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sábado, 22 de setembro de 2018

ETECETERA


Tantas vezes reclamei de mim para mim por que raio nenhuma editora se abalançava a publicar os livros de Maria Judite de Carvalho.

Apenas tenho três livros, encontrados por acaso já não lembro bem onde, talvez na Feira da Ladra, ou naquelas feiras de ocasião, que havia em outros tempos com fundos de catálogo de editoras.

Mas a Minotauro, em hora feliz, decidiu-se a publicar a Obra Completa de Maria Judite de Carvalho.

Uma mulher excepcional, com obra emblemática que não foi apenas a mulher do escritor Urbano Tavares Rodrigues, embora a sua discrição a tenha feito viver sempre um pouco à sombra do marido.

São muitos os que pensam que a obra da escritora é superior à de Urbano e a consideram mais talentosa que o marido, a escritora da solidão e do silêncio.

A coleção, que será composta por 6 volumes, irá abranger toda a obra de Maria Judite de Carvalho. escritora exímia do século passado, que ficou conhecida principalmente pelas suas coletâneas de contos de cunho existencialista. Foi a escritora da solidão e do silêncio das palavras poupadas.

Apelidada por Agustina Bessa-Luís como «flor discreta da nossa literatura», Maria Judite de Carvalho, também jornalista, dedicou trinta anos da sua vida à carreira literária, durante a qual publicou 13 livros, privilegiando as novelas, as crónicas e os contos, e escreveu sobre a solidão, histórias sombrias da vida quotidiana que observava.

Em boa hora, a editora entendeu que as capas dos livros seriam pinturas suas e isso revela outras facetas da escritora: o desenho e a pintura.

No 6º volume dos seus Dias Comuns, José Gomes Ferreira tem duas entradas referentes a Maria Judite de Carvalho:

1 de Novembro de 1968

Ontem, encontro inesperado com Judite de Carvalho na sala de espera do mei dentista, onde durante alguns minutos conversámos com aquela intimidade de termos de passar o tempo da sala de espera de um dentista.
Admiro-a muito como escritora e parece-me uma mulher autêntica. Isto é: que não estraga a liberdade com escravidões fáceis. Prefere as difíceis,

11 de Novembro de 1968

Novo encontro com Judite de Carvalho no dentista.
- Não traz o cabelo penteado da mesma maneira!... – observou o dentista.
- Pois não. Como não gosto da minha cara e não posso mudá-la, mudo de penteado.
Procurei uma frase amável para lhe dizer, mas não a encontrei – malogro que ela infelizmente percebeu.
E no entanto bastaria dizer-lhe que, por mais que mudasse de rosto, nunca arranjaria outro mais inteligente.

PAPA FRANCISCO

O escândalo que envolve as mais altas figuras da Igreja Católica não para de crescer.

O Papa convocou uma reunião com os presidentes das conferências episcopais (organismos que congregam os bispos em cada país) de todo o mundo para debater «a proteção de menores».

Está marcada para 21 e 14 de Fevereiro do próximo ano ,as deveria ser já amanhã!

O clero retrógrado, que nunca deixou a Igreja viver os dias dos novos séculos, tenta por todos os meios fazer a vida negra ao Papa.

Na visita que fez à Irlanda, no passado Agosto, afirmou que se considerava envergonhado com o peso do escândalo dos abusos sexuais que abala a Igreja,

Leo Varadkar, presidente do país, pediu-lhe para passar das «palavras à acção.»

Sim , não basta pedir desculpa.

Conseguirá Francisco prosseguir a luta?

SUÉCIA

Aos poucos as pessoas vão-se apercebendo que a ascensão da extrema-direita nos Estados Unidos, na Europa, pelo resto do mundo, é uma realidade que vai galgando o dia-a-dia.

Há poucos dias foram as eleições na Suécia que colocaram a extrema-direita em patamares nunca alcançados.

Os monstros vão crescendo.

Aproximam-se as eleições presidenciais no Brasil.

