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terça-feira, 4 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Portugueses na Califórnia

Helder Pinho
Prefácio: Jorge de Sena
Posfácio: Eduardo Mayone Dias
Capa: João da Câmara Leme
Editorial Notícias, Lisboa, Outubro de 1978

A saudade e a solidariedade foram as duas características bem portuguesas que mais nos revelaram os nossos compatriotas. Elas aprendidas e assimiladas no berço natal, constituem em muitos dos casos a razão de ser da ligação do emigrante
À pátria que o viu nascer.
- É a maior catástrofe do açoriano, a saudade. Ele não é capaz de esquecer nada, quando emigra, leva tudo consigo: a ilha, o pai, a mãe, os gatos, os cães, os coelhos… As ilhas, aquelas queridas ilhas, andam sempre às costas com ele, açoriano, e, quando volta a pisar terra portuguesa a primeira coisa que faz é perguntar: ó minha mãe onde é que está isto e aquilo que ali estava?...

terça-feira, 23 de maio de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Uma das muitas vezes que vi Belarmino, filme-reportagem de Fernando Lopes. foi na noite de 10 de Outubro de 1972, na televisão a preto e branco da ditadura.

O filme fechava um breve ciclo dedicado ao cinema português.

Guardo o recorte do Diário Popular desse dia e onde Baptista-Bastos deixou uma breve evocação:

Era uma vez um filme à procura de espectadores. Foi há tantos anos que muitos dos que nele participaram só de vago se recordam: os dias vararam os meses, outra década surgiu, e o que figurava como imprecação e cólera – é, apenas, a ingénua aspereza de um protesto. O tempo sugere estas direcções inesperadas: o índice moral altera-se e as porções de coisas que entendêramos como verdades inarredáveis irão, sempre, obedecer a outros estatutos, «Belarmino» (é necessário dizê-lo) nasceu de projectos asseados e da urgência que tínhamos em cometer alguns desacatos. Gente considerável viu no seu comovido inconformismo um panfleto contra a fome e o desespero de um homem – quando era, tão-sòmente, a forma humilde de manifestarmos a incomodidade de termos trinta anos e de viver em Portugal perfilados na mesma coragem de ser campeões sem murro, poetas sem rima, cronistas sem coluna, bebedores sem bebida. Amantes sem amor. O filme procurava os espectadores que jamais teve: estreado num cinema de bairro, apoiado pela grita e pelo entusiasmo dos cineclubes – essa noite foi um alvoroço e uam discreta esperança. A peregrinação das conversas, entre o Vává, o Ribadouro e o Monte Carlo, num esquerdismo festivo que desejava áulicos e trompetistas da nossa efémera glória, cumpriu-se durante alguns meses. Mas «Belarmino», no Aviz era a desolação e o riso; um filme à procura daquela gente para quem Belarmino-o-homem afinal se dirigira sempre: «às vezes as palmas apeteciam-me mais do que as bolas de Berlim com que enganava a fome.» O recado que queríamos dar foi apressado, certamente; foi tosco, desajeitado e parvo, talvez. Mas esta noite, quando a Televisão fizer correr o filme para dois milhões de espectadores, há uma que estará a dobrar o cansaço para aquém do tempo, a sonhar as mesmas cóleras e as mesmas imprecações. E, talvez, a pensar que os miúdos desta cidade se recusam, hoje, a ser campeões. Campeões de quê? Campeões de quê?
Responde lá, ó Belarmino…



O Helder Pinho foi o responsável por vender a ideia ao Mário Castrim para que o Belarmino fizesse parte de um dos Encontros do Diário de Lisboa-Juvenil:

O retrato de um antigo lutador de boxe, Belarmino Fragoso, através das suas deambulações por uma Lisboa que já não existe. A solidão, o medo e a derrota cruzam-se num filme que baralha o documentário, a ficção e a entrevista num passeio por antigas salas de cinema e clubes nocturnos.

