Mostrar mensagens com a etiqueta João Abel Manta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta João Abel Manta. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 5 de abril de 2018

A NECESSIDADE DE CUMPRIR


A obsessão do dever, o escrúpulo de cumprir o combinado, a tendência para estar sempre a horas (pontualidade = minutos antes de) sempre foi muito forte em mim. Possível conclusão: a educação con­ta mais do que se julga e a actividade clandestina, que é também uma escola, conta ainda mais. E quem pensar que o digo para gabar-me, não es­queça, para não errar, que tal tipo de comporta­mento nunca foi coisa de que artistas costumem orgulhar-se, nem muito propícia, na verdade, à criação. Para certos temperamentos, como o meu: a arte nada tem com qualquer espécie de negócio e tudo com o ócio. De que nasce.
 Vêm-me à cabeça casos em que espontaneamen­te esta necessidade de cumprir foi posta à prova. Em 1963, tendo aceitado colaborar num número de O Tempo e o Modo, dedicado por sinal ao tema de se «A arte deverá ter por fim a verdade práti­ca», cai-me em cima da cabeça a necessidade de fa­zer uma operação de urgência. «O Carneiro de Moura tira-lhe isso num instante!» – mandou-me dizer o prof. Pulido Valente, que, com a amizade que sempre lhe devi, diagnosticara rapidamente o mal, já no leito de que não mais se levantou. «Isso» era um simpático quisto sebáceo, do tama­nho duma laranja, o sacripanta, bem agarrado à parede exterior do rim, que outros me queriam ar­rancar, não o quisto mas o rim... Em exames pré­vios e inúteis já me tinham provocado uma exce­lentíssima infecção que ia acabando ali comigo. Dei, pois, entrada no Hospital de Santa Maria em estado lastimável, sem tempo nem cabeça para es­crever fosse o que fosse, adeus depoimento. Mas, na véspera da operação, à noite, quando a minha mulher, inquieta, se despedia, até ao dia seguinte (horas boas!, inútil é contá-las a quem as não co­nhece de vivê-las!), digo-lhe eu, a fazer de homem que não treme: «Amanhã de manhã, quando esti­ver na sala de operações, vem ver na gaveta aqui na banca. Se este bloco tiver alguma coisa escrita, passa-a à máquina, por favor, e fá-la chegar ao Bénard da Costa. Vou tentar». E assim foi. Quando a enfermeira abriu a porta com os comprimidos da praxe, eu estava dentro da rotina por experiência, pedi-lhe que voltasse dentro de meia hora, poderia ser? Ela que sim, amável, parecia adivinhar, e eu, mal sentado na cama, lá consegui rabiscar em cima dos joelhos, que não sobre o joelho, um pequeno texto que era quase o prometido6. Guardei o bloco na gaveta, esperei o regresso da simpática enfer­meira, engoli os comprimidos e, todo entregue já ao meu destino, apaguei a luz satisfeito comigo. Tinha feito o possível.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: retrato de Mário Dionísio por João Abel Manta retirado do site do Centro Mário Dionísio/Casa da Achada

sábado, 12 de março de 2016

OLHAR AS CAPAS


Contos

Vários Autores
Capa: José Araújo
Seis reproduções de quadros a óleo de João Abel Manta
Colecção O Campo da Palavra
Editorial Caminho, Abril de 1985

O Dr. António de Lima Soares, o cristalógrafo, levantou-se nessa manhã de Dezembro cansado do mundo. Não é a própria vida todo um longo processo que conduz à exaustão? Só que ele ia já nos sessenta e cinco anos e ansiava mais pela morte do que pela justiça. Um velho, aliás, já se sente extenuado ao começar qualquer tarefa: ir à retrete, apanhar um autocarro, comer a sopa, olhar as montras, decorar a árvore de Natal.

Alexandre Pinheiro Torres do conto O Heterónimo do Diabo

domingo, 8 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


 8 de Novembro de 1975

Hoje, o Diário de Lisboa publica um suplemento de 16 páginas com a transcrição, na íntegra, do Frente a Frente, moderado por Joaquim Letria.
O Suplemento do Diário de Lisboa tem um sugestivo desenho com a assinatura de João Abel Manta.
O Frente a Frente teve uma duração de 3 horas e 40 minutos e cada um dos intervenientes explicou a concepção do que devia ser o Socialismo.
Sobre o longo debate, e, na apresentação do documento, o Diário de Lisboa escreve:

O que ficou tragicamente definido neste “encontro impossível, foi a disparidade de duas linguagens: a do imediato que se projecta em realidades próximas (P.S.) e a do futuro próximo (P.C.) que assenta em realidades imediatas.

Seja como for, o perfil do P.C. P. não regista significativas correcções neste frente-a-frente, mas é o P.S. que, para o grande público, sai mais esclarecido nas entrelinhas do confronto. Será uma opinião, mais ou menos orientada – como se quiser. Mas que desapaixonadamente se deduzirá do relato que publicamos na integra.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

COMPANHEIRO VASCO


Vasco Gonçalves morreu há 10 anos.

