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terça-feira, 6 de junho de 2017

AS REGRAS DO HANK


Muito mais tarde, descobriria que Hank tinha vivido com dores tremendas, sofria de graves problemas de coluna – e que a dor devia ser uma tortura. Sabendo isto, ainda é mais impressionante ouvir os seus discos. É quase como se ele desafiasse sa leis da gravidade. Quase que gastei o disco «Luke the Drifter». É aquele em que ele canta e recita parábolas como as Beatitudes. Conseguia ouvi-lo todo o dia, perder-me nele, ficar completamente convencido da bondade do homem. Quando ouço o Hank cantar, todo o movimento cessa. O mais suave murmúrio parece um sacrilégio.
Com o tempo, apercebi-me de que nas canções gravadas do Hank estavam as regras arquetípicas da composição musical poética. As formas arquetípicas são como pilares de mármore e tinham que lá estar. Até as suas palavras – as sílabas estão todas divididas de tal forma que fazem perfeito sentido matemático. Pode-se aprender bastante sobre a estrutura de composição ao ouvir os seus discos, eu ouvi-os vezes sem conta e interiorizei-a. Daí por alguns anos, Robert Shelton, o crítico de jazz e folk do New York Times, faria uma crítica a uma das minhas actuações e diria qualquer coisa do género, «assemelha-se a uma fusão entre um menino de coro e um beatnik… ele viola todas as regras da composição, excepto a de ter alguma coisa para dizer». As regras, quer Shelton soubesse ou não, eram as regras do Hank, mas o meu propósito não era propriamente quebrá-las. É que aquilo que eu estava a tentar expressar ia para além da «esfera».

Bob Dylan emCrónicas

segunda-feira, 29 de maio de 2017

UM MURRO NO ESTÔMAGO


O Hank não era uma cabeça tonta. Não havia nada de apalhaçado nele. Mesmo em jovem, identificava-me completamente com ele. Não precisava de experimentar nada que Hank fizesse para saber sobre o que ele cantava. Nunca tinha visto um pisco-de-peito-ruivo chorar mas conseguia imaginá-lo e sentia-me triste. Quando cantou «the news is all over town», eu soube de que notícias se tratava, ainda que na verdade não soubesse. Assim que pudesse, iria também ao baile gastar os sapatos. Vim a saber mais tarde, que Hank morrera no banco de trás de um carro no dia de Ano Novo, fiz figas, e esperei que não fosse verdade. Mas era verdade. Era como se uma grande árvore tivesse caído. A notícia da morte do Hank foi um murro no estômago. O silêncio cósmico nunca soou de forma tão gritante. Ainda assim, soube, instintivamente, que a sua voz nunca desapareceria ou definharia – uma voz que lembrava uma bela trompa.

Bob Dylan em Crónicas

quarta-feira, 17 de maio de 2017

TODOS TOCAMOS MÚSICA FOLK


Se precisasse de acordar realmente depressa, punha a «Swing Low Sweet Cadillac» ou a «Umbrella Man» de Dizzy Gillespie. Hot House do Charlie Parker era outro dos discos muito bons para acordar. Havia muito poucas almas por aí que tivessem visto e ouvido Parker a tocar, e parecia que ele lhes tinha transmitido uma essência secreta da vida. «Ruby My Dear» de Monk era outro. Monk tocava no Blue Note na 3rd Street com John Ore no baixo e Frankie Dunlop na bateria.
Às vezes ele ficava por lá a tocar sozinho ao piano umas coisas que se pareciam com as do Ivory Joe Hunter – uma grande sandes meia comida deixada em cima do piano. Passei por lá à tarde uma vez só para ouvir – disse-lhe que tocava música folk umas ruas acima. «Todos tocamos música folk», disse-me. Mesmo quando andava na vadiagem Monk estava no seu próprio mundo dinâmico. Até nessas alturas inflamava a essência das coisas com nuvens mágicas.
Gostava muito do jazz moderno, de o ouvir nos clubes… mas não segui nem fui apanhado por ele. Não se alimentava de palavras banais com significados especiais. Eu precisava de ouvir coisas claras e simples em bom inglês e as músicas folk eram o que mais directamente me falava. Tony Bennett cantava em bom inglês e eu gostava de um dos seus discos – aquele chamado Hit Songs of Tony Bennett, que tinha «In the Middle of an Island», «Rags to Ritchies» e a canção do Hank Williams «Cold, Cold Heart».

Bob Dylan em Crónicas

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O INTENSO E AGRIDOCE MUNDO SOLITÁRIO


As canções do Woody Guthrie regulavam o meu universo mas, antes dele, Hank Williams tinha sido o meu compositor favorito, embora fosse sobretudo como cantor que eu o visse. O Hank Snow andava empatado. Mas nunca consegui escapar do intenso e agridoce mundo solitário do Harold Arlen. Van Ronk conseguia cantar e tocar estas canções. Eu também mas nunca sonharia fazê-lo. Não estavam no meu guião. Não estavam no meu futuro. O que era o futuro? O futuro era uma parede sólida, não promissora, não ameaçadora – apenas pedra. Não havia garantias de espécie alguma, nem mesmo de que a vida não fosse uma grande anedota.

Bob Dylan em Crónicas

Legenda: Harold Arlen