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quinta-feira, 11 de junho de 2020

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


É quando ele diz a frase certa: um tipo só precisa de um café e de uma boa cigarrada.

Ouve-se a frase no Johnny Guitar, um dos filmes da vida de muita gente.

De João Bénard da Costa sabemos que era.                                                                                                                             
 «Só recordam aqueles que confidenciam, a recordação é uma arte que arranca da solidão e do silêncio», escrevi há quarenta e muitos anos, sem ainda saber ler nem escrever. Hoje, que tinha obrigação de saber mais, só posso repetir que esta arte recordatória, este filme mítico, este filme-mito (tão, tão diferente da memória) arranca também daí: da solidão e do silêncio.»

Uma ópera? O melhor diálogo da história do cinema?

Ainda Bénard da Costa:

«Reduzido a escrito e a seco, o diálogo é confrangedoramente banal, Se as pessoas ficam com tal memória dele é pelo concerto das vozes – raspante, a de Crawford, átona a de Hayden – que se ouve no filme e pela associação delas à fabulosa partitura de Victor Young.»

“Vienna – É uma história triste.
Johnny – Sou bom ouvinte de histórias tristes.
Vienna – Há cinco anos apaixonei-me por um homem. Não era bom nem mau, mas… eu amava-o. Quis casar com ele, ajudá-lo a construir um futuro.
Johnny – Mereciam ser felizes…
Vienna – Mas não foram. Separaram-se. Ele não se via amarrado a uma família.
Johnny – Felizmente ela foi esperta e livrou-se dele.
Vienna – Claro que foi. Aprendeu, daí em diante, a não se apaixonar por ninguém.
Johnny – Cinco anos é muito tempo… Com certeza que, entretanto, na sua vida houve outros homens.
Vienna – Os suficientes.
Johnny – O que aconteceria se esse homem voltasse?
Vienna – Quando um fogo se extingue, só restam as cinzas.
Johnny – Quantos homens já esqueceste?
Vienna – Tantos quantas as mulheres de que te lembras.
Johnny – Não te vás embora.
Vienna – Nâo me mexi.
Johnny – Diz-me qualquer coisa bonita.
Vienna – Que queres que eu te diga?
Johnny – Mente-me. Diz-me que esperaste por mim todos estes anos.
Vienna – Todos os anos esperei por ti.
Johnny – Diz-me que morrerias se eu não tivesse voltado.

Vienna – Morreria se tu não voltasses.
Johnny – Diz-me que ainda me amas como sempre te amei.
Vienna – Ainda te amo como tu me amas.
Johnny – Obrigado. Muito obrigado.

Play the guitar play it again my johnny
Maybe you're cold, but you're so warm inside

I was always a fool for my johnny
For the one they call johnny guitar
Play it again, johnny guitar

What if you go what if you stay i love you
What if you're cruel you can be kind i know

There was never a man like my johnny
Iike the one they call johnny guitar

There was never a man like my johnny
Iike the one they call johnny guitar
Play it again johnny guitar
Ainda João Bénard da Costa:
Muitas vezes ouvi a banda sonora do Johnny Guitar sem ver as imagens. Tudo vem, por acréscimo, toda a memória do filme se repovoa, Mas, para que isso suceda, é preciso haver memória, é preciso ter-se visto o filme. Se é verdade que Johnny Guitar é também uma ópera, não o é menos que está dependente daquela única e irrepetível mise en céne.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Já há muito que andava para colocar aqui um texto sobre o Billy Wilder’s Café-Bar em Berlim.

Tinha a certeza que existia uma fotografia da procura que fizéramos para localizar o hotel do «One, Two, Three», onde acontece uma das grandes cenas do mundo de Billy Wilder, que só se tornara realizador para proteger os seus argumentos.

Procurei-a longamente sem qualquer ponta de sucesso.


Agora, com todo o tempo do mundo, graças ao Covid-19, apareceu-me, juntamente com outra tralha, dentro duma caixa de charutos.

Lá estou eu a olhar para a fachada do «Easy Side Hotel», apenas a olhar, o que admitimos ser o Grande Hotel Potemkin que aparece no filme.

Cabe dizer que, no tocante a cinema, e não só, se o Luís Miguel Mira, depois de dar todas as voltas, e mais uma, não consegue encontrar o que procura, não vale a pena fazer quaisquer outros esforços.

João Bénard da Costa diz-nos que o interior do Grande Hotel Potemkin é decalcado de um hotel por ali existente, que nos tempos da juventude de Wilder se chamava Grand Hotel Bismark e nos anos de Hitler se chamava Grande Hotel Goering.

Qual será o novo nome do Hotel nos dias de hoje?

O «Easy Side Hotel» cuja fachada se vê na fotografia?

E estávamos no exacto, ou aproximado, local?

Billy Wilder, a equipa de filmagens só se deram conta de tal facto pela manhã.


Agora pouco importa, o que importa realmente é esse espantoso filme de Wilder, que ao tempo, tempo de guerra fria, ninguém gostou, ninguém o olhou com olhos de ver, chegando a classifica-lo como «abjectamente reacionário».

A última vez que vi «Um, Dois, Três», foi na sala Dr. Félix Ribeiro da Cinemateca – quando voltarei a entrar na Cinemateca? -,  na tarde do dia 28 de Janeiro de 2003 e guardo a folhinha assinada pelo João Bénard da Costa, que me serve de fonte.

