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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O ÚLTIMO GRAU DA SELVAJARIA


Albert Camus
Editorial publicado originalmente sem assinatura e sem título no jornal Combat de 8 de Agosto de 1945
Recorte do Público de 6 de Agosto de 1995.

domingo, 7 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


No dia 7 de Agosto de 1945 Miguel Torga, escrevia, no seu Diário:

A primeira bomba atómica. Que maravilhoso bicho, o homem! Teimou, teimou, e descobriu a pedra filosofal.

TODA A MEMÓRIA



Texto de Fernando Lopes, sobre o filme Hiroshima, Meu Amor de Alain Resnais, publicado no nº 1 do Cinéfilo, 4 de Outubro de 1973.

sábado, 6 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Hiroshima

John Hersey
Tradução: Rogério Fernandes
Capa: Bernardo Marques
Colecção Miniatura nº 87
Livros do Brasil, Lisboa, s/d


Exactamente às oito horas e quinze minutos da manhã de 6 de Agosto de 1945, hora japonesa, no momento em que a bomba atómica relampagueou sobre Hiroshima, a Menina Toshiko Sasaki, empregada de escritório na secção de pessoal da “Construções Metálicas da Ásia Oriental, acabava precisamente de sentar-se no seu lugar no escritório da fábrica, e estava a voltar a cabeça para falar à rapariga da secretária mais próxima. No mesmo momento, o dr. Mazakazu Fujii instalara-se de perna traçada no pórtico da sua clínica particular, debruçada sobre um dos sete rios do delta que divide Hiroshima, a fim de ler o “Asahi” de Osaka; a srª Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, encontrava-se à janela da cozinha observando um vizinho que demolia a sua casa situada numa linha de protecção contra incêndios causados por ataques aéreos; o Padre Wilhelm Kleinsorge, sacerdote alemão da Companhia de Jesus, deitado em trajos menores numa cama do último dos três andares do prédio pertencente à sua Ordem, lia uma revista jesuíta, “Stimmen der Zeit”; o dr. Terefumi Sasaki, jovem membro da equipe de cirurgia do amplo e moderno Hospital da Cruz Vermelha da cidade, caminhava por um dos corredores do edifício, levando na mão uma amostra de sangue para uma reacção de Wassermann; e o reverendo sr. Kiyoshi Tanimoto, pastor da igreja metodista de Hiroshima, descansava à porta de um homem rico, em Koi, o subúrbio ocidental da cidade, e preparava-se para descarregar um carro de mão cheio de coisas que tinha evacuado da cidade com medo de um ataque maciço dos B-29 que toda a gente espertava que Hiroshima sofresse. A bomba atómica matou cem mil pessoas e estas seis ficaram entre os sobreviventes. Ainda se espantam de estarem vivos quando tantos outros morreram. Cada um deles aponta os múltiplos pormenores de sorte ou vontade – um degrau subido a tempo, a decisão de entrar num edifício apanhando um eléctrico em vez do eléctrico seguinte – que os salvaram. E agora, cada um deles sabe que no acto de sobreviver viveu uma dúzia de vidas e viu mais morte do que alguma vez pensara poder ver. Naquele momento nenhum deles percebeu o que quer que fosse.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

POSTAIS SEM SELO



A primeira bomba atómica. Que maravilhoso bicho, o homem! Teimou, teimou, e descobriu a pedra filosofal.

Miguel Torga

Legenda: pintura de Eiichi Uchida

O DRAMA CONTINUA!


Às 8.15 horas locais (0.15 de Lisboa) os sinos tocaram num memorial em Hiroxima, que assinalou o 70.º aniversário do bombardeamento atómico por parte dos Estados Unidos, a poucos dias do fim da II Guerra Mundial.
Setenta anos depois dos bombardeamentos atómicos sobre as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasaki, dois hospitais da Cruz Vermelha continuam a atender milhares de pessoas que ainda sofrem com sequelas deixadas pelos ataques. 
As duas unidades atenderam, no ano passado, 4.657 vítimas da explosão em Hiroshima e 6.030 da ocorrida em Nagasaki.
Calcula-se que milhares dessas pessoas continuem a precisar de atenção nos próximos anos por doenças relacionadas com a radiação.

