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sábado, 25 de novembro de 2017

COMO ERA POSSÍVEL VIVER?


«Lembro-me. Era um tempo e um país diferentes. Tão diferentes que já quase me não lembro de como era possível neles viver.»

Jorge Wemans, de um texto neste número da Pública, revista do Público de 23 de Novembro de 1997 que assinalava os 30 anos da tragédia de 25 de Novembro.

Há 50 anos também era sábado.
Choveu e choveu, não parava de chover.
Famílias inteiras foram levadas na enxurrada.
Até hoje, não se conseguiu apurar o número toral de mortos.
Um número perto dos 500? Ou dos 700?
A censura tratou de impedir a divulgação dos mortos da catástrofe.
Como impediu as notícias que referiam o trabalho que os estudantes e depopulares desenvolveram na ajuda às vítimas.

NOVEMBRO DE 1967 VISTO PELA DITADURA


O Notícias de Portugal era um boletim semanal, tiragem de 75 mil exemplares em papel bíblia, destinado às comunidades de emigrantes espalhadas pelo mundo e um veículo de propaganda da ditadura.

O 1º número está datado de 10 de Maio de 1947.

Como se publicava aos sábados, só na semana seguinte poderia abordar as trágicas inundações de 25 de Novembro.

Abordar é uma maneira de escrever.

Na edição de 2 de Dezembro, a 1ª página é tioda uma fotografia de Salazar a falar ao país, não sobre os dias trágicos, mas sobre uma «significativa» homenagem que os Municípios de Moçambique lhe vieram prestar. O ditador aproveitou para fazer um discurso que ficou para história com o título de «A Política de África e os Seus Erros».

Os erros são os dos outros, nunca os seus.


As notícias sobre a tragédia reduzem-se a notas de circunstância e em que, nem uma só vez, é referido o número de mortos, nem mesmo os que a ditadura disse que se registaram.

O resto é a reunião do Conselho de Ministros de 27 de Novembro, sem qualquer indicação de decisões, a bênção apostólica que o Papa Paulo VI dirigiu às famílias das vítimas, juntamente com um cheque de dez mil dólares e as mensagens de pesar que alguns estadistas enviaram ao Presidente da República.


Como certamente entenderam que o espaço dedicado às inundações já era muito, resolveram incluir fotografia e texto da entrega de prémios científicos a dois médicos, e texto e fotografia  de Américo Tomás a inaugurar, no Palácio Foz,  a VI Bienal Internacional de Arte Fotográfica, organizada pelo Grupo Cultural e Desportivo da Companhia Nacional de Navegação.


E, nos números seguintes, não mais falaram da catástrofe de 25 de Novembro.

Nota do editor: como os exemplares do Notícias de Portugal estão encadernados, a sua digitalização, por vezes, não é fácil.

OLHAR AS CAPAS


O Homem na Cidade

Vários autores
Prefácio: Mário Sacramento
Capa: Luís Carrôlo
Colecção O Homem no Mundo nº 5
Prelo Editora, Lisboa, Julho 1968

Era ao cair da tarde – e havia mortos. Todos muito juntos, enlameados, compridos.
Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.
Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades. Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos. Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.«Se tu és João” – dizia para mim – és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.» E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.
O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal. Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora.
- Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos. E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível. Como um preito de homenagem. Como um choro. Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama. Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.
Escuridão total.
- Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos. E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?
- Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – «és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília. »
Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.
Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.

Pedro Alvim, crónica publicada no Diário de Lisboa, aquando das trágicas cheias de Novembro de 1967.

ATÉ NA MORTE É TRISTE SER-SE MISERÁVEL


Nós não diríamos: foram as cheias, foi a chuva. Talvez seja mais justo afirmar; foi a miséria, miséria que a nossa sociedade não neutralizou, que provocou a maioria das mortes. Até na morte é triste ser-se miserável. Sobretudo quando se morre por ser.

Citação de «O Comércio do Funchal», retirada do texto de Joana Pereira Bastos c/ Joana Beleza e José Pedro Castanheira, fotografia de Eduardo Gageiro, publicado na revista do Expresso de 12 de Novembro de 2017. 

TODA A NOITE CHOVEU


Sábado, 25 de Novembro de 1967.

Estava em Tavira a cumprir o serviço militar obrigatório.

Tinha vindo a Lisboa passar o fim-de-semana e aproveitar para tirar a medida ao 2º fato do casamento, que ocorreria em Dezembro.

A chuva fustigava Lisboa.

Perto das sete da tarde estávamos, eu e a Aida, no alfaiate, num 3º andar da Rua do Fanqueiros, a fazer a prova do fato.