Em toda a parte do mundo se tem chamado loucos a homens que não têm nada de loucura. Os grupos prejudicados claro que me chamavam louco. Era louco por causa das medidas que estavam a ser tomadas? Foram medidas que salvaram a economia portuguesa,

Vasco Gonçalves, entrevista à Visão 24 de Março de 1994

O Vasco Gonçalves parecia-me um daqueles revolucionários dos tempos antigos, já não havia homens daqueles. Irritava-se, exaltava-se. Havia uma honestidade, digamos, estomacal, naquele homem, que não sentia nos outros. Depois tinha aquele ar. Os outros tinham um ar dúbio. Tinha-lhe uma grande admiração, e ele aparecia nas exposições, pude falar com ele. Fiz um cartaz, em que fui odiado em Portugal por isso: coloquei-o entre o soldado e o camponês. O cartaz foi arrancado por tudo o que era sítio, O Mário Soares ficava histérico quando via esse cartaz.

João Abel Manta, entrevista ao Público, s/d

segunda-feira, 16 de junho de 2014

OS IDOS DE JUNHO DE 1974


8 a 14 de Junho

FOI DETIDO Saldanha Sanches, director do Luta Popular, órgão central do MRPP.
Dezenas de militantes desfilaram da Praça do Chile até à Praça do Areeiro, gritando slogans: Abaixo a nova Pide e Liberdade para Saldanha Sanches.

Segundo Maria José Morgado, que presenciou a prisão levada a cabo por polícias à paisana, esta prisão visou sobretudo atingir o MRPP e o “Luta Popular” e está integrada num conjunto de medidas repressivas contra os marxistas-leninistas-maoistas”. 

“É uma medida da coligação burguesa no poder contra a classe operária e a sua vanguarda
organizada.

NO DIA !0 DE JUNHO DE 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos do Movimento Democráticos dos Artistas Plásticos pintou, no Mercado da Primavera em Belém, um enorme mural. Entre muitos outros pintores , participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro. MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.

Vergílio Ferreira no seu Diário:
Dois amigos pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá». De modo que também lá estive.



Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.
O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Durante o dia o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxe.

O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras  notórias da ditadura eram caricaturada.

O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor que fazia de Cardeal Cerejeira o artista que proferia estas palavras:

Senhor Presidente da República. Senhor presidente do conselho. Filhas, artistas e filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.


Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do povo, salvo seja…


Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:

O programa que transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.


A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .

 No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:

Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.
Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.

OS ARMADORES da pesca da sardinha afirmam que não suportam as exigências dos pescadores.

FORAM INTERROMPIDAS , em Argel, as negociações com o P.A.I.G.C.
Mário Soares:

É preciso fazer notar, neste momento, que incidentes desta ordem são perfeitamente comuns e até direi, quase naturais Há dificuldades da nossa parte, há dificuldades da parte deles.

PROSSEGUE  a greve na Timex.

O RECONHECIMENTO do direito à independência por Portugal é reclamado  pelo MPLA como condição essencial para o cessar fogo.

Sá CARNEIRO numa entrevista a um jornal do Brasil afirmou que o Governo Provisório é uma verdadeira equipa.

Legenda:
a)      Pormenor do mural colectivo tirado de Entre as Brumas daMemória
b)      Fotografia da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974
c)      Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de 1974.

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O CAMALEONISMO


O quarto dia da nossa vida em liberdade.

Barradas de Oliveira é demitido de director do jornal Época, que ontem não saíu para as bancas.
Depois de populares terem, anteontem, tentado destruir as instalações do jornal, que era um sustentáculo da ditadura, o Conselho de Redacção nomeou José Manuel Pintasilgo chefe de redacção de ex-Época, como director do jornal que passa, a partir de hoje, a publicar-se com o nome de A Época.
Esta é a capa do nº1 do ano I de A Época.
Começam a esboçar-se os primeiros sinais de camaleonismo.
Atente-se no final da sua declaração de princípios:

  
São manchete em todos os jornais a chegada a Lisboa de Mário Soares, bem como a recepção entusiástica que milhares de pessoas prestaram à sua chegada à estação de Santa Apolónia, no regresso do exílio em Paris.
Pela primeira vez os jornais dão conta da pretensão de o próximo 1º de Maio ser decretado feriado nacional. O pedido foi formulado pelo «leader» da C.D.E., prof. Francisco Pereira de Moura, durante a reunião de ontem com a Junta de Salvação nacional

O Diário Popular noticia que, num avião militar, partem amanhã, com destino ao Funchal a esposa e a filha do ex-presidente da República Américo Tomás.
Desde o dia 25, mais de um milhão de exemplares do Diário Popular têm sido disputados aos ardinas. Ontem, o jornal colocou três tiragens nas bancas.