Para um catálogo da Cinemateca dedicado a Fernando Lopes, escreveu Manuel Monzos:

O Fernando fez um dos filmes que mais estimo e admiro. É o Belarmino. Apesar de não o achar perfeito, tenho por ele um enorme carinho, não somente pelo filme em si, mas, e talvez principalmente, por aquilo que pude sentir e aprender do que pode ser também o cinema.
A primeira vez que o vi foi há muitos anos, ainda era um miúdo e desde então recordo-o pela estranha sensação de surpresa e espanto com que fui confrontado com algo tão directo, tão próximo e tão real.
Foi um dos meus tios que nos fez vê-lo, a mim e aos meus primos, porque para além do que ele gostava do filme, trabalhavam nele dois dos seus amigos, o Manuel Jorge Veloso e o Augusto Cabrita.
Isso para mim já era divertido, pois através do meu tio eu também os conhecia.
Mas o que realmente me impressionou foi o próprio filme. Tudo o que nele se encontrava me era próximo. Era Lisboa, a Baixa e mesmo o meu bairro, a Mouraria. As ruas por onde andava, as pessoas com quem me cruzava.
Era o estádio do meu clube e o clube do bairro, a Barros Queirós, o Arcádia, o largo de São Domingos, onde muitas vezes encontrei Belarmino Fragoso, um tipo a quem eu até cumprimentava quando nos cruzávamos.


Pela primeira vez via um filme que me dava a sensação de poder estar lá, era um mundo palpável de coisas reais e que eu conhecia. E isso era fantástico. Essa possibilidade que descobria com aquele filme, daquilo que o cinema permitiria.
Nessa época ainda não pensava vir a dedicar-me ao cinema, mas dos fi lmes que via nos cinemas de bairro, como o Royal, o Rex, o Liz, o Cine-Oriente, ou nas grandes salas como o Império, o Monumental, o Tivoli, o Alvalade, o
Avis, os cinemas da rua dos Condes, nas escolas, salões paroquiais ou no Centro Espanhol, nesses primeiros filmes que via apenas com a emoção inocente de quem «vê» uma história, entre eles recordo bem o Belarmino por isso.
Essa capacidade de usar e reproduzir o real. E também o modo como era feito, mesmo sem perceber nada disso nessa altura, aquilo usava a montagem de um modo novo e surpreendente para mim e não tinha nada a ver com
o que eu vira até então. Aquilo foi forte e marcou-me. Mesmo hoje é um filme que revejo com enorme carinho e considero dos melhores filmes Portugueses.

Belarmino é um dos Amigos Pensados que o Alexandre O’ Neill deixou estampado na Feira Cabisbaixa:

TIVESTE  jeito, como qualquer de nós,
e foste campeão, como qualquer de nós.

Que é a poesia mais que o boxe, não me dizes?
Também na poesia não se janta nada,
mas nem por isso somos infelizes.

Campeões com jeito,
é a nossa vocação, nosso trejeito.

Esperam de 1 a 10 que a gente, oxalá, não se levante
– e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.

Belarmino:
Quando ao tapete nos levar
a mofina;
tu ficarás sem murro,
eu ficarei sem rima,
pugilista e poeta, campeões com jeito
e amadores da má vida.

Uma das perguntas do Baptista-Bastos no filme do Fernando Lopes:

- Belarmino, tu és um homem ou um animal?


- Um pugilista é sempre um homem.


Belarmino Fragoso morreu a 19 de Abril de 1982.

Baptista-Bastos escreveu a notícia, o requiem por aquele bailarino em pleno ringue, um movimento perpétuo, um vigor que não se estilhaçava, um vulcão de poder e de força.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A TERRA É O PROVÁVEL PARAÍSO PERDIDO


Na hora da sua morte, encontrar um texto do Bastos para aqui colocar, teria que ser da Cidade Diária e, mais concretamente, este Então que é isso, ó Vitinha?!

