Mostrar mensagens com a etiqueta Jacques Brel. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jacques Brel. Mostrar todas as mensagens

domingo, 23 de fevereiro de 2020

O MAIS PERTO DO DIVINO QUE JÁ OUVI


Depois de um concerto meu em Sevilha, saiu uma crítica que dizia: “Portugal ya encontradio su Jacques Brel.” E pensei: “Grande elogio”, vou prestar atenção a Jacques Brel e disse: “Caraças, estamos aqui na presença do maior intérprete de todos os tempos.” Comecei a perceber as suas letras, verdadeiros poemas. Não sei se ele é um poeta que canta, um cantor que escreve poema, um ator que também canta ou um cantor que também representa. Só sei que é a coisa mais sublime e mais perto do divino que já ouvi na minha vida.

Salvador Sobral

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

DE SOLIDÕES


Aos poucos, vamo-nos despedindo do Natal, e relembrando uma das mais interessantes e pungentes canções de Natal , Fairytale Of New York dos Pogues com a Kirsty MacCall,     sabemos que os rapazes do coro da polícia de Nova Iorque cantavam Galway Bay, enquanto os sinos tocavam por toda a cidade, ao mesmo tempo que José Tolentino Mendonça, numa das suas excelentes crónicas no Expresso, abordando a solidão do Natal, revelava que lera uma carta  que o do escritor Jack London escreveu na manhã de natal, em 1898 quando tinha 20 anos. quando momentaneamente abandonou as errantes vagabundagens no seu barco pelas celebrações caseiras do Natal.

«Mas no fundo dos rituais familiares a que ele assiste (a abertura dos presentes diante da lareira acesa, o risos das crianças felizes, os ornamentos aconchegantes, os reflexos de uma existência segura…) descobre-se sempre mais como um estranho, e tudo aquilo que o deveria apaziguar fá-lo afinal descobrir vencido, como se o seu “bilhete de lotaria da vida tivesse o número errado”. Ele que passou a adolescência a saltitar entre centros de reeducação, que teve de lutar para aguentar-se nos estudos, que, para sobreviver, foi ardina, pescador furtivo, agente de seguros, caçador de focas, pugilista e garimpeiro, ele homem de têmpera rija sente-se naquela manhã vacilar, perdido dentro do grande puzzle que o Natal faz parte. A carta que Jack London escreve é uma espécie de relatório do seu desconforto. Mas creio que não é só isso. É também um documento sobre a grande solidão que o Natal escancara».

Linhas à frente, José Tolentino pergunta:

“Porque é que o Natal faz sofrer?”

Guardei sempre um velho recorte do velho «Diário de Lisboa» de 27 de Dezembro de 1976:

“António Manuel, de 14 anos, no dia de Natal, lançou-se de uma janela do Coliseu do Porto, tendo sido conduzido ao Hospital de Santo António sem fala e com várias fracturas.
O jovem, que é natural do lugar de Idanha, encontra-se numa fase de recuperação, tendo começado já a articular algumas palavras”
O jornalista fechava assim a notícia:
“De acordo com estatísticas mundiais, a quadra do Natal regista sempre uma subida de tentativas de suicídio, que alguns psicólogos identificam com uma maior acuidade em relação à solidão em dias que a maioria das pessoas se reúne para confraternizar.”


Aquela canção de Brel, deixa-me ser a sombra da tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão, mas não me deixes.

Ainda José Tolentino Mendonça:

«O Natal é atravessado por um dramatismo que nos abala, pois nos retira do feérico entretenimento das perguntas penúltimas e nos coloca perante as perguntas últimas.» 

Legenda: pintura de Van Gogh





sexta-feira, 1 de novembro de 2019

QUOTIDIANOS


Miguel Torga diz que o homem é em si uma solidão:

«Nascemos sós, vivemos sós, morremos sós.»

Buscar aquele livro do Ray Bradbury «A Morte é um Acto Solitário», citar o espantoso início:

«Veneza, na Califórnia, tinha, nos velhos tempos, muito que a pudesse recomendasse a quem gostasse de estar triste. Era o nevoeiro quase todas as noites, e era, ao longo da costa, o gemer das máquinas nos poços de petróleo, e o bater da água suja nos canais, e o zumbir da areia a roçar as vidraças, quando o vento assobiava à volta das praças e ao longo das ruas desertas.
Era no tempo em que o pontão de Veneza, a cair aos bocados, morria no mar. E podia ver-se então gigantesca ossada de dinossauro, a montanha-russa, a coberto ou a descoberto, com o vaivém das marés.
No fim de um longo canal, viam-se as caravanas de um circo, decrépitas, para lá atiradas e abandonadas. E quem olhasse para as jaulas, à meia-noite, veria que lá dentro havia vida – peixes e camarões de ´+agua doce, que andavam ao sabor da maré. E tudo isto, afinal, era o circo do tempo, feito ruína, desfazendo-se em ferrugem.»