Fotografia publicada na página 14 de A Capital que mostra o baptismo do novo nome da Ponte sobre o Tejo.
A acção foi levada a cabo por um movimento espontaneamente formado e denominado 1º Comité de Acção Popular.


Destaque na 1ª página de O Século para a prisão de Silva Pais, ex-director da PIDE-DGS.

O Diário de Lisboa reproduz na 1º página o «poster» da autoria de João Abel Manta que é apresentado nas páginas centrais.
Primavera? é o nome que o artista lhe deu que, por motivos demais conhecidos, há tempo não publicava qualquer trabalho no nosso jornal.


Mário Castrim dedica a sua crítica de televisão às imagens da libertação dos presos políticos em Caxias.
Este é o começo da crónica:

segunda-feira, 14 de abril de 2014

OLHAR AS CAPAS


Dinossauro Excelentíssimo

José Cardoso Pires
Ilustrado por João Abel Manta
Capa de João Abel Manta
Editora Arcádia, Lisboa Maio 1972

De facto, não há muito tempo existiu no Reino do Mexilhão um imperador que na ânsia de purificar as palavras acabou por ficar entrevado com a paralisia da mentira. Ainda lá está, dizem. E não é homem nem estátua porque a ele, sim, roubaram-lhe a morte. Não faz parte deste nosso mundo nem daquele para onde costumam ir os cadáveres, embora cheire terrivelmente, Quando muito é isso, um cheiro. Um fio de peste a alastrar por todas as vilas do império.

terça-feira, 30 de abril de 2013

JL VEZES 1111


Surgiu hoje nas bancas o nº 1111 do JL.

Convocaram os colaboradores de hoje para, em 1111 caracteres, falarem do que lhes ofereceu dizer sobre o jornal e, repescaram textos de alguns dos muitos colaboradores que, ao longo de 33 anos, passaram por aquelas páginas e que, infelizmente, já não se encontram entre nós: Fernando Assis Pacheco, Eduardo Prado Coelho, Manuel António Pina, Alexandre O’Neill, Augusto Abelaira, José Saramago, Alexandre Pinheiro Torres, João de Freitas Branco, David Mourão-Ferreira, António José Saraiva.

Também há textos de Agustina Bessa Luís e António Ramos Rosa que, por motivos de doença não puderam prestar a sua colaboração.

Em lugar de destaque o texto de Rodrigues da Silva em que, em palavras corajosas e sentidas, se despediu do jornal, ele que emprestara, com o seu fulgor, inteligência e cultura, o melhor de si, para tirar o jornal do cinzentismo que o acompanha desde o primeiro número.

No editorial do primeiro número prometia-se que o JL pretendia ser algo de novo entre nós, um quinzenário de cultura potencialmente para toda a gente.

Para mim foi uma pequena desilusão.

Tirando a entrevista que, na Costa da Caparica, Fernando Assis Pacheco fez a José Cardoso Pires, uns maravilhosos tordos fritos, temperados e fritos pelo Zé, tudo o resto, desse primeiro número,  cheirava muito a hermético para pretensos iluminados.

Teresa Clara Gomes, falando desse primeiro número, disse:

Desiludiu-me. Esperava um jornal que me desse gosto ler, saíu-me mais um dever do que um prazer. Acho o conjunto pesado, tanto na paginação como no conteúdo. Lamento, além disso, o tradicional elitismo co conceito de cultura subjacente à maioria dos textos. Diz-se que é um jornal de letras, artes e ideias, e as ideias quase não tocam o tecido cultural do nosso quotidiano. Esquecem-se, além disso, certas expressões culturais que nascem de criadores não intelectuais. Espero que isso seja meramente acidental e não corresponda uma intenção dos responsáveis.

Leitor desde o primeiro número, mantenho com o JL um sentimento de amor e ódio.

Não posso deixar de lembrar as entrevistas, os dossiers, as pré-publicações livros, e o Jorge Listopad, mais o seu Coelhinho.

Mas fica-me, em cada número, a sensação que nunca conseguiu ser o jornal cultural para toda a gente.

Porém, no triste panorama em que hoje vive o jornalismo cultural, há que saudar a persistência do JL em fornecer-nos lampejos que rompem com a mediocridade reinante.

É, realmente uma lufada de ar fresco.

Começou como quinzenário, custava 25 escudos – na altura, era dinheiro -, mais tarde passou a semanal, mas dadas dificuldades de ordem vária, voltou a quinzenário e hoje custa 2,80 euros.

Continua ser dinheiro!...

Está hoje nas bancas o número 1111.

Que chegue ao 2222, e por aí fora.

Legenda: a capa e a contracapa deste JL, tal como no primeiro número, são desenhadas por João Abel Manta.

terça-feira, 23 de abril de 2013

BASTA ERGUER AS MÃOS...



Dantes, encontrar um rapaz do meu tempo, era, para mim, uma festa, uma fogueira de abraços e recordações quentes: «Então pá? Que é feito? Venham de lá esses ossos. Estás com um aspecto magnífico! Cada vez mais novo, etc.»