O Helder Pinho andava sempre com o livro debaixo do braço, um livro todo riscado, com as margens cheia de ideias e comentários e chegou a ter de cor este Vitinha e uma outra crónica Sobre Domingo,ele que vivia perto do rio, na Rua da Manutenção, junto a Xabregas e sabia da ronca dos barcos no Tejo em noites de nevoeiro, e sempre que a malta se juntava, recitava:

Ao domingo entendemos que somos feitos de muitas almas, que dissemos «sim» à inutilidade aparente das coisas e às coisas definitivamente inúteis, que não escolhemos o nosso modo de existir, ele aconteceu e assim terá de ser até à soma final dos dias, que vivemos punidos, unidos, solitários, mas sempre e sobretudo com os outros – o que será a avulsa dor da nossa glória.

Os mestres encontravam-se pela noite, num qualquer bar entre Bairro Alto e o Largo da Trindade. O Eduardo Valente da Fonseca, que, a qualquer hora do dia, da noite, vagabundeava entre a redação do República e os tascos e bares em redor, acabava sempre por dizer onde estava o Bastos. Normalmente o poiso certo poiso era o Expresso Bar. Ali no Largo da Trindade.

Bebíamos e falávamos na noite, tal como escreveu o BB numa outra volta que até mete o Manuel da Fonseca.

Ou como escreveu o Ângelo Granja, numa saudação, publicada no Diário Popular, a Capitão de Médio Curso, livro do Bastos de 1978:

Precisamos falar, capitão. se trouxeres contigo o Baptista-Bastos, ficaremos, como dirá o teu armador, à bebida e à conversa, falando, se calhar. De jornais e jornalistas, de mulheres e amor, de vinho e bebedeiras, e, isso sem falta, de livros e escritores. Precisamos falar, capitão, porque homem calado não faz viagem, é como os barcos de qualquer curso, logo sem curso, emergindo destroços num mar de palha, por aí qualquer.

Tudo isto, ainda a faltar algum tempo para o Bastos desatar a perguntar: onde é que estavas no 25 de Abril?

O Bastos dizia: Sou louco. Toda a gente diz que sou louco. É a minha felicidade. Muitas vezes que as pessoas consideram loucura é uma busca desesperada de sinceridade.

Pelo Outono de 1995, numa entrevista à revista Ler, mostrou-se cansado das mesmas conversas de bares. Ele envelhecera. Os outros também.

Sempre fui um homem de bares, de tertúlias, de grupos de amigos. Sempre fui um homem de beber, fiz estas coisas de uma forma excessiva: beber excessivamente, amar excessivamente, ainda hoje faço isso. Na bebida tive de cortar um bocado…

Gosto muito desta crónica do Baptista-Bastos, mesmo muito.

Numa das últimas vezes que estive com o Helder Pinho, sempre a mudar de amores, de casas, desprendido de tudo e mais alguma coisa, ainda lhe perguntei se não me queria vender o seu exemplar anotado da Cidade Diária. Respondeu-me que já não sabia por onde o livro ficara. E se ainda o tivesse, não mo vendia, dava-mo.

O Helder era como o Bastos: fazia tudo excessivamente e por um Agosto quente do ano de 2003, o coração disse-lhe que já não aguentava mais.

As cinzas foram lançadas ao Tejo para que ele pudesse continuar a ouvir a ronca dos barcos do Tejo, em noites de nevoeiro, tal como contava o Bastos, coisas que sugerem a vontade do sossego e da paz.

Legenda: o título é de um poema do Lorca que o BB, amiúde, citava, e o recorte é uma notícia do Expresso de 23 de Março de 1988.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

CRAVOS E VERDI


Nos últimos anos da ditadura, o Teatro São Carlos estabeleceu uma parceria com o Coliseu dos Recreios de modo a que as óperas que Eram representadas no São Carlos também pudessem ser vistas na velha sala das Portas de Santo Antão.

Era a possibilidade de um vasto leque da população, sem dinheiro, nem fraque, nem jóias para frequentar São Carlos, pudessem usufruir desses espectáculos, como que dando seguimento à célebre frase de António Silva de que a ópera é música para operários.

Quando, nessa noite,  24 de Abril de 1974, perto de cinco mil pessoas aplaudiram freneticamente os artistas, com Alfredo Kraus e Joan Sutherland à frente do elenco, que representaram La Traviatta de Verdi, já as senhas do Movimento das Forças Armadas tinham sido transmitidas pela rádio.