Continuamos distraídos, muitos distraídos…

SANTANA ANDA POR AÍ

Saiu do PSD e já formou novo partido.

Chamou-lhe Aliança.

Vitor Dias no Tempo das Cerejas:

Encosto à «popularidade» de Marcelo ?

Se ele quer que o PR
faça isto tudo, para que 
é que fundou um partido ?
 «O senhor Presidente
da República pode e deve
usar toda a popularidade
 que conseguiu para mudar
a sociedade portuguesa,
 para fazer reformas que
 há muito são necessárias
 - reformas do sistema
eleitoral, da justiça,
da produtividade, mas
também das questões
das pessoas»

- Santana Lopes


A FOME NO MUNDO

Mais de 820 milhões de pessoas no mundo passam fome, a maior parte em África e na América do Sul, um número que, segundo um relatório das Nações Unidas, aumentou pelo terceiro ano consecutivo.

MAIOR QUE O NOBEL!

Começar com livros, com livros fechar.

António Lobo Antunes vai passar a integrar a colecção francesa Bibliothèque de la Pléaide. Será o segundo português a fazer parte dado que Fernando Pessoa foi incluído em 2001.

A colecção, criada em 1931, publica as obras dos autores em edições cuidadas em papel bíblia e capa dura.

«Sonhei com este prémio desde a adolescência até agora. É o maior reconhecimento que se pode ter enquanto escritor, muito maior do que o Nobel.»

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

NOTÍCIAS DO CIRCO


D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa, declara que o acesso aos sacramentos por parte dos católicos recasados só deve ocorrer em circunstâncias excecionais, e após um longo caminho de discernimento. Na avaliação de cada situação, que caberá em primeiro lugar ao seu confessor, estes crentes que se divorciaram de um primeiro casamento, devem ser aconselhados em primeiro lugar a uma vida em continência na nova situação, ou seja abstendo-se de relações sexuais.

 O teólogo Anselmo Borges não poupa críticas ao patriarca:

«Não faz sentido estar a admitir que estão casados, por um lado, e pedir-lhes que não tenham vida sexual, por outro».

Em que século vive a igreja?

No século passado, mais concretamente a 3 de Abril de 1982, aquando do debate, na Assembleia da República, sobre a legalização do aborto, o deputado do CDS, João Morgado, disse que o acto sexual é para ter filhos.

Natália Correia em resposta a João Morgado, chutou-lhe uma pérola poética que ficou para a História:

Já que o coito — diz Morgado —
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou — parca ração! —
uma vez. E se a função
faz o órgão — diz o ditado —
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

PEQUENOS CADERNOS


Cansei-me da igreja.
Desiludiu-me.
Deus é algo em que já não penso.
Mas depois leio palavras como estas de José Tolentino Mendonça:

Muitas vezes Deus prefere
entrar em nossa casa
quando não estamos

… e regressam as dúvidas…

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Cardeal-Patriarca de Lisboa propôs esta segunda-feira aos sacerdotes católicos que rezem a pedir chuva. "Face à seca prolongada sofrida em Portugal, D. Manuel Clemente propõe aos sacerdotes que 'quando a Liturgia diária o permita, celebrem a Missa para Diversas Necessidades', com a oração prevista", explica o patriarcado, em comunicado.

É este o texto da oração proposta:

«Deus do universo, em quem vivemos, nos movemos e existimos, concedei-nos a chuva necessária, para que, ajudados pelos bens da terra, aspiremos com mais confiança aos bens do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo». 

Legenda: Gene Kelly em «Singing in the Rain».

domingo, 3 de setembro de 2017

RELACIONADOS



Este livro do Castrim nasce da colaboração que manteve com os Missionários Comboianos, para a revista Audácia. A morte não permitiu que assistisse à publicação deste bonito livro «dedicado a todos os seus amigos comboianos.»

Os desenhos de Rogério Ribeiro tornam o livro ainda mais cativante.

Mário Castrim era católico.