Hoje, confesso, quando os avisto, tremo. Porque não é raro encontrar-se a abraçar cascas de pessoas que conheci no passado. Umas vezes, vazias, sorvidas não sei porque bocas de monstros sugadores. Outras, cheias de substâncias alheias, inimigas, venenosas, irreconhecíveis, quase.

- Mas tu és o Qualquer Coisa, não és? Andámos juntos na Faculdade, não te recordas?

Parecia não querer lembrar-se.

Então, perante a cara agreste do velho camarada, descubro que já não é o mesmo. A vida, o casamento, os filhos, o divórcio, o emprego, o êxito, o inêxito, o desemprego, isto, aquilo ou coisa nenhuma, modificaram-no totalmente.

Olhamo-nos, desconhecidos. Mas sem coragem de nos despedirmos imediatamente como que vexados daquela amizade morta, ainda com tanto peso no caixão. E, sobretudo, pelo meu lado, farto de dizer «pá».

Lembras-te, pá?

Nem ele se lembra nem eu.

Por fim, lá nos conseguimos afastar arrastadamente com o coração ferido e a boca a saber ao amargor das cinzas inúteis onde talvez nunca ardesse qualquer labareda verdadeira.

Noutras ocasiões é uma ex-namorada da juventude, agora tão abundantemente da cintura para cima, que passa do alto da sua estátua de desdém, como quem diz: que bom eu fingir que não o conheço! Nem pode haver possibilidade de termos futuros juntos.

Mas será, na verdade, ela? A deusa que pisava sempre o chão como quem não quisesse magoar o luar?

Será ela?

É.

Escondo-me em mim mesmo a contemplar uma montra e, adeus, até nunca mais, monstro!

Como podem calcular esta situação lastimável piorou depois do 25 de Abril. Nem fazem ideia das surpresas que tenho sofrido nos últimos meses. Camaradas que dantes se apresentavam como democratas de suco ardente e inalterável surgem de súbito diante de mim a bramar contra os difíceis ensaios do novo regime: «Então a Democracia é isto, não? «Este pesadelo que nem permite que as nossas mulheres vão à Baixa fazer compras, às seis da tarde, sem o perigo de serem despidas e violadas?» «Diz-me lá: e como conseguiram arranjar tantos bandidos à solta? Importaram-nos para tornar a vida negra aos burgueses, não? (No fascismo, como vocês lhe chamam, ao menos havia paz. Pelo menos é o que se lia nos jornais!) Sim, senhor. Podes limpar as mãos à parede!»

Claro que volto logo as costas às invenções imbecis do mentiroso, mas a surpresa ainda é às vezes mais sufocante, quando encontro antigos reaças confessos que, mal me bispam ao longe, correm aos berros sôfregos com os braços em jeito de abraçarem um fantasma substituto, não vá eu escapar-lhes por algum alçapão enigmático.

- Finalmente somos livres, hem! Realizaram-se os nossos sonhos comuns, pá! Oxalá esses infames fachos que nos tiranizaram durante meio século, desapareçam sem deixar pegadas! Até já se respira melhor, não achas? Não sentes o perfume de jardins invisíveis no ar?» Etc.,etc.

Em resumo: as pequeninas mágoas e desgostos pessoais a que os pobres homens como nós andam sujeitos em todas as revoluções e que os historiadores dos grandes acontecimentos ignoram nos seus cartapácios.

Que remédio, pois, senão sofrê-las com coragem, essas e outras exíguas misérias humanas (humilhações, desprezos, injustiças, desânimos, traições, covardias…) No fim de contas talvez seja a única lenha, e mesmo assim podre, que poderemos dar para que na nossas Revolução arda melhor a autêntica Fraternidade que nos une, de dentes cerrados, a nós, os portugueses, que não queremos desistir do futuro, agora que basta erguer as mãos, basta erguer as mãos, para lhe tocar. E talvez colher frutos novos nas árvores.

José Gomes Ferreira em Revolução Necessária, Diabril, Junho 1975.

Legenda: cartaz de João Abel Manta, retirado do álbum 25DEABRIL30ANOS100CARTAZES, Editorial Diário de Notícias, Abril 2004

terça-feira, 17 de abril de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Nos dias que correm, apenas circunstâncias, substancialmente especiais, me levam a sair de casa para ir comer a um restaurante.
Mas por uma tarde dos idos de Março, deu para desafiar Dom Pepe e Dona Aida, para irmos comer um cosido à portuguesa à Gina, o último restaurante, dos que em tempos existiram no Parque Mayer.
Pois é! Preferível tinha sido estar quietinho-da-silva, ou descer ao Beira-Gare para umas bifanas e uns penaltis de tinto.
O cosido apresentou-se como vulgar de lineu, e a conta só não caíu na exorbitância, que a casa pratica, porque Don Pepe é um velho frequentador e aconteceu uma atençãozinha.
Mas o pior de tudo foi, mesmo em frente ao restaurante da Gina, olhar a degradação a que deixaram que o Capitólio chegasse.
Um abandono inqualificável. Um montão de destroços indescritível.
Aquilo que, parcialmente, podem ver nas fotografias tiradas nessa tarde de Março.
Como foi possível?
O Capitólio abriu ao público em 11 de Julho de 1931, aliciante e arrojado projecto do arquitecto Luís Cristino Silva.
Estou em crer, a minha memória já conheceu melhores dias, que foi no Capitólio que vi, aí pelos 7/8 anos, o Pinoquio do Walt Disney.
Outros filmes por lá vi, mas não ficaram registos.
A última vez que estive no Capitólio, essa sim, tem um outro registo, com data certa e tudo: 17 de Maio de 1967.





