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sexta-feira, 15 de maio de 2020

OLHAR AS CAPAS



O Atalho dos Ninhos de Aranha
Ítalo Calvino
Tradução de José Manuel Calafate
Capa de Octávio Clérigo
Colecção “O Livro de Bolso” nº 3
Portugália Editora
Lisboa s/d

Os sonhos dos resistentes são raros e curtos, sonhos que têm a sua origem nas noites de fome, intimamente ligados à história da comida que é pouca e tem de ser dividida por tantos: sonhos de bocados de pão mordiscados e depois guardados numa caixa. Os cães vadios devem ter sonhos semelhantes, em que entram ossos suculentos, escondidos debaixo da terra. Só quando o estômago está cheio e o lume aceso, os homens podem permitir-se sonhar com uma mulher nua e acordar de manhã ansiosos e refeitos, com uma sensação de liberdade, como a de um barco após ter levantado ferro.

domingo, 25 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Se Numa Noite de Inverno um Viajante

Italo Calvino
Tradução: José Colaço Barreiros
Colecção Mil Folhas nº 11
Público, Lisboa, Julho de 2002

O romance começa numa estação ferroviária, ronca uma locomotiva, um arfar de êmbolo tapa a abertura do capítulo, uma nuvem de fumo esconde parte do primeiro parágrafo. Pelo meio do cheiro a estação passa uma lufada de cheiro a bufete de estação. Está alguém a olhar pelos vidros embaciados, abre a porta envidraçada do bar, lá dentro também está tudo enevoado, como que visto por olhos de míope, ou então por olhos irritados com ciscos de carvão. São as páginas do livro que estão embaciadas como as janelas de um velho comboio, é nas frases que pousa a nuvem de fumo. É uma noite de chuva: o homem entra no bar; desabotoa o sobretudo húmido; envolve-o uma nuvem de vapor; um silvo põe-se a correr pelos carris brilhantes da chuva a perder de vista.

terça-feira, 23 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Um Eremita em Paris

Italo Calvino
Tradução: José Colaço Barreiros
Capa: Fernando Mateus
Editorial Teorema, Lisboa, s/d

Agora devo ter mudado qualquer coisa, só escrevo bem num local que seja meu, com livros ao meu alcance, como se tivesse sempre necessi9dade de consultar não se sabe bem o quê. Talvez não seja pelos livros em si, mas por uma espécie de espaço interior que eles formam, quase como se me identificasse a mim próprio como uma minha biblioteca ideal.
No entanto, uma biblioteca minha nunca consigo tê-la junta: os livros tenho-os sempre uns para cada lado; quando preciso de consultar um livro em Paris é sempre um livro que eu tenho em Itália, quando em Itália tenho de consultar um livro é sempre um livro que tenho em Paris. Esta necessidade de consultar livros ao escrever é um hábito que ganhei digamos há uma dezena de anos; dantes não era bem assim: no que eu escrevia, tudo tinha de vir da memória, tudo fazia parte do vivido. Até qualquer referência cultural tinha de ser algo que eu trazia cá dentro, que fazia parte de mim mesmo, senão não entrava nas regras do jogo, não era material que eu pudesse pôr na folha. Em contrapartida agora é exactamente o contrário: até o mundo se tornou uma coisa que eu consulto de quando em quando, e entre esta estante e o mundo lá fora já não há aquele salto que parece existir.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


As Cidades Invisíveis

Italo Calvino
Capa: Editorial Teorema
Tradução: José Colaço Berreiros
Editorial Teorema, Lisboa, Dezembro de 1996

O homem que cavalga longamente por terrenos bravios sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol incrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos óculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas de galos degeneram em brigas sangrentas entre os apostantes. Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim Isidora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem; a Isidora chega em idade tardia. Na praça há o paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são recordações.