Disse um dia:

Que é ser católico? Ir todos os domingos à missa? Confessar-se? Gostar de João Paulo? Não, isso não serei. Se é ser católico dar, como Cristo, prioridade aos pobres, aos oprimidos, aos injustiçados; se é estar como Cristo a combater a riqueza indevida, a hipocrisia e o poder do dinheiro; se é amar a Terra para melhor merecer o céu, então católico fui, sou e serei.
Olhe, o comunista é aquele que deixou de acreditar na eternidade para acreditar no futuro. O comunista é um cristão para uso quotidiano.

O Padre Manuel Augusto, Director da Revista Além-Mar e sacerdote comboniano afirma que este livro «é o grito de uma pessoa que procura, se confronta com Deus, reconhece e invoca a sua presença”. Por isso indica, ser um livro destinado a todas as pessoas que fazem uma procura de Deus, a partir dos conflitos normais e dos dramas da própria vida. Na redacção da publicação comboniana é recordado como uma pessoa com um “grande entusiasmo pela vida em geral. Tudo o que acontecia na vida merecia a apreciação lúcida e admirada do Mário, e ele colocava-o por escrito nas suas crónicas, sem preconceitos nem moralismos. Para ele havia uma regra essencial: a vida é harmonia, lealdade e respeito pelos inimigos”. “A amizade para com os Missionários Combonianos surgiu naturalmente, porque também ele alimentava o sonho de um mundo melhor, mais justo e fraterno. Ele era um homem profundamente preocupado e comprometido com os pobres e deserdados do mundo. Ouvia com enorme prazer todas as histórias dos missionários, e vivia a sorte e as incertezas daqueles que se encontravam nos teatros de guerra e das gentes que serviam».

Mário Castrim morreu a 15 de Outubro de 2002.

Oito dias antes, escreveu o seu último poema:

Lágrimas, não. Lágrimas, não. A sério.
Enfim, não digo que. É natural.
Mas pronto. Adeus, prazer em conhecer-vos.
Filhos, sejamos práticos, sadios.
Nada de flores. Rigorosamente.
Nem as velas, está bem? Se as acenderem,
sou homem para me levantar e vir
soprá-las, e cantar os "Parabéns".
Não falem baixo: é tarde para segredos.
Conversem, mas de modo que eu também
oiça, e melhor a grande noite passe.
Peço pouco na hora desprendida:
fique eu em vós apenas como se
tudo não fosse mais que um sonho bom.

Deste ponto do hotel vê-se qualquer coisa
que logo desde o início se entendeu
não poder ser outra coisa além do Cabo da Roca.
Daqui donde estou se vê que o Cabo é
perfeitamenhte ocidental o mais
ocidental possível.
Mais do que ele, só os nossos olhos.
Eles, para quem a terra não acaba nunca.
Eles, que tocam o ponto exacto onde
um sol de fogo prova que ela é redonda.
A única diferença é o farol. Mas se fores tu
de noite a olhar o mar, os barcos
podem ir à confiança.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

COMO LÂMINA CORUSCANTE


O questionário do professor Riley da Mota levantou, no país, uma onda de indignação. A coeducação seria uma porta aberta para a entrada, na nossa doce pátria, das víboras do comunismo. Coeducação quer dizer sexo, sexo quer dizer imoralidade, imoralidade quer dizer desprezo pela doutrina do senhor. O jornal Novidades, pertença da Igreja, abateu-se sobre o questionário do pobre Rikley da Mota como lâmina coruscante. Os professores não têm nada que responder às perguntas subversivas do senhor Director-Geral porque resposta já foi dada, há muito, com luminosa visão, pelo Santo padre Pio XI na sua encíclica Divini Illius Magister. Assim o diz aquele jornal do dia 17 de Janeiro de 1946, em letras carregadas de negro: “Responde Pio XI”. E transcreve parte da encíclica, ajustada à situação. “Erróneo e permissivo à educação cristã é o chamado método da coeducação, baseado para muitos no naturalismo negador do pecado original, e ainda, para todos os defensores deste método, sobre uma deplorável confusão de ideias que confunde a legítima convivência com a promiscuidade e igualdade niveladora. O Criador ordenou e dispôs a convivência perfeita dos dois sexos somente na unidade do matrimónio e gradualmente distinta na família e na sociedade.”
Eu falei em comunismo e não estava a gracejar. O mesmo jornal, três dias depois do que citei, enchia uma das suas páginas com este título: “A coeducação ou o assalto da escola pelo processo soviético”, isto é, comunista.

