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sexta-feira, 19 de abril de 2019

OLHAR AS CAPAS


Crónicas: Imagens Proféticas e Outras
4º Volume
(2007)

João Bénard da Costa
Edição: Lúcia Guedes Vaz
Assírio &Alvim, Lisboa, Novembro de 2015

Como são belos estes rituais da Semana dita Santa! Três dias de luto, igrejas enegrecidas. «Crucifige! Cricufige! Morte ao Rei dos ladrões!» «O Rei dos espinhos! O Rei dos espinhos!» Maria pergunta: «Filho, Pai e Marido/Quem Te há ferido e desnudado»» E vêm-me à memória esses e outros versos de O Desequilibrista de M. S. Lourenço, poema de outrora. E subitamente, tão subitamente como apareceu a Maria de Magdala o jardineiro, termina o singular combate travado entre a morte e a vida, de que falava dantes a sequência da Missa Pascal. «Foi vencida a lei do caos e o Tártaro foi esbofeteado/ A terra agitada agora por esse furacão de sinos/Diz-vos que Eu Ressuscitei».

sábado, 13 de abril de 2019

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Magníficas Obsessões: João Bénard da Costa, Um Programador de Cinema

Antonio Rpdrigues
Capa: Nuno Rodrigues
Cinemateca Portuguesa- Museu do Cinema, Lisboa, Janeiro de 2011

João Bénard da Costa nunca teve nada de marginal e não morreria de todo de modo semelhante a Henri Langlois. Em vez de cair morto no sofá da sua sala, teve quatro meses de “frente a frente cristão com a morte”, para retomarmos a expressão de Saint-Simon nas suas Memórias. Como vimos, este fim, longo e dolorosos, fora antecedido por uma também longa organização oficiosa, por ele mesmo, do seu adeus, so seu funeral de programador, numa celebrada mise en scène. Tão elaborada que no último mês da sua presença na Cinemateca portuguesa (Dezembro de 2008), em mais um jogo de simetrias, chegou ao fim um ciclo de filmes e teve início outro, um dedicado a John Carpenter e o outro a Clint Eastwood. Duas imagens de autor. Na sua mania pelas datas certas, ele deixou efectivamente a Cinemateca portuguesa no último dia útil de 2008. Talvez tenha percorrido os gabinetes para desejar um bom ano aos colaboradores da Cinemateca, como costumava fazer, embora alguns já tivessem ido para casa. Num dos primeiros dias úteis de 2009, ainda passou rapidamente pela Cinemateca, para assinar algum documento. Alguns dias depois entrou para o hospital para ser operado. Morreu cerca de cinco meses depois, no dia 21 de Maio, uma Quinta-feira, cedo pela manhã. Todas as sessões da Cinemateca nesse dia e nos dois que se seguiram foram canceladas, em sinal de luto. Mas no dia 22 houve uma sessão realmente especial. Enquanto o seu corpo era velado na igreja que ele próprio designara para o seu velório, a Cinemateca com as portas franqueadas a todos, mostrava um filme, o seu “filme da vida” que por caminhos secretos talvez fosse, de certa forma, o filme da vida dele: JOHNNY GUITAR. Foi a última sessão de cinema programada por João Bénard da Costa, já depois de morto, como um Cid Campeador da programação de cinema.

domingo, 30 de julho de 2017

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Os Filmes da Minha Vida
2º volume

João Bénard da Cosat
Assírio &Alvim, Lisboa, Maio de 2007

Agradeço também a Constança Cunha e Sá e a Vasco Pulido valente, à época, respectivamente directora d’O Independente e director da revista Indy, onde os artigos saíram. Eles acolheram-me com a mesma liberalidade com que O Independente sempre me acolheu, desde o nº 1, a 27 de Maio de 1988, até 18 de Março de 2001, quando outra senhora, a quem não vou chamar nada, me pôs na rua à francesa. Não gostava de filmes nem da vida.

(Da Nota Inicial)

sábado, 8 de julho de 2017

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Quinze Dias no Japão

João Bénard da Costa
O Independente, 2001

Previno mesmo que a presença desses adereços vais ser sentida e, porventura, pesada. Espero é não lhes ter pedido mais dos que aos olhos que tenho e dos quais fio a confiança na subjectividade do que escolhi. Dito doutro modo: cada um vê como pode e para não ver tenho outros olhos além dos meus. De uma coisa estou certo: seria muito pior se os pretendesse orientalmente obliquar, isto é, se pretendesse aparecer aqui com ar de quem, tendo vivido quinze dias nipónicos, se julga autorizado a mudar de visão.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

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O Tempo e o Modo

Antologia
Prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa Outubro de 2007

Os jornais noticiaram, há dias, que um homem pobre e doente, falecido no Hospital de S. José, deixara como ´+ultima vontade, a de ser enterrado vestindo a camisola do Benfica e, se possível, debaixo da águia que identifica o Estádio da Luz. Apenas a primeira parte do desejo pôde ser satisfeita. As posturas municipais modernas são rigorosas e cada vez se percebe menos de mortos.

