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sexta-feira, 22 de maio de 2020

A BICICLETA PELA NOITE DENTRO


A bicicleta pela lua dentro — mãe, mãe —
ouvi dizer toda a neve.
As árvores crescem nos satélites.
Que hei-de fazer senão sonhar
ao contrário quando novembro empunha —
mãe, mãe — as telhas dos seus frutos?
As nuvens, aviões, mercúrio.
Novembro — mãe — com as suas praças
descascadas.

A neve sobre os frutos — filho, filho.
Janeiro com outono sonha então.
Canta nesse espanto — meu filho — os satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta.
Ouvi dizer novembro.
As praças estão resplendentes.
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto.
Aviões passam no teu nome —
minha mãe, minha máquina —
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve.

Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as árvores crescem ao contrário.
Apresento-te novembro: avião
limpo como um alfabeto. E as praças
dão a sua neve descascada.
Mãe, mãe — como janeiro resplende
nos satélites. Filho — é a tua memória.

E as letras estão em ti, abertas
pela neve dentro. Como árvores, aviões
sonham ao contrário.
As estátuas, de polvos na cabeça,
florescem com mercúrio.
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro,
é a neve avançando na sua bicicleta.

O alfabeto, a lua.

Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem.
Era pesada, ao colo, cheia de neve.
la dizendo o teu nome de janeiro.
Enxofre — mãe — era o teu nome.
As letras cresciam em torno da terra,
as telhas vergavam ao peso
do que me lembro. Começo a lembrar-me:
era o atum negro do teu nome,
nos meus braços como neve de janeiro.

Novembro — meu filho — quando se atira a flecha,
e as praças se descascam,
e os satélites avançam,
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem
(eu vi): era pesada.
O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas.
Laranjas de pedra — mãe. Resplendentes,
as estátuas negras no teu nome,
no meu colo.

Era a neve que nunca mais acabava.

Começo a lembrar-me: a bicicleta
vergava ao peso desse grande atum negro.
A praça descascava-se.
E eis o teu nome resplendente com as letras
ao contrário sonhando
dentro de mim sem nunca mais acabar.
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua
batia pelo ar fora.
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios
do meu nome negro, e nunca mais
acabava de nevar.

Era Novembro.

Janeiro: começo a lembrar me.
O mercúrio crescendo com toda a força em volta
da terra. Mãe — se morreste, porque fazes
tanta força com os pés contra o teu nome,
no meu colo?
Eu ia lembrar-me os satélites todos
resplendentes na praça. Era a neve.
Era o tempo descascado
sonhando com tanto peso no meu colo.
Ó mãe, atum negro —
ao contrário, ao contrário com tanta força.

Era tudo uma máquina com as letras
lá dentro. E eu vinha cantando
com a minha paisagem negra pela neve.
E isso não acabava nunca mais pelo tempo
fora. Começo a lembrar-me.
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos
de peixe, tua coluna
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha
cantando na neve que nunca mais
acabava.

O teu nome negro com tanta força —
minha mãe.
Os satélites e as praças. E novembro
avançando em janeiro com seus frutos
destelhados ao colo. As
estátuas, e eu sonhando, sonhando.
Ao contrário tão morta — minha mãe —
com tanta força, e nunca

— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora.

Herberto Helder

quinta-feira, 7 de maio de 2020

CANÇÃO


Saber ninguém pode
o que lago esconde
em seu fundo seio.
Assim guardes tu
o que saibas de outros.
Melhor inda: esquece-o.