Rómulo de Carvalho em Memórias

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

UM PEQUENO PASSO


O Papa Francisco autorizou todos os sacerdotes a manterem definitivamente a capacidade de absolverem as mulheres que fizeram um aborto, disposição que devia vigorar apenas durante o ano jubilar da misericórdia, que terminou no domingo.

Para que nenhum obstáculo se interponha entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, concedo a todos os padres, a partir de agora, a faculdade de absolver o pecado do aborto. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Só Deus sabe da tranquilidade do meu ateísmo e do respeito que tenho pela fé dos outros.

Autor desconhecido

Legenda: Parque dos Insultos, pintura de Vespeira

UM PROBLEMA CHAMADO FÁTIMA



Fátima, os pastorinhos, os segredos, são um insulto à inteligência de crentes e não crentes, agnósticos e ateus. 

Fátima é um nódoa que cai no pano de fundo da ignorância e da cegueira feita fé.

Em Novembro de 2002, era Paulo Portas ministro de Estado e da Defesa, houve na Galiza uma maré negra provocada pelo petroleiro Prestige.

A costa portuguesa não foi de todo afectada e Paulo Portas apressou-se a dizer que Portugal tinha sido salvo pela intervenção de Nossa Senhora de Fátima.

A Igreja nunca conseguiu livrar-se do síndroma Fátima.

Quando Paulo VI veio a Fátima, por ocasião do cinquentenário, houve forte contestação.



Naquele tempo disse João Bénard da Costa:

Se me perguntarem de quando eu dato a minha saída da Igreja, respondo que do dia 13 de Maio de 1967, o dia da visita de Paulo VI a Portugal.

Agora que o Papa Francisco, por ocasião do centenário, pensa deslocar-se a Fátima, outras contestações terão lugar.

O bispo auxiliar de Lisboa, Nuno Brás, disse esta quinta-feira que o Papa Francisco lhe confirmou que se deslocará a Portugal em Maio a propósito do Centenário das Aparições.

O bispo auxiliar considera que a visita a Fátima pode ser dada como certa, a não ser que aconteça um imprevisto de agenda ou pessoal.

Caso a visita se verifique, o Papa Francisco será o quarto Papa a visitar Portugal, depois de Paulo VI (1967), João Paulo II (1982, 1991 e 2000) e Bento XVI (2010).

O recorte acima reproduzido pertence ao Notícias de Portugal (semanário de propaganda da ditadura) de 11 de Fevereiro de 1967, onde se conta das andanças, por Roma, do Cardeal Cerejeira tratando dos preparativos das comemorações do cinquentenário de Fátima.

Atente-se no telegrama, proveniente de Paris, sobre o motivo por que o Papa ainda não divulgou o «segredo» de Fátima.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O PADRE QUE NÃO GOSTAVA DE LIVROS


Esta é uma velha fotografia das Carrinhas-Bibliotecas-Itinerantes-da Gulbenkian. 


Ao vê-la, lembrei uma carta que o poeta António José Forte, em tempos de ditadura, escreveu aos responsáveis da Gulbenkian.

A carta foi recordada por José do Carmo Francisco na Ler, revista do Círculo de Leitores, de que não tenho a indicação de data e número.

