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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

IA JURAR QUE JÁ O LI...


As últimas palavras do excelente Se Numa Noite de Inverno Um Viajante de Italo Calvino que nos acompanha desde Agosto do ano passado:

Puxa os óculos para a testa. – Sim, um romance que começa assim –diz -, ia jurar que já o li… Você tem só este princípio e queria achar a continuação, não é verdade? O problema é que dantes os romances começavam todos assim. Havia alguém que passava por um caminho solitário e via uma coisa que lhe chamava a atenção, uma coisa que parecia ocultar um mistério ou uma premonição; então pedia explicações e contavam-lhe uma longa história…
- Olhe, deve haver um equívoco qualquer – tentei adverti-lo -, isto não é um texto… são só os títulos… o Viajante
- Oh, o viajante aparecia só nas primeiras páginas e depois nunca mais se falava dele, a sua função tinha acabado… O romance não era a história dele…
- Mas não é essa história que eu queria saber como vai acabar…
Interrompe-te o sétimo leitor: - Você acha que todas as estórias devem ter um princípio e um fim? Antigamente um conto só tinha duas maneiras de acabar: passadas todas as provas, o herói e a heroína casavam-se ou morriam. O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, a a inevitabilidade da morte.
Deténs-te um momento a reflectir nestas palavras. Depois subitamente decides que queres casar-te com Ludmila.

Agora são marido e mulher, Leitor ve Leitora. Uma enorme cama de casal acolhe as vossas leituras paralelas. Ludmila fecha o livro, apaga o candeeiro do seu aldo, abandona a cabeça na almofada e diz: - Apaga também a luz. Não estás farto de ler?
E tu: - É só mais um instante. Estou mesmo a acabar Se Numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino.


Legenda: fotograma de Domicilio Conjugal de François Truffaut

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

OS QUE AINDA TENHO DE ESCREVER


Os únicos livros que reconheço como meus são os que ainda tenho de escrever.

domingo, 27 de janeiro de 2019

O MOVIMENTO INVISÍVEL DA LEITURA


Sentada numa cadeira de praia, no terraço de um chalet no fundo do vale, há uma jovem mulher a ler. Todos os dias antes de me pôr a trabalhar fico um bocado a olhá-la com o óculo. Neste ar fino e transparente parece-me captar na sua figura imóvel os sinais desse movimento invisível que é a leitura, o correr do olhar e do respiro, mas ainda mais o percurso das palavras através da pessoa. O seu fluir ou deter-se, os impulsos, as demoras, as pausas, a atenção que se concentra ou se dispersa, os recuos, esse percurso que parece uniforme e afinal é sempre mutável e acidentado.
Há quantos anos não posso dar-me ao luxo de uma leitura desinteressada? Há quantos anos não consigo entregar-me a um livro escrito por outros, sem nenhuma relação com as coisas que devo escrever eu? Viro-me e vejo a secretária que me espera, a máquina com a folha no rolo, o capítulo para começar. Desde que me tornei um forçado do escrever, para mim acabou o prazer da leitura. O que eu faço tem como fim o estado de espírito desta mulher sentada na cadeira de braços enquadrada pelas lentes do meu óculo, e é um estado de espírito que me está proibido.
Todos os dias antes de me pôr a trabalhar olho para a mulher na cadeira: digo para comigo que o resultado do esforço inatural a que me submeto ao escrever deve ser o respiro desta leitora, a operação da leitura transformada em processo natural, a correspondente que levas as frases a roçar o filtro da sua atenção, a imobilizarem-se um instante antes de serem absorvidas pelos circuitos da sua mente e desaparecem convertendo-se nos seus fantasmas interiores, no que nela é mais pessoal e incomunicável.


Legenda: A Leitura de Bridget de Peter Samuelson

domingo, 20 de janeiro de 2019

A ALMA É UM ESPELHO


Especular, reflectir: toda a actividade do pensamento me remete para os espelhos. Segundo Plotino, a alma é um espelho que cria as coisas materiais reflectindo as ideias da razão superior. Será talvez por isso que eu para pensar preciso de espelhos: só consigo concentrar-me na presença de imagens reflectidas, como se a minha alma tivesse de possuir um modelo a imitar se quiser pôr em acção a sua virtude especulativa. (O vocábulo aqui assume todos os seus significados: sou ao mesmo tempo um homem que pensa e um homem de negócios, além de colecionador de aparelhos ópticos).