sábado, 29 de agosto de 2015

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Crónicas: Imagens Proféticas e Outras
3º Volume

João Bénard da Costa
Edição: Lúcia Guedes Vaz
Sistema Solar, CRL (Documenta), Lisboa, Outubro de 2014

Cada encontro é um reencontro. Não sei de outra explicação plausível para os encontros que, ao longo da vida, cada um de nós teve, tem ou terá. «Se não me conhecesses, não me procuravas». É verdade que muitos procuram sem achar. Mas nunca ninguém achou sem procurara, mesmo que não soubesse o que procurava ou quem procurava. Todos nascemos com um conhecimento que esquecemos nos anos ditos de aprendizagem. O que a vida nos vai dando, nos chamados encontros, é a memória desse esquecimento. Memória que reconhecemos como tal, esquecimento que não recordamos como tal, porque um dos caminhos do acesso nos está vedado, ou nós o vedámos. Mas é a memória que permite o encontro, que, sem ela, nunca se daria. Julgamos achar de novo, mas só achamos o que encontrámos. Quantas vezes nos dizemos: «isto não pode estar a acontecer». Mas o que não pode estar a acontecer é o que acontece, e só acontece porque já aconteceu. Sob outras formas, noutros mundos ou noutras idades? É bem possível, é mesmo a única possibilidade, só que o possível e o impossível ultrapassam as categorias de tempo e espaço a que nos referimos. Sem o sabermos vemos o mesmo filme, com o fim no lugar e o princípio no lugar do fim. Não há solução mais falsa do que a da continuidade. Mas, se não houvesse continuidade, não havia solução.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

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Histórias do Cinema

João Bénard da Costa
Capa: Lígia Pinto
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa Agosto de 1991

O chamado PREC (Processo Revolucionário em Curso), se nada deixou igual ao que antes estava, abateu-se igualmente sobre o cinema. Como todos os outros portugueses, os cineastas dividiram-se nas mais variadas facções e partidos e a aparente unidade do «cinema novo» (assaz fictícia, como atrás se disse, nos inícios dos anos 70) quebrou-se. O Centro Português de Cinema que em princípios de 1974 já contava 36 sócios dividiu-se em várias outras cooperativas (Cinequipa, Cinequanon, Virver, Grupo Zero, Paz dos Reis) agrupando os cineastas em diversas – e opostas – famílias estéticas e políticas. Em 1977, o C.P.C. – mantido aberto, apenas para «liquidação» do terceiro e último plano com a Gulbenkian anunciado em Maio de 1974 – cessou produção. Em 1978, a expressão «cinema novo» passava à história. O arranque decisivo que parecia iminente em Março de 1974, com a aprovação do I Plano do I.P.C. e do II com a Gulbenkian foi varrido, como tudo, pelos ventos de Abril.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

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Crónicas: Imagens Proféticas e Outras
2º Volume
(2004-2005)

João Bénard da Costa
Apresentação Alberto Vaz da Silva
Assírio &Alvim, Lisboa, Novembro 2010

Não há ninguém que não vos diga que «isto» é um «sítio» de analfabetos (até os analfabetos). Nunca se venderam menos livros, nunca se leram menos livros, etc. etc. À primeira vista, parece que têm carradas de razão. Basta entrar numa livraria (das raras sobreviventes, fora das muralhas dos «centros comerciais» à busca de um livro que não seja o último de Margarida Rebelo Pinto ou de Paulo Coelho. Ou nos respondem logo que não há pu está esgotado, ou nos fazem perder vinte minutos diante de um computador, em aparente e opaca pesquisa, para chegar à mesma conclusão. Sobretudo se o livro procurado for «velho» (por «velho» se entendendo tudo o que foi publicado há mais de seis meses). Pior ainda, se for um «clássico».

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

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Crónicas: Imagens Proféticas e Outras
1º Volume
(2002-2003)

João Bénard da Costa
Apresentação: José Tolentino Mendonça
Assírio &Alvim, Lisboa, Fevereiro de 2010.

