Não, não rezes por mim.
Nenhum deus me perdoa a humanidade.
Vim sem vontade
E vou desesperado.
Mas assinei a vida que vivi.
Doeu-me o que sofri.
Fui sempre o senhorio do meu fado.
Por isso, quero a morte que mereço.
A morte natural,
Solitária e maldita
De quem não acredita
Em nenhuma oração
De salvação.
De quem sabe que nunca ressuscita.
Miguel Torga
Legenda: fotograma
de Harry Dean Stanton em Paris Texas
Esteve aqui, há dias por causa desse extraordinário Paris Texas.
Contava 91 anos.
Com apurada formação musical teve uma carreira
cinematográfica em que, qualquer papel, fosse secundário ou principal, o levava
a brilhantes interpretações.
Os filmes de Wim
Webders foram, há semanas, revisitados no Nimas, em Lisboa, sim ainda é uma
sala de cinema.
E, necessariamente,
teria de ser exibido Paris,Texas esse belíssimo filme de Wim Wenders, pensado,
escrito, filmado em total estado de graça, tudo envolvido na magnífica banda
sonora criada por Ry Cooder, que teve o feeling de ir buscar uma velha canção
mexicana, uma canção que tem tanto de bonita como de arrepiante: Qué lejos estoy del suelo donde he
nacido inmensa nostalgia invade mi pensamiento y al verme tan solo y triste
cual hoja al viento quisiera llorar, quisiera morir de sentimiento.
De notar as
extraordinárias interpretações e de Harry Dean Stanton no papel do solitário
Travis e de e Nastassja Kinski, no papel de Jane. O filme foi escrito por
Sam Shepard e tem um dos
mais extraordinários diálogos, arrepiante diálogo, do cinema: «I Knew These
People.»
Há uma boa dezena de
anos, copiei, do blogue «Paixões e
Desejos», feito por Paula e Rui Lima, o longo diálogo entre Travis e Jane.
Nunca mais consegui
aceder a este blogue.
Desconheço os motivos. O que quer que se tenha passado, lamento.
Distinguido com o
Grande Prémio do Festival de Cannes de 1984, Paris, Texas conta a história de
um homem que sofre de amnésia e da sua luta para reconstruir uma vida feita em
pedaços. Travis regressa a Paris, no estado do Texas, ao fim de quatro anos,
porque uma das poucas coisas de que ainda se lembra é de a sua mãe lhe ter dito
onde ela e o seu pai fizeram amor pela primeira vez.
Paris, Texas é um
filme de solidões e de solitários. Travis, boné vermelho na cabeça, pelo
Deserto Mojave à procura dos passados que cada um de nós transporta, amarguras
profundas, nostalgias, melancolias, o outro lado do arco-íris.
Há quem diga que só
andamos por aqui a administrar a nossa solidão.
Nascer é inaugurar a
solidão, escreveu o Álvaro Guerra.
Nunca aprendemos a
dizer adeus, ou se aprendemos, aprendemos mal.
Alguém terá que andar
só para os outros andarem acompanhados, deixou escrito Virgílio Ferreira.
O que fica?
Talvez um perfume
ligeiro, uma qualquer ventania a varrer o Deserto Mojave, ou qualquer outro
deserto, que abre o coração ao meio e que talvez permita alguém falar, com alguma
peculiaridade, de um bem-estar na solidão.
Perguntaram isso ao
Alexandre O’ Neill.
Ele respondeu: a
solidão procurada é boa a não procurada, às vezes, é chata.
Quem viu o filme,
lembra que o diálogo entre Travis e Jane ocorre numa pequena sala de "peep-show",
separados por um vidro que lhe permite a ele vê-la a ela, mas não o
contrário:
Travis – Posso dizer-lhe uma coisa?
Jane – Tudo o que quiseres!
- Vai levar tempo.
- Tenho o tempo todo.
- Eu conhecia-os.
- Quem eram?
- Duas pessoas... Amavam-se uma à outra... A rapariga era muito nova, 17 ou 18
anos. E o homem era bastante mais velho. Era rude e selvagem. E ela era muito
bela.
- Sim.
- Ambos faziam de tudo uma aventura. E ela gostava disso. Uma simples ida à
mercearia já era uma aventura. Riam de coisas estúpidas. Ele gostava de a fazer
rir. Pouco se importavam com o resto, pois só queriam uma coisa... estarem um
com o outro. Estavam sempre juntos.
