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quarta-feira, 10 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


Nunca me entusiasmei com a atribuição dos prémios Nobel da Literatura.

As atribuições contêm uma vasta lista de erros, gente obsoleta de que a história não mais ouviu falar e de escritores injustamente ausentes.

 O Prémio Nobel, é acima de tudo, dinheiro, uma pipa de massa, como diria o Luiz Pacheco que só vivia de «vintes» em troca das folhecas que escrevia ou editava.

José Saramago no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote:

«... deixemo-nos de hipocrisias e tenhamos a franqueza de reconhecer que, nesta comédia, o que verdadeiramente conta é o dinheiro».

Numa carta a José Rodrigues Miguéis, datada de 14 de Maio de 1967, José Saramago revela:

Alguma vez hei-de fazer o que me dá gosto…

José Saramago queria ser escritor, era esse o seu gosto.

Já tinha publicado, em 1947, Terra do Pecado que passou despercebido e em 1953 termina o romance Clarabóia que fica perdido num armazém da Empresa Nacional de Publicidade, em 1966 é editado o seu primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis.

Não consigo encontrar – tempos antes de Pilar del Rio - qualquer afirmação que revele que José Saramago alguma vez pensasse que um dia seria Nobel da Literatura.

Há aquela frase largamente citada, em que Saramago afirma, sem qualquer indicação específica:

«Aquilo que tiver que ser meu às mãos me há-de vir ter».

É de crer que será com Pilar que a ideia surge com força e determinação.

José Luís Judas, numa conversa revelada no livro de Joaquim Vieira, um dia ficou sem qualquer dúvida de que Pilar del Rio iria batalhar para que Saramago chegasse ao Nobel.

Numa carta de Sophia Mello Breyner Andresen, datada de Março de 1978, escreve a Jorge de Sena:

«Surgiu um facto que quero que fique claro: Por alturas de Dezembro recebi uma carta da Academia Sueca a convidar-me para eu propor um candidato ao Nobel da Literatura. No ano passado propus o teu nome. Depois disso, aqui há tempos surgiu uma comissão propondo o Torga e pediram-me que me associasse à sua proposta. Associei-me pois não me podia negar. Primeiro porque admiro muito o Torga, segundo porque gostaria que houvesse um Nobel português, uma vez que seja um escritor que tenha um nível de qualidade que como pátria me honre. Isto é : eu queria que o voto em ti funcionasse a teu favor, mas não contra o Torga. Para que não fosse diminuída a possibilidade de o Nobel ser atribuído a um português. Em consequência escrevi de novo à Academia Sueca explicando que mantinha o voto em ti mas que também apoiava uma candidatura do Torga dado que ambas eram candidaturas com grande qualidade e dignidade.
Só te digo isto a ti porque a carta da Academia Sueca me pede silêncio sobre o meu voto por isso te peço que não fales disto a ninguém.»

Pela leitura de José Saramago: Rota de Vida fica-se a saber que quatro pessoas acreditavam que um dia Saramago seria Prémio Nobel.

Joaquim Vieira na introdução que faz ao livro revela que, enquanto responsável editorial do Expresso convidou José Saramago em 1993 para escrever uma crónica de jornal todas as semanas.
«Confesso porém, que ao fazer-lhe a proposta, tinha na cabeça outro pensamento que guardei para mim: «Este tipo qualquer dia vai ganhar o Nobel da Literatura, e nesse momento será muito prestigiante para o Expresso tê-lo já como colunista.»

Outra pessoa que acredita no prémio é Isabel da Nóbrega.

Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira conta a seguinte história:

 «Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»

Pilar del Rio também tinha a firme convicção de que um dia Saramago seria Nobel da Literatura.

A páginas 548 de Rota da Vida é referida uma conversa entre o sindicalista José Luís Judas, José Saramago e Pilar del Rio, em que a conversa gira em redor do veto que Sousa Lara impusera ao Evangelho Segundo Jesus Cristo. Saramago desabafou: «Este é um país de vetos».
Pilar pronunciou uma frase que José Luís Judas não mais esqueceu:
«Quando receberes o Prémio Nobel, estes fulanos vão ficar todos cheios de inveja.»
Judas tem a certeza que Saramago corou e disse:
«Esta andaluza dá-me cabo da cabeça da cabeça.»
Conversa rematada por Judas a Joaquim Vieira:
«Mas ela não só acreditou como batalhou por isso. Não tenho dúvidas.»

Joaquim Vieira revela que Natália Correia também acreditava que Saramago seria Nobel da Literatura. Vem na página 549 do livro:

«Até mesmo a intuitiva Natália Correia, em conversa que terá lugar no Botequim a propósito de O Evangelho Segundo Jesus Cristo se alhear da temática nacional, entrevira uma aproximação ao Nobel – no relato de Fernando Da costa como testemunha: «A Natália falva de "desterritorialização” da litearatura em Portugal, de autores que escilhiam temas que não tinham que ver com o país, pois achavam que assim eram mais fáceis de traduzir e editar lá fora. E disse ao saramago, a propósito disso: “E tu também enveredaste por esse processo, porquês queres ganhar o Prémio Nobel. Vais ganhá-lo, mas, como és um tipo sério, vais voltar aos temas portugueses.»

Nunca se me colocou a ideia, breve que fosse, de que José Saramago poderia um dia ganhar o Prémio Nobel da Literatura.

No ano da atribuição do prémio tinha guardado um recorte do Público de 2 de Outubro em que e hipótese era admitida, e na véspera da atribuição, o jornal 24 horas , no topo direito da 1ª página, revelava que os «americanos apostam em Saramago».

De mim para mim, fui dizendo que esta coisa dos prováveis vencedores é a história do costume, e não vale a pena pensar muito no assunto.

Ao longo dos cinco volumes dos Cadernos de Lanzarote, Saramago foi guardando registos das expectativas de um dia poder vir a ser Nobel da Literatura:

No 1º volume, entrada escrita a 26 de Abril de 1993:

«Entrevista a Plínio Fraga, da “Folha de S. Paulo. Uma das questões era que António Houaiss, aqui há tempos, teria apostado em dois nomes para o Prémio Nobel deste ano: João Cabral de Melo Neto e este servidor. Pedia-se-me que comentasse a declaração de Houaiss e eu lembrei a Plínio o que Graham Greene respondeu a um jornalista que lhe perguntou o que pensava ele da atribuição do Prémio Nobel a François Mauriac. Foi esta a frase histórica: “O Nobel honrar-me-ia a mim, ao passo que Mauriac honra o Nobel.” Aí tem, disse, eu sou o Grahaam Greene desta história, e João Cabral de Melo Neto o Mauriac. Mas, em seguida, esgotada a minha capacidade de abnegação e modéstia, e também para não aparecer aos leitores da “Folha” como um sujeitinho hipócrita, acrescentei, desta maneira me sangrando em saúde: “Em todo o caso, parecer-me-ia justo que o primeiro Nobel de Literatura para a Língua Portuguesa fosse dado a um português, porque, na verdade, vai para novecentos anos que estamos à espera dele, enquanto vocês nem sequer dois séculos de esperanças frustradas levam…”

No 2º volume, entrada escrita a 12 de Outubro:

“Diz-se em Lisboa que o Nobel está no papo de Lobo Antunes. Pelos vistos, o jornalista brasileiro, amigo de Jorge Amado, sabia do que falava. Também me dizem que Lobo Antunes já se encontra na Suécia.”

No mesmo volume, entrada escrita a 13 de Outubro:

“O Nobel foi para um escritor japonês, Kenzaburo Oe. Afinal, o jornalista estava enganado. Nelson de Matos até tinha feito declarações à rádio, ou à televisão, não sei bem, dando como favas contadas a vitória do seu editado. O que vale é que o ridículo, pacientíssimo, continua a não matar, Quanto a mim, tenho de começar a pedir desculpa aos meus amigos por não ganhar o Nobel…»

No 3º volume, entrada escrita a 23 de Maio:

«Uma leitora na Feira: “Para o ano que vem teremos mais “Cadernos”?”. Respondo medievalmente como de costume: “Vida havendo e saúde não faltando…” E ela: “É que quero ver neles a notícia do Prémio Nobel…»

No 5º volume, entrada escrita a 9 de Outubro de 1997:

«Foi muito simples. Encontrávamo-nos na cozinha, Pilar e eu, sós, quando a rádio informou que o Prémio Nobel tinha sido atribuído a Dario Fo. Olhámo-nos tranquilamente (sim, tranquilamente, jurá-lo-ia se fosse necessário) e eu disse: “Pronto. Podemos voltar ao nosso sossego.” Falámos depois sobre o que naquele momento sentíamos, e ambos estivemos de acordo: alívio»

No mesmo volume, entrada escrita a 14 de Outubro de 1997:

«Frankfurt. Pilar telefonou hoje para casa, a saber se havia alguma novidade, e realmente, sim, havia novidade, a mais inesperada de todas as possíveis, aquela que nunca seríamos capazes de imaginar: nada mais nada menos que uma chamada telefónica de Dario Fo e dizer: «Sou um ladrão, roubei-te o prémio. Um dia será a tua vez. Abraço-te.» Mal saído do assombro em que a notícia me tinha deixado, disse a Pilar: «Suponho que uma coisa assim nunca terá acontecido na história deste prémio…», e Pilar, sábia, respondeu-me: «Não há que perder a confiança na generosidade humana.»

segunda-feira, 8 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


O meu pai dizia que devemos ler alguns maus livros.

João Bénard da Costa era de opinião que devemos ver maus filmes porque podem ter por lá perdido algo que valha a pena ver.

Franz Kafka citado um destes dias pelo Manuel S. Fonseca na sua blogueira Página Negra: «Acho que deve­mos ler o tipo de livros que nos abram feri­das, que nos esfa­queiem».

Quando soube da publicação deste livro de Joaquim Vieira, sabendo de experiências anteriores como as que fez com Francisco Pinto Balsemão e Mário Soares, questionei-me se o iria ler.

Estava nesse mar de dúvidas, quando o meu filho Mário pediu um livro para me colocar no saco do Pai Natal e chutei o do Joaquim Vieira.

Corria ainda Dezembro, uma semana para ler as suas 751 páginas.

Repetir a leitura de algumas páginas pelos dias que se foram seguindo.

Com a chegada da Primavera, o escrever, finalmente!, algumas palavras sobre as diversas leituras.

Começo por sentir excessivas as largas páginas que, ao longo do livro são dedicadas ao facto de José Saramago gostar de mulheres. Há mesmo um capítulo, o 6º, com as suas 30 páginas, que Vieira não resistiu à tentação de titular:  «O Pinga-Amor».

Em 1977, François Truffaut realizou L'Homme qui aimait les femmes.

É do filme que me lembro quando leio o rol de mulheres que andaram com, por, Saramago, mulheres por quem mostrou amor, simpatia ou quaisquer rituais de sedução.

Só ele saberia dizer o porquê, se a tanto achasse útil ou necessário.

Largamente referido é o relacionamento que Saramago manteve com a escritora Isabel da Nóbrega.

Corria o ano de 1954, Isabel da Nóbrega, com 31 anos, abandona o marido e os seus três filhos para ir viver com João Gaspar Simões, ao tempo um escândalo.

Pelo ano de 1966 acontece o grande romance entre José Saramago e Isabel da Nóbrega, «o amor da vida dela», no dizer de Maria Velho da Costa.

Em 1977 Saramago conhece Pilar mas a relação com Isabel da Nóbrega já, há algum tempo, esfriara.

Deixo apenas um pormenor curioso: Isabel da Nóbrega sempre acreditou que um dia, José Saramago ganharia o Prémio Nobel.

Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira conta a seguinte história:

 «Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»

Diversos são os depoimentos em que se procura transmitir que Isabel da Nóbrega escrevia, ou largamente emendava, as crónicas que Saramago publicava nos jornais.

De um depoimento de Ana Isabel, filha da escritora:

«A minha mãe escrevia em cima de uma tábua no sofá e ele na mesa de trabalho da minha mãe. Quando ele acabava de escrever as crónicas, levava-as à mãe e ela lia e dizia-lhe: “José, e se experimentasses pôr assim?” E ele sentava-se e tornava a escrever.»

Carlos Leça da Veiga: 

«Ela fez dele, que era um labrego, um senhor. Se não fosse a Isabel, quem seria o Saramago, que nem sabia comer à mesa?

Maria Velho da Costa:

 «Uma mulher que fez tudo por ele, ensinou-o a comer e beber.»

Passo ao lado dos muitos depoimentos de gente que entendeu não dar a cara porque foram amigos de Isabel da Nóbrega e Saramago, amigos ficaram quando Saramago se relacionou com Pilar.

Há depoimentos estranhos, como os de Mário Ventura Henriques, inúteis como os do Sr. Fernando Canhão, filho de um dos patrões da Estúdios Cor onde Saramago trabalhou como encarregado da produção literária, depoimentos de muita gente que desconheço e que outro propósito não têm senão o dum botabaixismo que apenas visa desacreditar a pessoa e o escritor José Saramago.

A dois depoimentos devidamente identificados, terei que dizer que estão no livro por pura inveja, despeito ou algo difícil de catalogar: os de Maria Teresa Horta e o de José Jorge Letria.

Maria Teresa Horta, algo que terá a ver com o relacionamento editorial de Luís de Barros, seu marido, com José Saramago, enquanto ambos estiveram na direcção do Diário de Notícias.

Mas ainda em vida, José Saramago referiu Maria Teresa Horta.

Faz parte da entrevista que Joaquim Vicente teve com José Manuel dos Santos que foi assessor de Mário Soares:

«Fui almoçar com ele ao Farta Brutos, até para combinar várias coisas, nomeadamente a condecoração. E no meio da glória nacional, ele diz-me assim:
«A Maria Teresa Horta disse que, lendo os meus livros, se percebia logo que eu nunca iria ser um grande escritor. Está-se a ver agora.» O que eu achei mais extraordinário foi esta conversa, dois ou três dias depois de o Saramago estar cá. No meio daquele coro de louvores. Fiquei muito impressionado, porque a grande coisa de que ele se lembrava era disso, A Maria Teresa Horta era uma pessoa que o estava a marcar profundamente, e ainda por cima tinha afinidades políticas com ela. Ela, aliás, saltou logo no dia do Prémio, dizendo que o Nobel não devia ter sido dado ao Saramago, devia ter ido para a Agustina ou para Sophia».

Quanto ao que José Jorge Letria diz ao longo do livro, remeto para a mente doentia que o tem acompanhado toda a vida. Um ódio que, certamente, por falta de coragem nunca o diria na cara de Saramago. Seria, simplesmente arrasado. Em 1978 pediu a José Saramago que lhe escrevesse um prefácio para o seu livro Os Dias Contados. Saramago sabendo das não qualidades literárias e intelectuais de Letria disse-lhe que não. Letria não lhe perdoou e Joaquim Vieira escreve que José Jorge Letria não o revelara antes, mas agora disse:

«Ele nunca foi para mim um escritor referencial. Eu teria visto também com satisfação o Nobel ser dado a Agustina Bessa-Luís, por exemplo. Não é por receber o Nobel que ele se transforma numa estátua.»

O que ressalta em muitos dos depoimentos recolhidos por Joaquim Vieira para o livro,  é que a atribuição do Prémio Nobel da Literatura não agradou aos companheiros de escrita de Saramago. Para muitos – e não são assim tão poucos! - custa a engolir que um pé descalço nascido na pobreza angustiante de uma aldeia ribatejana, um aprendiz de  serralheiro, um autodidacta que, em jovem, não tinha um único livro em casa,  que passava noites nas mais diversas leituras na Biblioteca de Galveias, um comunista confesso, sem vontade alguma de o deixar de ser, apesar de tanto coisa que o poderia ter levado a sair do Partido, tenha conseguido subir a pulso e construir a obra que lhe permitiu  um dia chegar aonde chegou.

Não é difícil perceber que na intelectualidade portuguesa, seja qual for a época, campeia o ciúme e a inveja.

Como observou Luiz Pacheco:

«Aí a raiva de muita gente não foi contra o escritor – que não lêem – nem foi contra o próprio Saramago - que não conhecem de parte nenhuma -, foi contra o comunista que ganhou o Nobel. E também contra o gajo que ganhou cento e tal mil contos! Inveja em estado puro.»

Dando-lhe os devidos descontos, por exemplo, entradas em domínio da vida privada algo desnecessárias, esta Rota de Vida ajudará muitos leitores a perceber o percurso de uma das personagens, doa a quem doer, mais importantes da nossa história recente.

José Saramago: a persistente ideia de morrer idêntico ao que sempre foi.

Durante alguns dias, irei Saramaguear por aqui, transcrevendo algumas passagens do livro de Joaquim Vieira que, por isto ou por aquilo, entendo terem algum interesse.

sábado, 7 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


O Sebastião também não gosta de dançar e eu gosto imenso. Por isso não frequentamos boites. Não se riam, mas até sou capaz de dançar sòzinha!

Isabel da Nóbrega em Viver com os Outros

Legenda: pintura de Connie Chadwell

domingo, 29 de abril de 2018

QUOTIDIANOS


A minha vizinha do andar de baixo tem muita idade e vive sozinha.
Poucas vezes a vejo, porque nunca sai, não sobe nem desce escadas; porque eu saio e entro sempre em correria, porque o egoísmo adia a visita, o bom-dia, a planta que se encomendou no florista.
Estive um tempo fora. No regresso subia com as malas, e o estrondo sincopado de encontro aos degraus chamou a atenção da senhora que apareceu no patamar. Perante o seu contentamento de me ver tornei a sentir-me envergonhada.
«Sim, a sua vida… Gostava de vê-la mais vezes mas não faz mal. Sabe, bastam-me os seus passos embora cheguem aqui abafados pela alcatifa. Gosto tanto de os ouvir. A verdade é que tinha saudades do som dos seus passos lá em cima».

Isabel da Nóbrega em Quadratim-I

terça-feira, 18 de abril de 2017

RECADOS


Sou um leitor compulsivo.

Não preciso de grandes sinais para comprar um livro: pela capa, pelos começos, pelos finais, por tudo e mais alguma coisa.

Lembro-me que comprei Viver com os Outros da Isabel da Nóbrega pela leitura da parte final do discurso que Mário Dionísio proferiu no jantar da atribuição do Prémio Camilo Castelo Branco de 1964.

No meio de imensa papelada, fui dar com esse pedaço de recorte.

Comovi-me.

Já agora: numa carta, datada de 20 de Março de 1966, José Saramago escreve, a José Rodrigues Miguéis sobre esse jantar: 

Neste  triste país, o sage é o homem calado que não quer conhecer ninguém nem quer que o conheçam. Há dias fui ao jantar da entrega do Prémio Camilo À Isabel da Nóbrega: é de morrer. Tanta impostura, tanta falsidade, tanto esforço para parecer mais inteligente que o vizinho, e sobretudo mais célebre. E tudo isto sob a capa de modéstia jesuítica, uma capa cheia de buracos de orgulho e inveja. E esta gente é a nata, e esta gente conduz, orienta, dá entrevistas, pontifica, tem opiniões acerca de tudo e de coisa nenhuma. E todos, seja qual for a cor da epiderme, têm um lema: «Hors l'église (notre église) pas de salut!» E com medo de não nos salvarmos, lá vamos para a sombra do campanário do vizinho, não vá acontecer que a salvação não esteja afinal onde a supúnhamos. Há excepções, claro, há gente digna, sem dúvida, mas a balbúrdia não deixa que as suas vozes se oiçam, e quando, através da confusão, do burburinho, se ouve uma voz honesta, responsável,logo a irmandade se faz, logo os campanários afinam os rebates - e enquanto o intruso não se cala, justos céus, é ver quem mais bate.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


Quadratim-I

Isabel da Nóbrega
Prefácio: Orlando Neves
Capa: Dorindo de Carvalho
Diabril Editora, Lisboa, Junho de 1976

A voz: «…Parece que em certos jardins do Oriente, para que as flores se tornem mais bonita, para que floresçam mais depressa, com clara confiança na sua beleza, usava-se com um cuidado e um amor bastantes, colocar defronte de um caule viçoso, sustendo a promessa de uma flor jovem, duas candeias e um espelho. Então a flor podia mirar-se durante a noite. E teria assim o gozo infindável, ou ininterrupto, do deu esplendor».
Mais tarde, numa noite de lua-cheia de Junho, ela lembrou-se, e pensou que também as pessoas poderiam colocar-se defronte umas das outras (com cuidado e amores bastantes) para se servirem mutuamente do espelho, e conformarem o que houvesse de beleza, de beleza insegura, de trémulo anseio de crescer e de desabrochar.

terça-feira, 30 de junho de 2015

JUNHO QUE FINDA


Junho que chega ao fim, o mês dos perfumes mágicos, intensos: sardinhas assadas, manjericos, sardinheiras em flor.
Guardo da infância as quentes noites de Verão, lembro a miudagem a correr nas raus, o trânsito automóvel, as gentes vinham para a porta da rua conversar, outras ficavam à janela, as pessoas conheciam-se, falavam, por vezes zangavam-se era quase nulo. Noites havia em que subíamos até ao jardim da Praceta António Sardinha, na Penha de França, e havia outras gentes espalhadas pelos bancos, sentados na relva, bebendo cervejas e capilés nas leitarias do bairro.
A televisão viria a destruir o feliz convívio das gentes simples do meu bairro.
Agora, ao passar os olhos por algumas das páginas de Viver com os Outros, reparo que Isabel da Nóbrega também reteve essa imagem das gentes sentadas à porta de casa, nas quentes noites de Junho, que foi o mês em que nasceu, e talvez por isso tenha escolhido um jantar,numa noite de Junho, para enredo de Viver Com Os Outros. 

Descobríamos que aquelas pessoas sentadas nos degraus de pedra, à porta de casa, os garotos na borda do passeio, os homens em mangas de camisa ou casacos de pijama, junto ao muro, quase não falando, recebendo a noite morna e o luar tal como os cedros e as olaias e as tílias do parque, estavam a ser felizes e não o sabiam.

Os cheiros que andam misturados numa noite de Junho, mesmo na cidade, basta que se encontre um parque próximo. E também o cheiro do manjerico, ali no nicho, por entre as outras plantas, sobre o qual pousei instintivamente a palma da mão quando a Ana me arrastou para aqui.


Legenda: pintura de Pierre-August Renoir

domingo, 28 de junho de 2015

SARAMAGUEANDO


Na Cronobiografia de José Saramago, preparada por Fernando Gómez Aguilera, pode ler-se:

1970

Começa a viver com a escritora Isabel da Nóbrega, relação que durará até 1986.


No índice Onomástico da Correspondência trocada entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago, há três entradas para Isabel da Nóbrega.

Em nenhuma delas o seu nome aparece, mas poderá concluir-se que se o pormenor é citado no Índice motivos existirão, e a isso não será alheio o desejo do autor que assim fosse.

Vejamos:

Desculpe esta secura. Esta carta, embora pequena, foi interrompida várias vezes por questões tão comezinhas que até fazem raiva.

(Carta datada de 31 de Julho de 1961)

Leu já a «crítica» que o Gaspar Simões fez ao seu livro (A Escola)? Tardou mas arrecadou, benza-o Deus! Por que bulas é aquele homem crítico literário, e influente, é que eu não entendo. Ou o homem é estúpido, ou não sabe ler. Ou será as duas coisas? Duma coisa estou eu certo: é da maldade dele. Porque se aquilo não é maldade, então só vejo outra saída: senilidade, que, como todos sabemos, às vezes refina na velhacaria.

(Carta datada de 4 de Novembro de 1961)

Uma carta minha, depois de todo este tempo de silêncio, deve causar-lhe uma impressão de revenant. Em certo sentido, essa impressão é justificada, poi tanta coisa se passou na minha vida, nestes últimos meses, que eu próprio chego a pensar se não terei morrido mesmo – e ressuscitado. Não estive doente, pelo menos no sentido usual da palavra, não tive médico à cabeceira nem termómetro ao canto da boca, mas estive prestes a destruir toda a minha futura, sabe-se lá de que maneira e com que consequências. Para abreviar: saí de casa, deixei a família, atrás de uma miragem em figura de mulher – que são sempre as piores miragens. Felizmente que o bom-senso e a descoberta de que a razão verdadeira da minha vida estava, afinal, naquilo que estaticamente deixara. Tudo se recompôs, é certo, mas depois de tanto sofrimento (sofrido e infligido) que ainda me espanta agora como estou são de espírito.
Com tal situação, que se arrastou durante meses, não prejudiquei apenas a minha vida particular e a dos meus. Os meus deveres na editora foram um pouco esquecidos, e devo à amizade e compreensão dos nossos amigos Canhão e Correia o não estar agora numa situação difícil.

(Carta datada de 19 de Setembro de 1962)

sábado, 27 de junho de 2015

POSTAIS SEM SELO


As pessoas, nos seus trabalhos, estão a ficar muito isoladas. Tudo o que veio de civilizacional acabou por não servir a atmosfera de companhia, de discussão e troca de ideias - pelo contrário, acentuou o isolamento.

Isabel da Nóbrega

Legenda: fotografia de Renate Siebenhaar

SARAMAGUEANDO


As paixões acontecem, não se explicam.

Jorge Amado no seu livro memorialista, Navegação de Cabotagem:

As reedições de meus livros saem iguais às primeiras, apenas as gralhas vão em constante aumento, Paloma, que os andou relendo para saber o que os personagens comem, me informa que os erros gráficos se contam aos milhares. Tampouco jamais buli nas dedicatórias, também elas datadas – mesmo em se tratando de pessoas a quem deixei de estimar nem assim lhes retirei o nome da oferenda mesmo se retirei o indivíduo do meu bem-querer. Refiro-me, é claro, às edições brasileiras, as traduções fogem ao meu controlo. Lá estão os nomes todos, um a um – quando escrevi o livro estimava os admirava fulano a quem o dediquei, se depois ele se revelou calhorda, o nome permanece na dedicatória datando a escrita e a ingenuidade do autor.

José Saramago não teve este entendimento.

Desde que conheceu Pilar, as novas edições dos livros, antes dedicados a Isabel da Nóbrega, passam a não ter essa indicação.

Num lamento, Isabel da Nóbrega disse que foi uma atitude que não era preciso tomar.

Segundo o jornalista Luís Leal Miranda (jornal I  de 26 de Junho de 2010), Saramago pronunciou-se por várias vezes sobre o assunto, garantindo que as dedicatórias fizeram sentido na altura em que essas edições foram publicadas. E essas edições, já esgotadas, permanecem em sintonia com as inclinações amorosas da altura.

Num outro registo, Saramago salientou que as dedicatórias permanecem nas edições correspondentes ao tempo em que os livros foram escritos.

A história é conhecida.


Depois de ler livros de José Saramago, principalmente O Ano da Morte de Ricardo Reis, a jornalista espanhola Maria del Pilar ficou como que encantada.

Senti que tinha de agradecer ao autor os livros que me tinha dado a ler. E sobretudo dizer que tinha tratado os seus leitores como seres inteligentes. Tinha-me sentido respeitada como leitora e quis agradecer-lhe.

Veio até Lisboa e conseguiu uma conversa com Saramago.

Tal como na sinfonia de Beethoven, ambos terão sentido o destino a bater-lhes à porta.

Sabe-se o que aconteceu.

Desde então, os livros de José Saramago deixaram de ser dedicados à Isabel para passarem a ser dedicados a Pilar.

Os dois primeiros livros de José Saramago, Terra do Pecado (1947), Os Poemas Possíveis (1966), não têm qualquer dedicatória.

Mas em Provàvelmente Alegria já se revela uma leve indicação do que serão as dedicatórias futuras:

«Para tão grande amor tão curta a vida.»
Cheguei tarde ao encontro deste verso,
Outro o escreveu por mim, mas dele tomo,
Como rosa colhida que te ofereço.

Em Deste Mundo e do Outro (1971), algo um pouco mais especifico:

Não se dirá aqui o nome. Mas da sua exaltação nasceu este poema, do seu rigor esta autobiografia, da sua verdade esta meditação e basta.

Mas é com o livro seguinte, A Bagagem do Viajante (1973) que o nome finalmente surge e que, por diversos livros, José Saramago manterá: 

Dir-se-á desta vez aqui o nome. Pelas mesmas razões da exaltação, do seu rigor e da sua verdade. E porque estes dias são mais exaltantes ainda, mais rigorosos e de uma verdade que já é unidade inultrapassável. Isabel.

Seguem-se:

As Opiniões que o DL Teve (1974):

Para a Isabel e para os meus amigos.

O Ano de 1993 (1975):

Para a Isabel. Este livro, o antes e o depois dele, todos os passos e todos os gestos, todas as palavras ditas e as que estão por dizer. Assim. Mesmo que o tempo não entenda já de coisas como esta.

Os Apontamentos (1976):

À Isabel, este livro e todos.
Aos trabalhadores do «Diário de Notícias» que foram o meu apoio e a primeira justificação de quanto escrevi.

Manual de Pintura e Caligrafia (1976):

Para a Isabel, tão inseparável deste livro como da minha vida.

Objecto Quase (1977):

Para a Isabel, porque me disse de que lado está a vida.

A Noite (1979)

À Luzia Maria Martins, que me achou capaz de escrever esta peça.

À Isabel



Levantado do Chão (1980):

À Isabel sempre.

A João Domingos Serra e João Besuga, e também a Mariana Amália Besuga, Elvira Besuga, Herculano António Redondo, António Joaquim Cabecinha, Maria João Mogarro, João Machado, Manuel Joaquim Pereira Abelha, Joaquim Augusto Badalinho, Silvestre António catarro, José Francisco Curraleira, Maria saraiva, António Vinagre, Bernardino barbas Pires, Ernesto Pinto Ângelo – sem eles não teria sido escrito este livro.
À memória de Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, assassinados.

Que Farei Com Este Livro? (1980):

À Isabel cada vez mais.

Viagem a Portugal (1981)

A quem me abriu portas e mostrou caminhos, à companheira constante que tantas vezes disse. «Repara» - e também em lembrança de Almeida Garrett, mestre de viajantes.

Memorial do Convento (1982):

À Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984):

À Isabel, outro livro, o mesmo sinal.

A Jangada de Pedra (1986)

Sem dedicatória

A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987):

Sem dedicatória.

A História do Cerco de Lisboa (1989) é o primeiro livro em que aparece Pilar:

A Pilar

A partir daqui todos os livros serão dedicados a Pilar.

Em As Pequenas Memórias (2006), pode ler-se:

A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.

Todo o ser humano é falível.

Felizmente!

Em 1944, José Saramago casa com a pintora Ilda Reis.
Entre 1954 e 1964, Isabel da Nóbrega viveu com o crítico João Gaspar Simões, que nunca perdoou ter sido trocado por um obscuro jornalista e tradutor.

A relação com Saramago durará de 1970 a 1976.

Pelo próprio Saramago fica a saber-se que Isabel da Nóbrega lhe abriu portas e novos caminhos.

Completamente despropositado e idiota existir quem defenda que foi Isabel da Nóbrega quem ensinou José Saramago a escrever.

Antes de Isabel, Saramago já era escritor.


Nota do editor: não foi possível encontrar uma fotografi de José saramago com Isabel da Nóbrega.

Legenda:
a) José Saramago, a mulher Ilda Reis, a filha Violante.
b) Isabel da Nóbrega.
c) José Saramago e Pilar.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Viver Com Os Outros

Isabel da Nóbrega
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 75
Portugália Editora, Lisboa, Outubro de 1965

– Pronto. A bandejinha. Afasta o candeeiro.
– Lá fora, apagaste a luz, amor?
– Apaguei.
– E fechaste o gás, meu amor?
– Sim, fechei.
- Mas há uma porta que range… Tinha de ser…
– Eu vou fechá-la, amor, eu vou já ver. – Era a porta da varanda. Abri-a de par em par. A fresca noite entrou. É noite. É Junho, amor, e estamos vivos. E não estamos sozinhos. Oh, esta alegria de não estarmos sós.

ISABEL DA NÓBREGA


Isabel da Nóbrega, escritora e jornalista, faz hoje 90 anos.

O seu livro mais conhecido, Viver com os Outros, venceu o Prémio Camilo Castelo Branco, na altura a consagração maior do romance nacional.

A acção do romance, um possível retrato da geração de 50, acontece numa única noite de Junho, no decorrer de um jantar em casa de um casal da alta burguesia de Lisboa.

Alexandre Pinheiro Torres:

Pela transcrição da conversa, consegue Isabel da Nóbrega iluminar-nos maravilhosamente o mundo interior das personagens, o porquê e o como delas, os motivos que são o forro das suas opiniões, o recorte interno e externo da forma por que agem.

Trata-se de um livro de relevante e inegável interesse das nuances da conversação, por intermédio da qual se faz a análise de um meio, se estabelecem os seus valores dominantes e se revela com uma argúcia às vezes estonteante a psicologia de cada personagem.

Eduardo Prado Coelho:

A autora soube admiravelmente propor uma constelação de valores que se iluminam através dum diálogo: por entre a sua desordem e dispersão o diálogo consegue ir tecendo aquele sentido totalizador que é a pedra de toque de toda a obra de arte. Tão convincente e fascinante que o leitor é forçado a considerar natural e certa a espontaneidade atrevida de certas técnicas da obra. E isso nos faz observar que essa espontaneidade é simultaneamente um dos elementos da afinadíssima engrenagem do romance e um dos seus pontos de chegada.

No jantar que assinalou a atribuição do Prémio Camilo Castelo Branco, coube a Mário Dionísio fazer o discurso de saudação.

Li esse discurso num suplemento literário, salvo erro do Diário de Lisboa, andei à procura do recorte e não o encontrei, discurso que terminava com Mário Dionísio a citar as palavras finais de Viver Com os Outros:

Era a porta da varanda. Abri-a de para em par. A fresca noite entrou. É noite. É Junho, amor, e estamos vivos. E não estamos sozinhos. Oh, esta alegria de não estarmos sós.

Gostei do discurso de Mário Dionísio, a excelência do seu olhar crítico, poético e gostei das palavras que do livro ele transcreveu e que me levaram a adquiri-lo, já em 2ª edição, na Clássica Editora, uma livraria que existia ao lado do antigo Cinema Eden.

Podem comprar-se livros pela beleza das capas, pelos começos, por finais, pelo que quer que seja.

Um longo, e injusto silêncio caiu sobre  a obra de Isabel da Nóbrega.

No fundo o que eu gostava é que os escritores fossem tão conhecidos como os jogadores e treinadores de futebol, que tivessem mais audiência que os analfabetos.

domingo, 8 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


A Mulher na Sociedade Contemporânea

Diversos autores
Colóquio realizado ma Associação Académica da Faculdade de Direito.
Capa: Miguel Flávio
Prelo Editora, Lisboa, Maio de 1969

Essa mulher-ornamento começa por ter como única «saída», ou solução, agradar ao sexo oposto e ser escolhida para casar. Passa então da tutela do pai para a tutela do marido. Reparem: ser escolhida. Em geral essa não escolhe. Não escolhe coisa nenhuma, porque não assume a sua vida. É dirigida, mandada «arrumada», mero objecto de quem se espera unicamente que preencha as funções domésticas com aplicação e as maternais com devoção. Nas funções conjugais nem precisa intervir – basta que as viva passivamente. Nada mais se lhe pede.

(Da intervenção de Isabel da Nóbrega).

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

UM PIANO EM CAMPO DE OURIQUE


Isabel da Nóbrega em Diário de Lisboa, 18 de Dezembro de 1976

terça-feira, 30 de julho de 2013

O ÚLTIMO NÚMERO DE "A CAPITAL"


Primeira página do último número de A Capital, 30 de Julho de 2005, um sábado, tendo como director interino Paulo Narigão Reis.

Em 21 de Fevereiro de 1968 os ardinas passavam a ter mais um título de vespertino para apregoar. E com alguns, saía assim: Lisboa, Capital, República, Popular.

O jornal nasce de uma cisão no Dário de Lisboa. Norberto Lopes, director, Mário Neves, sub-director, juntamente com outros jornalistas, saem do Lisboa e formam a Sociedade Gráfica de A Capital.

Não alinhava com o regime mas não representou uma situação de oposição aberta.

Maria Teresa Horta coordenava o suplemento literário, Isabel da Nóbrega coordenava uma página feminina com ares novos, António Torrado dirigia o suplemento infantil, José Saramago coordenava o suplemento A Semana e esvrevia crónicas que, mais tarde, vieram a constituir o livro Deste Mundo e do Outro.

Na sucessão de directores que o jornal teve ao longo tempo, aparecem os nomes de David Mourão-Ferreira e Francisco Sousa Tavares.

Alguns dos jornalistas de A Capital, de antes do 25 de Abril: Rudolfo Iriarte, Manuel Beça Múrias, Daniel Ricardo, Adelino Tavares da Silva, Manuel Batoréo, José João Louro, Pedro Alvim, Alice Nicolau e o meu amigo Hélder Pinho.

O perfeito louco, o inventor de histórias e reportagens.

José João Louro, seu camarada de redacção:

Hélder Pinho, para mim, o verdadeiro repórter. O mais autêntico até ao «naifismo». O inventor do Leão de Rio Maior. Dezasseis primeiras páginas – o surrealismo na imprensa portuguesa. Foi leão, canguru, até acabar como cão-d’água. Um leão que assustou e entreteve o País. O fascismo decadente e podre pôs-se à caça do leão pelas serras, aventureiro em busca de uma ilusão.

terça-feira, 19 de junho de 2012

POSTAIS SEM SELO


-   Lá fora apagaste a luz, amor?
-   Apaguei.
 -    E fechaste o gás, meu amor?
-    Sim , fechei.
-    Mas há uma porta que range... Tinha de ser...
-    Eu vou fechá-la, amor, eu vou já ver. Era a porta da varanda. Abria-a de para em par. A fresca noite entrou. É noite. É Junho, amor, e estamos vivos. E não estamos sòzinhos. Oh, esta alegria de não estarmos sós.

Isabel da Nóbrega em Viver com os Outros, Portugália Editora, Lisboa Outubro 1965.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

POSTAIS SEM SELO



A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la.

Gabriel García Márquez em Viver para Contá-la.

Legenda: Desenho de João da Câmara Leme, pormenor da capa de Viver Com os Outros de Isabel da Nóbrega.

terça-feira, 25 de maio de 2010

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES (07)

Aproveitando aquela floresta de enganos que ficou conhecida na história como “primavera marcelista”, Urbano Tavares Rodrigues escreveu no “República” de 28 de Outubro de 1968, um artigo em que falava da “urgente necessidade do restabelecimento da Sociedade Portuguesa de Escritores.”

O apelo teve eco e os escritores mobilizaram-se para que voltassem a ter uma casa que os representasse.

A 13 de Março de 1970 o “Diário De Lisboa” noticiava:

“Cerca de 125 escritores presentes (ou representados) numa reunião, ontem à noite, realizada na Casa do Alentejo, aprovaram unanimemente, na generalidade, o projecto de estatutos da Associação de Escritores Portugueses (ou Associação Portuguesa de Escritores: a escolha ficou deferida para final). “

Em 28 de Setembro de 1972 o “República” noticiava:

“A novel Associação Portuguesa de Escritores, cuja criação foi agora autorizada por despacho do Ministro da Educação Nacional, nasce ao fim de três anos de esforços e cerca de treze meses volvidos sobre a Assembleia-geral que determinou a sua formação. Nos fins prosseguidos sucede à Sociedade Portuguesa de Escritores, dissolvida em 1965”O escritor Manuel Ferreira diria:
“Foi ganha a penas a primeira batalha”.Na tarde de 13 de Abril de 1973, no 13º Cartório Notarial de Lisboa, à Rua das Portas de Santo Antão, quinze sócios oficializaram a fundação da Associação Portuguesa de Escritores.

A 7 de Junho desse mesmo ano, eram eleitos os primeiros corpos gerentes da Associação Portuguesa de Escritores.

Direcção:
Presidente: José Gomes Ferreira
Vice-Presidente: Manuel Ferreira
Vogais: Casimiro de Brito, José Saramago, Maria Velho da Costa, Pedro Tamen e Rogério Fernandes
Suplentes
Álvaro Guerra, António Modesto Navarro, Gastão Cruz, Isabel da Nóbrega, Maria Alberta Meneres, Maria Amélia Neto e Nuno Júdice
Assembleia-geral
Presidente: Sophia de Mello Breyner Andresen
Vice-Presidente: Alexandre Babo
Vogais: E.M. de Melo e Castro e Fernando Assis Pacheco
Suplentes: Eduardo Prado Coelho e Maria Isabel Barreno
Conselho Fiscal
Presidente: Faure da Rosa
Vogais: João Rui de Sousa e Mário Ventura
Suplentes: Armando da Silva Carvalho e Vasco Miranda

A 14 de Junho de 1973, em cerimónia realizada na Casa da Imprensa, tomavam posse, para o triénio 1973-1975, os Corpos Gerentes da Associação Portuguesa de Escritores.

“Devo declarar que considero a aceitação do cargo em que fui agora empossado o primeiro acto verdadeiramente poético da minha vida.”, disse José Gomes Ferreira no seu discurso de tomada de posse.

Só um poeta ousaria ser presidente de uma associação sem sede, sem dinheiro, sem nada.
A sede da Associação situou-se na Rua do Loreto, num 2º andar, bem por cima do velho piolho que toda a Lisboa conhecia: o "Loreto"

quarta-feira, 19 de maio de 2010

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES (01)



 19 DE MAIO DE 1965

A Sociedade Portuguesa de Escritores atribuiu os prémios “Camilo Castelo Branco," “Grande Prémio de Novelística e “Grande Prémio de Ensaio”, - segundo foi hoje comunicado – respectivamente a Isabel da Nóbrega, pela sua obra “Viver Com os Outros”; Luandino Vieira, pelo seu livro “Luuanda”; e Armando de Castro pelo seu livro “A Evolução Económica de Portugal – Sec. XII a XV”.

O "Prémio Camilo Castelo Branco-64", no valor de 50 contos, é instituído pelo Grémio Nacional dos Editores e Livreiros e patrocinado pela Sociedade Portuguesa de Escritores.
O júri era constituído pelos escritores António Coimbra Martins, José Palla e Carmo, José Régio, Mário Dionísio e Óscar Lopes.

O “Grande Prémio de Novelística”, no valor de 50 contos, o mais alto galardão para a novela portuguesa, foi instituído pela Sociedade Portuguesa de Escritores com o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian.

O júri era constituído pelos escritores Alexandre Pinheiro Torres, Augusto Abelaira, Fernanda Botelho, João Gaspar Simões e Manuel da Fonseca.

O “Grande Prémio de Ensaio”, também no valor de 50 contos, foi instituído pela Sociedade portuguesa de escritores, com o patrocínio da Gulbenkian.



O júri era constituído pelos escritores Augusto Saraiva, Castelo Branco Chaves, José Cardoso Pires e Teixeira da Mota.”

O “Diário de Lisboa”, noticiando a atribuição dos prémios, comentava:

“Isabel da Nóbrega e Luandino Vieira são, no panorama literário, escritores com posição de relevo, entre os valores mais expressivos da modernidade, cuja obre os impõe por méritos reais, agora consagrados a tão alto nível, do mesmo moído que é distinguido o valor, como economista de robusta estrutura, de Armando Castro, um nome firmado pelas capacidades do historiador da economia nacional."

No dia 20 de Maio de 1965 “A Voz”, em telegrama da ANI, denunciava que Luandino Vieira era o pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça e que fora condenado em 22 de Junho de 1963, num tribunal de Luanda, a catorze anos de prisão, por crimes de terrorismo praticados na província de Angola.

Legenda:
"Luuanda", Editora e Distribuidora "Eros", Ltda, Belo Horizonte, 1965
Recorte do jornal "República" de 19 de Maio de 1965, noticiando a atribuição dos prémios da Sociedade Portuguesa de Escritores