Foi a tarde em que esse equivoco que dá pelo nome de Eugénio Evtuchenko, veio a revelar-se um mero vendedor-de-banha-da-cobra, deu um recital de poesia, traduzida directamente  do russo por J. Seabra-Dinis, com a colaboração de Fernando Assis Pacheco para a versão poética final, que, também, leu em português, os poemas que, antes, Evtuchenko  recitara.
Recordo-me de o meu pai contar que, nos finais dos anos 60, assistiu no Capitólio à representação de A Alma Boa de Sé-Chuão de Bertolt Brecht, pela Companhia de Maria Della Costa, em que metade da assistência era composta por agentes da PIDE e legionários, que no final desataram a patear, mas foram engolidos pela ovação que ecoou pela sala, entremeada com Vivas à Liberdade e à Democracia.
O meu pai aproveitava para recordar as sessões no Politeama, Maio de 1945, com o Casablanca que esteve dez semanas em exibição, e, convoco João Bénard da Costa, para dos Filmes da Minha Vida adiantar mais qualquer coisinha:
Só de ouvido conheço as histórias que se passaram no Politeama, com o público a levantar-se para ouvir a Marselhesa abafar o Die Wacht am Rhein, como se diz que um rei de Inglaterra se levantou para ouvir o “Aleluia” do Messias de Haendel.
 O Parque Mayer foi percurso rotineiro dos domingos da malta da rua.
Descer do alto da Penha de França, palmilhar até ao Parque, só para irmos olhar as pessoas, os cafés, os cartazes dos teatros, as entradas e saídas das matinés das revistas, o remanso daqueles cinzentos domingos, exacta medida do nosso provincianismo.



Mais tarde haveria de ler num poema de Armando Silva Carvalho: Domingo é um bom dia para se olhar a tristeza.


Lembro-me que havia um alfarrabista à direita, logo que se entrava no parque, onde comprávamos aqueles livros distribuídos pela Agéncia Portuguesa de Revistas que metiam histórias do FBI e outras cowboyadas e que, juntamente com Salgaris, Walter Scotts, Júlios Verne, ajudaram, alguns de nós, a criar hábitos de leitura.
Nesse alfarrabista, uns anos mais à frente, comprei, por tuta e meia, uma mão cheia de Almanaques, mais tarde emprestados ao Carlos Alberto.
A Almanaque foi uma revista mensal, o primeiro número saíu em Outubro de 1959, o último em Maio de 1961, e tinha como chefe de redacção José Cardoso Pires (A minha ideia era fazer uma revista que não respeitasse ninguém e fosse o mais sacana possível), que, entre whiskadas e cigarradas, dirigia uma equipa composta por Alexandre O’Neill, Luís Sttau Monteiro, Augusto Abelaira, José Cutileiro, Baptista-Bastos, Vasco Pulido Valente, com grafismo de Sebastião Rodrigues, mais tarde de João Abel Manta.
Não mais tive notícias do Carlos Alberto e, naturalmente, dos Almanaques também não.
Com o 25 de Abril, a decadência lenta do Parque Mayer arrastou o Capitólio para a exibição de filmes pornográficos, também por lá funcionou uma discoteca, mas, nem sequer dava pró tabaco, e acabou por fechar as portas e ficar ao abandono.
Em 1993 o Capitólio foi declarado imóvel de interesse público mas, como tantas vezes acontece, a classificação mais não é que um diploma para pendurar na parede, porque nada acontece.