Versão de Herberto Hélder de uma poesia quichua

Legenda: pintura de Kandinski 

terça-feira, 13 de agosto de 2019

DEDICATÓRIA


A uma devagarosa mulher de onde surgem os dedos, dez e queimados por uma forte delicadeza. Atrás, o monumento do seu vestido ocidental – erguido e curvo. E o vestido trabalhava desde o fundo e de dentro – como uma raiz branca – para o aparecimento da cabeça. A paisagem posterior é de livros, todos eles de costas voltadas, dominados pelas ardentes pancadas das suas letras. Algures vai passar a lua cavalgando a luz de um só lado, impressamente no papel redondo do céu. Os peixes são também números e tremem de subtileza à volta do lugar ameaçado. E o pescoço da mulher é uma letra de catedral, a letra de um alfabeto morto que um dia se encontrará noutro planeta – arcaica e reinventada. As letras evaporam-se intimamente: são magnólias. E aí está essa mulher que se move na paisagem escorregadia – rodeada por casas arrancadas pela raiz, voltadas no ar. Penso muito em todas essas letras simplesmente pousadas no A da sua cor vermelha, tal como a maçã que se põe – quieta e morosa – sobre o quanto vai ser de madura, e isso vindo da sua obscuridade, da sua salva infância de maçã. E a mulher enche-se de folhas para a sua maçã. E ocupamo-nos novamente na bela insensatez. Como o alfabeto. A lua cavalga a grandeza da mulher, as letras aparecem impressas no muro desse vestido branco ocidental, letras como estátuas de animais. A mulher vai ter uma cabeça de cão aberta em basalto – os cabelos lavrados no osso como as linhas numa página. E a cabeça de cão sorri implantadamente no alfabeto, apoiada no ocidente do vestido. E é um livro.

Herberto Helder em Vocação Animal

terça-feira, 12 de março de 2019

O OLHAR É UM PENSAMENTO



O olhar é um pensamento.
Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora
-não posso escrever mais alto
transmitem-se, interiores, as formas.

Herberto Helder

domingo, 15 de julho de 2018

ELEGIA MÚLTIPLA I


Como se poderia desfazer em mim a tua nobre cabeça, essa
torre deslumbrada pelo mudo calor dos dias, pelo
brilhante gelo nocturno? É pela cabeça
que os mortos maravilhosamente pesam
no  nosso coração. Essas flores intangíveis para as quais
temos medo de sorrir, as armas
lavradas, as liras que estremecem e pendem
sobre os rios agitados das coisas. Só o amor as abre
e vê sua confusa e grave geografia, as fontes
livres de onde os pensamentos crescem
como a folhagem iluminada das antigas idades
do ouro.

Eu próprio levanto minha exígua cabeça de vivo,
procuro colocar-me num ponto irradiante
da terra, olhar de frente
com toda a inspiração do meu passado, e estar
à altura dos mortos, na zona
esplêndida e vasta
da sua nobreza - receber essa espécie de força
indestrutível
que envolve a cabeça montada sobre os dias e dias,
de que as rosas bebem  o jeito aéreo e a boca
a delicadeza misteriosa.

Existem árvores cercando os animais sonhadores, o grande
arco das eras com os fogos rápidos
presos como campânulas, e a fixa vontade
do homem ardendo e gelando
no tempo. À beira dos rios canta-se ou deixa-se
que as mãos se gastem, deslumbradas
do seu poder, da sua grande miséria
como um sonho. Um nome, contudo, existe
suspenso sobre as estações do ano. Essa cabeça
dos mortos - a tua cabeça aérea como o verde
das pedras ou o movimento
das corolas frias,
essa cabeça sumptuosa, rodeada de estreitas
víboras -
sobe do nosso, do meu coração, até que a minha
mesma cabeça
nada mais seja que a possessiva, doce cabeça
dos mortos.

Herberto Helder de A Colher na Boca em Poesia Toda 1º Volume

domingo, 15 de abril de 2018

AOS AMIGOS


Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder de A Colher na Boca em Poesia Toda 1º Volume

Legenda: fotograma do filme Stand By Me

sábado, 31 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS




Novembro
Cadernos de Poesia

Poesias de António-Franco Alexandre, Fernando Assis Pacheco, Herberto Helder,
                   José Gomes Ferreira e Nuno Júdice

Coordenação de Casimiro de Brito e Gastão Cruz
Capa: Manuel Baptista
Edição dos Coordenadores, Lisboa, Novembro de 1972