O muro de Berlim começou a ser erigido na noite de 13 de Agosto de 1961.

Muita coisa aconteceu durante a rodagem do filme. Quando chegaram para a as primeiras filmagens ainda se ia de um lado para o outro, quando as filmagens chegaram ao fim o tal muro já estava erguido e, naturalmente viria a ser afectado

«Quando via matarem os refugiados que tentavam fugir de leste para oeste na vida real, parecia-me que ia ser difícil que as pessoas aceitassem uma comédia situada em tal décor. Os realizadores são muito vulneráveis a esta espécie de riscos. Uma situação, um clima político muda e as coisas deixam de ser as mesmas no fim das filmagens do que eram quando se começaram.»

Bénard da Costa é de opinião que todos esses tempos afectaram o filme mais do que Wilder poderia supor.

«Os alemães odiaram e acharam difícil de acreditar que um «alemão» pudesse retratar assim o seu povo e o país onde vivera em jovem. Não falo dos russos porque, obviamente, jamais o viram. À época «One, Two, Three» foi o único filme de Wilder que ninguém defendeu e, ainda hoje, é dos mais mal conhecidos e estudados da sua obra.»

A folhinha da Cinemateca conclui:

«Em 1961, ninguém entendeu Wilder. Em 2003 – ai de nós, entendemo-lo bem de mais».



O resto é lembrar a fabulosa sequência no tal hotel, cena antológica das muitas de Billy Wilder, em que Lilo Pulver, no papel de Ingeborg, se mostra esplendorosa e escultural, com aquele justinho vestido às bolinhas vermelhas, o filme é a preto e branco, mas terão de ser vermelhas as bolinhas, numa dança maluca, em cima da mesa cheia de champanhe, vodka e caviar, rodeada por um turba de bêbados, tão louca, louca a dança, o frenesim infernal, que o retrato de Krustchev baloiça e cai, revelando que escondia o retrato de Estaline.

Simplesmente fabuloso.

Billy Wilder nunca gostou de rever os seus filmes.

«Só me apetece é agarrar naquilo e mudar tudo», e sorriu. «É como voltar a encontrar uma rapariga com quem se dormiu quinze anos atrás. Olha-se para ela e pensa-se ”Deus meu, dormi mesmo com ela”?»

«Quanto Mais Quente talvez seja o meu melhor filme, por ser o que tem menos erros.»

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Lembrem-se. Sem memória nada terá futuro algum.

João Bénard da Costa em Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 3º Volume

domingo, 4 de agosto de 2019

O TEMPO CAVALGA, CAVALGA, CAVALGA...


Rita Hayworth morreu a 14 de Maio de 1987.

Mas João Bénard da Costa diz que ela morreu num dia, num mês, do ano de 1948 quando Orson Wells mandou cortor-lhe os longos cabelos acobreados para que ela assim entrasse em A Dama de Xangai.

O Diário de Notícias, publica-se uma vez por semana em formato papel, encontra-se on line, mas para mim morreu no dia em, diariamente, deixei de o olhar nas bancas dos jornais.

Tudo isto para vos dizer que me chegou às mãos um suplemento do Diário de Notícias semanal em que é feita a evocação da louca viagem, iniciada a 24 de Julho de 2010, do Idílio Freire desde o norte da América até à América do Sul.

Não dei pelo tempo passar e fiquei assim meio aparvalhado coisa que me acontece regularmente desde que passei os setenta anos.

O Cais do Olhar acompanhou essa viagem e, à sua tosca maneira, foi deixando por aqui textos e textinhos sobre essa extraordinária aventura.

Tudo pode ser revisto na etiqueta «Idílio Freire» deste blogue.

Divirtam-se e maravilhem-se.

Legenda. capa do suplemento do Diário de Notícias de 20 de Julho de 2019

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


As lágrimas são aquilo que permite a alguém ser santo, depois e ter sido homem.

Cioran, citado por João Bénard da Costa em Crónicas: Imagens Proféticas e Outras – 1º volume

segunda-feira, 13 de maio de 2019

POSTAIS SEM SELO


O que normalmente chamamos amigos e amizades não são mais do que hábitos ou conhecimentos provocados por aquesta ou aquela ocasião ou acaso, desses ou dessas que existem para entretenimento das nossas almas. Mas, na amizade de que eu falo, tudo se confunde e mescla em mistura tão universal que, por completo, apaga a costura que as uniu e da qual não se observa o mais leve rasto. Quando insistem comigo para saber porque é que o amava, sinto que não o consigo exprimir senão dizendo: Porque era ele; porque era eu.

Montaigne, traduzido por João Bénard da Costa em Crónicas: Imagens Proféticas e Outras 4º Volume

sábado, 20 de abril de 2019

OH HAPPY DAY!


Sábado de Aleleuia.
«A festa brilhante. A maior de todas as festas».
Chamou à Páscoa S. João Crisóstomo, citado por João Bénard da Costa.
Há 248 dias sem a presença física da Aretha Franklin mas sempre, sempre, com as suas canções magníficas canções.
Poderão existir outras versões, mas quando Aretha as interpretava as canções ficavam peças únicas.
Oh Happy day, é um hino do século XVIII. A versão gospel, interpretada pelos cantores de Edwin Hawkins, em 1969, tornou-se um enorme sucesso internacional.
A Aida lembra-se de comprar o «single» na Grande Feira do Disco na Rua Forno do Tijolo.