A reportagem do Diário de Notícias dava conta que, no meio das ovações intermináveis, cravos foram lançados das frisas.

Regressando a suas casas, desconheciam que esse começo de 25 de Abril não era mais um dia do calendário, um dia como outro qualquer.

Um regime decrépito, que nos massacrava os ouvidos com afirmações de coragem e heroicidade, que se as forças do mal atentassem contra a  ordem estabelecida, vinham  para as ruas dar o peito às balas.

Em escassas horas, o senil regime esfrangalhou-se.

Não soltaram um pio.

Como disse o Hélder: foi um ar que lhes deu.

A partir desse dia, protagonistas de uma grande esperança, nem nos pesadelos mais negros, admitimos que viríamos a ser invadidos por um desencanto sem nome.

Aconteceu!

Encharca-nos os dias.


Mas é bom não esquecer que há coisas que não têm fim: a esperança num mundo melhor, por exemplo, e a luta por consegui-lo. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

SAUDADES DE D. HELDER


Anos e anos e anos de conversas com o Helder Pinho. 

Os dedos de uma mão chegam para dizer as vezes em que essas conversas não eram bem regadas.

Numa dessas noites, a conversa girava à volta do Luiz Pacheco e, a determinado ponto, o Helder deixou dito, preto no branco, que para compreender e sentir o Luiz Pacheco era preciso ter passado fome.

Ficámos a olhá-lo.

Ninguém esboçou qualquer comentário.

Quando o Helder Pinho desencantava saídas destas, ficava tão feliz como se lhe tivessem oferecido uma bicicleta pelo Natal.

Legenda: fotografia de Helder Pinho da autoria de Maurício Abreu.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


 Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes
 ou casas de pasto em que, sobre uma loja com feitio
 de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma
 feição pesada e caseira de restaurante de vila sem
 comboios. Nessas sobrelojas, salvo ao domingo
 pouco frequentadas, é frequente encontrarem-se
 tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de
 apartes na vida 

                 Fernando Pessoa em Livro do Desassossego                                                

Ao fim de 61 anos o Restaurante Palmeira, na Rua do Crucifixo, fechou portas na antevéspera de Natal.

Não mais as abrirá.

A câmara vendeu o prédio em hasta pública e os novos donos deverão ter em perspectiva a construção de um hotel.

É o que está a dar na baixa lisboeta.

O Palmeira era um dos últimos tascos de Lisboa onde se podia usufruir daquilo que se chama comida caseira.

Um balcão, como deve ser um balcão dum tasco, comprido, à direita de quem entra.

Comida a saber a comida.


Uns fabulosos pastéis de bacalhau, dobrada, cozido à portuguesa, feijoada à transmontava, mão de vaca com grão, favas à portuguesa, ervilhas com ovos e, todos os dias, um prato diferente de bacalhau.

Sabe-se que há, pelo menos, cem maneiras de cozinhar bacalhau.

No Verão, os caracóis.

E sempre o grito do Helder, citando Luiz Pacheco: caracóis, dizem, faz tesão.

A minha memória do Palmeira é mais de antes do 25 de Abril.

Ali aportava, mais o Helder Pinho, o Armindo, o Zé Ferraz, mais uns quantos, para o petisco e para elaborar planos para o derrube da ditadura.

Planos sem-fim.


Apenas romantismo e cavaqueira.

Para derrubar a ditadura, outros tiveram que meter mãos à obra.

Mas, naquelas mesas, ficaram muitas memórias, camaradagem, sonhos.

Jorge Sampaio, enquanto presidente da Camara, amiúde almoçava no Palmeira e a clientela metia estudantes das Belas Artes, magistrados do Tribunal da Boa Hora, trabalhadores de diversas profissões, ricos e pobres, mas tudo gente de bom gosto, que sabem o que é comer e beber de uma maneira que cada vez acontece menos em Lisboa.

E não só!


Passei por lá no findar do dia de encerramento.

Cheio que nem um ovo, à porta, em trabalhos de preparo, uma camara de reportagem de uma qualquer televisão.