Minha Pequenas Dúvidas e a Guerra


                               1

minhas pequenas dúvidas estabelecem
habitação violenta. furam pelos ossos,
espalham os dedos em volta, os caules
aquecidos do vento, roem
lentamente os pátios inertes,
instalam a dobra azul dos cotovelos,
resistem. Têm, ambígua, a elegância
elementar da água. Dobram
as espigas nos dentes,
conhecem o nervo
estendido no céu.
                            mexem
os dedos na gaveta, o calcário
das costas, vigiam com cuidado
as vísceras dos galos, a variável
rotação dos planetas; enquanto a galáxia
gira em si mesma intensamente inútil.
minhas pequenas dúvidas multiplicam os dentes,
decoram marx, passeiam o silêncio
pela trela. resistem,
furam pelos dedos, as vísceras
intensas do vento, estabelecem
cotovelos completos.
                                   têm
a violência constante dos ossos,
resistem, dobram lentamente
a trela das estrelas,
ferem as vísceras
inertes do silêncio, espalham
em volta a demasia oblíqua
das espigas nos pulsos. lêem
o jornal misturado à saliva, aprendem
sem ruído as máquinas da pele:
minhas pequenas dúvidas resistem
o calcário dos nervos,
                             estabelecem
habitação inútil,
dobram os ossos ao calor dos pátios.


                          2

 enquanto o coração se prende às cordas
cruzadas do silêncio, esmago
entre os dedos uma gota estreita de noite,
fecho os olhos ao gás das granadas em voo,
escrevo, rumino, peso as estrelas
ao fundo da garganta moída,
buscando entre polícias de dentes aos ombros
uma mancha de vento que nos sirva de céu
e um corpo que permita
o repouso velocíssimo do esperma.
                                          porque, entendes,
minhas pequenas dúvidas explodem
no ar balões de espiga, cotovelos
oblíquos, quando voam no pátio
as curvas variáveis da matraca.
uma ternura, entendes, uma ternura de ombros,
de cabelos completos, de nervos na água,
de dedos constantes ao calor dos ossos,
enquanto o coração se agarra à noite espessa
ou me conhece um caule de elegância nos pulsos.
                                    ternura, entendes,
é ter perdido voz
a granada que voa, pesada como
esta palavra: ternura, ao cair sobre a trela
elementar dos dias.
são ombros, entendes, um nervo cruzado,
a doce rotação
do sangue nos ossos,
o cansaço dos galos quando limpo
o suor anguloso das axilas,
um corpo respirado por dentro, junto à boca.


                                   3

minhas pequenas dúvidas embatem contra o chão
da gasolina ardida, moram
dentro da trela,
leram platão, arrastaram carroças,
cortaram de manhã as vísceras da água,
hesitam na carícia do corpo que se estende
e dobra sobre os ossos, como
uma fonte.
minhas pequenas dúvidas enumeram os dentes,
conhecem hegel, ultrapassam
oblíquamente os pulsos, procuram
habitação inerte.
minhas pequenas dúvidas pequenas
aconchegam no bolso um rato amargo,
vestem à pressa os ossos, aguardam
a rotação inútil dos planetas,
vigiam as estrelas moídas na garganta

                                     4

pornogràficamente acordo
com o sexo dentro da boca.
minhas pequenas dúvidas acendem luzes,
arames, fazem vibrar alarmes,
estabelecem gritos cruzados nos ossos,
abençoam granadas de dentro da janela,
acordam a polícia do seu sono oblíquo.
                              estabelecem
habitação de galos no silêncio.
minhas pequenas dúvidas arrancam os dedos
do chão, cortam as árvores,
alcatroam a alma,
                               proíbem
movimentos de mais de duas mãos.
avisaram de noite a presidência.
ferem a água, estabelecem
vísceras variáveis,
aconchegam um rato no calcário.
                                   pornograficamente
adormeço com o sexo dentro do bolso.
minhas pequenas dúvidas pequenas
abrigam-se do voo nas axilas do vento.

                                      5

minhas pequenas dúvidas não morrem. sei-as
dentro dos galos, vigiando a carroça
elementar  dos ossos,
agarradas ao nervo do silêncio.
resistem. furam pelos dentes,
espalham em torno o vento seco,
os caules, estabelecem
cotovelos inertes.

                     enquanto uma guerra
se prende às cordas
constantes da ternura,
minhas pequenas dúvidas desatam
os nós dentro da boca

                            6

madrugada, as lanternas apitam
a corrida dos dentes pela rua,
estamos contando os dedos que nos restam.
                                   não sei
se são de gás ou raiva
as lágrimas nos pulsos.
                                   ajudo-te
a despir, notando as cicatrizes
e algum piolho oculto.
minhas pequenas dúvidas cansadas
adormecem num bolso, e estamos nus.
                                       abraço-te
devagarinho, com as costas dos ossos,
dobrando os cotovelos na gaveta.

minhas pequenas dúvidas pequenas
sussurram junto ao chão,
movimentam espigas
sobre os nervos,
desejam vigilância.
                              minhas pequenas
dúvidas, minhas trelas miúdas,
sufocam numa névoa de granadas.
                   pouso
as asas angulosas no cimento.
dói-me na mão direita
uma falta de dedos, uma falta
de rios.
            pornogràficamente
adormecemos.