Legenda: capa da revista da Time de 26 de Junho de 1968

sexta-feira, 19 de abril de 2019

ENTRE A PAIXÃO E A GLÓRIA



E se Cristo não tivesse ressuscitado toda a nossa Fé seria vã.
S. Paulo no capítulo 15 da Epístola aos Corintios, célebre e misterioso capítulo, no dizer de João Bénard da Costa


segunda-feira, 15 de abril de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O meu primeiro contacto com João César Monteiro remete-me para a década de 70, quando começou a fazer crítica de cinema para o Diário de Lisboa, tendo como companheiros o Eduardo Prado Coelho, o Lauro António e o Vitor Silva Tavares.


«Eu sempre disse por exemplo que o cinema sou eu. E isto é uma afirmação que não tem nada de monárquico ou de centrista. Tudo o que eu faço é singular, insubstituível.»

E ainda:

«Eu sou um realizador que não sabe efectivamente, «a ponta de um corno». Sei que isto é horrível, mas é assim. Devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»

Fiquei com um gosto assolapado pelo João.

Mais ainda quando colaborou na folha cultural q. b. &.etc. principalmente, quando lá  escarrapachou A Minha Certidão:

Por volta dos 15 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do Dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade, e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

Eu e o meu pai, volta e meia, íamos para a petisqueira e para a conversa e depois havia «piolho»

Tudo corria melhor, a cereja no topo do bolo, quando calhava um filme do João César Monteiro.

Infelizmente só vimos quatro filmes, a sua morte em 1990, roubou-me esse insubstituível prazer.

Para além do génio, para além da arte, para além de tudo, os filmes do João César Monteiro davam-nos um imenso gozo.

Foram estes os filmes:

Silvestre no Cine-Bloco
À Flor do Mar no Ávila
Recordações da Casa Amarela no Fórum Picoas e éramos os únicos espectadores.

João César:

«A mim interessa-me fazer filmes para todos os públicos. Noventa por cento da população do país não é um espectador de cinema e provavelmente será esse o público mais inocente e disponível, porque menos condicionado por certos códigos imperialistas. É um dever cívico fazer cinema para essa gente, embora sem grandes esperanças de que a curto prazo possam ser espectadores de cinema.»

Vitor Silva Tavares:

«Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.»


Pego no guião de Recordações da Casa Amarela, publicado no 2º volume da Obra Escrita de João César Monteiro e entretenho-me a copiar a Cena 06 do filme.

João César escreve que a cena 06 de Recordações da Casa Amarela se passa, de dia, no restaurante Estrela da Sé.


«Ferdinando sentado à mesa, serve-se de uma cabeça de garoupa com todos. Olha para fora de campo e diz:

Ferdinando: Caríssimo João de Deus: isso é reumático ou venéreo?

João de Deus entra em campo, com o sobretudo vestido, aperta a mão a Ferdinando, enquanto sussurra, debruçado sobre Ferdinando:

João de Deus: É coisa que me apareceu nas virilhas.

João de Deus senta-se em frente de Ferdinando.

Ferdinando (a rir): Nas brilhas, como se diz no Porto. Manda vir qualquer coisa que se trinque.

João de Deus: Não me apetece, Ferdinando. Tenho a boca a arder e custa-me mastigar.

Ferdinando: Estamos todos podres, é o que isso quer dizer. E a tua mãe?

Enquanto Ferdinando se vai  batendo com a cabeça de garoupa, João de Deus puxa de um cigarro, acende-o e, com o cotovelo apoiado no tampo da mesa, encosta a cabeça ao punho fechado.

João de Deus: Lá anda.

Ferdinando: Madre de Deus só há uma. Nunca o esqueças, meu filho.

João de Deus: Não consegui foi escrever nada. Sou amigo do tipo. Pelo menos, fui amigo da mulher e custa-me um bocado. Conheço-os há uma data de anos, ainda do tempo da outra senhora.

A câmara desloca-se ligeiramente para a esquerda, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que suspende o garfo, junto à boca.

Ferdinando: Estás a perder qualidades, Se me é permitido um reparo – não leves a mal - , por vezes consegues ser contundente, mas nunca fulminante. Andas às voltas, não vais direito ao assunto. Bebe nos clássicos, meu filho. Fulmina. Recordas-te da polémica de Camilo com Mesquita Fialho?

A câmara desloca-se ligeiramente para a direita, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que muito devastou a pratada e emborca um copo de branco.

João de Deus: O problema é que este não se chama Filho.

Ferdinando pousa o copo na mesa e diz com toda a gravidade que se impõe:

Ferdinando: Mas também deputa… filho.

João de Deus: Estou farto de escrever imundícies.

Ferdinando está boquiaberto.

Ferdinando: Mas tu nunca arriscaste a ponta de um corno, nem sequer o nome.
As chatices com a «judite», os processos em tribunal, as pesadas indemnizações, tudo te tem sido poupado. Nunca me vi confrontado com um caso de tamanha ingratidão: metes-me nojo.

O criado entra pela esquerda e levanta o prato de Ferdinando.

Ferdinando: Só café e uma bagaceira fresquinha. Da casa.