Durante o consulado de Pedro Santana Lopes, como presidente da Câmara de Lisboa, ocorreu aquele estranho negócio com a Bragaparques: a Câmara cedia os terrenos da antiga Feira Popular, em Entrecampos, a empresa cedia o Parque Mayer e mais 60 milhões de euros.
Tudo aquilo cheirava a esturro, a autêntico caso de polícia.
Mas, com pompa e circunstância, foi anunciada a recuperação do Parque Mayer, um megalómano projecto, para o qual foi convocado o arquitecto Frank Gehry, que se passeou pelo Parque, comeu e bebeu do fino, e fez-se pagar bem por uns rabiscos que desenhou.
Tudo acabou por ficar em águas de bacalhau.
Pelo meio, mais uma mão cheia de parasitas, também encheu os bolsos e, quem tudo pagou, desgraçadamente, foi a rapaziada do costume.
Tout va três bien, madame La Marquise!
Em Setembro de 2009, a Câmara Municipal de Lisboa, presidida por António Costa, anunciou para o Capitólio, uma recuperação do edifício que se transformaria num espaço cultural dedicado ao teatro e cinema, além de um prolongamento do Jardim Botânico e Museu de História Natural.
Por unanimidade a Câmara, também, aprovou que o Capitólio se passasse a chamar Teatro Raul Solando.
Sem querer ofender ninguém, e colocando de lado os inquestionáveis méritos de Raul Solnado, considero a decisão um perfeito disparate.
O arqueitecto Alberto Souza Oliveira foi indicado para o estudo e projecto da reabilitação do edifício. Colocaram-se uns tapumes, aconteceram umas obras, mas de repente tudo parou.
Chamada a apresentar qualquer explicação para a paragem das obras, a Câmara nada adiantou, mas nos bastidores sabia-se que a paragem das obras tinha a ver com o imbróglio jurídico que envolvia a permuta dos terrenos.
No dia 4 deste Abril, ficou a saber-se que, por decisão do Tribunal Central Administrativo, foi anulado  o negócio que, há sete anos, envolveu a Câmara e a Bragaparques.
Assim sendo a Câmara Municipal de Lisboa perdeu a posse do Parque Mayer, volta a ficar com os terrenos de Entrecampos e terá que devolver o dinheiro à Bragaparques.
Confusos?
Então, fiquem a saber que o Público do dia 10, noticiava que, apesar da incerteza sobre quem é o dono do Parque Mayer, as obras de recuperação do Capitólio deverão ser retomadas, após uma paragem de um ano e nove meses, ainda no decorrer deste mês.
Não é difícil de concluir que a recuperação do Capitólio ficará para as calendas.
Quanto trabalho? Quanto dinheiro enterrado?
Como dizem os alentejanos: este país dá-me cá umas fezes!...
Legenda: a fotografia de Evtuchenko é retirada de Ievtuchenko em Lisboa, Poemas do Recital, Publicações Dom Quixote, Lisboa 1967.Também se podem ver Fernando Assis Pacheco e J. Seabra-Dinis.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

FRENTE A FRENTE



Os dias de Novembro continuam electrizantes.

No dia 8, o Diário de Lisboa publica um suplemento de 16 páginas com a transcrição, na íntegra, do Frente a Frente, moderado por Joaquim Letria, entre Álvaro Cunhal e Mário Soares, que dois dias antes o país vira em directo pela RTP.

Sobre esse longo serão, e, na apresentação do documento, o Diário de Lisboa escreve:

O que ficou tragicamente definido neste “encontro impossível, foi a disparidade de duas linguagens: a do imediato que se projecta em realidades próximas (P.S.) e a do futuro próximo (P.C.) que assenta em realidades imediatas.
Seja como for, o perfil do P.C. P. não regista significativas correcções neste frente-a-frente, mas é o P.S. que, para o grande público, sai mais esclarecido nas entrelinhas do confronto. Será uma opinião, mais ou menos orientada – como se quiser. Mas que desapaixonadamente se deduzirá do relato que publicamos na integra.

A destruição dos emissores da Rádio Renascença, para além de ser uma machadada no ânimo faz forças populares, desencadeou entre os pára-quedistas um sentimento de repulsa por compreenderem que, mais uma vez, foram manipulados.

As tropas que intervieram na destruição dos emissores e que estavam aquarteladas no Depósito de Adidos em Lisboa, realizam um plenário para apreciação do acontecimento, e acabam por aprovar uma moção em que é repudiada a destruição perpetrada e as ordens que  a motivaram.

José Flecha do Diário Popular, destacado para cobrir o acontecimento, conseguiu apurar que a maior parte dos pára-quedistas, desconheciam que faziam parte do A.M.I.
Ainda da reportagem:

A esquerda tem que ser liquidada a partir de 11 de Novembro.
Estas palavras são atribuídas ao capitão pára-quedista  Barroca Monteiro, comandante da companhia que  destruiu as instalações da Rádio renascença.
É em referência àquela afirmação do capitão pára-quedista que um soldado nos diz: “Isto foi só uma amostra. Estamos certos que outras acções se irão realizar, contra as forças progressistas, e contra aqueles que se mostram ao lado dos trabalhadores e explorados.

Em Tancos, os sargentos da Força Aérea, reunidos em plenário, verberaram a destruição violenta de um meio de comunicação que foi nos últimos meses uma voz ao serviço do povo e exigem o regresso das companhias de pára-quedistas que se encontravam, colocadas em Lisboa ao serviço do AMI.