(Poema de António-Franco Alexandre)

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

PARA O LEITOR LER DE/VAGAR


Volto minha existência derredor para. O leitor. As mãos
espalmadas. As costas
das. Mãos. Leitor: eu sou lento.
Esta candeia que rodo amarela por fora,
e ardentescura por dentro.
Candeia tão baixa-viva. Sou lento numa luminos-
idade como em meio de ilusão.
Volto o que é um rosto ou um
esquecimento. Uma vida distribuída
por solidão.

Sou fechado
como uma pedra pedríssima. Perdidíssima
da boca transacta. Fechado
como uma. Pedra sem orelhas. Pedra una
reduzida a. Pedra.
Pedra sem válvulas. Com a cor reduzida
a. Um dia de louvor. Proferida lenta.
Escutada lenta.

- Todo o leitor é de safira, é
de. Turquesa.
E a vida executada. Devagar.
Torna-se a infiltrada cor da. Pedra
do leitor.
Volto para essa pedra absoluta. Relativa
à minha pedra.
Minha pedra pensada com a forma
de. Uma lenta vida elementar.

Leitor acentuado, redobrado leitor moroso.
Que entende o relato sem poros,
o mês atroz dealbado sobre a pedra
sem orelhas, pedra sem boca. E que desce os dedos
sobre. Meus dedos pelo ar. E toca e passa.
Pelas pálpebras paradas. Pelos
cerrados  lábios até às raízes.
E cai com seus dedos em meus dedos.
Podres. E espero devagar.
Leitor que espera uma flor atravancada,
Balançando baixa
Sobre. Mergulhados
filamentos no terror
devagar.

Mas que espera. Doce. Contra o hermético
movimento do mundo.
E que o mundo movimenta contra.
As ondas de Deus auxiliado
auxiliar. E que Deus movimenta contra. Suas ondas
muito lentas, amarguradas ondas muito.
Antigas, ignoradas, corridas. Sobre
a primitiva face do poema. Leitor
que saberá o que sabe dentro. Do que sabe
de mais selado. E esperará
dias e anos dobrado, leitor. Varrido
pelo movimento dos doas.
Contra o movimento nocturno do. Poema devagar.

E que espera.
E para quem volto. Muitas coisas sobre
uma coisa. Volto
uma exaltante morte de Deus. Auxiliado
auxiliar. O espírito, a pedra.
Do poema.
Leitor à minha frente. Vindo
do mais difícil lado
das noites. Ainda tocado e molhado
de suas flores aniquiladas.
Rodo. Para este rosto difuso e vagaroso
meu sono
a fantasia minuciosa. A oblíqua inovação.
A solidão. Trémula devagar

Leitor: volto.
para ti. Um livro que vai morrer depressa.
Depressa antes. Que a onda venha, a onda
alague: A noite caída em cima de teus dedos.
De encontro à cor de encontro à. Paragem
da cor. este livro apertado nas estrelas
da boca, estrelas.
Aderentes fechadas. Por fora
leves às vezes, presas.
Para eu batê-las durante o tempo.
Eterno, o tempo. De uma onda maior que o nosso
tempo. O tempo leitor de um. Autor.
Ou um livro e um Deus com ondas de um mar
mais pacientes. -
                             Ondas do que um leitor devagar.

Herberto Helder em Poesia Toda 1º Volume

Legenda: pintura de Karen Offutt

sábado, 3 de dezembro de 2016

A ÚLTIMA BILHA DE GÁS


a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a
habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

Herberto Helder em A Morte Sem Mestre

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

DISSERAM



disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos
e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque
nada se reparte: ou se devora tudo
ou não se toca em nada,
morre-se mil vezes de uma só morte ou
uma só vez das mortes todas juntas:
só colaboro na minha morte:
e eles entenderam tudo, e pensaram: que este não colabore nunca,
que o demónio o leve, e foram-se,
e eu fiquei contente de nada e de ninguém,
e vim logo escrever este, o mais curto possível, e depressa, e
vazio poema de sentido e de endereço e
de razão deveras,
só porque sim, isto é: só porque não agora

Herberto Helder 

domingo, 10 de janeiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.