Um enorme trovão e ficámos às escuras.

As costureiras trouxeram um candeeiro a petróleo, algumas velas.

Muito à média luz, conseguiu o alfaiate fazer a prova possível.

Como não houve oportunidade para outras provas, o facto é que o fato nunca me assentou bem.

Também nunca foi coisa a que desse qualquer tipo de importância.


Saímos do alfaiate sem que a luz tivesse sido reposta.

A chuva desabava como um dilúvio.

Aguardámos bem perto de uma hora e acabámos por nos fazer ao caminho.

A forte ventania destruíra os chapéus-de-chuva, as gabardines estavam ensopadas em água, não protegiam coisa alguma.

Não havia transportes.

A Avenida Almirante Reis era um rio, o Martim Moniz era um lago, onde carros, tudo o que imaginar se possa, flutuavam.

Abandonávamos os vãos de escada quando a chuva aliviava um pouco, se é que num temporal como aquele se pode falar em momentos de alívio.

Um pânico indescritível apossara-se das pessoas.
Sem telefones não era possível avisar as famílias.

Ninguém sabia de ninguém.

Da Rua dos Fanqueiros até ao alto da Penha de França demorámos mais de três horas.


A rádio e a televisão apenas transmitiam o que a censura impunha, ou seja: nada!

Durante toda a noite e madrugada choveu.

Só no domingo começámos a ter uma ideia, pálida ideia, da tragédia que se abatera sobre Lisboa e arredores.

Os jornais, rigorosamente vigiados, davam notícia: 250 mortos.

«Lamento profundamente a tragédia e, na medida do possível, tudo farei para minorar o sofrimento das pessoas que necessitarem dos nossos socorros», palavras do ministro do Interior Santos Júnior.

Anunciava-se que o presidente Américo Tomás, oportunamente, visitaria alguns dos locais atingidos pela intempérie.


Joaquim Letria, jornalista do Diário de Lisboa, trinta anos depois, resumiu para o Diário de Notícias:

«A Censura cortava sobretudo o número de mortos e o que se referia às causas da tragédia e à incúria governamental e camarária que estava por trás da catástrofe.
No DL fomos, o Pedro Alvim e eu, destacados para cobrir os acontecimentos. Estivemos noites sem ir à cama e tínhamos de fazer a nossa própria contabilidade dos corpos (contávamo-los um a um, o que oAlvim imortalizou numa belíssima crónica intitulada «Os Mortos e os Fósforos») e todos os dias tentávamos actualizar esse número, que a Censura nunca deixava passar. Chegávamos às centenas, quando os números dos censores não ultrapassavam as dezenas.»

Depoimento do jornalista João Paulo Guerra:

«Eu das cheias de 67 lembro-me de um telex da Censura, para a redacção do Rádio Clube Português, pelas 3 da manhã, a dizer: «A partir de agora não morreu mais ninguém».

No seu livro, Os Segredos da Censura, César Príncipe, reproduz estas determinações dos coronéis:


César Príncipe dá-nos ainda uma uma outra, miserável, determinação dos coronéis da Censura, datada de 30 de Dezembro de 1967.

Referia o baile de passagem de ano, realizado no Palácio dos Valenças em Sintra:

«Não dizer que a receita se destina às vítimas das inundações.» 

No dia 4 de Dezembro o governo contabilizava 458 mortos.

O número definitivo de mortos nunca veio a ser conhecido, mas calcula-se que tenham morrido para cima de 700 pessoas.

A censura retalhou tudo quanto assinalava ausência de infra-estruras, bem como a falta de apoio às populações.

Escreveu o jornalista António Valdemar:

«Terrível e insólito paradoxo: um regime político que tinha na Igreja católica um dos seus mais poderosos sustentáculos, remetia para Deus as culpas e responsabilidades da catástrofe.»
Diário de Notícias, num dos seus editoriais:

«Ocorre-nos perguntar se não estará alguma coisa profundamente errada com o sistema de colectores da capital.
Sim, é verdade, os colectores da cidade não estavam preparados para o anormal caudal de água que dos céus desabou, mas outros motivos existiam, ainda existem.
Por exemplo, o arquitecto Ribeiro Telles, sempre se bateu arduamente pelo desenvolvimento entre o ordenamento do território e a terra, sistematicamente chamou a atenção para o perigo de canalizar ribeiras ou secar o subsolo.
Nunca foi ouvido.»


Em Quintas, uma aldeola poucos quilómetros a norte de Vila Franca de Xira, morreram mais de cem pessoas.