Entrei só para fazer os bonecos que ilustram o texto.

Não me apeteceu comer, nem beber.

Odeio despedidas.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O ÚLTIMO NÚMERO DE "A CAPITAL"


Primeira página do último número de A Capital, 30 de Julho de 2005, um sábado, tendo como director interino Paulo Narigão Reis.

Em 21 de Fevereiro de 1968 os ardinas passavam a ter mais um título de vespertino para apregoar. E com alguns, saía assim: Lisboa, Capital, República, Popular.

O jornal nasce de uma cisão no Dário de Lisboa. Norberto Lopes, director, Mário Neves, sub-director, juntamente com outros jornalistas, saem do Lisboa e formam a Sociedade Gráfica de A Capital.

Não alinhava com o regime mas não representou uma situação de oposição aberta.

Maria Teresa Horta coordenava o suplemento literário, Isabel da Nóbrega coordenava uma página feminina com ares novos, António Torrado dirigia o suplemento infantil, José Saramago coordenava o suplemento A Semana e esvrevia crónicas que, mais tarde, vieram a constituir o livro Deste Mundo e do Outro.

Na sucessão de directores que o jornal teve ao longo tempo, aparecem os nomes de David Mourão-Ferreira e Francisco Sousa Tavares.

Alguns dos jornalistas de A Capital, de antes do 25 de Abril: Rudolfo Iriarte, Manuel Beça Múrias, Daniel Ricardo, Adelino Tavares da Silva, Manuel Batoréo, José João Louro, Pedro Alvim, Alice Nicolau e o meu amigo Hélder Pinho.

O perfeito louco, o inventor de histórias e reportagens.

José João Louro, seu camarada de redacção:

Hélder Pinho, para mim, o verdadeiro repórter. O mais autêntico até ao «naifismo». O inventor do Leão de Rio Maior. Dezasseis primeiras páginas – o surrealismo na imprensa portuguesa. Foi leão, canguru, até acabar como cão-d’água. Um leão que assustou e entreteve o País. O fascismo decadente e podre pôs-se à caça do leão pelas serras, aventureiro em busca de uma ilusão.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

MEMÓRIAS


Naqueles tempos eram singulares as prendas de casamento.
Por exemplo: fomos contemplados com três despertadores.
Prendas são prendas os amigos é que são importantes.
O Hélder Pinho andou, a pé, um mês inteiro de Xabregas para o emprego nos CTT da Gomes Freire, para nos oferecer 3 EPs.
Devidamente numerados e com dedicatória espalhada pelos três discos.
Massachusetts dos Bees-Gees é o terceiro disco que ele ofereceu.
O Nr. 1 é Rosa de Sangue do Adriano Correia de Oliveira, o nº2  é Baladas de Coimbra do Dr. José Afonso.
O tempo decorrido fez desaparecer, em grande parte, o que o Hélder escreveu.
O Hélder Pinho deixou-nos em 3 de Agosto de 2003.
Tinha 55 anos e ficou-nos a fazer falta a sua loucura Pânica.
O Armindo dizia que ouvir Massachusetts o arrepiava.
Tempos muito felizes, os desta canção.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

EM DEMANDA DE CARACÓIS


É efémero, enquanto petisco, o tempo do caracol.

Não morro de amores pelos ditos, sou mais tordos fritos, pico uns quantos para fazer companhia a amigos, dois dedos de conversa, uns fininhos.

Sei dos amigos que aguardam, ansiosamente, a chegada desse tempo, e, nos escassos meses que dura, percorrem tascos e baiucas, em busca do caracol perfeito.

A esses amigos deixo aqui uma sugestão que encontrei no “Expresso”.

O aconselhador, não apanhei o nome do autor, peço desculpa, diz que os caracóis da Casa do Benfica de Reguengos merecem uma visita. Assim:

“Os caracóis da Casa do Benfica de Reguengos, bem como as bifanas em molho de bife com pão alentejano.”