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O QUE ACONTECE FORA DO LIVRO


Começar. Foste tu que o disseste, Leitora. Mas como fixar o momento exacto em que começa uma história? Tudo começou sempre antes, a primeira linha da primeira página de todos os romances remete para alguma coisa que já aconteceu fora do livro. Ou então a verdadeira história é a que começa dez ou cem páginas à frente e tudo o que vem antes é só um prólogo. As vidas dos indivíduos da espécie humana formam um entrecho contínuo, em que todas as tentativas de isolar um pedaço de vivido que tenha um sentido separado do resto – por exemplo, o encontro de dias pessoas que será decisivo para ambas – deve ter em conta que cada um dos dois traz consigo um tecido de factos, ambientes, outras pessoas, e que do encontro derivarão por sua vez outras histórias que irão separar-se da sua história comum.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

OUTRAS ESTANTES NOUTRAS CASAS


Vejamos os livros. A primeira coisa que se nota, pelo menos a observar os que tens mais à vista, é que para ti a função dos livros é a da leitura imediata, não a de instrumentos de estudo ou de consulta nem a de elementos de uma biblioteca disposta segundo uma certa ordem. Talvez às vezes tenhas querido dar uma aparência de ordem às tuas estantes, mas toda a tentativa de classificação foi rapidamente abalada por heterogéneos contributos. A razão principal da disposição dos volumes, além da dimensão para os mais altos ou mais baixos, é a cronológica, o terem cá chegado um depois do outro; embora saibas sempre achá-los, até por que não são muitos (deves ter deixado outras estantes noutras casas, noutras fases da tua existência), e talvez não te aconteça muito teres de procurar um livro que já leste.

Resumindo, não pareces ser uma Leitora Que Relê. Lembras-te muito bem de tudo o que leste (foi uma das primeiras coisas que deste a saber de ti); talvez cada livro para ti se identifique com a leitura que fizeste num determinado momento, de uma vez por todas. E tal como os guardas na memória, gostas de conservar os livros enquanto objectos, de mantê-los junto de ti.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O PASSADO NÃO SE PODE MUDAR

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Não me servia de nada dizer que de todos os sarilhos em que me vi metido sempre me saí bem,
tanto das fortunas como das desgraças. O passado é como uma bicha solitária cada vez mais comprida e que trago enrolada dentro de mim e que nunca perde os anéis por mais que eu me esforce por esvaziar as tripas em todas as retretes à inglesa ou á turca, ou nos baldes das prisões ou nas arrastadeiras dos hospitais ou nas fossas dos acampamentos, ou simplesmente nos arbustos, vendo bem se não aparece de repente uma cobra, como daquela vez na Venezuela. O passado não se pode mudar tal como não se pode mudar de nome, que por mais passaportes que tenha tido, com nomes de que já não me lembro, todos me chamaram o suíço Ruedi: para onde quer que fosse e eme apresentasse, havia sempre alguém que sabia quem eu era e o que fazia, embora o meu aspecto tenha mudado muito com o passar dos anos, especialmente desde que o meu crânio ficou calvo e amarelo como uma toranja, e isto sucedeu na epidemia de tifo a bordo do Stjarna, quando pela carga que levávamos não podíamos aproximar-nos da margem nem sequer para pedir socorros via rádio.

sábado, 24 de novembro de 2018

MODOS DE LEITURA


Ouvir alguém ler em voz alta é muito diferente de ler em silêncio. Quando se lê, pode-se fazer paragens ou saltas as frases: do tempo decidimos nós. Quando é outro a ler é difícil fazer coincidir a nossa atenção com o tempo da sua leitura: a voz ou segue muito rápida ou muito lenta.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