O criado sai por onde entrara. Percebe-se que Ferdinando acende uma cigarrilha. O criado entre em campo com o café e o bagaço, pousa-os na mesa e volta a sair.

Ferdinando: Vá-me tirando a continha, la dolorosa.»

Uma cena maravilhosa.

Por alturas da exibição do Silvestre em Lisboa, Mário Castrim abria, no Diário de Lisboa uma sua crítica de televisão, dizendo que tinha ido ver o filme pela segunda vez como quem se vai purificar nas águas do Jordão.

Sobre Silvestre, o João César disse que era um filme para as pessoas que ainda conseguem sentir-se crianças.

Agarrando na frase, José Saramago escreveu que «é um filme que não infantiliza os adultos que nós somos, mas adultiza as crianças que continuamos a ser.»

Fernando Lopes:

«Ao César perdoa-se tudo porque ele tem um talento que se ri de si próprio. Em suma. É um grande demente que faz coisas muito belas.»

Ainda o João:

«Ninguém morre por não fazer filmes e se morrer é idiota. Não avle a pena. Morre-se, sim, por fazer filmes, por na idade em que se fazem as opções mais importantes (que não são necessariamente as mais graves) se ter optado pelo ofício de cineasta, Agora estou sozinho diante das estrelas.»

Tenho saudades do João César Monteiro, do meu pai.

A falta que me fazem!

sábado, 29 de setembro de 2018

AS FOLHAS DA CINEMATECA


Tal como refere a programação, será hoje que começarão a ser publicados os escritos de João Bénard da Costa para a Cinemateca:

29/09/2018, 21H30 | SALA M. FÉLIX RIBEIRO
ESCRITOS SOBRE CINEMA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
U SAMOGO SINEVO MORIA
“À BEIRA DO MAR AZUL”
de Boris Barnet
com Elena Kuzmina, Lev Sverdlin, Nicolai Kriuchkov
URSS, 1933 - 71 min
legendado em português | M/12
Este filme é, como a generalidade da obra de Boris Barnet, um melodrama aparentemente "leve", de um lirismo magistral: dois jovens pescadores de um kholkoze apaixonam-se pela mesma rapariga, tornando-se rivais até um desconcertante final. Uma sequência imortal: a "ressurreição" da protagonista. Um autor a descobrir e a festejar. “Lembras-te quando ela, espantadíssima, pergunta ‘quem morreu?’ e a resposta é a mais bela dança que vi em cinema, incluindo a do SINGIN’ IN THE RAIN? Nunca, talvez, o cinema tenha estado tão perto de nos fazer tocar na alegria como ‘dom de Deus (…) que traz em si um caráter eterno que passa através do sofrimento’ (Sophia de Mello Breyner). E nunca, a não ser em ORDET de Dreyer, o triunfo de um corpo ‘ressuscitado’ foi tão físico e tão anímico, tão carne e tão espírito (João Bénard da Costa). A anteceder o filme, é mostrada a sua apresentação por João Bénard da Costa para o programa da RTP “No Meu Cinema”.»



E assim acontecem as Folhas da Cinemateca:

«Eis, finalmente, o princípio do fim da aventura da edição dos textos escritos por João Bénard da Costa para a Cinemateca, que inclui todas as folhas de sala e todos os textos publicados em catálogos, e que, por opção e coerência, inclui também as “folhas” redigidas no âmbito do seu trabalho na Fundação Calouste Gulbenkian (as quais, na sua grande maioria, foram aqui depois retomadas, com ou sem adaptações). Em companhia de Boris Barnet assinalamos o lançamento do primeiro de um conjunto de volumes, que, de acordo com outros critérios editoriais há muito assumidos, têm estrutura dicionarística e “raisonée” (com inclusão de todas as variantes dos textos agora reunidos, notas de editor e índices onomásticos e didascálicos). Foi um longo percurso e um considerável esforço, levado a cabo (mais uma vez, por opção e coerência, mas sobretudo, também, neste caso, por mero sentido de dever) pela própria equipa da Cinemateca, com intervenção direta de colaboradores de todos os setores da casa. Em ano de aniversário, é um dos momentos altos de comemoração, também assumido como referência à dívida imensa que temos perante o autor destes textos. Mas a data escolhida tem sentido especial, marcando um aniversário dentro de outro: neste dia perfazem-se seis décadas sobre o dia 29 de setembro de 1958, no qual a Cinemateca inaugurou, no Palácio Foz, a história das suas projeções públicas. Não por acaso, de todas as datas históricas da Cinemateca, esta foi a que João Bénard da Costa mais lembrou e acima de todas comemorou. Voltando a homenageá-lo a ele, evocamos assim a própria ideia a que todos estes textos estão tão essencialmente ligados, segundo a qual o momento em que cada filme preservado renasce no ecrã é aquele que dá o sentido último a tudo o que fazemos. É o princípio do fim e é obviamente o começo de uma outra história: com esta edição, começa a nova vida destes escritos, desligados, agora, do contexto que os viu nascer, mas portadores de uma força contagiante que, além de tudo o mais, advém da forma única como o autor viveu e marcou esse contexto.»

quinta-feira, 19 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Olho por olho, dente por dente, diz-se no Antigo. No Novo, manda-se amar o nosso inimigo e dar a outra face. Contam-se pelos dedos de uma mão os que o fizeram, e a própria Igreja sustentou, durante séculos, as «guerras justas», nelas incluindo as que hoje se consideram as mais injustas. Não faltaram, nem faltam, textos sagrados a fundamentar esses conceitos, e quem invoca o «quem com ferro mata com ferro morre» ouve como resposta «não vim trazer a paz, mas a guerra».