Por aqui, cada vez que se fala em caracóis, salta comovente chapelada ao Helder Pinho que, a propósito de tudo e de nada, recitava esta frase do Luiz Pacheco, retirada do lindíssimo “Os Namorados”:

“Caracóis, sabeis, é comida de sustância, peitoral, faz (dizem) tesão.”

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

UMA TARDE NA CAVE DO ARTUR BUAL


Foi por finais de 1966 que, pela vez primeira, fui até à Amadora. Deixava-se a estação do comboio e em tudo à volta, só se viam quintas e mais quintas, e hoje deparamos com aquele triste e horrível mundo de cimento e mais cimento.

Os pais do Armindo tinham um pequeno tasco no nº 299 da Avenida Elias Garcia.
Aos almoços frequentado por operários, aos jantares por gente idosa com estatuto de comensais, tudo numa atmosfera a lembrar os romances do José Rodrigues Migueis. Foi nesse tasco que, por uma noite de ingénuas conspirações para derrubar o regime, comi a mais saborosa e suculenta mão de vaca de jardineira que em minha vida inteira ao dente me chegou. Tudo num sossego, um devagar nos tempos, rematado com um café de saco, um bagacinho caseiro, uma cigarrilha “Alto”.

As conversas com o Armindo eram abrangentes e, amiúde, pelo meio improvisava poemas, conversas soltas, algumas intermináveis, como uma sobre o “Herzog” do Saul Bellow, que nunca se concluiu porque, de repente, me apanhei na recruta em Tavira e nesse lapso o Armindo, para fugir à guerra colonial, deu o salto para França. Apenas um postal ilustrado de Grenoble a dizer que chegara, e depois não mais notícias do Armindo, nem do Zé Ferraz que com ele seguira viagem. Ficou o som das conversas, imagens outras, aquele vocativo que os homens dão ao que não conhecem. Também um abraço constante, nas grandes distâncias e no breve tempo.

Mais ou menos por esses tempos também frequentei a cave-estudio-casa do pintor Artur Bual.
Uma vez, mais o Helder e o poeta e pintor Hugo Beja chegámos pelas duas da tarde e acabámos por perder o último comboio para Lisboa. Quem desfez o galho onde nos enfiámos foi o poeta~pânico Karlos Faria, que foi ter connosco à estação da Amadora onde , sentados, aguardávamos a passagem do primeiro comboio para Lisboa. Cada um dos três com um quadro que o Bual insistira que trouxéssemos. O meu ainda hoje é presença marcante nas paredes aqui da casa.

Ao lado da cave do Bual, numa rua vulgar da Amadora, havia um tasco onde por diversas vezes o palhinhas foi-se enchendo de tintol. Cada um a pagar o seu, o do Bual foi para o rol.
O Artur Bual morreu em 11 de Janeiro de 1999. Tinha 72 anos.

Autodidacta, gostava de dizer que nunca se preocupara em aprender. Preocupavam-no sim, um bom bacalhau assado, um rosto de mulher, os jogos do Benfica que ouvia numa telefonia. Chamaram-lhe pintor maldito, tal como ao Luiz Pacheco chamaram escritor maldito. Não gostava de críticos e borrifava-se no que diziam. As exposições passavam-lhe ao lado.

“O impulso é que é o grande estado de beleza da interioridade”

Naquela enorme tarde-noite de um Maio de 1967 não conseguimos que o Bual nos desse uma resposta sobre a sua obra. Uma apenas.

- Eh pá não me chateiem a tola!

O Helder, on road para o excelente repórter que haveria de ser em “A Capital”, onde fez de tudo, até crítico gastronómico sob roupagem de Dom Pipas, cheio de ingenuidade, dizia-lhe que era uma pena ele andar a esbanjar tanto talento e o Bual, pegando no copo de tinto, a lançar-lhe um

- E se fosses chatear o c…!

Acabou por sair uma reportagem-entrevista completamente chalada, publicada no “Diário de Lisboa”, mais de metade cortada pela censura, e que está para aí  perdida nas caixas que hei-de um dia abrir, amanhã é que vai ser, e será o dia de são nunca à tarde, um qualquer 30 de Fevereiro.