A VIDA NÃO PASSA DE UMA TROCA DE CHEIROS


Os médicos autorizaram-me o uso moderado de bebidas alcoólicas. Para festejar a notícia, ao entardecer entrei na taberna A Estrela da Suécia, para beber uma taça de rum quente. Al balcão havia pescadores, guardas fiscais, carregadores. Acima de todas as vozes pontificava a de um velho fardado de guarda prisional, que desatinava ebriamente num mar de verborreia: - E todas as quartas-feiras a donzela perfumada me dá uma nota de cem coroas para que a deixe a sós com o recluso. E à quinta as cem coroas já marcharam em cerveja que nunca mais acaba. E quando chega ao fim da hora da visita a donzela sai com o fedor da cadeia nos seus vestidos elegantes; e o recluso torna para a cela com o perfume da donzela na sua roupa de condenado. E eu fico com o cheiro da cerveja. A vida não passa de uma troca de cheiros.
- A vida e também a morte, podes dizê-lo – respondeu outro bêbado, cuja profissão, como fiquei logo a saber, era coveiro – Eu com o cheiro da cerveja tento tirar de cima o cheiro a morto. E só o cheiro a morto te tira da cima o cheiro a cerveja, como a todos os bebedores a que tenho de abrir a cova.
Interpretei este diálogo como um aviso para me pôr em guarda: o mundo está a desfazer-se e tenta atrair-me para a sua dissolução.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

NÃO ERA UM SINAL DE PRISIONEIRO


Hoje vi uma mão sair de uma janela da prisão, na direcção do mar. Eu andava a passear pelo paredão do porto, como é meu costume, chegando até às traseiras da velha fortaleza. A fortaleza está toda encerrada dentro das suas muralhas oblíquas; as janelas, defendidas por gradeamentos duplos ou triplos, parecem tapadas. Mesmo sabendo que aqui estão encerrados os presos, sempre vi a fortaleza como um elemento da natureza inerte, do reino mineral. Por isso a aparição da mão espantou-me como se tivesse saído da rocha. A mão não estava numa posição natural; suponho que as janelas estão situadas no alto das celas e encravada na muralha; o preso deve ter realizado um esforço de acrobata, aliás de contorcionista, para passar o braço por entre as grades de modo a fazer despontar a mão ao ar livre. Não era um sinal de prisioneiro, nem para mim nem para qualquer outro; pelo menos, não o tomei como tal; aliás nessa altura nem pensei de modo nenhum nos presos; diria que a mão me pareceu branca e fina, uma mão não diferente das minhas, em que nada indicava a rudeza que se espera de um condenado. Para mim foi como um sinal que vinha da pedra; a pedra queria advertir-me de que a nossa substância era comum e por isso ficaria algo do que constitui a minha pessoa, não se perderia com o fim do mundo: ainda será possível uma comunicação no deserto falto da vida, privado da minha vida e de todas as minhas lembranças. Falo das primeiras impressões registadas, que são as que contam.

domingo, 14 de outubro de 2018

HABITUEI-ME TÃO BEM A NÃO LER


- Não critica os livros que lês?
- Eu? Eu não leio livros – diz Irnerio.
- Então o que lês?
- Nada. Habituei-me tão bem a não ler que nem leio sequer o que me aparece diante dos olhos por acaso. Não é fácil: ensinam-nos a ler desde miúdos e durante toda a vida fica-se escravo de toda a escrita que nos põem à frente. Se calhar também tive de fazer um esforço. Nos primeiros tempos, para aprender a não ler, mas agora é já uma coisa natural. O segredo é não se recusar a olhar as palavras escritas, pelo contrário, tem de se olhá-las intensamente até desaparecerem.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