Herberto Helder em Poesia Toda, 2º volume

Legenda: Brigitte Bardot

sábado, 9 de maio de 2015

TEXTO 7


Texto 7

Tenho uma pequena coisa africana para dizer aos senhores
«um velho negro num mercado indígena
a entrançar tabaco» o odor húmido e palpitante sobe dos dedos
a subtileza «rítmica» dos dedos chega a ser uma dor
fere na cabeça o pensamento da sua devotação
extrema quase «intáctil» sobre algo
«algo tabaco»
o que começa a tornar-se como uma «loucura comovida»
por cima dessa massa viva do tabaco
«como ele aflora Deus digitalmente debruçado!»
de repente «vê-se» a inocente diligência
o «sim» sem nada mais
o medo como se fosse mel a escorrer do crânio
por tudo ser de novo tão concentrado e leve
a dor em nós de uma tão forte «ignorância activa»
«a fazer-se« uma prova
de elegância na «razão» do tempo
nenhuma dúvida apenas a lisura branda de um «estilo»
transcorrendo
apetece não ter mais do que a interminável «escrita»
prestes a sufocar e dedo a dedo salva
nas suas pautas gravada a direito como uma implacável
«pormenorização oracular»
como se pode tornar tão veemente uma doçura humana
tão pertinaz a graça e terrífica
a digitalidade do «silêncio»
e a candura quase a corromper-se à força de candura
e então o puro toque no tabaco cria
uma «fria ocorrência de pavor» pois tudo é «ambíguo»
nessa «rima obsessiva» a pertinácia ganha «formas» insuportáveis
dedos na nuca ligamentos invisíveis de tendões
centros nervosos irradiando impulsos cruéis
imóveis animalidades fremindo ocultamente debaixo da «luz»
e percebe-se então o «sangue» a ir e vir
sempre «entrançando» o movimento dos dias e das noites
sobre a tranquila «germinação»
e a terra como um monstro «maternal» que parece dormir
planetas a gravitar em redor dos dedos
uma dolorosa absorção do tabaco pelo ritmo
e assim «é isto o estilo?» até que a cabeça
é como «a vista» e a ideia desta coisa se transforma
«nesta coisa»
e quando enfim alguém «realmente» adormece
nada pára e o tabaco continua a ser entrançado
por dedos «negros» em todos os «sentidos»
e nunca mais será possível esquecer
tudo se repercute um toque passa um toque
a matéria passa de matéria em matéria
o ritmo ligeiro como uma alucinação
falanges falanginhas falangetas no «tabaco terreno»
a pulsar
«linguagem» extenuante pela sua própria «verdade»

Herberto Helder em Poesia Toda, 2º volume.

sábado, 2 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poesia Toda
2º Volume

Herberto Helder
Capa: Alda Rosa
Plátano Edotora, Lisboa, Setembro de 1973

BICICLETA

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.


O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.


De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.


Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.


Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.

domingo, 19 de abril de 2015

PINTURA NA AREIA


Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro - teus olhos,
areia vermelha - a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.

Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.

Herberto Helder, Poemas dos Peles-Vermelhas, em Poesia Toda, 1º Volume.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Retrato em Movimento

Herberto Helder
Capa: espiga Pinto
Colecção Poesia e Ensaio nº 17
Editora Ulisseia Lda, Lisboa, Maio de 1967

Morrer era agora a minha liberdade, e eu tinha a vida inteira para executá-la pormenorizadamente.
Começo a perceber a que espécie de morte aspira atua interior coisa mortal – pensou a minha terrível ciência. – Tu queres a eternidade. Ouve: O desejo da eternidade é o fogo que mais depressa queima as mãos. Esse desejo é insolitamente morta.
Era a minha última liberdade, enquanto eu subia as escadas do metropolitano e entrava nos ciclos do tempo, no procedimento do meu próprio corpo e nos projectos da sensível inteligência do que nos vai acontecer.
Estás no máximo da tua velocidade, no exercício da tua música.
À minha volta anoitecia, e eu tinha todas as mãos queimadas.

domingo, 29 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poesia Toda
1º Volume

Herberto Helder
Capa: Alda Rosa
Plátano Editora, Lisboa, Fevereiro de 1973

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que quer dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas de melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha cara ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