João Bénard da Costa no 2º volume de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras.

domingo, 3 de junho de 2018

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Encontrei  a tradução (?) de «The Ghost and Mrs. Muir», da escritora irlandesa R. A. Dick, num desses vãos de escada que vendem de tudo: livros, revistas, discos, postais, plantas, o mais que imaginar se possa.
Entro sempre nessas lojecas, nem que seja para olhar mas também porque há a ténue possibilidade de encontrar uma qualquer pechincha.
Não tem indicação do autor da  tradução e pelo que li, cheguei à conclusão que não deve passar de uma versão de um qualquer alguém com o fito de ganhar uns tostões, poucos que fossem.
Saltam á vista as gralhas, as discrepâncias de tradução, os nenhuns cuidados postos no produto final.
Na parte que vostranscrevi, Lucy umas vezes é mesmo Lucy, outras já é Lúcia.
Enfim…
Mas não resisti a trazer o livro.
Uns meros 50 cêntimos que me possibilitaram ir à estante e fazer descer o DVD para mais um visionamento. Já lhes perdi o conto.
Também pretexto para repetir aqui uns textos publicados em Fevereiro de 2012.
João Bénard da Costa morreu a 21 de Maio de 2009. Tinha 74 anos.

Reproduzo os textos que por esse tempo aqui foram publicados.




Lembro-me que gostei. Lembro-me que gostei muito. Mas nunca imaginei que ia gostar tanto e que tanto, toda a vida, me ia lembrar desta história de amor e de morte. Aos 12-13 anos, os grandes amores são solitários e são coisa de nós com nós, sem mais corpo do que o próprio. Por esse lado, podia, obscuramente, como através de um espelho, desvendar parte importante do criptograma do filme. Mas ainda era muito cedo (e agora talvez seja muito tarde) para desvendar a parte que com essa parte se soma. Aos doze anos, a morte é uma palavra vaga e os fantasmas brincadeiras para sustos a pregar uns aos outros. Precisei de mais trinta anos (trinta e dois, se contar pelos dedos) para saber que o Capitão Daniel Gregg (Rex Harrison) não era fantasma nenhum ou era o fantasma todo. Nesse dia, preguei o imenso poster do filme (o original) na parede que fica na frente da minha secretária na Gulbenkian. Eu já lá não estou, o poster ainda lá está (1)  Gene Tierney (Lucy Muir) em primeiro plano, imensa e vogante, «with that taunt in her smile». Rex Harrison, na sombra, atrás dela, «with that haunt in his kiss». E, no canto direito, em baixo, muito mais pequenino, George Sanders «without a ghost of a chance». «The Flesh ... So Wéak.» «The Spirit ... So Wiliing.» Podia ser ao contrário, mas assim sossega mais. E também por lá se diz, na capa de um livro fechado, que «the film becames the delight of your life.» Não sei se "delight" é a palavra mais própria, mas muita coisa em a minha vida "becamou".



Mrs. Muir - já o disse - é Gene Tierney, nos anos de "Laura", de "Leave Her to Heaven", de "Dragonwyck", nos anos em que mais Gene Tierney foi, mulher patchuli, mulher asfódela. Mr. Muir - quem quer que tenha sido - nunca o conhecemos. Morreu antes do filme co­meçar, de um flato ou de coisa parecida, deixando-lhe a cara e o corpo magníficos envoltos em crepes, como em crepes se envolviam as viúvas inglesas do princípio do século, tempo e país do início da acção. A adivinhar pela família com quem a deixou a viver (sogra e cunhadas), nem ela nem nós perdemos grande coisa. Mas deixou-lhe uma filha de sete anos, papel confiado à criança que então era Natalie Wood.

Para fugir dessa casa londrina, casa de um morto, casa de mortos, decide Mrs. Muir, com enorme escândalo da família, mudar de ares e mudar de mares, levando-se a ela, à filha e à criada (Edna Best) para uma praia sobre o Atlântico, onde, de noite, o vento assobiava nas frinchas de madeiras velhas e onde brenhas de ondas se batiam contra os penhascos. Das muitas casas que lhe mostraram, nenhuma a con­vence. E só quis a casa que não lhe queriam mostrar, porque - dizia­ -se - estava assombrada pela alma penada do Capitão Gregg, que nela se suicidara. O fantasma não assusta Lucy Muir. Um fantasma é o medo que a gente tem dele. E o medo do desejo não é medo de Gene Tierney. Por isso, na casa, ama tudo o que nela ficou do capitão: o óculo na varanda do quarto dele, o bezerro dourado que trouxe de uma das suas muitas viagens, o retrato dele toscamente pintado, fardado de lobo de mar, com um sorriso entre o sarcástico e o diabólico.