O PRAZER DO USO DO CORTA PAPEL


Os prazeres que nos reserva o uso do corta-papel são tácteis, auditivos, visuais e acima de tudo mentais. A progressão na leitura é antecedida por um gesto que atravessa a solidez material do livro para permitir o acesso à sua substância incorpórea. Penetrando por baixo das páginas, a faca sobe com ímpeto fazendo um corte vertical numa escorregadia sucessão de golpes que atacam as fibras uma a uma e as ceifam - com um crepitar alegre e amigo o bom do papel recebe este primeiro visitante, que anuncia inúmeros virar de páginas agitadas pelo vento ou pelo olhar -; maior resistência opõe a dobra horizontal, especialmente se for dupla, porque exige uma nada ágil acção contrária - aí o som é o de uma laceração sufocada, com notas mais graves. O bordo das folhas retalha-se revelando o seu tecido filamentoso; separa-se dele uma apara muito fina - chamada "caracol" - suave para a vista como a espuma das ondas na rebentação. O abrires caminho à espadeirada na barreira das folhas associa-se ao pensamento do tanto que a palavra encerra e oculta: avanças pela leitura adentro como por um denso bosque.
O romance que estás a ler desejaria apresentar-te um mundo corporal, denso, minucioso. Mergulhado na leitura, moves maquinalmente o corta-papel pela espessura do volume: a ler ainda não chegaste ao fim do primeiro capítulo, mas a cortar já estás muito mais adiante. E eis que, no momento em que a tua atenção está mais suspensa, viras a folha a meio de uma frase decisiva e te deparas com duas páginas em branco.

Italo Calvino em Se Numa Noite de Inverno UmViajante

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

A CALMA PARA MERGULHAR NO LIVRO


Podes sair da livraria satisfeito, tu, homem que julgavas já ter acabado a época em que se pode esperar alguma coisa da vida. Trazes duas expectativas diferentes e que promete, ambas dias de agradáveis esperanças. A expectativa contida no livro – de uma leitura que estás impaciente por retomar – e a expectativa contida naquele número de telefone – de tornares a ouvir as vibrações ora agudas ora veladas daquela voz, quando responder à tua primeira chamada, daqui a pouco tempo, se calhar já amanhã, com a frágil desculpa do livro, para lhe perguntares se está a gostar ou não, para lhe dizeres quantas páginas, leste ou não leste, para lhe propores voltarem a encontrar-se…
Quem és tu. Leitor, qual a tua idade, estado civil, profissão, rendimentos, seria indiscreto perguntar-se. É lá contigo, da tua vida sabes tu. O que conta é o estado de espírito com que agora, na intimidade da tua casa, tentas restabelecer a calma perfeita para mergulhares no livro, estendes as pernas, encolhes e voltas a estendê-las. Mas algo se modificou desde ontem. A tua leitura já não é solitária: pensas na Leitora que neste momento está a abrir o livro, e ao romance para ler sobrepõe-se um possível romance para viver, a continuação da tua história com ela, ou melhor: o princípio de uma possível história.

Italo Calvino em Se Numa de Inverno Um Viajante

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

É ASSIM, AQUI NA TERRA?


O grande passatempo destes fregueses do bar parece ser as apostas: apostas sobre os mínimos acontecimentos do dia a dia. Por exemplo, um diz: «Vamos apostar quem chega primeiro hoje aqui ao bar: o doutor Marne ou o comissária Gorin?». E outro: «E o doutor Marne quando chegar, para não esbarrar com a ex-esposa, o que vai fazer: pôr-se a jogar flipper ou a preencher o totobola?»
Numa existência como a minha, não se pode fazer previsões: nunca sei o que me pode suceder na próxima meia hora, não consigo imaginar-me com uma vida toda feita de reduzidas alternativas bem limitadas, sobre as quais se pode fazer apostas: ou assim ou assado.
- Não sei – digo em voz baixa
- Não sei o quê? – pergunta-me ela.
É um pensamento que creio poder também dizer e não guardá-lo só para mim como faço com todos os meus pensamentos, dizê-lo à mulher que está aqui ao meu lado ao balcão do bar. A da loja de peles, com quem há um bom bocado me apetece meter conversa. – É assim, aqui na terra?
- Não, não é verdade – responde-me e eu já sabia que me responderia assim. Aforma que não se pode prever nada, tanto aqui como em toda a parte: é certo que todas as noites a esta hora o doutor Marne fecha o consultório e o comissário Gorin acaba o seu turno de serviço na esquadra da polícia, e passam sempre por aqui, primeiro um ou outro, mas não quer dizer nada!
- No entanto, ninguém parece duvidar de que o doutor tentará evita a ex-senhora Marne – digo-lhe.
- A ex-senhora Marne sou eu – responde ela. – Não ligue ao que dizem.


Legenda: pintura de Édouard Manet

terça-feira, 11 de setembro de 2018

QUANDO NÃO SE ESTÁ EM LUGAR NENHUM


Um plano perfeito, tão perfeito que bastara uma complicação de nada para o mandar por terra. E aqui estou eu, sem saber o que fazer agora, o último vijante à espera nesta estação donde não parte e aonde não chega nenhum comboio antes de amanhã de manhã. É a hora em que a pequena cidade de província de fecha na sua casca. No bar da estação ficaram só pessoas da terra que se conhecem todas umas às outras, pessoas que nada têm a ver com a estação mas que vêm até cá através da praça escura, ou por não terem mais nenhum local aberto aqui á volta, ou talvez pela atracção que as estações continuam a exercer nas cidades de província, aquele toque de novidade que se pode esperar das estações, ou se calhar apenas pela lembrança do tempo em que a estação era o único ponto de contacto com o resto do mundo.
Escusado será dizer que já não há cidades de província e que talvez até nunca tenha havido: todos os lugares comunicam com todos os lugares instantaneamente, só se tem uma sensação de isolamento durante o trajecto de um lugar para outro, isto é quando não se está em lugar nenhum.


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

UM VIAJANTE QUE PERDEU UMA LIGAÇÃO


Nada mais fácil do que identificar-se comigo, por agora o meu comportamento exterior é o de um viajante que perdeu uma ligação, que é uma situação que faz parte da experiência de toda gente; porém uma situação que se verifica no início de um romance remete sempre para qualquer outra coisa que aconteceu ou que está prestes a acontecer, e é esta qualquer outra coisa que torna arriscada a identificação comigo, para ti leitor e para ele autor; e quanto mais cinzento, vulgar e indeterminado for o início deste romance mais tu e o autor sentirão crescer uma sombra de perigo sobre a fracção de «eu» que irreflectidamente investiram no «eu» de uma personagem de que ignoram a história que ela traz consigo, como aquela mala de que tanto desejava conseguir livrar-se. Livrar-me da mala devia ser a primeira condição para restabelecer a situação anterior: anterior a tudo o que sucedeu a seguir. É a minha intenção quando digo que gostaria de remontar o curso do tempo: gostaria de apagar as consequências de certos acontecimentos e restaurar uma condição inicial. Mas todos os momentos da minha vida a carretam um montão de factos novos, e todos estes factos novos acarretam s suas consequências, pelo que quanto mais tento voltar ao momento zero de que parti, mais dele me afasto: embora tendo todos os meus actos a intenção de apagar consequências de actos precedentes e conseguindo até obter resultados apreciáveis neste apagamento, que me abrem o coração a esperanças de alívio imediato, contudo tenho de considerar que cada uma das minhas acções para apagar acontecimentos precedentes provoca uma chuva de novos acontecimentos que complicam ainda mais a situação anterior e que terei de tentar apagar por sua vez. Por isso tenho de calcular bem todas as acções de modo a obter o máximo de apagamento com o mínimo de recomplicação.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

UM REDONDO RELÓGIO DE VELHA ESTAÇÃO


Tu leitor julgavas que ali debaixo do alpendre o meu olhar estava apontado para os ponteiros tu leitor julgavas que ali debaixo do alpendre o meu olhar estava apontado para os ponteiros recortados como alabardas de um redondo relógio de velha estação,
no vão esforço de fazê-los andar para trás, a percorrer em sentido contrário o cemitério das horas passadas jacentes exangues no seu panteão circular. mas
quem te diz que os números do relógio não se debruçam de janelinhas rectangulares e eu não vejo cada minuto cair-me em cima de repente como a lâmina de uma gui-
lhotina? Seja como for, o resultado não mudaria muito: mesmo avançando num mundo todo polido e escorregadio a minha mão contraída no pequeno leme da mala de rodízios não deixaria de exprimir uma recusa interior, como se aquela ligeira bagagem constituísse para mim um peso ingrato e extenuante.
Alguma coisa me deve ter corrido mal: um engano, um atraso, uma ligação perdida; talvez à chegada eu devesse encontrar um contacto, tendo provavelmente algo a ver com esta mala que tanto parece preocupar-me, não sendo claro se por medo de perdê-la se porque nunca mais consigo livrar-me dela. O que parece bem certo é que não é uma bagagem qualquer, que se possa guardar no depósito das bagagens ou fingir que se esquece na sala de espera. Não vale a pena olhar para o relógio; se veio alguém esperar-me, já foi embora há um bom bocado; não vale a pena atormentar-me na ânsia de fazer andar para trás os relógios e os calendários na esperança de voltar aio momento anterior àquele em que aconteceu alguma coisa que não devia acontecer. Se nesta estação eu devia encontrar alguém, que se calhar não tinha nada a ver com esta estação mas que só devesse descer de um comboio e voltar a partir noutro comboio, tal como deveria fazer eu, e um dos dois devia entregar alguma coisa ao outro, por exemplo eu devia entregar ao outro esta mala de rodízios que afinal focou comigo e me queima as mãos, então a única coisa a fazer é tentar restabelecer o contacto perdido.