O Diário de Lisboa faz-se eco da entrevista que o general Morais e Silva concedeu ao Rádio Clube Português e que pode considerar-se verdadeiramente inquietante, inquietante porque o CEMFA revela uma completa ausência de perspectiva política em relação a um acto que vai ter repercussões impossíveis de prever em toda a asua extensão.
Disse o general Morais e Silva que havia apenas três hipóteses: “ou se tiravam os cristais – o que não daria resultado, pois da outra vez foram substituídos; ou se desmontava o equipamento – o que não seria viável, até porque o pessoal não podia lá estar indefenidamente; ou em última análise, se destruía o equipamento. Perante a premência do tempo e verificando que era impossível desmontar o material, optou-se pela última solução que era a destruição do equipamento.


Legenda: cartoon de João Abel manta, capa do suplemento do Diário de Lisboa onde se transcreve o frente a frente entre Cunhal e Soares.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

VIRA-CASAQUISMO



Como foi possível encontrar tantos e tantos democratas no dia 25 de Abril?
Onde estavam quando eram tão poucos os que davam a cara contra a ditadura?
Chamava-se Fumero, Javier Fumero. Disseram-nos que este individuo, e não era o único, começara como pistoleiro a soldo da FAI e tinha namoriscado com anarquistas, comunistas e fascistas, enganando-os a todos, vendendo os seus serviços ao melhor licitador e que, após, a queda de Barcelona, se passara para a facção vencedora e entrara na corporação da polícia. Hoje é um inspector famoso e condecorado.
Carlos Ruiz Zafón em   A Sombra do Vento

CARREIRISMO

Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
Voltou passados vinte e dois anos, com chofér fardado.
Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.
Mário-Henrique Leiria em Contos do Gin-Tonic, Editorial Estampa, Lisboa Março 1973

Legenda: cartoon de João Abel Manta publicado no Sempre Fixe em 4 de Maio de 1974.
Deu-lhe o título Sem Mãos a Medir e colocou o alfaiate a dizer ao democrata: Não me chateie! Já disse que só lhe posso virar a casaca lá para Setembro.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

À CONVERSA...


Perguntaram-lhe:

Qual é a sua opinião sobre Vasco Gonçalves?

Respondeu:

Conheci o Vasco Gonçalves mal. Ele gostou muito desse cartaz “Povo MFA, MFA Povo”, e quis oferecer-lhe o original. Fui a São Bento, ele disse-me que gostava muito dos meus bonecos, nem era dos meus cartazes, era mais dos meus desenhos. Fui recebido, ofereci-lhe o original e ele ficou muito agradecido. O Vasco Gonçalves parecia-me um daqueles revolucionários dos tempos antigos, já não havia homens daqueles. Irritava-se, exaltava-se. Havia uma honestidade, digamos, estomacal, naquele homem, que não sentia nos outros. Depois tinha aquele ar. Os outros tinham um olhar dúbio. Tinha-lhe uma grande admiração, e ele aparecia nas exposições, pude falar com ele. Fiz um cartaz, em que fui oidiado em Portugal por isso: coloquei-o entre o soldado e o camponês. O cartaz foi arrancado por tudo o que era sítio. O Mário Soares ficava histérico, quando via esse carttaz! Também lhe ofereci esse cartaz. Concluindo: tenho uma boa impressão do Vasco Gonçalves.”

João Abel Manta entrevista ao “Público”, s/d.

UMA FIGURA PARA A HISTÓRIA


Os primeiros dias de Setembro de 1975, marcaram a destituição, há muito programada, de Vasco Gonçalves do cargo de Primeiro-Ministro.
Cabe aqui uma pequena pausa no folhear dos recortes sobre do PREC, ou se preferirem, do Verão Quente de 75, que tenho vindo a acompanhar, guardados que estvam num volumosos dossier.
A pausa serve para destacar a figura de Vasco Gonçalves.
Vasco Gonçalves pode ser diferentemente apreciado, mas, de modo algum, se poderá ficar indiferente.
Acima de tudo um homem honesto, como dirá, em  “post “ seguinte,  João Abel  Manta,: “um daqueles revolucionários dos tempos antigos.”
Resumir aqueles tempos de esperança, catalogando-os como “gonçalvismo”, é uma maneira depreciativa, demasiado baixa , para ser levada em linha de conta.
O gonçalvismo não existiu.
Artur Portela Filho, em editorial do “Jornal Novo “ de 6 de Setembro de 1975 escreveu:
“Não houve, não chegou a haver, não merecia haver, aquilo que o PS, sempre excessivo, definiu, aos gritos, na rua, como “gonçalvismo.
Houve, rapidamente, um homem – Vasco Gonçalves.
Este jornal não foi, nunca anti-gonçalvista, porque nunca reconheceu a existência do gonçalvismo.
Este jornal não foi, nunca, anti-Vasco Gonçalves, porque um jornal que tem, da função, da grandeza, e da perenidade, do jornalismo, a noção, não faz campanhas contra pessoas.
As pessoas interessam-nos ou porque são muitas, e são o povo, isto é, a História, ou porque são uma só, e, ainda assim são História.”
Eduardo Prado Coelho em artigo publicado na revista “Opção” de 1 de Março de 1974:
“Torna-se imperioso demarcar nitidamente a nossa crítica de esquerda ao tempo de governação de Vasco Gonçalves das várias manifestações de alucinação e pavor que a direita multiplica em relação a ele.
Assinalemos, em primeiro lugar, que nem todo o período em que Vasco Gonçalves actuou como primeiro-ministro corresponde ao  que entendemos por “gonçalvismo”. Se houve erros, e de facto houve, a responsabilidade deles cabe a todas as forças políticas do momento. Se houve demagogia, raras vezes podemos atribuir a uma só personagem ou a um só sector político culpas por tudo isso. (…)
Depois de Vasco Gonçalves, amortecido o mito, seria o que se viu. E nem de Otelo, ou de Melo Antunes se ouve o bastante  falar – também eles figuras impares de uma revolução que não chegou a  haver, dilacerada neste triângulo absurdo que tudo talvez fizesse prever, mas nada faria desejar.
Ficou a democracia. E, espanto dos espantos, entre os socialistas ficaram alguns socialistas que do socialismo esqueceram o que Vasco Gonçalves sempre lembrou: a luta de classes.
E, como diz um “anti-gonçalvista, o sociólogo Alain Touraine, por isso suspeito: “Não pode ser socialista aquele que não reconhece o papel central da luta de classes.”