Uma mulher em sombra (o luto, os véus) troca um morto por um fantasma. E se o morto a quisera enterrar viva (em Londres) o fantasma vai e vem do mar, atravessa-lhe as janelas e propõe-lhe a mágica dissolução, tão mágica como esse plano, entre todos mágico, em que, na primeira noite passada na velha casa, Lucy acorda e vê o mar através da janela, essa janela que fechara antes e que durante o sono se abriu. E, quando já tem a certeza que ele está ali, Mrs. Muir desencadeia a apa­rição. Levanta-se, vai à cozinha e risca um fósforo para acender o lume. As luzes todas apagam-se, a trovoada e os relâmpagos começam. E é nesse momento que ela diz: «/ know you are there» E Rex Harrison surge diante dela, malcriadissimo como só Rex Harrison soube ser, para uma discussão nada metafísica sobre o direito de qualquer deles à posse exclusiva da casa. Fantasma de desejo, Harrison é também fan­ tasma da violação (de desejo da violação), donde a agressividade irónica das relações entre eles.


O livro faz Mrs. Muir voltar a Londres. O livro publica-se, não fantomaticamente. E Londres e o livro vão trazer ao filme o terceiro «morto»: o escritorzeco Miles Fairley (George Sanders). Há sempre um momento em que, no reino dos mortos, alguém se volta para trás, à busca de uma imagem mais "real". Gene Tierney inicia o seu terceiro Iove affair, com a fraca réplica do capitão, que é a presença sedutora de George Sanders. O fantasma começa por tentar expulsá-lo. Depois, rende-se à vida, no seu segundo "suicídio". E é enquanto ela dorme («Ah! Comme Gene Tierney est belle quand elle dort!») que Rex Harrison se vem despedir dela, na mais bela sequência de sempre da história de Hollywood. «Oh, Lucia» (a voz de Harrison, a música de Herrmann) «you are so little and so lovely» Depois, recita-lhe Keats (Ode to a Nightingale) e fala-lhe de como teria gostado de a levar a ver o sol da meia-noite, os fiordes da Noruega. «What you have missed, Lucia, by being born too late to traveI the Seven Seas with me! And what I've missed too» Depois, ele que, antes, num momento em que ela demasiado se aproximou dele, lhe dissera rudemente: «Keep your dis­tances, madam», inclina-se para ela num quase beijo que, de novo, interrompe. E afasta-se para a janela e para o óculo, que nunca mais vai poder ver o invisível. No sol da manhã seguinte, o capitão desapareceu da vida e da casa de Lucy Muir, que só o capitão tratava por Lucia, como se ela viesse de Lammermoor.

Mas com ele - pouco depois dele - desaparece também George Sanders. Quando Gene Tierney o vem buscar a terra firme (a casa dele) descobre que esse outro "sonho" ocultava a dura realidade de uma banal mentira e de uma banal mediocridade (Sanders era casado e a sua história uma história contada a muitas e passada com muitas). Daí para diante não há mais homens - vivos ou mortos - na vida de Mrs. Muir.


E o tempo começa a passar muito depressa. Depressa envelhece Mrs. Muir. Depressa a filha cresce e a filha casa, para só então contar à mãe que ela também, em criança, vira o fantasma. E depressa chega uma tarde (um fim de tarde) em que Mrs. Muir, de cabelos brancos, se sente muito cansada e pede à criada um copo de leite. Não chega a bebê-lo. O copo escorrega-lhe das mãos e Mrs. Muir morre, agasalhada, na cadeira em frente ao mar em que sempre se sentou. A imagem des­dobra-se. E os dois fantasmas - o dele e o dela, como foram quando eram - ficam a olhar para a velha morta. Depois, descem as escadas de mãos dadas e depois abrem a porta e desaparecem, entre a música, no meio da névoa.

«I have been half in love with easeful Death ... / Was it a vision or a waking dream?» (Keats).

De todas as artes, o cinema é a mais onírica. E essa dimensão nunca existiu tanto como nos filmes "germanizados" ou "germanizantes" feitos em Hollywood nos forties. Joseph L. Mankiewicz (1909-1993), o realizador de “The Ghost and Mrs. Muir” e que só agora nomeio, não era alemão, mas descendia de alemães e na Alemanha se formou. Toda a sua vida procurou o cinema total. Apesar de muitas outras obras­ -primas, nunca esteve tão perto como neste filme de que disse recordar sobretudo «o vento, o mar e a procura de qualquer coisa de diferente». «E as decepções que se tem»

Não há filme mais triste. Não há filme mais bonito. Deixem-me ficar ao pé da mulher que nasceu tarde demais para atravessar os sete mares e para ver o sol da meia-noite. Deixem-me ficar ao pé do capitão que morreu cedo demais para a poder beijar ou para poder deitar-se com ela. Ou deixem-me acreditar que não há cedo nem tarde e que o único amor que existe - porque é o único em que acreditamos que existe­ é o amor surreal, esse que Rex Harrison e Gene Tierney encontram no final, quando desaparecem na névoa, atravessada a última porta.

(1)   Agora, já não está. Mas, embora empalidecido pelo sol (quem é que se lembra de pôr fantasmas ao sol?) continua no meu gabinete. Na Cinemateca.

João Bénard da Costa em  Os Filmes da Minha Vida.



Há essa batida vulgaridade do filme a levar para a tal ilha deserta, há a vontade de, por uma vez, dizer que, se Joseph L. Mankiewicz não tivesse realizado outros grandes filmes, The Ghost and Mrs. Muir era suficiente para o lugar de honra que ocupa na História do Cinema.