OLHAR AS CAPAS


Hiroxima
Antologia Poética

Organização e Prefácio de Carlos Loures e Manuel Simões
Colecção Nova Realidade nº 3
Edição dos Coordenadores, Tomar, 1967

A Bomba

O primeiro sopro arrancou-lhe a roupa;
o imediato levou também a carne.
Ao longo da rua
durante alguns segundos correu o esqueleto.
Mas a rua já não estava,
estava toda no ar;
de lá caíam bocados de prédios, bocados
de crianças, restos de cadilaques…
O esqueleto não compreendia sózinho
aquela situação:
deixou-se tombar sobre algumas pedras radioactivas
e permitiu na queda o extravio de alguns ossos.

(Caso curioso: o coração
pulsou ainda três ou quatro vezes.
entre o gradeamento das costelas.)

Egito Gonçalves

ROSA DE HIROXIMA


Hiroxima.
Foi há 70 anos.
Para nunca mais esquecer!
Quando esta tragédia aconteceu, eu tinha nascido há sete dias.

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atómica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Poema de Vinicius de Moraes

terça-feira, 4 de março de 2014

OLHAR AS CAPAS


Hiroshima Meu Amor

Marguerite Duras
Tradução Maria José Palla e M. Vilaverde Cabral
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores, Lisboa, 1987

Ela (baixo) - … Ouve. Como tu, eu sei o que é o esquecimento
Ele – Não, tu não sabes o que é o esquecimento.
Ela – Como tu, também eu sou dotada de memória. Conheço o esquecimento.
Ele – Não, tu não és dotada de memória.
Ela – Como tu, também eu tentei lutar com todas as minhas forças contra o esquecimento. Como tu, esqueci. Como tu, desejei ter uma memória inconsolável, uma memória de sombras e de pedra. Lutei por minha conta, com todas as minhas forças, durante dias a fio, contra o horror de já não compreender da razão por que nos lembramos. Como tu, esqueci…

terça-feira, 6 de agosto de 2013

sábado, 7 de agosto de 2010

COM O ESPANTO DE NÃO SABER NADA...



No dia 7 de Agosto de 1945 Miguel Torga, escrevia, no seu Diário:

A primeira bomba atómica. Que maravilhoso bicho, o homem! Teimou, teimou, e descobriu a pedra filosofal.

Harry Truman, presidente dos Estados Unidos: 

Fiz aquilo que era necessário.

Paul Warfield Tibbets Jr., comandante do “B-29”: 

A bomba cumpriu a tarefa que lhe estava destinada: pôr fim à guerra.

Julius Robert Oppenheimer, dirigiu o projecto para o desenvolvimento da bomba atómica: 

É preferível que morram 1000 000 japoneses a que morra um só americano.

Não consta que, qualquer destes três personagens da História, alguma vez tenha conhecido aquele amargo de inquietude, de angústia, que a má consciência, o sentimento de culpa transporta.

Em nenhuma noite os olhos das crianças que morreram com o espanto de não saber nada, lhes terá impedido de, tranquilamente, adormecerem.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

ENOLA GAY



Little Boy, o rapazinho, é o nome do objecto de quatro metros e vinte e cinco centímetros, um metro e meio de diâmetro e quinhentos quilos de peso, nada mais, nada menos que a bomba atómica que seria lançada sobre Hiroxima.

Paul Tibbets, comandante do “B-29” mandou pintar na fuselagem o nome da sua mãe: Enola Gay.

Eu sabia que esse avião haveria de ser famoso e, assim, dei-lhe o nome da minha mãe, porque ela me tinha apoiado quando deixei a Faculdade de Medicina para ir frequentar o curso de pilotos”Dirá mais tarde: “O céu inteiro iluminou-se dos mais belos azuis e cor-de-rosa que vi na minha vida. Foi fantástico.

Robert Lewis, co-piloto do B-29, vendo lá em baixo o cogumelo de fogo e de morte a elevar-se nos ares conseguiu dizer: Meu Deus, Que fizemos?


Em 1980, Andy McCluskey compôs para os Orchestral Manoeuvres in the Dark, a canção Enola Gay, um subtil poema onde se fala de um rapazinho que deveria ter ficado em casa em vez de ter vindo para a rua fazer brincadeiras que deixaram pessoas com lágrimas, mas de que sua mãe muito se orgulhou.