- Deviam ser muito felizes...
- E eram. Verdadeiramente felizes. Ele amava mais... do que julgava ser
possível. Não suportava estar longe dela quando trabalhava. Então largava o
trabalho. Só para estar com ela em casa... Quando faltava o dinheiro arranjava
outro trabalho. E deixava-o também. Mas não tardou que ela se inquietasse.
- Porquê?
- Pelo dinheiro, suponho. Por não ter bastante.
- Uhm...
- Por não saber quando chegava o cheque
- Sei o que isso é.
- Ele então começou a atormentar-se.
- Como assim?
- Por ter de trabalhar para a sustentar, mas não suportou estar longe dela.
- Ah!
- Quanto mais longe dela estava mais enlouquecia. Até que enlouqueceu mesmo.
Pôs-se a imaginar coisas.
- Que coisas?
- Que ela encontrava outros homens na sua ausência... Ao voltar do trabalho
acusava-a de ter estado com outro. Berrava, partia coisas na caravana.
- Na caravana?
- Sim, eles viviam numa caravana.
- O senhor não veio ver-me no outro dia? Sem ser indiscreta...
- Não.
- Oh! Julguei reconhecer a sua voz.
- Não! Não era eu.
- Continue.
- Ele então começou a beber muito. Voltava tarde, para a pôr à prova.
- Pô-la à prova como?
- Para ver se ela tinha ciúmes.
- Ah!
- Queria que ela tivesse ciúmes, mas ela não os tinha. Só se inquietava por
ele, o que o enfurecia ainda mais.
- Porquê?
- Por pensar que ela não queria saber dele. Os ciúmes seriam sinal de que o
amava. Então uma noite... ela disse-lhe que estava grávida. De três ou quatro
meses, e ele não sabia. Então tudo mudou. Ele deixou de beber e arranjou um
trabalho fixo. Convenceu-se de que ela o amava, pois trazia um filho dele. Ia
consagrar-se inteiramente a dar-lhe um lar. Mas aconteceu uma coisa estranha.
- O quê?
- De começo ele nem reparou que ela tinha mudado. Desde que nascera o menino,
tudo a irritava. Tudo a enfurecia. Mesmo o menino lhe parecia uma injustiça.
Ele esforçava-se por lhe agradar. Dava-lhe presentes. Levava-a a jantar fora,
todas as semanas. Mas nada a satisfazia. Durante dois anos, ele fez tudo para
voltarem a ser como eram no começo. Mas acabou por compreender que era
impossível. Então voltou a beber, mas as coisas azedaram. Quando voltava tarde
ela não estava inquieta, nem ciumenta. Estava enraivecida. Acusava-o de a ter
sequestrado fazendo-lhe um filho. Dizia-lhe que sonhava fugir. Não sonhava com
outra coisa: fugir. Via-se a correr de noite... toda nua, através dos campos,
sempre a correr. E sempre que ela estava prestes a invadir-se, ele aparecia a
detê-la. Aparecia e detinha-a. Quando ela lhe contava esses sonhos, ele
acreditava. Sabia que se a não detivesse ela fugiria. Prendeu-lhe uma campainha
ao tornozelo, para a ouvir, se ela tentasse levantar-se de noite. Ela aprendeu
a abafar a campainha com uma peúga, e a esgueirar-se da cama. Mas a peúga caiu
quando ela já ía na estrada. Ele agarrou-a e amarrou-a ao fogão com o cinto.
Deixou-a ali e tornou-se a deitar. Ouviu-a gritar, sem se mover. Depois ouviu o
filho aos gritos... e admirou-se de não querer saber de nada. Tudo o que queria
era dormir. E, pela primeira vez desejou estar longe dali. Perdido num vasto
país onde ninguém o conhecesse. Num lugar sem linguagem e sem ruas. Sonhou com esse
lugar sem lhe saber o nome. E quando despertou.... estava a arder. Chamas azuis
queimavam os lençóis da cama. Correu para os dois únicos entes que amava... Mas
tinham partido. Tinha os braços em brasa. Saiu para fora da casa e rolou-se no
chão molhado... E depois correu. Nunca se voltou para ver o fogo. Só correu.
Correu até ao nascer do sol. Até não poder mais. E quando o sol se pôs tornou a
correr. Correu assim durante cinco dias. Até que sem deixar sinais...
desapareceu.
