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terça-feira, 26 de junho de 2018

OLHAR AS CAPAS



em minúsculas

Herberto Helder
Selecção: Daniel Oliveira, Diana Pimentel, Raquel Gonçalves
Prefácio: Daniel Oliveira
Porto Editora, Porto, Abril de 2018

   «Vós sois o sal da terra.» Quem é o sal da terra? Por mim, acho que são as pessoas mais ou menos (ou até completamente) marginais: as que protestam contra, contestam, põem dúvidas sobre, ignoram ou não levam a sério, riem de, gozam com - a sociedade onde (por acaso, dizia o outro) se encontram. Vê a gente uma cidade e repara logo que ela respira pelo lado da irregularidade. A irregularidade que cria, evidentemente. Os lugares estão cheios de bom comportamento, entradas e saídas nos escritórios, tanto de largura e altura para as intenções e os actos, os respeitosos cumprimentos a vossências - e a irremediável venda de cada um, a curto ou a longo prazo. Ele é tudo almas à comissão ou à consignação. Mas eis que aparecem os extravagantes, os originais, os bizarros, os exóticos, os despassarados, os que não, os que trazem uma lá deles no meio da cabeça esfuziante. Eles são o sal da terra.

sábado, 2 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poesia Toda
2º Volume

Herberto Helder
Capa: Alda Rosa
Plátano Edotora, Lisboa, Setembro de 1973

BICICLETA

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.


O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.


De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.


Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.


Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Retrato em Movimento

Herberto Helder
Capa: espiga Pinto
Colecção Poesia e Ensaio nº 17
Editora Ulisseia Lda, Lisboa, Maio de 1967

Morrer era agora a minha liberdade, e eu tinha a vida inteira para executá-la pormenorizadamente.
Começo a perceber a que espécie de morte aspira atua interior coisa mortal – pensou a minha terrível ciência. – Tu queres a eternidade. Ouve: O desejo da eternidade é o fogo que mais depressa queima as mãos. Esse desejo é insolitamente morta.
Era a minha última liberdade, enquanto eu subia as escadas do metropolitano e entrava nos ciclos do tempo, no procedimento do meu próprio corpo e nos projectos da sensível inteligência do que nos vai acontecer.
Estás no máximo da tua velocidade, no exercício da tua música.
À minha volta anoitecia, e eu tinha todas as mãos queimadas.

domingo, 29 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poesia Toda
1º Volume

Herberto Helder
Capa: Alda Rosa
Plátano Editora, Lisboa, Fevereiro de 1973

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que quer dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas de melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha cara ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.

terça-feira, 24 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS



Os Passos em Volta

Herberto Helder
Capa: José Brandão e Keith Trickett
Editorial Estampa, Lisboa, Novembro de 1970

