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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Cravo Vermelho

Elio Vittorini
Prefácio: Elio Vittorini
Tradução: Sousa Victorino
Capa: Infante do Carmo
Colecção Miniatura nº 125
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Havia já muito tempo que não ousava brincar daquela forma estrepitosa. Tinha olhado para mim uma rapariga do «segundo» e eu, sem mais, deixara de o fazer.
Era filha de um coronel. Parecia-me lindíssima, embora usasse um chapelinho que lhe escondia metade da cara. Ia de casa para o liceu e do liceu para casa com uma mocetona de largas ancas, do mesmo ano, que lhe dava sempre a direita e parecia sua criada.
Logo que me senti olhado não hesitei; pus-me a segui-la, mantendo dez passos de distância, e acompanhava-a em todas as saídas. Voltava-se, em todo o percurso, uma única vez: quando chegava à esquina de rua onde ficava a sua casa. À tardinha voltava a passar debaixo das suas janela, a maior parte das vezes de bicicleta, e a música fluía subterrânea de dentro da longa fila de altos muros floridos. Também lhe escrevi, mas não me respondeu. Apenas, porque naquela minha carta lhe chamara Diana, me mandava com frequência e misteriosamente dizer, por qualquer rapariga do meu ano, que Diana me enviava cumprimentos.
Um dia mandou-me um cravo vermelho, fechado num sobescrito.
Encontrava-me na aula, enquanto a professora de línguas modernas escandia palavras de la Fontaine. Ama-me, pensei, dando um salto. A professora fritou-me que repetisse o último verso e eu disse, pesando na que me queria bem:
-Mas nem por sonhos!
Fui expulso da aula por todo o resto da lição e fui postar-me atrás da porta do «segundo», onde ela estava. Esperava ouvir-lhe a voz; não a conhecia mas supunha poder reconhecê-la. Ama-me, pensava. E a voz «dela» elevou-se enquanto a voz dolente do padre que ensinava grego a todo o Liceu, interrogava. Era uma voz como a duma criança que despertasse, com um longo «oh» de maravilhado recolhimento no início de cada resposta.

sexta-feira, 10 de março de 2017

OLHAR AS CAPAS


Paris É Uma Festa

Ernest Hemingway
Tradução: Virgínia Motta
Capa: Infante do Carmo
Colecção Dois Mundos nº 90
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Assim terminou a primeira parte da minha existência em Paris. Paris nunca mais voltou a ser a mesma cidade, embora continuasse a ser Paris. Nós mudáramos, tal como a cidade. Nunca mais voltámos ao Voralberg e o mesmo se verificou com a gente rica.
Paris é imortal e as recordações das pessoas que lá vivem diferem de umas para as outras. Acabamos sempre por voltar, sejamos nós quem formos, ou mude Paris no que mudar, ou sejam as dificuldades ou as facilidades que, ao regressarmos, se nos deparem. Paris vale sempre a pena, pois somos sempre compensados de tudo o que lhe tivermos dado. Mas Paris era assim nos velhos tempos em que nós éramos muito pobres e muito felizes.

sábado, 9 de janeiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


As Verdes Colinas de África

Ernest Hemingway
Tradução Guilherme de Castilho
Capa: Infante do Carmo
Edição Livros do Brasil, Lisboa s/d

- E quem são os bons escritores?
- Os bons escritores são Henry James, Stephen Crane e Mark Twain. Esta não é a ordem do seu valor. Não há uma escala para os bons escritores.
- Mark Twain é um humorista. Os outros não conheço.
- Toda a literatura americana vem de um livro de Mark Twain chamado Huckleberry Finn. Se o ler deve parar onde o negro Jim é roubado aos rapazes. Aí é realmente o fim. O resto é uma fraude. Mas é o melhor que até à data tivemos. Todos os escritores americanos provêm daqui. Não há nada antes. Não houve nada tão bom depois disso.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

OLHAR AS CAPAS



Viagens Com o Charley

John Steibeck
Tradução: Sousa Victorino
Capa: Infante do Carmo
Colecção Dois Mundos nº 92
Edição Livros do Brasil, Lisboa s/d

Quando eu era muito novo e sentia em mim o impulso irreprimível de estar em qualquer outro sítio, foi-me assegurado por pessoas de idade madura que a maturidade curaria este desejo ardente. Quando os anos me indicavam como amadurecido, o remédio prescrito foi a meia-idade. Na meia-idade asseguram-me que uns anos mais acalmariam a minha febre, e agora, que tenho cinquenta e oito, talvez a senilidade o consiga. Nada surtiu efeito. Quatro sopros roufenhos do apito de um navio ainda arrepiam o cabelo da minha nuca e põem os pés a sapatear. O som de um avião a jacto, de um motor a aquecer, até o bater de cascos ferrados no pavimento, provocam o antigo estremeção, a boca seca e o olhar vago, o calor das palmas das mãos e da agitação violenta do estômago, aos pulos sob a caixa das costelas. Por outras palavras não melhoro, ou, indo mais longe, quem foi vadio é sempre vadio. Receio que a doença seja incurável. Menciono este assunto, não para ensinar aos outros mas para me informar a mim mesmo.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

PÁSCOA FELIZ


Esta é a edição definitiva de “Páscoa Feliz” de José Rodrigues Migueis., publicada em Setembro de 1958 por Estúdios Cor.

A capa é de Infante do Carmo.


Reprodução de uma das badanas do livro

Nesta edição, o autor escreve uma nota, onde revela as muitas dificuldades por que passou a publicação de Páscoa Feliz

Acabado o manuscrito, em papel almaço de trinta e cinco linhas, andei com ele algum tempo sem saber o que fazer. Onde estavam então os editores que hoje, por bem da nossa glória literária, pululam em Portugal? Chianca de Garcia leu-a e propôs-se publicá-la: mas a editorial a que estava ligado desapareceu, e com ela a esperança do prémio que ele me profetizava. Lia-a mais tarde a Câmara Reys, que deu à estampa, na “Seara Nova”, o segundo capítulo. Mas a novela continuava inédita.
Até que um próspero sindicato operário condescendeu em editá-la: na Páscoa de 1932, com uma ortografia atrabiliária, impressa em mau papel, e com o único chamariz da capa de Fred Kradolfer. Não se fizeram anúncios, não houve rádio-propaganda, nem dei entrevistas aos jornais. O preço (popular) era de seis escudos, e a tiragem, de três mil exemplares, escoou-se lentamente: o êxito intelectual não aprece de bom augúrio! Não pedi nem cobrei direitos de autor: o sacrifício era de regra para o escritor “interveniente”, ainda que nas veias lhe corresse, exclusivamente, o sangue de pedreiros, carpinteiros, oleiros e labregos.
Páscoa reaparece a vinte e seis anos de intervalo. Limitei-me, para esta edição definitiva, a dar-lhe alguns retoques de pormenor e a adicionar-lhe uma ou duas curtas passagens anteriormente suprimidas. Seria desonesto de outro modo transformá-la ou actualizá-la.”


Dado que a indicação é omissa, por esta nota fica a saber-se que a capa da 1ª edição é da autoria de Fred Kradolfer.



Da contracapa de Páscoa Feliz.