O fatídico 25 de Novembro de 1967, pôs a nu a miséria em que a população da Grande Lisboa vivia.

A maioria das vítimas habitava barracas construídas nos cursos de água, em escarpas, onde calhava.

Estão passados 50 anos.

Há acontecimentos que nunca esquecem!
Há lições que nunca devíamos esquecer.

Acabamos por esquecer...

Volta e meia a desgraça das cheias, das inundações bate-nos, de novo. à porta.

Ouvem-se lamentos, as promessas de sempre.

Até um outro dia em que tudo volte a acontecer!

terça-feira, 31 de outubro de 2017

DESCONFIO QUE ESTOU DOIDO

Num qualquer dia de Novembro do ano de 1961, o Mário-Henrique Leiria escrevia a Isabel e contava-lhe que chovia imenso.

Sim, naqueles tempos chovia muito e fazia frio. 

Lembro as inundações de Novembro de 1967, vai fazer 50 anos que aconteceram.

Agora, cada vez chove menos, não chove mesmo nada.

Ontem, o Cardeal-Patriarca de Lisboa pediu aos sacerdotes para que rezassem na esperança que a chuva chegue.

«Deus do universo, em quem vivemos, nos movemos e existimos, concedei-nos a chuva necessária, para que, ajudados pelos bens da terra, aspiremos com mais confiança aos bens do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo». 


«Restará espaço para dizer uma coisa bonita? E sincera, e com todo o respeito: nada têm de ridículo estas cartas de amor. As cartas de Amor NUNCA são ridículas. Poderemos sorrir. Isso sim. Aquela Isabelinha bonita, aconchegada com marido e filhos nas brumas de Londres, e Beluska e distante Maruska, doce como o olhar das gazelas do Volga… sai destas cartas como figura inesquecível. Mais muito mais que aquele cavalheiro francês, torpe e antipático, que podemos imaginar nas cartas da Alcoforado. Fazem o favor de conferir, que não exagero nada, lendo-as.»

domingo, 25 de novembro de 2012

À LUPA


Mais de 1900 ocorrências, 1310 mortos, quase 42 mil desalojados. Este é a nova contabilidade das catástrofes naturais causadas pela chuva em Portugal nos últimos 150 anos, segundo os resultados de um projecto que será apresentado na segunda-feira, em Lisboa. É o retrato até agora mais sistematizado das cheias e deslizamentos de terra no país.

Os casos mais dramáticos ocorreram, porém, em 1967, nas cheias na região de Lisboa. Foi um episódio instantâneo, causado por forte chuva, concentrada em pouco tempo, na madrugada do dia 26 de Novembro, há exactamente 45 anos. A contabilidade oficial é de 449 mortos.

Lisboa e Coimbra são os concelhos com mais cheias e inundações registadas pelo projecto Disaster – 133 e 129. Mas onde morreram mais pessoas foi na zona de Loures, o epicentro do drama de 1967.

Ricardo Garcia no Público.

Legenda: Lisboa, inundações 1967. Imagem do Diário de Notícias.

TODA A NOITE CHOVEU



Sábado, 25 de Novembro de 1967
Estava em Tavira a cumprir o serviço militar obrigatório.
Tinha vindo a Lisboa passar o fim-de-semana e aproveitar para tirar a medida ao 2º fato do casamento, que ocorreria em Dezembro.
A chuva fustigava Lisboa.
Perto das sete da tarde estávamos, eu e a Aida, no alfaiate, num 3º andar da Rua do Fanqueiros, a fazer a prova do fato.
Um enorme trovão e ficámos às escuras. As costureiras trouxeram um candeeiro a petróleo, algumas velas.
Muito à média luz, conseguiu o alfaiate fazer a prova possível.
Como não houve oportunidade para outras provas, o facto é que o fato nunca me assentou bem.
Também nunca foi coisa a que desse qualquer tipo de importância.




Saímos do alfaiate sem que a luz tivesse sido reposta.
A chuva desabava como um dilúvio.
Aguardámos bem perto de uma hora e acabámos por nos fazer ao caminho.
A forte ventania destruíra os chapéus-de-chuva, as gabardines estavam ensopadas em água, não protegiam coisa alguma.
Não havia transportes.
A Avenida Almirante Reis era um rio, o Martim Moniz era um lago, onde carros, tudo o que imaginar se possa, flutuavam.
Abandonávamos os vãos de escada quando a chuva aliviava um pouco, se é que num temporal como aquele se pode falar em momentos de alívio
Um pânico indescritível apossara-se das pessoas.
Sem telefones não era possível avisar as famílias. Ninguém sabia de ninguém.
Da Rua dos Fanqueiros até ao alto da Penha de França demorámos mais de três horas.