Eu já devia ter avisado que sou um dispersivo, perguntam-me as horas começo por dizer como se fabricam os relógios na Suiça. Vim aqui para colocar um poema do Armindo Miranda sobre a velha Amadora e meti-me por becos e atalhos. e já não atino com o fim a meada meada. Como o paleio se foi estendendo,  o poema vai em post à parte, um golpe de asa, um terno, ao mesmo tempo cínico, pequeno retrato de uma Amadora onde um apartamento custava cento e trinta e cinco contos, “pois, pois, J. Pimenta!”, como dizia o anúncio dos “Parodiantes de Lisboa”.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

MEMÓRIAS


Andando a navegar pela blogosfera, fui desaguar ao “blogue” Frenesi Loja que se dedica a vender, na blogosfera, livros em 2ª mão. Acabei por saber que Calos Faria morrera em Janeiro deste ano.. Este é o texto retirado da Frenesi:

“Lisboa, 1966
Editora Lux, Lda.
1.ª edição [única]
19,5 cm x 13,2 cm
80 págs.
capa impressa a duas cores e relevo seco
exemplar manuseado mas muito aceitável, miolo limpo
COM EXTENSA DEDICATÓRIA DO AUTOR ASSINADA E DATADA
30,00 eur

Carlos Faria, ou Karlos Faria, tendo nascido no Ribatejo foi autor de expressão açoreana, e nessa qualidade, aquando do seu recente (Janeiro de 2010) falecimento, foram os escritores Eduardo Bettencourt Pinto e Onésimo Almeida os únicos que o celebraram. Aí, no arquipélago, co-fundou suplementos literários como Glacial (no jornal A União) ou Basalto (no Correio dos Açores). Entre as dedicatórias dos seus poemas de Lisboa pode ser traçado o lugar poético de um convívio a todos os títulos interessante, a saber: José Gomes Ferreira, Herberto Helder e Mário Cesariny. E são, precisamente, os poemas dedicados a estes dois últimos aqueles que mais nos revelam acerca dos nossos anos sessenta: «Cloridrato de Heroína» e «Flash».
Do segundo:
«Bêbedo de lua
recito António Nobre e Becquer
pelas ruas de Nova York...
– certo de que na América ninguém repara
como na Europa ninguém ouve!
– “Eh, sailor! Where do you come from?”





Conheci o Carlos Faria em 1967, na cave-estúdio-casa que o  pintor Artul Bual tinha na Amadora.

Carlos Faria dizia-nos, então:

“Pânico é com Todos!” e “Pânico é incombustível”

O Helder Pinho delirava com aquela história do Pânico em plena ditadura salazarista, o Hugo Beja não percebia bem, o Armindo não tinha pachorra para excentricidades daquelas, por mim achava-o um tipo divertido. Grandes jantaradas naqueles restaurantes baratos que então havia no Bairro Alto. Andava sempre entre Angra do Heroísmo e Lisboa, a que chamava cidade pânica de reles silêncio, Kapital do Medo.

Em 1967 enviou-me o postal com o galo de Barcelos e nas costas escreveu um poema a que chamou “Epitáfio Pânico ao Galo de Barcelos”:

Um galo português é só pescoço!
- Ais de melancolia!
- “Bico” calado!
- Orelha Murcha!
- Olhos de Cegueira!
- Medo no peito!
- Coração no rabo!
- Doces, cornos farpados!
- Cornos de ½ Leca!

Depois fui para a tropa e nunca mais o vi.

Também nunca mais vi o Armindo, e o Hugo Beja passou um dia, como cliente, pela “Mariazinha” mas a Aida só se lembrou de quem era, quando já tinha saído, depois de deixar uma série de desenhos na toalha de papel, que acabámos por emoldurar e  pôr na parede da tasca e que o pintor Fernando Azevedo, cliente da “Mariazinha”, achava um belo e curioso traço.

O Helder Pinho morreu em 2003 com 55 anos. Jornalista desde os princípios de A Capital,”em 1968, não entendia a vida sem excessos e  morreu de um fulminante ataque cardíaco.