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sábado, 15 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Obra Escrita
Volume 3

João César Monteiro
Coordenação: Vitor Silva Tavares
Capa: Luís Henriques
Livraria Letra Livre, Lisboa, Setembro de 2017

João de Deus: Estás aonde? Em casa ou na fábrica? Esse Tomé só arranja confusões. Não, não. De amaneira nenhuma. Não te preocupes. Está tudo a andar. O costume. A mulher da limpeza voltou a não aparecer. Depois vem com umas grandes tretas. É uma chatice. Mas lá terá que ser… O problema é que não posso deixar isto entregue aos bichos. Quando o Romão vier. Combino as coisas com ele. Se tiver uma aberta passo ainda hoje pelo banco e dou uma palavrinha ao gerente. Fica descansada. E ainda temos quantos quilos em stock? Estamos à vontade. Não senhor. A ideia é muito simples: deixa-se os clientes a salivar durante uns dias com o anúncio de esgotado e relança-se o Paraíso em força. . Claro. Com um novo preço que faça jus à especialidade da casa e à originalidade do sabor. Ò menina, vem no Marx. Não há omeletes sem ovos. Aumenta os salários que os resultados aparecem. É elementar e tu sabe-lo por experiência própria: também te saiu do pêlo. Também fiquei com muito boa impressão, sim senhor. Vive sozinha com a mãe numa barraca? Também não me pareceu nada doidivanas. A ver vamos, mas uma andorinha não faz a Primavera. É. De que parte do Minho? Conheço muito bem. Papei por lá, se não estou em erro, a melhor cabidela da minha vida. É boa gente, lá isso é. É muito bonita e ainda não perdeu aquela inocência fresca e provinciana. Vou retocá-la ao  gosto das madonnas venezianas, mas sem apagar os traços rurais. Pode ser um chamariz, pode, mas toda a sabedoria vai estar no conservá-la. Alguma vez te deixei ficar mal? Ó Judite, sabes perfeitamente que em serviço não brinco. Está bem. Cá a espero. Rosário. Rosário quê? Não, não. A mim, essa Francisca nunca me enganou. Vi logo. Queixa na Judiciária? Não te metas nisso. Não paga o incómodo. Também está debaixo de olho, mas deixa-a pousar. Não quero levantar a lebre.

Alexandra aparece a abotoar a bata.

João de Deus: Chaozinho, minha cara, e boas melhoras.

João de Deus desliga o telefone.

João de Deus (para Alexandra): Mostra-me essas mãos.

Alexandra aproxima-se e estende as mãos a João de Deus. Este cheira-as.

João de Deus: Estão lavadinhas. Assim é que deve ser. E queres saber porquê? A razão é simples e não me canso de a repetir. Uma parte muito substancial dos clientes desta casa são crianças. Ora., assim sendo, quem quer que seja que trabalhe sob as minhas ordens é obrigado a lavar as mãos, seja após a utilização das instalações sanitárias, seja após a extracção de mucos nasais, vulgo macacos,, por exemplo, sob pena de despedimento imediato e sem prejuízo de ulterior procedimento criminal. O que está em jogo é a saúde pública. Entendido?

Alexandra acena que sim.

João de Deus: Ao servires um gelado, nunca te esqueças que, um dia, serás mãe.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

OLHAR AS CAPAS


João César Monteiro

Folhas da Cinemateca
Textos sobre os filmes de João César Monteiro da autoria de João Bénard da Costa, Luís Miguel Oliveira, Manuel Cintra Ferreira, Maria João Madeira
Organização e textos não assinados: Maria João Madeira
Capa: Beatriz Horta Correia
Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, Lisboa, Março de 2010

Mesmo quando parecia não o estar afazer, João César Monteiro falou e escreveu muito sobre o seu entendimento do cinema. Por altura de O Último Mergulho, numa entrevista a Rodrigues da Silva para o Jornal de Letras: “Eu acho que o cinema é a arte de maîtriser o tempo e isso é a coisa mais difícil que há no cinema. Eu sou absolutamente contra a chamada longueur, a coisa excessiva. Se a coisa não serve, se é morta, corta-se. Mas é preciso dar tempo às coisas, também por respeito pelo espectador. É preciso dar tempo para que o espectador possa ler o filme, possa ler o plano, possa saborear cada plano. Mas isso é extremamente difícil, extremamente ingrato. Porque o ideal é não ser nem a mais nem a menos, para que cada coisa tenha a justeza do tempo.” E noutro passo: “O cinema é um mundo que está desertificado e nós sonhámos ser habitantes desse mundo. É nesse sentido, também, que eu não me sinto um cineasta português. Considero-me um cineasta, ponto. Sou um homem do cinema. O cinema para mim não é nem português, nem chinês, nem americano. É o cinema, é o desejo de criar um mundo, é um desejo que nasce quando o Homem sai da caverna, sai verticalmente da caverna, com a lenta evolução da espécie e a conformidade da bacia à posição vertical, e vem cá para fora, olha o mundo, olha o que está à volta, olha a realidade circundante e se começa a fazer perguntas.”