domingo, 19 de agosto de 2018

UMA LUFADA DE CHEIRO A BUFETE DE ESTAÇÃO


O romance começa numa estação ferroviária, ronca uma locomotiva, um arfar de êmbolo tapa a abertura do capítulo, uma nuvem de fumo esconde parte do primeiro parágrafo. Pelo meio do cheiro a estação passa uma lufada de cheiro a bufete de estação. Está alguém a olhar pelos vidros embaciados, abre a porta envidraçada do bar, lá dentro também está tudo enevoado, como que visto por olhos de míope, ou então por olhos irritados com ciscos de carvão. São as páginas do livro que estão embaciadas como as janelas de um velho comboio, é nas frases que pousa a nuvem de fumo. É uma noite de chuva: o homem entra no bar; desabotoa o sobretudo húmido; envolve-o uma nuvem de vapor; um silvo põe-se a correr pelos carris brilhantes da chuva a perder de vista.
Um silvo que parece de locomotiva e um jacto de vapor erguem-se da máquina de café que o velho empregado do bar põe sobre pressão como se lançasse um sinal, ou pelo menos é a ideia que dá pela sucessão das frases do segundo parágrafo, em que os jogadores nas mesas ocultam o leque das cartas contra o peito e se viram para o recém-chegado com uma tripla reviravolta dos pescoço, dos ombros e das cadeiras, enquanto os fregueses em pé encostados ao balcão erguem as chávenas e sopram na superfície do café de lábios e olhos semicerrados, ou sorvem a parte de cima das canecas de cerveja com uma atenção exagerada para não as deixar entornar. O gato arqueia o dorso, a caixeira fecha a caixa registadora que faz dlim. Todos estes sinais convergem no informar que se trata de uma pequena estação de província, onde quem chega é imediatamente notado.
As estações assemelham-se todas: pouco importa que as luzes não consigam iluminar para além do seu halo esfumado; seja como for, este é um ambiente que tu conheces de cor, com o cheiro a comboio que fica mesmo depois de todos os comboios terem partido, o cheiro especial das estações de pois de ter partido o último comboio. As luzes da estação e as frases que estás a ler parecem ter a tarefa mais de dissolver do que indicar as coisas que afloram de um véu de escuridão e de névoa. Eu desembarquei esta noite nesta estação pela primeira vez na minha vida e já me parece ter passado aqui uma vida, entrando e saindo deste bar, passando do cheiro do alpendre ao cheiro da serradura molhada dos lavabos, tudo misturado num único cheiro que é o da espera, o cheiro das cabinas telefónicas quando só resta recuperar as moedas porque o número ligado não dá sinais de vida.

domingo, 12 de agosto de 2018

AFINAL DE QUE ESTÁS À ESPERA?


 Estás a começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia. A porta é melhor fechá-la; lá dentro a televisão está sempre acesa. Diz aos outros: “Estou a ler! Não quero que me incomodem!”. Não devem ter-te ouvido, com aquele barulho todo; fala mais alto, grita: “Estou a começar a ler o novo romance de Italo Calvino!” Ou se não quiseres não digas nada; esperemos que te deixem em paz.
Arranja a posição mais cómoda: sentado, estendido, enroscado, deitado. Deitado de costas, de lado, de barriga. Na poltrona, no sofá, na cadeira de baloiço, na cadeira de praia, no pufe. Numa cama de rede, se tiveres alguma cama de rede. Em cima da cama, naturalmente, ou dentro da cama. Até podes pôr-te de cabeça para baixo, em posição de yoga. Com o livro virado ao contrário, bem entendido.
É claro que a posição ideal para ler nunca se consegue arranjar. Dantes lia-se de pé, diante de uma estante. As pessoas estavam habituadas a ficar de pé. Era assim que se repousava quando se estava cansado de andar a cavalo. A cavalo ninguém se lembrou alguma vez de ler; e no entanto agora essa de ler sobre o arção, com o livro pousado nas crinas do cavalo, se calhar até preso às orelhas com um adereço especial, é ideia que achas atraente. De pés nos estribos devia-se ficar com muita comodidade para ler; ter os pés soerguidos é primeira condição para desfrutar da leitura.
Bem, afinal de que estás à espera? Estende as pernas, estica também os pés numa almofada, em duas almofadas, nos braços do sofá, nas orelhas da poltrona, na mesinha de chá, na secretária, no piano, no mapa-mundo. Descalça primeiro os sapatos. Mas só se quiseres ficar de pés soerguidos, senão torna a calçá-los. E agora não fiques para aí de sapatos numa mão e livro na outra.
Regula a luz de modo a não te cansar a vista. Fá-lo já, porque assim que estiveres mergulhado na leitura, nem penses em mexer-te. Arranja-te de maneira a que a página não fique na sombra, um emaranhado de letras negras sobre fundo cinzento, uniformes como uma ninhada de ratos; mas tem cuidado para que não lhe bata de chapa uma luz demasiado forte e que não se reficta no branco cru do papel roendo as sombras dos caracteres como um meio-dia do Sul. Tenta prever tudo o que puder evitar-te o interromper da leitura. Os cigarros ao alcance da mão, se fumares, e o cinzeiro. Que mais é que falta? Tens de ir fazer chichi? Bem, tu é que sabes.
Não é por esperares alguma coisa especial deste livro em especial. És uma pessoa que por questão de princípios já não espera nada de nada. Há muitos, mais jovens que tu mas também menos jovens, que vivem na expectativa de experiências extraordinárias; dos livros, das pessoas, das viagens, dos acontecimentos, do que o dia de amanhã lhes reserva. Tu não. Tu sabes que o melhor que se pode esperar é evitar o pior. Foi esta a conclusão a que chegaste, tanto na vida pessoal, como nas questões gerais e até mesmo mundiais. E com os livros? É isso, exactamente porque o excluíste em todos os outros campos, achas que é justo concederes-te ainda este prazer juvenil da expectativa num sector bem circunscrito como é o dos livros, onde as coisas te podem correr mal ou correr bem, mas o risco de decepção não é grave.»


Legenda: pintura de Henri Fantin-Latour

LEITURAS


Este livro de Italo Calvino entra nas Leituras para substituir os Depoimentos Escritos de Mário-Henrique Leiria que acabámos no passado dia 3.

Este livro deslumbrante não poderia deixar de aparecer nas Leituras.

Italo calvino é um autor que marcou os meus tempos de adolescente, quando o Botas marcava os dias negros dos nosso quotidiano, livros lidos na saudosa e imprescindível colecção O Livro de Bolso da Portugália Editora, as capas do João da Câmara Leme – que razões têm levado para ainda não terem aparecido em Olhar as Capas!?...

Há quem tenha classificado este livro de Calvino como um romance policial , um thriller literário sobre escrita e leitores.

De livro em livro, labirinto atrás de labirinto, tudo em causa: autotr leitor, críticos, o que vem à rede é peixe.

O romance em si, começa numa estação ferroviária, (Dinis Machado no seu Reduto Quase Final: «Abertura com a mais velha estação de comboios do mundo»), o roncar de uma locomotiva, nuvens de fumo, um café de estação, mas antes, em mei dúzia de páginas, o autor diz-nos que estamos para começar a ler o novo romance Se numa noite de inverno um viajante de Italo Calvino e pede-nos descontracção, recolhimento.

Assim será.

O prazer de ler acima de tudo.