A rádio e a televisão apenas transmitiam o que a censura impunha, ou seja: nada!
Toda a noite choveu.
Só no domingo começámos a ter uma ideia, pálida ideia, da tragédia que se abatera sobre Lisboa e arredores.
Os jornais, rigorosamente vigiados, davam notícia: 250 mortos.
Lamento profundamente a tragédia e, na medida do possível, tudo farei para minorar o sofrimento das pessoas que necessitarem dos nossos socorros, palavras do ministro do Interior Santos Júnior, anunciava-se que o presidente Américo Tomás, oportunamente, visitaria alguns dos locais atingidos pela intempérie.




Joaquim Letria, jornalista do Diário de Lisboa, trinta anos depois, resumiu para o Diário de Notícias:
A Censura cortava sobretudo o número de mortos e o que se referia às causas da trgédia e à incúria governamental e camarária que estava por trás da catástrofe.
No DL fomos, o Pedro Alvim e eu, destacados para cobrir os acontecimentos. Estivemos noites sem ir à cama e tínhamos de fazer a nossa própria contabilidade dos corpos (contávamo-los um a um, o que o Alvim imortalizou numa belíssima crónica intitulada «Os Mortos e os Fósforos») e todos os dias tentávamos actualizar esse número, que a Censura nunca deixava passar. Chegávamos às centenas, quando os números dos censores não ultrapassavam as dezenas.
Depoimento do jornalista João Paulo Guerra:
Eu das cheias de 67 lembro-me de um telex da Censura, para a redacção do Rádio Clube Português, pelas 3 da manhã, a dizer: «A partir de agora não morreu mais ninguém».»
No seu livro, Os Segredos da Censura, César Príncipe, reproduz estas determinações dos coronéis:



Em 4 de Dezembro o governo contabilizava 458 mortos.
O número definitivo de mortos nunca veio a ser conhecido, mas calcula-se que tenham morrido para cima de 700 pessoas.
A censura retalhou tudo quanto assinalava ausência de infra-estruras, bem como a falta de apoio às populações.
Escreveu o jornalista António Valdemar:
Terrível e insólito paradoxo: um regime político que tinha na Igreja católica um dos seus mais poderosos sustentáculos, remetia para Deus as culpas e responsabilidades da catástrofe.
O Diário de Notícias, num dos seus editoriais:
Ocorre-nos perguntar se não estará alguma coisa profundamente errada com o sistema de colectores da capital.
Sim, é verdade, os colectores da cidade não estavam preparados para o anormal caudal de água que dos céus desabou, mas outros motivos existiam, ainda existem.
Por exemplo, o arquitecto Ribeiro Telles, sempre se bateu arduamente pelo desenvolvimento entre o ordenamento do território e a terra, sistematicamente chamou a atenção para o perigo de canalizar ribeiras ou secar o subsolo.
Nunca foi ouvido.




Em Quintas, uma aldeola poucos quilómetros a norte de Vila Franca de Xira, morreram mais de cem pessoas.
O fatídico 25 de Novembro de 1967, pôs a nu a miséria em que a população da Grande Lisboa vivia.
A maioria das vítimas habitava barracas construídas nos cursos de água, em escarpas, onde calhava.
Estão passados 45 anos.
Há acontecimentos que nunca esquecem!
Há lições que nunca devíamos esquecer.
Acabamos por esquecer...
Volta e meia a desgraça das cheias, das inundações bate-nos, de novo. à porta.
Ouvem-se lamentos, as promessas de sempre. 
Até um outro dia em que tudo volta a acontecer!
Fontes:
1)      Os Segredos da Censura, César Príncipe, Editorial Caminho, Lisboa Maio 1979
2)      Diário de Notícias de 25 de Novembro de 1997
3)      Pública, revista do Público, 23 de Novembro de 1997

OS MORTOS E OS FÓSFOROS


Era ao cair da tarde – e havia mortos.Todos muito juntos, enlameados, compridos.
Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.
Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades. Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos. Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.«Se tu és João” – dizia para mim – és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.» E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.
O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal. Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora.

- Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos. E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível. Como um preito de homenagem. Como um choro. Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama. Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.
Escuridão total.
- Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos. E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?
- Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – «és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília. »
Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.
Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.
Pedro Alvim, crónica publicada no Diário de Lisboa, aquando das trágicas cheias de Novembro de 1967, e incluída na colectânea O Homem Na Cidade, Prelo Editora, Lisboa Julho 1968.
Legenda: imagem do Diário de Notícias.