Ou fazer deslizar a agulha do gira-discos por um velho vinil de Brel:

«E que todos se divirtam como loucos, que todos dancem. No dia em que me meterem na cova.»

quarta-feira, 10 de abril de 2019

POSTAIS SEM SELO


Um tipo que fala das mulheres com tanta cólera é porque lhes pertence inteiramente.

Georges Brassens

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


Antologia Poética

Jacque Brel
Textos sobre Jacques Brel, entrevistas com Jacques Brel e Poemas
Tradução e Introdução de Eduardo Maia
Colecção Lagarto nº 11
Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 1985

J C - Parece-me que não gosta muito daquela sua canção intitulada «Quand maman reviendra», visto que nunca a canta em público. Porquê?
JB - É verdade qie não gosto muito dessa canção. Aliás, ela já passou por diversas vicissitudes. Comecei por escrevê-la com uma música diferente de que você conhece, mas tive de fazer outra. Mas, sobretudo, aconteceu que não consegui fazer o que queria realizar inicialmente. A história devia desenrolar-se na periferia de uma grande cidade dos Estados Unidos. E eu quis armar em proletário, que o não sou. Quis-me pôr na pele de um tipo de vinte anos, e já os não tenho. Cada vez que faço batota comigo mesmo sai asneira, o que é bem feito. Na altura penso que estou a ser sincero, estou convencido que tenho mesmo vinte anos, etc. Vejo-me sentado no passeio numa zona operária, e fico todo convencido, todo babado. E juro que tenho realmente a sensação de estar a ser honesto. No entanto, quando acabo o trabalho, dou conta, quando já é tarde, que o não estava a ser. É assim que se estraga uma canção.

(Da entrevista deJean Clouzet)

terça-feira, 18 de agosto de 2015

POSTAIS SEM SELO


- Quanto mais baixo se cai, mas as coisas se tornam claras. Chega-se ao fundo. Quando se perde, encontramo-nos a nós próprios.

Cesare Pavese em O Diabo Sobre as Colinas

Legenda: pintura de Sérgio Guerra

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

POSTAIS SEM SELO



Adeus mulher sempre te quis bem
Adeus mulher sempre te quis bem sabes
Vou tomar o comboio de ver a Deus
Vou tomar o comboio que sai antes do teu
Mas cada um toma o comboio que pode.

Jacques Brel em Le Moribond

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

UMA MENTIRA COMO OUTRA QUALQUER


Brel morreu, e dorme agora na terra rude das ilhas Marquesas. Mas eu sei muito bem que Brel não está morto, como dizem. As suas canções continuarão vivas para além da morte, mas isso nem é o mais importante. O que o mantém vivo é outra coisa. É o facto de ser ad aeternum, a música e as palavras dos nossos amores, é o ter cantado os nossos primeiros beijos, as nossas primeiras carícias. E o ter deitado cá para fora, com a sua voz velada, os nossos primeiros gritos de desespero.

Didier Decoin em Jacques Brel, Antologia Breve, Assírio & Alvim, Lisboa Setembro de 1985

domingo, 19 de janeiro de 2014

BREL EM VEZ DE CARTAS


Basta dizer que, quando apareceram no mercado os primeiros gravadores a preço acessível, deixámos de escrever cartas às nossas namoradas. Comprávamos os discos de Brel, gravávamos esta ou aquela passagem, fazíamos uma espécie de montagem sonora e enviávamos a fita à sereiazinha cruel. E nesta bolsa de prendas amorosas, a cotação de uma canção de Brel valia bem duas dúzias de rosas.


Didier Decoin em Jacques Brel, Antologia Breve, Assírio & Alvim, Lisboa Setembro de 1985

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

... A PENAR POR TODOS NÓS


Miguel Torga, no seu Diário, registando a morte de Jacques Brel, ocorrida neste dia do ano de 1978:

Morreu Jacques Brel. E estão de luto todos aqueles que sabiam que ele dizia mais aos homens com os seus versos truculentos e as suas canções dilaceradas do que muitos poetas laureados com os seus poemas herméticos. Trovador dos nossos dias, a ganir por não ser amado à altura a que pôs o amor, e a amar Deus na pele do Diabo, foi uma das raras encarnações raivosas do artista empenhado em reflectir o mundo inteiro no espelho da sua própria aflição. E consegui-o. Não é apenas um tal, de fisionomia tal, que ouvimos quando canta. É uma alma penada, em carne viva a penar por todos nós.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