- Travis...
- Se apagares a luz aí dentro, poderás ver-me?
- Não sei... nunca experimentei.
- Podes ver-me?
- Sim.
- Reconheces-me?
- Oh! Travis...
- Trouxe o Hunter comigo. Não queres vê-lo?
- Sim. Queria tanto vê-lo, que não ousava imaginá-lo. A Anne mandava-me
fotografias dele. Pedi-lhe que deixasse de as mandar. Não suportava a dor de o
ver crescer longe de mim.
- Porque não ficaste com ele?
- Não podia. Não tinha aquilo de que ele necessitava. Não queria utilizá-lo
para encher o vazio da minha vida.
- Ele agora precisa de ti Jane. E quer ver-te.
- Ele quer?
- Está à tua espera.
- Onde?
- Na cidade. Num hotel. Le Meridien... quarto 1520.
- Tu não te vais embora, pois não?
- Eu não posso ver-te Jane.
- Não vás ainda... Não vás ainda... Fazia-te grandes discursos depois de
partires. falava-te a toda a hora, mesmo só. Enquanto caminhava, meses a fio.
Agora... não sei o que dizer. Era mais fácil quando te imaginava que me
respondias, tínhamos longas conversas os dois. Era como se lá estivesses.
Via-te, sentia o teu odor. Ouvia a tua voz. Ás vezes a tua voz despertava-me, a
meio da noite, como se estivesses ali. Depois... tudo se dissipou lentamente.
Já não podia imaginar-te. Tentei falar-te, mas em vão. Já não te ouvia.
Então... renunciei. Tudo parou. Tu... desapareceste, simplesmente. Agora,
trabalho aqui. Oiço a tua voz a toda a hora. Cada homem tem a tua voz.
- Vou dizer ao Hunter... que vais chegar...
- Travis...
- Sim.
- Lá estarei.
- Óptimo.
- Hotel Meridien...
- Sim. Quarto 1520.
Na banda sonora, Cancion Mixteca é cantada por Harry Dean Stanton.
Coppola é um homem em quem se pode confiar: faça filmes, faça vinho, o
que quer que seja.
Filme para a tal ilha deserta?
Indubitavelmente One From The Heart.
Vinte e seis milhões de dólares, de que se recuperou um milhão e que
levou à falência a Zoetrope.
Quem corre por gosto não cansa.
Poucos filmes de Coppola existirão
que não estejam rodeados de lendas, algumas de desgraça.
Por norma, os filmes incompreendidos pelas maiorias são os melhores.
Um 4 de Julho em Las Vegas, amores e desamores, uma extraordinária
banda sonora composta por Tom Waits, por ele interpretada a que se junta
Cristal Gayle e o resultado é um dos mais belos filmes da história do cinema,
um acto de amor, de ternura, de vontade, do fundo do coração.
Um filme fascinante, um mergulho na luz, no som e no desencanto, belo
até às lágrimas
.
Hollywood sempre olhou Coppola de soalaio.
Não gostaram de o ouvir dizer:
O cinema não é só para ver. O cinema é para amar. E
quem não ama o cinema guarda, no seu íntimo, qualquer coisa de inacabado e,
quem sabe? Uma discreta dose de imbecilidade.
Tudo isto para vos dizer que amanhã a Cinemateca exibe One From the
Heart e se há filmes que apenas podem ser vistos numa sala escura, este é um
deles:
ONE FROM THE
HEART
DO FUNDO DO
CORAÇÃO
de Francis Ford Coppola
com Frederic Forrest, Teri Garr, Raul Julia, Nastassja Kinski,
Harry Dean Stanton
Estados Unidos, 1982 - 100 min
Legendado em português | M/12
Sala Dr. Félix Ribeiro 15,30 Horas
Com esta feérie romântica, Coppola propôs-se
reinventar o musical numa Las Vegas de estúdio e com grandes inovações
técnicas. Aqui tentou fazer nascer a sua companhia, a Zoetrope, e aqui se
afundou economicamente o realizador, mesmo que o filme tenha ficado como uma
das obras mais decisivas dos anos oitenta. É o filme de Coppola com a célebre
banda musical de Tom Waits e Crystal Gayle, com, entre outras canções, I
Beg Your Pardon, This One’s from the Heart e a canção que abre o álbum
entretanto editado que começa ao som da moeda a cair.