperava um filho.

Tinha sido expulso do “Grand Ole Opry” e das outras principais estações de rádio  em que participava, e tinha também visto ser cancelada a sua ligação a um produtor tão influente como já era, na altura, Fred Rose.


A sua saúde ia de mal a pior, já que uma grande queda dada no ano anterior, quando caçava na companhia de um amigo,  lhe tinha agravado o seu problema das costas e só a dose conjunta de medicamentos e álcool lhe atenuava as dores. Envolveu-se, na altura, com um charlatão que se dizia médico altamente graduado,  o qual lhe prometeu milagres na cura da sua doença, mas à custa de morfina e outras drogas afins.


Embora Hank Williams não ligasse patavina ao dinheiro, de finanças também não deveria andar  muito bem porque o divórcio saíra-lhe caro: a mulher ficara com a custódia do filho,  com a  casa e com metade dos seus futuros “royalties”, enquanto não se voltasse a casar.

Também devido a isso, tinha recomeçado a atuar nos “honky-tonks” à volta de Montgomery, atuações essas que não raro acabavam em cenas de pancadaria quando alguém lhe mandava uma “boca” mais inconveniente.  

Mas Hank não se deixava abater e tinha, para já, conseguido dois novos espetáculos para fim do ano, um em Charleston, a 31 de Dezembro, e outro em Canton, no Ohio, a 1 de Janeiro.

Por essa altura do ano o tempo estava péssimo no Sul dos Estados Unidos, e gorara-se a possibilidade de fazer as viagens de avião.

Hank lembrou-se, então, do filho de um conhecido seu que tinha uma empresa de Taxis, que por vezes encontrava a fazer biscates numa bomba de gasolina, onde nunca deixava de elogiar o seu vistoso Cadillac azul claro. Perguntou ao rapaz se estava preparado para ser seu motorista numa viagem de ida e volta ao Ohio, o rapaz respondeu-lhe que era um verdadeiro às do volante e foi contratado na hora. Tinha 17 anos de idade...

 O rapaz chamava-se Charlie Carr e a partir daqui o que vos conto foi o que o próprio Carr contou, muitos anos depois...



Hank e Carr meteram-se à estrada em Montgomery às 13h00 do dia 30 de Dezembro de 1952, com a certeza de irem encontrar, para além da chuva, muito gelo e até neve pelo caminho. Para o aquecer na viagem Hank ia preparado com seis “packs” de cerveja Falstaff…

Hank ia animado no início da viagem, cantando e contando anedotas e metendo-se com o miúdo por este não saber quem cantava, na rádio, “Jambalaya”…

A primeira parte da viagem não foi muito comprida, porque dormiram em Birmingham, a menos de 200 km de distância. Mas sairiam de madrugada no dia seguinte.

Em Chattanooga, no Tenessee, já nevava e Hank percebeu que a única alternativa que lhe restava para poder chegar a horas a Charleston era ir a Knoxville apanhar um avião, o que conseguiu fazer.

O avião levantou voo às 15h00 do dia 31, mas o tempo estava de tal maneira mau que teve de fazer meia volta e regressar à base.  De novo em Knoxville dirigiram-se ao hotel “Andrew Jackson”, onde se instalaram no quarto nº 17.




Entretanto, o estado de saúde de Hank Williams piorara pelos motivos do costume: álcool misturado com drogas, já que Hank despachara rapidamente as cervejas que levara e já tinha comprado uma garrafa de bourbon no caminho.  Não parava de tossir...

Na sua inexperiência, o jovem Carr começava a ficar assustado. Falou com o representante de Williams, o qual lhe deu instruções para chamar de imediato um médico, mas que, custasse o que custasse, levasse Hank até Clanton para o espetáculo do dia seguinte, sob pena de ter de pagar uma pesada indemnização ao promotor do concerto e pôr em risco a possibilidade de futuros contratos. Mas, para o conseguirem, teriam de sair de imediato e fazer a viagem de noite 

Hank pouco comeu. Soluçava muito e tinha dificuldade em engolir.

O médico deu-lhe uma injeção de vitamina B12 com morfina, e Hank dormiu vestido em cima da cama até às 22h00. 

Pelas 22h45 abandonaram o hotel e Hank teve de sair de cadeira de rodas, ajudado pelos porteiros do hotel, mas entrou no carro pelo seu próprio pé, garante Carr. Taparam-no com uma manta, para o proteger do frio.

Mas o tempo piorara e não se podia andar depressa.  Carr fazia o que podia numa estrada coberta de gelo e, após uma ultrapassagem, quase foi acabar em cima de um carro-patrulha que estava à beira da estrada.  Uma ida à esquadra, uma multa, perda de tempo, maior nervosismo…

Numa bomba de gasolina perto de  Bristol, Carr parou para comer uma bucha e perguntou a Hank se queria comer alguma coisa. Este saiu para desentorpecer as pernas e disse que não queria nada, a não ser dormir… Terão sido as suas últimas palavras.