CRÓNICA 20 ANOS DEPOIS


O que foi feito dos meus amigos e das coisas belas e desmesuradas por que todos nós perdemos e ganhámos a juventude? Olho em volta e resigno-me: os meus amigos cansaram-se e jazem agora em empregos rotineiros à espera da trombose ou do enfarte. Alguns passaram-se com armas e bagagens (e, naturalmente, proveito) para o lado do inimigo. Os melhores (mas que sei eu?) engordaram – para dizer a verdade, todos engordámos... – e tornaram-se cépticos e amargos carregando a nossa memória comum como um pecado envergonhado. Muitos morreram em guerras sem sentido, ou tão só de tédio, de longo e insuportável tédio. Outros partiram para improváveis distantes lugares; um enlouqueceu (e esse foi, se calhar, o que, imóvel e cegamente, partiu para mais longe).

Aquilo por que, há 20 anos, estávamos dispostos a perder tudo o que tínhamos (que não era, aliás, grande coisa: tempo, paciência, a breve vida), desmoronou-se mesmo antes de termos levantado as primeiras inseguras paredes. Atrás de nós veio pesadamente, a perigosíssima estirpe da chamada gente prática (laboriosas formigas que, enquanto cantávamos na rua e fugíamos à frente de todas as policias, mastigavam metodicamente as sebentas em sombrios quartos onde não chegavam o fogo dos sonhos nem o clamor da vida), e reduziu a utopia a dimensões razoáveis e geriveis. (Façamos-lhe, no entanto, justiça: talvez, quem sabe?, sem eles cedo a despensa se tivesse esgotado e a festa tivesse acabado mal e numa tremenda ressaca...)

Hoje reunimo-nos lentamente nos cafés, aos fins de tarde, e recordamo-nos com complacência de nós próprios como de outras alheias coisas. Nessa complacência me parece, às vezes, entrever alguma secreta mágoa e algum ressentimento. Em quantas ocasiões não nos tenho surpreendido falando com azedume dos filhos, e dos seus desejos, e da sua vida (da sua única vida!), como se aquilo que a eles, um dia, será dado, por sua vez, perder fosse irrisório e mesquinho ao lado do que nós próprios perdemos?

Nessas alturas tento imaginar o que seríamos há 20 anos, pensado de gente como a que hoje somos. E o que imagino (mas a minha imaginação sempre foi pouco recomendável) embaraça-me e apavora-me. Ter-nos-emos tornado em pessoas tão feias e tão impertinentes como aquelas contra quem inventámos a vida e a liberdade? Tenho a inquieta sensação de que, sem o saber, repetimos, também nós, como os notários de Jacques Brel, um monótono papel num dramático e não menos monótono. E que os nossos sonhos passados (como agora os nossos sonhos presentes, tão óbvios, tão prováveis!), e nós, as nossas derrotas, a nossa melancolia, fazemos todos parte da mesma medíocre telenovela.

A verdade é que não me agrada absolutamente nada o argumentista destes últimos anos, muito particularmente o da versão portuguesa deles. O «happy-end» liberal que entusiasticamente por aí se anuncia mais se me afigura um terrível pesadelo de que, por muito que me esforce, não sou capaz de acordar. A diminuição da inflação e das taxas de juro, o equilíbrio da Balança de Pagamentos, a União Económica e Monetária, a televisão de alta definição, não me parecem, de todo em todo, coisas por que valha a pena alguém viver ou morrer, e não vejo nenhum épico na posse das faculdades mentais a dedicar uma epopeia à presidência portuguesa das Comunidades ou aos feitos financeiros do dr. Cavaco Silva. Foi este o temo e o lugar sem grandezas que legámos aos filhos? Valeu a pena tanta esperança para isto?

Olho os filhos e, pudessem eles compreender, dir-lhes-ia: “A culpa foi nossa”. Talvez tenhamos feito o que pudemos, só que não pudemos, como se vê pela figura junta, grande coisa. E agora não temos nada, ou quase nada, para mostrar aos filhos. Nem o tamanho da nossa vida, que mediríamos pelo tamanho dos nossos sonhos (e pelas nossas derrotas) não tivéssemos todos debandado e desertado para a nostalgia e para a ironia quando a vibrante bandeira da nossa juventude caiu nas mãos dos infiéis.


Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 10 de Junho de 1992, retirada de O Anacronista, Edições Afrontamento, Porto 1994.