Ex.mos Senhores:
Um bem triste e lamentável episódio interrompeu ontem, dia 27, a marcha feliz e entusiástica que esta Biblioteca iniciou há pouco por terras do Baixo Minho. Foi o caso de um abade que se nos atravessou no caminho, não para suicidar-se. O que seria altamente honroso para ele, mas para apressar o suicídio dos seus submissos paroquianos, boa gente, diga-se de passagem, mas cegos como todos os suicidas involuntários.
«Estávamos nós estacionados em Parada de Baixo, terra célebre nestas redondezas pelas suas laranjas e outras frutas, quando o pároco da freguesia, zeloso da salvação das suas ovelhas, decidiu intervir. A intervenção foi ridícula e teatral por um lado e pelo outro infame e de franca má fé.
«Acusando-nos de estarmos a distribuir livros protestantes, ameaçou os paroquianos de excomunhão ipso facto (foram palavras textuais do padre) caso ousassem levar um único exemplar que fosse. E não contente com essa ameaça arrancou das mãos de alguns leitores as obras já requisitadas e atirou-as ao chão que, por sinal, estava um pouco enlameado. Em seguida, e para intimidar-nos, exigiu que nos identificássemos, o que recusámos gostosamente. Depois explicámos às pessoas, não ao padre, que aquela Biblioteca se tratava de uma instituição legal, e que pertencia à consciência de cada um escolher entre levar livros e devolvê-los. Graças ao Diabo houve uma minoria que se manteve firme, não abdicando da vontade própria, mas aos que estavam no que julgam ser a graça de Deus principiaram a devolver os livros, e da maneira mais correcta possível, quer atirando-os ao chão quer lançando-os para dentro do furgão. Claro que pelo padre estava a maioria das mulheres que se não poupavam a insultos e ameaças, o que, consequentemente, provocou uma atitude hostil por parte de alguns homens, os quais, homens, ocasionalmente é verdade, pois regressavam do trabalho, traziam ao ombro uma sachola de cabo bastante comprido. De modo que resolvemos retirar-nos.
A nossa próxima visita a Parada do Bouro está marcada para 27 de Janeiro [1961] e é nossa firme intenção lá voltar. Mas não podemos ir desprevenidos e por isso desejamos que nos autorizem a fazê-lo acompanhados pela Guarda Republicana, ou que nos enviem armas. Desnecessário se torna, naturalmente, sugerir que tentem proceder contra o padre (de sua graça Isac).
Por nós, participaremos hoje ou amanhã ao Presidente da Câmara de Vieira do Minho o ocorrido.
Aqui a indignação é, pode dizer-se, geral. Os correspondentes dos jornais Jornal de Notícias e Primeiro de Janeiro já enviaram notícias de protesto. Nós prosseguiremos.
Atenciosamente

Vieira, 28 de Dezembro de 1960.

António José Forte


Legenda: a fotografia é tirada do blogue Restos deColecção.

sábado, 7 de maio de 2016

SARAMAGUEANDO



Muitos não o perceberam: a grande acusação que José Saramago faz a Deus é Ele não existir, a não ser criado pelos homens.


Legenda: fotografia de Roger Schall

quinta-feira, 5 de maio de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


Segundo a primeira página do Correio da Manhã de hoje, novo milagre à vista para os lados de Fátima.

sábado, 2 de abril de 2016

SEM PERDÃO!


Um dia proclamou ao mundo:

Estou aqui por ordem divina.

Chamava-se Augusto Pinochet e foi um dos maiores criminosos da História.

No entanto, em Abril de 1987, o Papa João Paulo II, de visita ao Chile, abençoou o ditador e afirmou que a Igreja chilena lutava «pela vitória do bem sobre o mal, do amor sobre o ódio, da paz sobre a violência e da justiça sobre a indignidade»

Eles sabiam o que faziam!

Sem perdão!

Legenda: Diário de Notícias 2 de Abril de 1987,

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

OS IDOS DE DEZEMBRO DE 1975


29 de Dezembro de 1975

O recorte é do Diário de Lisboa de 29 de Dezembro de 1975

Por parte da Igreja Católica pairou, sempre, sobre a ditadura Salazar/Caetano, um manto de silêncio, uma bênção que mais não era do que uma íntima aliança de interesses mútuos.

Para os senhores bispos, a PIDE nem perseguiu nem matou cidadãos portugueses.

Para os senhores bispos, a Guerra Colonial não existiu.

Para os senhores bispos, a perseguição a membros progressistas da Igreja, feita pelo regime, foi uma mera invenção de gente a soldo do estrangeiro.

A este silêncio de décadas, como facto parodoxal e escandaloso, sobreveio, nos dias seguintes ao 25 de Abril, um palavreado imenso contra os novos ares que o país começava a viver.

Não foram pacíficos os novos tempos na rádio da igreja.

Em Fevereiro de 1975, o despedimento sem justa causa de 11 trabalhadores, conduziram a uma greve que durou largos dias. A entidade patronal tentou conduzir um conflito laboral numa questão religiosa.

No seu Canal da Crítica, publicado do Diário de Lisboa de 13 de Fevereiro de 1975, escrevia Mário Castrim:


Durante a greve, o Episcopado proibiu a transmissão do terço e da missa.

Álvaro Guerra, no República de 3 de Março de 1975:


No Expresso de 3 de Dezembro de 2011, Ana Cristina Leonardo recorda:

… havia muira gente na Rua Capelo e que quando lá cheguei me perguntaram: “Vens para a manifestação de apoio aos trabalhadores?” Respondi que sim, ora essa, e o homem disparou: “Vais para o piquete das pedras!” E põs-me um capacete da Lisnave na cabeça. Cheguei ao piquete das pedras (as pedras arrumadinhas a um canto) e não conhecia ninguém. Fartei-me de esperar pelas forças da reacção, que nunca mais chegavam para ser apedrejadas, devolvi o capacete e disse que ia só ali. Distraí-me com um soldado que explicava aos passantes como manejar uma arma, reparei que se fizera tarde, tinha um comboio para apanhar e fui para casa.

Às 09,00 horas do dia 12 de Março de 1975, com a leitura de um comunicado, os trabalhadores da Rádio Renascença recomeçavam as emissões com uma programação própria, mas não abandonando a luta contra o reaccionarismo da Gerência:

O reinício da actividade da estação é antes de mais a nossa vitória. Ignoramos quais vão ser as etapas posteriores. Para já a estação está outra vez activa ao serviço das classes trabalhadoras e das massas populares.

Na madrugada de 7 de Novembro de 1975, por ordem superior do Conselho da Revolução, a terapia política da bomba destruía os emissores da Rádio Renascença na Buraca.

Perguntava-se, então:

Que rádio sairá dos destroços?

No dia 29 de Dezembro de 1975, por decisão do Ministério da Comunicação Social, a Rádio Renascença voltava ao Patriarcado.

Como é do conhecimento público, a Rádio Renascença não foi nacionalizada, o que correspondeu à reconfirmação da posição da Igreja Católica neste órgão de informação. Na sequência lógica dessa decisão resolveu o Governo fazer a restituição das instalações e bens, ilegalmente ocupadas, da Rádio Renascença em Lisboa.

Segundo um porta-voz da Rádio Renascença a estação recomeçaria as suas emissões no primeiro dia do Novo Ano com a transmissão, ao meio dia, da missa de Ano Novo, celebrada pelo cardeal Patriarca de Lisboa.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

OS IDOS DE DEZEMBRO DE 1975


3 de Dezembro de 1975

As acções terroristas foram o marco negro e trágico, um mar de ódio e violência que varreram todo o Verão Quente.

Nessa escalada de terrorismo estiveram envolvidos militares da ditadura, mercenários, um vasto de pessoasa não classificáveis, figuras da Igreja, com especial realce para essa sinistra figura que dá pelo nome de Cónego Melo.

Sempre que no norte se organizaram manifestações e concentrações de apoio à Igreja, resultaram posteriores ataques a centros de trabalho de partidos de esquerda e organizações sindicais.

O verbalismo de sacristia dos senhores bispos atingiu as raias do patético e inadmissíveis numa sociedade que se pretende democrata.

Eduardo Lourenço num artigo publicado no Jornal Novo de 16 de Agosto de 1975, e incluído no seu livro O Fascismo Nunca Existiu, aborda palavras incendiadas de D, Francisco Maria da Silva, Arcebispo de Braga que contrariavam o espírito da Comissão Promotora de apoio ao Arcebispo: A manifestação realizar-se-á no próximo dia 10 (Agosto de 1975) como está previsto, com espírito de amor e reconciliação, sem distúrbios provocados pelos cristãos.

Aconteceu tudo menos amor e reconciliação.

Escreve Eduardo Lourenço:

Sua Exª Verª limitou-se a esperar os tropeções, as monumentais e esperadas escorregadelas da Revolução. Sua Exª Rerª, como os bispos de antanho, bem escorado na sua pessoal e anacroníssima Torre de Barbela, esperou a hora propícia, o sinal que o repusesse no único papel que lhe convém e sabe de cor: o de arauto da contra-revolução.
Exª Rerª: o País não é a «Ulisseia desvairada», Braga não é o país.. Tenhamos mesmo esperança de que Braga não seja o seu Arcebispo. Ainda há na terra portuguesa gente que se lembra como D. João II tratava os ilustres bispos que se metiam a «políticos» w pisavam o risco que separa a política dos homens daquela que Quevedo chamava «la política de Dios». O destino de Portugal, o futuro da Revolução Portuguesa, são demasiado preciosos para dependerem de um bispo reacionário. A escolha deste País não é entre V. Exª e Álvaro Cunhal. E se fosse, só num sentido seria realmente uma escolha. Felizmente, Portugal já escolheu a 25 de Abril e a 1 de maio de 1974. Contra V. Exª Verª e tudo quanto o pouco glorioso nome do sucessor de Bartolomeu dos Mártires, bispo popular e do povo português, representa.

Os números do terrorismo que acima se colocam constam de um Dossier publicado em Junho de 1977.

Fontes:
- Acervo pessoal.
-  O Fascismo Nunca Existiu de Eduardo Lourenço, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 1976
- Dossier Terrorismo, Edições Avante, Lisboa, Junho de 1977

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

NOTÍCIAS DO CIRCO




O quanto teria sido gratificante que a Igreja, no tempo da ditadura, também tivesse expressado a sua opinião sobre a precaridade de vida, trabalho infantil, censura, falta de liberdade, perseguições, espancamentos e assassínios políticos – era de noite e levaram… - guerra colonial, e não o ensurdecedor silêncio que sempre manteve.

terça-feira, 28 de julho de 2015

O DIREITO DE (NÃO) ACREDITAR



Não acredito no que reza o Papa Francisco.


Já por aqui escrevi que aceito, compreendo e respeito a fé de cada um.

Gostaria que aceitassem, compreendessem e respeitassem a minha não fé.

Não acontece.

Pelo menos na quantidade que eu julgaria sensata.

João Bénard da Costa:

Foi em Maio de 1967 que deixei de me reconhecer na Igreja, fora da qual tinha achado que não havia salvação. Podia ser muita coisa, então como hoje. Mas já não me podia chamar mais católico apostólico romano. Tudo começou nesse ano em que me sentei de fora, à espera, no limiar, mas já não lá dentro.

Albert Camus:

Quem ousará condenar-me neste mundo.
Odeio este mundo em que estamos reduzidos a Deus.
Creio cada vez mais que não devemos estabelecer um juízo sobre Deus a partir deste mundo, que não é senão um esboço que lhe saiu mal.

Contam-se por milhões os exemplos que aqui poderia colocar, mas cite-se este:

Corria o dia 12 de Novembro de 1991.