Em janeiro eu estava em Bruxelas, nos arredores, numa casa sobre a linha férrea. Os comboios faziam estremecer o meu quarto. Passara o natal. Alguma coisa desaparecera, alguma coisa importante em que se poderia ter confiado. Talvez a esperança. Eu não tinha dinheiro, nem livros, nem cigarros. Não tinha trabalho, nem ócio, porque estava desesperado. Por isso, passava o dia e a noite no meu quarto. Sobre a linha ao lado, em baixo, rangiam e apitavam comboios que talvez fossem para Antuérpia. Eu pensava em Deus, quando os comboios trepidavam nos carris, e quando apitavam tão perto de mim. Quando iam possivelmente a caminho de Antuérpia. Pensava nos comboios como quem pensa em Deus- com uma falta de fé desesperada. Pensava também em Deus, um comboio- algo que existe, não há dúvida, mas algo absurdo, uma coisa que parte com um destino confuso que pode ser Antuérpia, que possivelmente (evidentemente ) não era.
Às vezes vinha à janela e, por detrás dos vidros, olhava para o caminho de ferro. No entanto, antes de lá chegar, o meu olhar encontrava uma árvore esquisita que vivia em baixo num pequeno quintal burguês. Esta árvore metia-me medo como uma esperança em mim próprio, até como uma esperança mais vasta no destino dos homens. Dos homens? Há em mim a qualidade da confiança, mas sou um desesperado. Sinto-me, contudo, um homem. Possuo a propriedade do amor. Amo a minha semelhança com todos os homens, mas desespero junto desse mesmo amor. Estou fechado num quarto. Nem posso fumar. Não posso descansar. Imagino que é possível partir de Antuérpia, depois de lá ter chegado num desses comboios rangentes. Porém, Antuérpia não é um ponto de chegada. É uma cidade como as outras: com bares e nevoeiro, o silêncio das coisas, as pessoas, a matemática impenetrável das suas multiplicações e desmultiplicações, e com a música dos minutos que se corrompem. Em Antuérpia há prostitutas, há um calor humano degradado, e a embriaguez. Lá também se morre. Talvez alguém um dia tenha ressuscitado em Antuérpia. Não sei.
O lugar em que penso é difícil, sempre difícil.
Sei que ao norte existe o rio Escalda. De lá parte-se, alcança-se o mar. Uma vez alguém me disse:
- A gente que nasce e vive junto do mar é mais pura.

domingo, 27 de maio de 2012

OLHAR AS CAPAS


Photomaton &Vox

Herberto Helder
Capa de Manuel Rosa
Assírio & Alvim, Lisboa 1979

Às vezes as coisas desatam a crescer numa espécie de sentido ao contrário. Desenvolvem-se em dois planos, movem-se em lugares diferentes. Entre eles bate um coração, uma alma, um motor. Aqui é que estão a unidade e o sentido - o senso, o contra-senso.

Imaginemos uma planta com as raízes no ar e a flor debaixo da terra - mas raízes eficazes, e uma flor perfeitamente organizada. A máquina desta planta é um milagre de energia. Foi tocada pelo sopro da alegria criadora. Faz coisas simétricas, assimétricas - maravilhas circulatórias e respiratórias: estruturas vivas. Mas está de cabeça para baixo. Não se integra nas matemáticas gerais. Falha nas relações. É outro milagre - um rasgão, uma oposição, uma subversão: um clarão. O conjunto estremece, abalado por uma luz nova. Todas as coisas refluem então para este centro devorador, este aparelho centrípeto. O contra-senso é o senso.

Falo do cotidiano absolutamente real, realizado.

Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que de outro. Cortaram-lhe um bocado do lado maior: foi demais. ficou maior do lado que era primitivamente menor. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objetivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados. Só algumas pessoas compreenderam.

Não me venham com teorias, estou farto. Acontecimentos, seres, objetos, lugares. A coluna vertebral disto tudo. A posição vertical - eis o que me parece justo. Se se anda com a cabeça e se põe o chapéu nos pés, não é a coluna vertebral que tem culpa. Trata-se de uma fé antípoda. Porque o erro pode estar em andar com os pés e pôr o chapéu na cabeça. De qualquer maneira, é magnífico ver uma flor ter delicadeza debaixo da terra. Bem: pode tomar-se um espelho e colocá-lo em frente das coisas. Na melhor das hipóteses, onde era esquerdo fica direito, e vice-versa. Pode acontecer tudo negro noutros casos. Porque as coisas são negras. Dormimos ou estamos acordados conforme a escolha. Atenção. É uma espécie de espetáculo. Vem anunciado nos jornais. Não se inventou, apenas se tornou mais forte a pancada do martelo. Sim, na cabeça. Chama-se a isto malícia ou intenção.

Segue. Sempre. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


Vocação Animal

Herberto Helder
Publicações Dom Quixote, Lisboa Maio 1971

Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos - de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem, a saber: 1.º - peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro através do pintor; 2.º - peixe cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela  um peixe amarelo.

Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora.