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domingo, 27 de janeiro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Desde que me tornei um forçado do escrever, para mim acabou o prazer da leitura.


Legenda: Italo Calvino

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

PRAZERES



No dia 28 de Julho de 2010 recordámos, aqui, esse saudoso objecto que era um dos acessórios que, em tempos antigos, nos acompanhava no prazer da leitura, sem nunca esquecer o indispensável lápis para sublinhados.

E passámos os olhos por um velho texto de Jorge Listopad

«Ontem, quando aqui contei que abri o livro Os Poemas Possíveis de José Saramago, com uma faca própria para abrir livros, que também servia para abrir as cartas, quando havia cartas, quando as pessoas, por escrito, se correspondiam, lembrei-me de um velho texto de Jorge Listopad publicado na sua coluna «Secos &Molhados» que, durante anos, manteve na última página do «Diário de Notícias.»

Essas notas, essas fichas, foram, mais tarde, reunidas em livro, que Listopad também titulou como Secos Molhados.

É dele que transcrevo O Caso da Faca de Papel:

De repente senti saudade da velha ferramenta do jovem leitor que fui. A faca de papel.
Hoje em dia são raros os livros que precisam de faca para abrirem as páginas; os livros vendem-se já com as páginas cortadas. Sem dúvida, a leitura é mais cómoda. Ganhe-se em tempo o que se perde por outro lado: em “controle” de que o livro “foi” aberto e não é apenas uma prenda platónica ou um ornamento de biblioteca; em higiene e, sobretudo, no sentimento de sermos nós os primeiros a abrir as páginas do mistério do novo mundo que cada livro representa, fechado. Sem esquecer que esse tempo de trabalho manual, habitualmente acompanhado de umas primeiras paragens de leitura supragiagonal, mas quão impressiva, representa um contacto físico e quase amoroso com o papel impresso que é mais do que isso.
A ferramenta fora de uso morre. A faca de papel, belo objecto, está a desaparecer. E com ele talvez certa leitura.»

domingo, 12 de agosto de 2018

POSTAIS SEM SELO


Os únicos livros que reconheço como meus são os que ainda tenho de escrever.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

UMA JOVEM MULHER A LER


Sentada numa cadeira de praia, no terraço de um chalet no fundo do vale, há uma jovem mulher a ler. Todos os dias antes de me pôr a trabalhar fico um bocado a olhá-la com o óculo. Neste ar fino e transparente parece-me captar na sua figura imóvel os sinais desse movimento invisível que é a leitura, o correr do olhar e do respiro, mas ainda mais o percurso das palavras através da pessoa. O seu fluir ou deter-se, os impulsos, as demoras, as pausas, a atenção que se concentra ou se dispersa, os recuos, esse percurso que parece uniforme e afinal é sempre mutável e acidentado.
Há quantos anos não posso dar-me ao luxo de uma leitura desinteressada? Há quantos anos não consigo entregar-me a um livro escrito por outros, sem nenhuma relação com as coisas que devo escrever eu? Viro-me e vejo a secretária que me espera, a máquina com a folha no rolo, o capítulo para começar. Desde que me tornei um forçado do escrever, para mim acabou o prazer da leitura. O que eu faço tem como fim o estado de espírito desta mulher sentada na cadeira de braços enquadrada pelas lentes do meu óculo, e é um estado de espírito que me está proibido.
Todos os dias antes de me pôr a trabalhar olho para a mulher na cadeira: digo para comigo que o resultado do esforço inatural a que me submeto ao escrever deve ser o respiro desta leitora, a operação da leitura transformada em processo natural, a correspondente que levas as frases a roçar o filtro da sua atenção, a imobilizarem-se um instante antes de serem absorvidas pelos circuitos da sua mente e desaparecem convertendo-se nos seus fantasmas interiores, no que nela é mais pessoal e incomunicável.


Legenda: A Leitura de Bridget de Peter Samuelson

sábado, 5 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Escrever é um acto solitário.

Legenda: Italo Calvino, fotografia de Sebastião Salgado.

sábado, 1 de agosto de 2015

POSTAIS SEM SELO


Pode-se dizer que os primeiros vinte anos da minha vida os passei com a cara de Mussolini sempre à vista, dado que o seu retrato estava pendurado em todas as salas de aula, assim como em todos os serviços e locais públicos.

Italo Calvino em Um Eremita em Paris

terça-feira, 7 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


A cidade existe e tem um simples segredo: só conhece partidas e nunca regressos.

Italo Calvino em As Cidades Invisíveis

sexta-feira, 17 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


A melancolia é uma tristeza com um pouco de leveza.

Italo Calvino

Legenda: imagem de Richard Broken

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

OLHARES


Há muito que os meus passos não caminhavam para os lados do Largo do Rato. A última vez que por lá andei, foi por mor dos jacarandás.

Esta fotografia foi tirada nesse Junho de 1980 e mostra a Charcutaria Brasil.

Situada na Rua Alexandre Herculano era uma das mais conceituadas charcutarias de Lisboa, se bem que nos últimos dez anos tivesse entrado em período de algum desleixo e degradação.

Passei por lá ontem, e já não existe.

Fechou em finais de 2009, não consegui obter a data exacta, tinha mais de 70 anos e chegou a empregar 23 trabalhadores.

No seu lugar está, agora, uma dessas lojas, que vão enxameando a cidade, e designadas por Cashconverters, que ostenta nas montras, o tratar-se de um dos líderes mundiais na compra e venda de ouro e jóias.




Lentamente a cidade vai-se descaracterizando.

Há quem diga que é excesso de saudosismo, não digo que não, mas é assim que vamos morrendo.

Italo Calvino, lido em segunda mão, escreveu um dia:

Tomemos as lojas, que constituem o discurso mais aberto, o mais comunicativo que uma cidade pode exprimir: lemos todos uma cidade, uma rua, um bocado de passeio seguindo a fila das suas lojas. Há lojas que são como capítulos de um tratado, lojas como artigos de uma enciclopédia, lojas como páginas de jornais.

Foi ao lado da então Charcutaria Brasil, que nasceu o grupo de teatro A Barraca, fundado em 1975, pela Maria do Céu Guerra, o Mário Alberto, o Helder Costa. 
O Mário Alberto já nos deixou, A Barraca mantém portas abertas no antigo Cinearte.

sábado, 9 de abril de 2011

POSTAIS SEM SELO


Deveria haver uma época na vida adulta destinada a revisitar as leituras mais importantes da nossa juventude.
Italo Calvino

Legenda: Lisboa, Miradouro da Senhora do Monte.