Enola Gay
You should have stayed at home yesterday
Ah-ha words can’t describe
The feeling and the way you lied

These games you play
They’re going to end in more than tears some day
Ah-ha Enola Gay
It shouldn’t ever have to end this way

It’s eight fifteen
And that’s the time that it’s always been
We got your message on the radio
Conditions normal and you’re coming home

Enola Gay
Is mother proud of little boy today
Ah-ha this kiss you give
It’s never going to fade away

Enola Gay
It shouldn’t ever have to end this way
Ah-ha Enola Gay
It shouldn’t fade in our dreams away

It’s eight fifteen
And that’s the time that it’s always been
We got your message on the radio
Conditions normal and you’re coming home


Legenda: Capa do “single” Enola Gay, extraído do álbum “Organisation” (1980)– VVD-45.035 ES, editado e distribuído em Portugal por VADECA-J.C. Donas, Lda sob licença de “VIRGIN RECORDS, LTD”

TESTEMUNHO DOS JOVENS DE HIROXIMA

As composições incluídas neste livro foram escritas por crianças e adolescentes, seis anos depois de 6 de Agosto de 1945,e escolhidas de entre mais de duas mil.

Hiroaki Ichikawa, rapaz, 6 anos em 1945: “A Mãe está sempre a dizer: “Enquanto vivermos, jamais esqueceremos aquele terrível experiência, não é verdade?”

Ikuko Wakasa, rapariga, 5 anos em 1945: “Realmente, detesto pensar acerca da guerra e detesto recordar-me do dia em que a bomba atómica caiu. Mesmo quando leio livros passo por alto as partes sobre a guerra. Uma vez que me destinaram isto para trabalho de casa, e embora não queira fazê-lo, tento, com esforço, recordar-me daquele momento terrível.”

Kiyoko Tsumiga, rapariga, 5 anos em 1945: “Quando ouço a palavra bomba atómica, penso: “Ah! Tenho esperança de que aquilo nunca mais tornará a acontecer!”

Keiko Sasaki, rapariga, 6 anos em 1945: “Quando penso que, se não fosse aquela pavorosa bomba atómica, podíamos viver felizes juntos, odeio o exército americano. Mas, depois, digo para mim mesma: “Bem já passou tudo, perdoo-lhes”, e o meu coração brilha.”

Shigeru Tasaka, rapaz, 6 anos em 1945: “Todos no mundo pronunciam a palavra: “Paz, “Paz”, mas não se devem esquecer que cerca de 247 000 pessoas de Hiroxima foram as últimas e as maiores sacrificadas da Segunda Guerra Mundial.”


Testemunho dos Jovens de Hiroxima, prefácio de Bertrand Russell , capa de João da Câmara Leme, nº 13 da Colecção “Documentos Humanos”, “Portugália Editora”, Lisboa Maio 1965

HIROXIMA



John Hersey, jornalista do “The New Yorker”, em 1946, um ano depois da bomba atómica ter caído sobre Hiroshima, chega à cidade para mostrar, aos seus leitores, o que fora o mais terrível dos dias.

Encontra seis sobreviventes – duas mulheres e quatro homens, um deles religioso alemão e, à volta dos seus depoimentos, das terríveis experiências vividas, escreveu uma vibrante e memorável reportagem, publicada na edição de 31 de Agosto de 1946, que acabaria por receber o “Prémio Pulitzer” e que, mais tarde, sairia em livro.

Com a reportagem de John Hersey, os norte-americanos passavam a ter uma outra visão do que fora o acto vergonhoso de Hiroshima, bem contrária à aura de glória que os governantes sempre quiseram que esse hediondo crime tivesse: que acontecera em nome da Liberdade, da Paz, da Democracia, do Progresso.

Este é o início de “Hiroshima” de John Hersey:

“Exactamente às oito horas e quinze minutos da manhã de 6 de Agosto de 1945, hora japonesa, no momento em que a bomba atómica relampagueou sobre Hiroshima, a Menina Toshiko Sasaki, empregada de escritório na secção de pessoal da “Construções Metálicas da Ásia Oriental, acabava precisamente de sentar-se no seu lugar no escritório da fábrica, e estava a voltar a cabeça para falar à rapariga da secretária mais próxima. No mesmo momento, o dr. Mazakazu Fujii instalara-se de perna traçada no pórtico da sua clínica particular, debruçada sobre um dos sete rios do delta que divide Hiroshima, a fim de ler o “Asahi” de Osaka; a srª Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, encontrava-se à janela da cozinha observando um vizinho que demolia a sua casa situada numa linha de protecção contra incêndios causados por ataques aéreos; o Padre Wilhelm Kleinsorge, sacerdote alemão da Companhia de Jesus, deitado em trajos menores numa cama do último dos três andares do prédio pertencente à sua Ordem, lia uma revista jesuíta, “Stimmen der Zeit”; o dr. Terefumi Sasaki, jovem membro da equipe de cirurgia do amplo e moderno Hospital da Cruz Vermelha da cidade, caminhava por um dos corredores do edifício, levando na mão uma amostra de sangue para uma reacção de Wassermann; e o reverendo sr. Kiyoshi Tanimoto, pastor da igreja metodista de Hiroshima, descansava à porta de um homem rico, em Koi, o subúrbio ocidental da cidade, e preparava-se para descarregar um carro de mão cheio de coisas que tinha evacuado da cidade com medo de um ataque maciço dos B-29 que toda a gente espertava que Hiroshima sofresse. A bomba atómica matou cem mil pessoas e estas seis ficaram entre os sobreviventes. Ainda se espantam de estarem vivos quando tantos outros morreram. Cada um deles aponta os múltiplos pormenores de sorte ou vontade – um degrau subido a tempo, a decisão de entrar num edifício apanhando um eléctrico em vez do eléctrico seguinte – que os salvaram. E agora, cada um deles sabe que no acto de sobreviver viveu uma dúzia de vidas e viu mais morte do que alguma vez pensara poder ver. Naquele momento nenhum deles percebeu o que quer que fosse.”

John Hersey, “Hiroshima”, nº 87 da “Colecção Miniatura”, edição “Livros do Brasil” Lisboa s/d, Tradução de Rogério Fernandes, capa de Bernardo Marques.

6 DE AGOSTO DE 1945



Maio de 1945.

Um estranho silêncio caiu sobre a Europa. Os canhões tinham cessado de disparar e as bombas deixaram de cair sobre as cidades.

Hiroxima., 6 de Agosto de 1945.

O Japão em guerra, acumula desastres em todas as frentes. Apesar de tudo, era mais um dia para viver: nas escolas, nos escritórios, nas fábricas, nos templos.

McArthur, comandante -chefe das forças do Pacífico, informara o governo dos Estados Unidos, de que o Japão atingira o limite da sua resistência e que, em poucas semanas, o golpe de misericórdia podia ser vibrado pelas armas convencionais.

E de súbito, foi aquele clarão imenso, mais brilhante que cem mil sóis. Não houve tempo sequer para formular uma interrogação e Hiroxima ficou reduzida a escombros, milhares e milhares de mortos, feridos, desaparecidos.

O repórter do “Chugoku Shinibum” saiu para a rua. Poucas vezes disparou a máquina.
“Tive vergonha de fixar aquilo que os meus olhos viam”, disse mais tarde.

A poetisa Yukio Ohta descreverá a situação:

“Vimos um clarão e ficámos assim.
Cada um de nós, durante algum tempo, fez inconscientemente um número infinito de coisas sem saber o que fazia. Depois acordámos e perdemos a vontade de pronunciar palavra. Até os cães, que por ali vagueavam, deixaram de ladrar. Hiroxima não parecia uma cidade destruída pela guerra, mas uma antevisão do fim do mundo”.


Ao menos, o lançamento da bomba sobre Hiroxima correspondia a uma necessidade?

Quer dizer: era indispensável, como medida extrema para pôr fim à guerra e, assim, impedir o derramamento de mais sangue no campo aliado?

Não!

Os Estados Unidos quiseram dar a conhecer ao mundo que, a partir daquele momento, contavam com uma arma de destruição excepcional e urgia que o mundo soubesse quem passaria a “impor o respeito”.

Como se lia no “Daily Mail: “ A diferença em potencial bélico entre nós e o resto do mundo é como se eles não tivessem descoberto a electricidade, ou a energia a vapor…”


Ainda hoje continua a morrer gente por via do trágico bombardeamento: de cancro, leucemia , de desespero, de loucura…


A 9 de Agosto de 1945, os Estados Unidos fariam rebentar uma outra bomba atómica sobre Nagasaqui.

Mais um acto vergonhoso.


Como alguém um dia disse: nenhum povo tem o direito de humilhar, de uma forma tão brutal e desumana, outro povo.

“Voltaremos a encontrar-nos. Não sei onde, nem quando, mas voltaremos a encontrar-nos num dia de sol”, tal como se ouve no final de “Dr. Strange Love” de Stanley Kubrik


Legenda: Fotografia de Alfred Eisenstaedt