Onde estava Deus, quando no cemitério de Santa Cruz, os indonésios massacraram centenas de timorenses?

sábado, 20 de junho de 2015

OS IDOS DE JUNHO DE 1975


20 de Junho de 1975

JÁ PASSARAM uns dias, foi a 15, que Otelo Saraiva de Carvalho, citado por O Primeiro de Janeiro, explosivamente afirmou. oxalá que, realmente, não tenhamos que um dia encher a arena do Campo Pequeno com muitos contra-revolucionários, antes que os contra-revoluciojnários nos metam a nós no Campo Pequeno.
Em entrevista à Rádio Renascença, já dissera: eu, às vezes, chego a apensar que a nossa inexperiência revolucionária, enfim, teria sido melhor se, em 25 de Abril de 1974 encostássemos à parede ou mandássemos para o Campo Pequeno umas centenas ou uns milhares de contra-revolucionários, eliminando-os à nascença. Tenho a impressão de que neste momento a contra-revolução já não existia, pelo menos, por medo. Nós sfazer uma revolução humanista, uma revolução de cravos, uma revolução muito bonita, e estamos agora com um esforço tremendo para a conseguir levar a cabo,


O REPÚBLICA É REABERTO. A admistracção, o director e os redactores pró-Raul Rego, não chegam acordo com os restantes trabalhadores, no tocante à publicação do jornal, e abandonam as instalações.
O «Caso República” está num beco sem saída e pode levar a uma crise muito grave, disse Mário à rádio francesa Europe 1.

Os jornalistas distribuem um comunicado:


PRÓ E CONTRA manifestantes, por causa do caso Rádio Renascença, envolveram-se em confrontos frente ao Patriarcado.
Viveram-se momentos de forte tensão e houve a necessidade da intervenção das Forças Armadas.
Sottomayor Cardia, em nome do Partido Socialista, solidarizou-se com a Igreja Católica e o seu direito de utilizar os meios de comunicação social. A demagogia irresponsável e anticlerical movida a respeito do caso Renascença apenas pode favorecer a contra-revolução e o fascismo.
Por seu lado, também em comunicado, o Partido Comunista diz que a luta que os trabalhadores da Rádio Renascença têm conduzido por algumas justas reivindicações profissionais não têm encontrado por parte da hierarquia da Igreja qualquer perspectiva de solução - é uma luta que se tem prolongado e ultimamente agudizado.
As reivindicações profissionais defendidas não devem ser confundidas com qualquer questão religiosa mas existem forças que se mostram interessadas em criar e alimentar tal confusão.


O EPISCOPADO português, tão silencioso e conivente com a ditadura, em nota pastoral, intromete-se, negativamente, na situação política.
Do Apontamento de José Saramago no Diário de Notícias:
Se os bispos portugueses, defendessem a Revolução, portugueses seriam, mas não bispos. Teriam inventado, se tal milagre se desse, uma nova maneira de ser bispo, mais preocupada com a liquidação das misérias do mundo em geral e dos povos (deste povo) em particular, do que com a defesa já mal disfarçada de um fixismo social e económico que certas encíclicas pareceram combater e, afinal, reforçou na prática.

MIGUEL TORGA no seu Diário:
Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona, as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto, a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que apesar de tudo valeu a pena assistir ao descalabro. Pelo menos não morro iludido, como os que partiram nas vésperas do terramoto. Cuidavam que combatiam pelo futuro e, na verdade, assim acontecia, mas apenas na medida em que o sonhavam como se ele tivesse de ser coerente com a dignidade do seu passado de lutadores. O trágico é que um futuro sonhado não passa de uma ficção. O tempo é o lugar do inédito. O futuro autêntico é sempre misteriosos e autónomo das premissas de que partiu. Quando chega, traz os seus valores, as suas leis, a sua gente, nem boa nem má. Traz os títeres que lhe convêm. Ou pior: os títeres a quem a hora convém.


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Diário de Miguel Torga
-Os Apontamentos de José Saramago

Legenda: confrontos em frente do Patriarcado. Fotografia tirada de - Os Dias Loucos do PREC.