Trivialidades parvas mas é o que sinto em relação a este espantoso filme, realizado em 1947, tinha eu 2 anos, que já vi um milhão de vezes – e  continuo a pensar que não são suficientes.

A primeira vez que vi o filme, e não lembro com que idade isso aconteceu, mas já tinha passado o tempo dos primeiros amores, fiquei marcado aos primeiros minutos do correr da fita, assim um tanto ou quanto para não saber o que dizer, ainda  hoje não sei, nem nunca saberei.

Cada vez que dele vejo uma referência, cada vez que o revejo, há sempre uma imensa nostalgia a mexer nos coios da melancolia, assomos da mais bela e esplêndida mentira,  quando Lucy Muir, esplendorosa Gene Tierney, nos diz:

Pode parecer estranho, mas por vezes há um maior sentimento de solidão na companhia de outras pessoas, mesmo se as amarmos, do que se vivermos sós.


Numa crítica ao filme, agora não encontro o recorte mas penso ser de Rui Luís Pina, a abrir, pode ler-se:

Será possível amar-se alguém que não existe?

Quando um dia li o que João Bénard da Costa escrevera sobre o filme, dei comigo a descobrir coisas em que não tinha reparado e que redundaram, para os meus sentidos, em pérolas apaixonantes, e tenho como certo que, a cada novo visionamento, a aventura se repetirá.

O texto foi inicialmente publicado no semanário O Independente, as crónicas do João Bénard da Costa eram motivo único para comprar o pasquim, e mais tarde foi incluído no 2º volume de Os Filmes da Minha Vida, cuja transcrição ocorre no post seguinte.

Nas Obras Completas de João Bénard da Costa, em publicação pela Assírio &Alvim, no 2º volume de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, o texto do filme é repetido,
mas é precedido de uma deliciosa nota do autor .


Em 1979 João Bénard da Costa organizou para a Fundação Calouste Gulbenkian um Ciclo sobre cinema americano dos anos 40, e pediu a Mary Meerson, uma mulher de mil cinematecas, Bénard diz que a ela deve o seu nome como programado, que o ajudasse a arranjar filmes e uns cartazes para que pudesse organizar uma exposição paralela.

Assim diz João Bénard:

«Ela enviou-me os originais de The Grapes of Wrath, de John Ford, e de The Gost and Mrs. Muir, de Joseph L. Mankiewicz. São cartazes enormes e vinham montados em diversos rolos, para depois se colarem e se pendurarem nas fachadas do cinema, como nos anos 40 se usava. Mandei-os para o serviço de exposições da Gulbenkian, que pouco habituado àquele género de materiais, os montou, sim, mas os colou em enormes e pesadíssimos contraplacados de madeira. Quando assim os vi, caiu-me a alma aos pés. Como é que eu ia devolver aqueles “monstros”? Descolar os cartazes nem pensar, que ficavam em fanicos. Reenviá-los para Paris só em camião especial e por uma fortuna. Telefonei-lhe a contar o sucedido e ela respondeu-me, com a maior naturalidade do mundo: “Guarde-os. Pode ser que lhe sejam úteis."»

Enquanto permaneceu na Gulbenkian, de 1979 a 1981, os cartazes estiveram no seu gabinete, e bem à sua frente colocou o cartaz de The Ghost and Mrs Muir da Gulbenkian.

Regresso à narrativa de João Bénard:

«Em 91, trouxe os cartazes para a Cinemateca. Hoje o das Vinhas da Ira anda por lá. No meu gabinete, em frente à minha mesa só o do Fantasma. Vinte e seis anos (1979-2005) a viver com ele e com Mrs. Muir. Muir dele é muito tempo. Mais do que umas bodas de prata. Mas a profecia de Mary Meerson cumpriu-se. Também foi para isso que ela mos mandou.»

Correndo o risco de dizerem que os nossos posts são enormes, não há pachorra para os ler, publica-se mais à frente o texto sobre o filme.

É também a homenagem a um homem, felizmente controverso, e a quem os cinéfilos portugueses, por mim falo, muito devem.

Mas, por favor, na terça-feira, não percam o filme, porque é na sala escura de um cinema, que os filmes atingem toda a grandiosidade.

Não esqueçam nunca, que a cultura é sempre um prazer. 

quinta-feira, 12 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


As saudades, se sempre se repetem, nunca se repetem como foram ou como são.

João Bénard da Costa em Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 1º Volume.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 30 de março de 2018

SEXTA-FEIRA SANTA


Numa sua crónica, João Bénard da Costa cita uma frase de Romano Guardini:

«O Cristo na Cruz! Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!»

Tão pouco sabia Bénard da Costa porque de «há muito longo tempo» reteve a frase.

E adiantava:

«Os mistérios só são mistérios porque ninguém os percebe e porque é estulto aquele que os tenta perceber. Cristo na Cruz, para qualquer cristão, é um mistério. Mas Cristo ressuscitado também. E, na esfera do mistério, não cabe o maior nem o menor. Quando não percebo, não posso perceber o tamanho do que não percebo. Se abro a porta para uma escuridão total, nunca poderei saber se essa escuridão é imensa ou atravessável em sete passos. A não ser que me enfie nela, o que não posso fazer pois que não tenho sustentação possível».

Semana Santa.