CINEMA

Comunidade das pequenas salas de cinema, não muita gente, e a que houver tocada em cheio como o coração tocado por um dedo vibrante, tocada, a pequena assembleia humana, por um sopro nocturno, uma acção estelar. Não se vai lá em busca de catarse directa mas de arrebatamento, cegueira, transe. Vão alguns em busca de beleza, dizem. É uma ciência de ritmo, ciclo, luz miraculosamente regulada, uma ciência de espessura e transparência da matéria? De todos os pontos da trama luminosa, ao fundo da assembleia sentadamente muda morrendo e ressuscitando segundo a respiração na noite das salas, a mão instruída nas coisas mostra, rodando quintuplamente esperta, a volta do mundo, a passagem de campo a campo, fogo, ar, terra, água, éter (ether), verdade transmutada, forma. A beleza é a ciência cruel, imponderável, sempre fértil, da magia? Então sim, então essa energia à solta, e conduzida, é a beleza.

Porque as pessoas amam a morte, a sua morte, figurativa, figurada, figurante, e amam o restabelecimento da vida. Esta é uma espécie de nomeação física que arranca à decadência em nós esparsa das imagens naturais, e transmite, em disciplina e cortejo, o prodígio e o prestígio dos objectos em torno movidos por um inebriamento cerimonial. Refazemos a natureza em imagens simbólicas que podem interpretar literalmente. A escrita não substitui o cinema nem o imita, mas a técnica do cinema, enquanto ofício propiciatório, suscita modos esferográficos de fazer e celebrar. Olhos contempladores e pensadores, mão em mãos seriais, movimento, montagem da sensibilidade, música vista (ouçam também com os olhos!), oh, caminhamos para a levitação na luz!

Alguns poemas já tinham ensinado uma sabedoria de olhar (cf. Divergência entre Goethe e Schiller acerca da objectividade) e, pois, uma sabedoria de ver. Certas montagens poemáticas ditas espontâneas, inocentes (de que malícias dispõe a inocência?), processos de transferir blocos da vista – aproximações, fusões e extensões, descontinuidades, contiguidades e velocidades – transitaram de poemas para filmes e circulam agora entre uns e outros, comandados por arroubos da eficácia. O arroubo é uma atenção votada às miúdas cumplicidades com o mundo, o mundo em frases, em linhas fosforescentes, em texto revelado, como se diz que se revela uma fotografia ou se revela um segredo. O poema, o cinema, são inspirados porque se fundam na minúcia e rigor das técnicas da atenção ardente.

Alimentamo-nos de imagens emendadas, de representações conjugadas simbolicamente, pontos fortes,punti luminosi, pensamentos bucais, “o pensamento forma-se na boca”, Tzara, nos olhos, irrompe ali, todo este fluxo, aqui, diante do medo, do júbilo, do êxtase, oh soberba antologia da magnificação quotidiana segundo o princípio do absoluto! Muitas erratas, muita pontuação, muito recurso à parcimónia, até Beethoven pegar na Ode à Alegria e o triunfo erguer-se, frente aos olhos, dos recessos da dor, filme, mágica prestidigitação tão calculadamente intempestiva nas pequenas salas escuras, o écran defronte.
A imagem é um acto pelo qual se transforma a realidade, é uma gramática profunda no sentido em que se refere que o desejo é profundo, a profunda a morte, e a vida ressurecta. Deus é uma gramática profunda.


Herberto Helder em Poemas Com Cinema, antologia organizada por Joana Matos Frias, Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa Novembro de 2010

terça-feira, 17 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


Vocação Animal

Herberto Helder
Publicações Dom Quixote, Lisboa Maio 1971

Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos - de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem, a saber: 1.º - peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro através do pintor; 2.º - peixe cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela  um peixe amarelo.

Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

domingo, 11 de março de 2012

LI ALGURES


Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega

Herberto Helder em A Faca Não Corta o Fogo, Assírio & Alvim, Lisboa 2008

Legenda: fotografia de Édouard Boubat

domingo, 28 de agosto de 2011

PARA CURAR-ME O FEITICEIRO


Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem,
no deserto:
areia de oiro - teus olhos,
areia vermelha - a tua boca.
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.

Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.

Ìndios da América do Norte – Versão de Herberto Helder.