Talvez chorasse por ele próprio e pela Sua própria morte. Porque nós choramos sempre por nós na morte dos que amamos, porque morremos mais do que eles nesta vida reversa da Ressurreição. S. Bernardo tem um sermão lindíssimo sobre este tema, respondendo aos frades de Clairvaux - aos seus frades - que o censuravam por ele permanecer fechado na cela a chorar, depois da morte de um irmão muito querido. O frei Mateus Cardoso Peres O.P. deu-me a ler esse sermão há muitos, muitos anos.
«E dizem-me: Não chores. Arrancam-me o coração e dizem-me: Não sintas. A minha resistência não é a da pedra, não é de bronze a minha carne. Sofro e choro e a dor é dentro de mim e não me deixa (...). Tenho medo da morte, da minha e da dos outros.» Ou, voltando a Dreyer, que há de mais belo do que as lágrimas de Mikkel, o viúvo, quando responde ao pai, que lhe diz que a alma da mulher está junto a Deus: "Não lhe amava apenas a alma. Amava-lhe também o corpo." A saudade dos corpos (daí a nossa necessidade de imagens) dói muito mais do que a saudade das almas.
«A extrema grandeza do cristianismo vem de ele procurar não um remédio sobrenatural contra o sofrimento mas um uso sobrenatural do sofrimento.»
Meu Deus terrível, faz com que eu perceba o sentido desta frase de Simone Weil, publicada em La Pesanteur et la Grâce, dez anos depois da morte de Odon von Horvath, que também escreveu no livro deste meu deposto Agosto que Deus, o Deus Terrível, é O que nos olha com olhos «calmos como os pântanos profundos do meus país natal" e "tristes como uma infância sem luz».
Assim me fico à tua beira. Tu sabes que és tu.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

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Os Filmes da Minha Vida, Os Meus Filmes da Vida

João Bénard da Costa
Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 1990

Nunca serei eu a rejeitar a famosa definição baudelairiana da crítica, quando lhe exigia parcialidade e paixão. Nunca serei eu a anatemizar terrorismos por estas bandas. Nunca serei eu a defender os jogos perigosos da transparência.
Mas precisamente porque sei donde se fala – quando se fala com paixão crítica (dois termos que só não são antagónicos quando são um pelo outro envolvidos) – sempre me afastarei de um texto crítico quando esse secundarizar a elucidação do que critica ( a sua plena iluminação) ou a formação do gosto de quem eu quero que goste tanto como eu gosto e que, se possível, goste como eu gosto.
Talvez por isso aplique sempre aspas ao «crítico» que outros vêem em mim. Certamente por isso, não desculpo aos críticos o abastardamento do gosto, de que começaram por ser vítimas e acabaram por seus fautores. E sobretudo por isso não perdoo que se seja crítico sem gosto, a contragosto ou com desgosto. Com nenhum desgosto aprendi nada. E aprender a gostar ´+e tudo quanto pedi e peço aos críticos de quem gosto.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

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Muito Lá de Casa

João Bénard da Costa

Assírio &Alvim, Lisboa Dezembro de 1993

«Morreu a mulher mais bela do mundo / Tão bela que não só era assim bela / como mais que chamar-lhe marilyn / devíamos mas era reservar apenas para ela / o seco sóbrio simples nome de mulher / em vez de marilyn dizer mulher».
Assim começa o belíssimo poema de Ruy Belo chamado "«a Morte de Marilyn». E agora reparo que, na citação do poema e neste parágrafo, o adjectivo belo (no feminino, no masculino, no comparativo de superioridade ou no superlativo absoluto) já apareceu cinco vezes. «Em vez de Marilyn dizer mulher» ou em vez de Marilyn dizer bela («não havia no mundo melhor mais bela»). Não havia, não houve e talvez não haja nunca mais.
Pelo menos, assim. Marlene, eu sei e lembro-me do que vou escrever. Mas Marlene foi a vos e o corpo acessos por Sternberg e Marilyn foi a voz e o corpo acesos por vários (Wilder, Cukor, Hawks, Hathaway, Logan – grandes médios e pequenos faróis)  e simultâneamente o corpo e a voz que ela acendeu. Bastava que surgisse para tudo ser luz: uns perceberam-no e quedaram-se maravilhados; outros, não sei se o perceberam, mas a maravilha acontecia igualmente. Não vou repetir a conversa sobre actrizes e «stars». Já disse o que tinha a dizer. Mas o que nunca houve foi outra luminosidade assim.
E esse é o nome da beleza.
Muitos dos que trabalharam com ela (Tony Curtis, por exemplo, em Some Like It Hot) disseram não sentir nada. Pode ser. Mas a única verdade que conta é que, quando a vemos, sentimos tudo. Que grande actriz? Sim, mas muito mais do que isso: que enorme mistério. Mistério que obcecou dezenas de poetas, de escritores, de pintores, mistério de que nem Mailer nem Warhol (no seu celebradíssimo retrato) captaram um décimo sequer. Embora Mailer tenha escrito na sua controversa biografia uma das cisas que mais pode aproximar-se do mistério Marilyn. «One might literally have to invente the idea of a soul in order to approach her». «The idea of a soul», no sentido que Agustina e Manoel de Oliveira lhe dão quando pôem na boca de Fanny Owem-Francisca a frase «a alma é um vício». O cinema também o é, como já escrevi, e por isso temos que inventar literalmente as duas ideias (alma e vício) para nos aproximarmos de Marilyn. Ou para percebermos porque tanto ela se aproxima de nós e porque tanto nos aproximamos dela. «She was infinitely she».