quinta-feira, 28 de abril de 2011

PRIMEIRO DOMINGO EM LIBERDADE


A 28 de Abril de 1974, os portugueses viviam o seu primeiro domingo em Liberdade.

Na 1ª página do “Diário de Lisboa” reproduzia-se um “poster” de João Abel Manta:

“Esta é a reprodução de um “poster” que apresentamos nas páginas centrais da nossa edição de hoje. O “poster” alusivo ao actual momento político português, é da autoria de João Abel Manta, artista que, por motivos demais conhecidos, há tempo não publicava qualquer trabalho no nosso jornal.”´

Na página 11 era notícia a morte de Pedro Oom.

Quando o poeta, finalmente, olhou a madrugada por que tanto esperara, o coração não resistiu:

“O irreverente e talentoso poeta surrealista Pedro Oom, figura muito conhecida da Lisboa literária e boémia, frequentador assíduo do café Gelo ao tempo em que ali se reunia o grupo em que pontificavam Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e outras personalidades daquela corrente estética, morreu ontem de comoção provocada pela queda do fascismo em Portugal.
O insólito autor de tão belos poemas fantásticos e escatológicos como os que publicou em “Grifo” e em “Pirâmide não resistiu à alegria da vitória.
Lembramos com mágoa a sua simpática figura e recordamos as suas intervenções na JUBA. Pedro Oom tinha 47 anos.”

Ainda no “Diário de Lisboa”, este era o começo da crítica de televisão de Mário Castrim:

“Anda comigo. Assim de braço dado, lembras-te? Como daquela vez quando estávamos no Terreiro do Paço e me deste o braço e lá fomos e apanhámos ambos a mesma cabeçada do cavalo e tu vieste levantar-me junto da muralha e dizias-me: “Estás bem?, e eu olhava para ti e tinhas sangue a escorrer da testa e depois nunca mais te vi e nem sei quem és nem ao menos o teu nome.”

Na redacção do “Diário de Notícias”, as janelas ainda não tinham sido escancaradas. Na 1ª página podia ler-se:

“Serenidade e expectativa nos territórios do Ultramar”

Na 7ª página um telegrama da “France Press”, proveniente de Montreal, revelava que Agostinho Neto, em nome do MPLA, não aceitava a proposta do General Spínola com vista à formação de uma Federação. O MPLA classificava a proposta como fascista, nazi e salazarista e reafirmava que a luta sempre foi por uma libertação completa e, apenas, neste princípio se dispunha a encetar negociações com Portugal.

Também “O Século” vivia-se o mesmo problema das janelas não escancaradas, e na pág. 11 aparecia este título:

“Efectuada a transmissão de poderes em todos os territórios do Ultramar”

Na página 3, “A Capital” avançava que tudo levava a crer que o 1º de Maio iria ser decretado, pelas Forças Armadas, Feriado Nacional. O pedido fora formulado por Francisco Pereira de Moura, na reunião que, na véspera, a CDE mantivera com o General Spínola.






Na pág. 14 era publicada esta fotografia.

A legenda dizia que “um elemento anónimo do 1º Comité de Acção Popular, baptiza a ponte sobre o Tejo.”

O corpo da notícia esclarecia que o “Comité de Acção Popular” nascera espontaneamente, e propunha-se realizar uma série de acções com vista à eliminação de símbolos do regime derrubado a 25 de Abril.
A alteração do nome de Ponte Salazar para Ponte 25 de Abril era o primeiro desses actos.
A propósito deste acontecimento, um oficial, não identificado, da Junta de Salvação Nacional, declarou: “estamos aqui, não para desrespeitar os mortos mas pare defender os vivos.”

Na Junta de Salvação Nacional, também as janelas estavam por escancarar!