Umas horas depois Carr começou a achar estranho a ausência de ruído no banco traseiro. Parou para ver… Hank estava dobrado sobre o banco da frente, de mão no peito… O seu corpo já estava hirto.

Na primeira bomba de gasolina que encontrou perguntou por um hospital. Uma tabuleta, nas proximidades, indicava Oak Hill, West Virginia...

O diagnóstico médico foi paragem do coração por enfarte. Parece que a hora não foi rigorosamente determinada, mas raiava a manhã do dia 1 de Janeiro de 1953.  




No banco traseiro do carro foram encontradas garrafas, embalagens de medicamentos e vários papeis soltos com letras de canções, algumas delas inacabadas.

 Hank Williams, o cantor do sofrimento, da tristeza e da solidão,  morria sozinho no banco traseiro de um automóvel, de cabeça encostada à janela, tendo como única companhia uma garrafa e um frasco de comprimidos...

Imagino-o nos seus últimos momentos a ver a neve cair sobre os ramos das árvores, os reflexos dos faróis na estrada molhada…  E aposto que, dentro de si, ainda terá escrito uma nova e última canção… 

Naqueles tempos a informação não corria com a rapidez de hoje, e a sala do “Canton Memorial Auditorium” estava apinhada de gente ansiando pelo início do espetáculo, sem sequer sonhar com o que se passava...

Tim Hardin contou-o à sua maneira:

“The chauffeur steered the car that night
To the town next in line to the show
With his name and date in lights
And the people with tickets to go

Hardly nobody knew that night how soon they’d be crying
Hardly nobody knew that night Hank williams was dying”

Quando um elemento da Organização subiu ao palco para  informar o que se passava, as pessoas na assistência começaram por se rir, pensando que se tratava de uma brincadeira para justificar mais uma das habituais faltas de comparência de Hank…

Mas a banda de apoio e todos os que se encontravam no palco deram os braços e começaram a cantar em coro “I Saw the Light”, uma “gospel song” que parece ser de tempos longínquos, mas que Hank Williams” escrevera em 1946... A assistência compreendeu então a triste notícia, ergueu-se das suas cadeiras e todos cantaram em coro:

“I saw the light, I saw the light
No more dakness, no more night
Now I’m só happy, no sorrow in sight
Praise the Lord, I saw the light!”

Desejo sinceramente que, algures a meio do caminho, a tenha mesmo visto...

PS:

A história de Carr é considerada a mais credível, mas existem, pelo menos, mais duas versões.

Uma, em que muito boa gente acredita, é que terá morrido no quarto do hotel, na sequência do violento “shot” de morfina que o médico lhe deu. Nem o médico nem a Gerência do hotel se queriam ver envolvidos nessa embrulhada, e Carr terá recebido bom dinheiro para se calar… De facto, para além das declarações que teve de prestar à Polícia no momento, Carr nunca abordou publicamente o assunto durante décadas, apenas o tendo feito já nos seus últimos anos de vida, sem alterar uma vírgula à sua versão inicial.

Uma terceira versão, mais fantasiosa e muito pouco credível, é que Hank terá sido alvo de um ajuste de contas devido a esquemas obscuros de tráfego de drogas em que estaria envolvido, não para negociar, mas para assegurar o seu stock . Poucos dias antes da viagem, Hank envolvera-se em mais uma cena de pancadaria num bar de Montgomery. O seu corpo ainda tinha escoriações dessa rija, o que levantou suspeitas e alimentou especulações.  Carr não se teria apercebido de nada ou, então, teria sido seriamente ameaçado de morte se contasse alguma coisa...  

PS 2:

A minha memória está uma desgraça...  

Ia jurar que tinha comprado, no Museu Hank Williams de Montgomery (de onde provêm as fotografias do Cadillac azul que vos mostro, emprestado ao museu pelo filho de Hank) um suplemento de um jornal da terra onde Carr, já velhote,  contava com muito detalhe a sua história. Não o encontrei…

Em contrapartida, disse-vos que não tinha nenhum livro acerca de Hank Williams, e menti… Ainda no museu comprei este  opúsculo de 40 páginas que agora me lembro de ter lido no voo de regresso. Arrumei-o e nunca mais de lembrei dele. 

Mas a história de Charlie Carr encontra-se facilmente na Net. 

PS 3:

Sam Shepard,  num dos seus livros de crónicas de viagens, tem um curioso texto acerca da morte de Hank Williams. Para não vos sobrecarregar, deixarei isso para depois...

Texto de Luís Miguel Mira