A entrada de Jesus em Jerusalém, a subida ao Monte Calvário, a morte e a ressurreição.

Vitória, cantam os cristãos católicos.

Porquê?

Dizem que é a vitória da vida sobre a morte.

«Ninguém conseguirá jamais perceber esse mistério.»

Ninguém!

Legenda: pintura de Paul Gauguin

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Antologia Poética

Cecília Meireles
Posfácios: José Bento e João Bénard da Costa
Capa: Fernando Mateus
Relógio d’Água, Lisboa, Outubro de 2002

Canção


Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo... 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Como se costuma dizer, esta vida são dois dias e um passa-se a dormir. Ora não há sonos sem sonhos e eu sou dos que não sabem se é mais feliz o mendigo que todas as noites sonha que é rei, ou o rei que todas as noites sonha que é mendigo.

João Bénard da Costa em Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 2º volume

Legenda: fotografia de Luísa da Costa

terça-feira, 5 de setembro de 2017

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


O meu pai tinha uma profunda admiração por Orson Welles.

Gostava muito de O Terceiro do Homem e alinhava na conspiração de que o filme tem tudo de Orson Welles e nada de Carol Reed.

Tinha uma pancada pelo tema musical do filme, The Harry Lime Theme, tocado pela cítara de Anton Karas, e não lhe restava qualquer dúvida quando dizia que o filme foi feito para aquela música.

Ainda me lembro do 78/rpm que, na altura, comprou.

Tinha no lado B The Cafe Moxart Waltz, que também faz parte deste EP, que um dia comprei por 1 euro na Feira da Ladra.

Junte-se-lhe a paixão assolapada por Alina Valli, e o meu pai nunca leu o que João Bénard da Costa escreveu: «os olhos mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para a sedução.»

Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na linha do horizonte.

«Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim», para voltar a citar João Bénard da Costa.




domingo, 6 de agosto de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Mas de cada vez que penso neste filme, eu lembro-me do plano final. Klara (Margaret Sullivan)  finalmente só com Kralik, pede para lhe ver as pernas. Conhecem mais algum filme que acabe com uma mulher a dirigir a um homem semelhante pedido? Conhecem masia lgum filme que acabe com o homem a mostrá-las mesmo, a ela e a nós, com a câmara bem colocada cá em baixo para não perdermos pitada desse arregaçar de calças? E, em aplauso à grandeza (ou à beleza) da visão, um beijo em close-up e a fusão com a palavra fim. Se conhecem, digam-me, porque eu nunca vi.

João Bénard da Costa no 2º volume de OsFilmes da Minha Vida

Legenda: fotograma de A Loja da Esquina

domingo, 30 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


O Independente sempre me acolheu, desde o nº 1, a 27 de Maio de 1988, até 18 de Março de 2001, quando outra senhora, a quem não vou chamar nada, me pôs na rua à francesa. Não gostava de filmes nem da vida.

João Bénard da Costa na Nota Inicial do 2º volume de Os Filmes da Minha Vida

Legenda: Inês Serras Lopes, a senhora que pôs João Bénard da Costa na rua à francesa, e a quem ele não chamou nada.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

DE FAZER CORAR O MAIS LIBERAL DOS FUNDAMENTALISTAS



O meu sobrinho Luís contou-me este Verão uma história deliciosa, daquelas de fazer corar o mais liberal fundamentalista. Um amigo dele (vinte anos e picos) deu cabo de alguns ossos num desastrado salto à vara. Levado para o hospital, o médico que lhe viu os primeiros raios X fez cara de poucos amigos. Mandou preparar o bloco operatório e murmurou entre dentes qualquer coisa como: «Só a mim é que me calham destas», sendo que o pronome demonstrava claramente uma fractura arrevesada.
Depois virou-se para o lesionado e perguntou-lhe sibilino: «Não fuma, pois não?» «Nunca fumei um cigarro na vida, Senhor Dr., respondeu, em auto-estima, o jovem atleta. «Já calculava», grunhiu o médico, enquanto a maca atravessava a enfermaria no seu inexorável caminho para o teatro de operações. «Também não bebe, pois não?», tornou o clínico, com um tom de voz crescentemente áspero. «É muito raro», disse o jovem, «algumas festas, alguns dias de anos». «Pois, pois. Do que gosta mesmo é de desporto, ar livre e musculação, não é?», interrogou o médico agora quase ríspido. Aflito com dores, mas controlando-se bem, o padecente sorriu com enlevo e confirmou a nobre paixão pelo desporto a que se consagrava todos os fins-de-semana.
Foi aí que o clínico explodiu. Apontando-lhe as camas cheias de corpos envolvidos em ligaduras, com braços e pernas suspensos de arames, disse-lhe mal dominando a voz: «Não fuma, não bebe e faz desporto. Corpo são em mente sã, não é? Pois olhe bem esses que estão todos aí. Também não fumavam nem bebiam e só praticavam desporto todos os santos fins-de-semana. Olhe bem para eles e continue. Saltos aparatosos, nada de cigarros, nada de álcool!...». 
À entrada da sala de operações, ainda foi mais explícito: «Fumem, bebam, mas não me caiam para aí todos os dias com essa maldita mania do desporto, que enche mil vezes mais os hospitais do que o tabaco ou os copos!»

João Bénard da Costa em Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 2º volume.