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Obra Escrita
Volume 2

João César Monteiro
Coordenação de Vitor Silva Tavares
Capa: Luís Henriques
Livraria Letra Livre, Lisboa, Setembro de 2015

Laura: Boa noite. Sabe-me dizer onde posso encontrar a esta hora a Divina Comédia?
Guarda: Quando chegar a Portimão há-de ver uma ponte. Não atravessa. Vira logo à direita.
Anda para aí uns cem metros e dá com uma doçaria. Os Dom Rodrigos são bons, sobretudo se os tiver encomendado. Logo ao lado, tem uma livraria ponde poderá encontrar a Divina Comédia.
Até hoje não recebemos instruções para pôr os tradutores a ferros, e é pena. Tenho um filho chamado Dante.
Laura: o meu chama-se Roberto, mas ainda é muito pequeno para ler Dante. Boa noite, senhor guarda.
Guarda: Boa noite, minha senhora. Boa leitura e um resto de viagem muito feliz.

(Diálogo do filme À Flor do Mar)

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

OLHAR AS CAPAS



Obra Escrita 
Volume 1

João César Monteiro
Coordenação e Intróito: Vitor Silva Tavares
Capa: Luís Henriques
Livraria Letra Livre, Lisboa, Junho de 2014

Nota do Editor: o habitual desta secção é a apresentação da capa, os colaboradores, a editora e a transcrição de um excerto da obra.
Porque se entende que o Intróito Inaugural, da autoria de Vitor Silva Tavares, é de uma importância extrema e clarividente – está lá tudo! - resolveu-se digitalizá-lo e deixá-lo por aqui.








terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Morituri Te Salutant

João César Monteiro
Prefácio: Vitor Silva Tavares
Capa: João Vieira
&etc., co-edição com a Editora Arcádia, Lisboa, Novembro de 1974

Não faço parte de grupos e não tenho quaisquer afinidades culturais com colegas meus. Sinto-me, portanto, à margem daquilo a que se chama novo cinema português, e isso nada tem a ver com o facto de haver 3 ou 4 tipos que podem até fazer filmes interessantes e com quem é agradável tomar café e trocar impressões.
Convém, no entanto, deixar bem claro o seguinte: sou um tipo ferozmente individualista que a si mesmo se toma pelo centro do mundo e está profundamente convencido que estas coisas de cinema, ou do que quer que seja, se atravessam sozinho. That’s all. 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

OLHAR AS CAPAS



João César Monteiro

Catálogo da Cinemateca Portuguesa
Organização literária: João Nicolau
Direcção Gráfica: Rita Azevedo Gomes
Lisboa, Abril 2005

Conheci Serge Daney em Taormina. Vimo-nos todos os dias durante uma semana. Conversámos imenso. Ensinou-me muito. Depois encontrámo-nos em Paris. Quando lhe telefonava dizia-me sempre: “Estou muito ocupado mas para tia tenho uma meia hora”, e dava-me três horas do seu tempo. Falávamos de cinema e de outras coisas. Dava-me conselhos. Ele achava que eu era um grande cineasta. Eu dizia-lhe “Olha que não. O que é que isso quer dizer? O sucesso é para os políticos”. Ele achava que eu era masoquista. Eu não detesto fazer filmes, mas isso não me dá nenhuma felicidade particular. Mas se ainda não estou em agonia, estou um pouco como Flaubert que, no seu leito de morte, dizia: “A puta da Bovary, ela vive e eu estou quase a…

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

OLHAR AS CAPAS


Uma Semana Noutra Cidade

João César Monteiro
Capa de Carlos Ferreiro
Edições “&Etc”
Lisboa, Novembro de 1999

São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o mundo

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

OLHAR AS CAPAS


Le Bassin de John Wayne seguido de “As Bodas de Deus

João César Monteiro
Capa de João Vieira
&etc, Lisboa 1997

“CENA 06

Cenário: Jardim do Convento, Exterior, diua,
Personagens: João de Deus, Madre Bernarda, Freiras.
João de Deus e a madre Bernarda estão sentados num banco ao fundo do jardim. Sai fumo da chaminé da cozinha do convento e ouvem-se os risos das irmãs, que folgam. Uma freira serve-lhe dois cálices de licor.
João de Deus: E a Joana?
Madre Bernarda: Um amor-perfeito. Raparigas assim são raras nos tempos que corem. Serve crianças no refeitório da paróquia a ainda nos dá uma ajuda nos trabalhos do convento.
A madre Bernarda levanta-se e passeia nos jardins com João de Deus.
Madre Bernarda: Eu sei que não acredita em milagres, mas não esqueço o dia em que, trémula de frio, Joana me apareceu pela primeira vez. Parecia um espectro saído de um campo de concentração. Que força a mantinha viva? A transfiguração é maravilhosa, não haja dúvida. Os prodígios de Deus não cessam de nos surpreender.
João de Deus: A César o que é de César, a Deus o que é de Deus.
Madre Bernarda: Porque não vai visitá-la?
João de Deus: Prefiro não.
Madre Bernarda: Talvez se arrependa.
João de Deus: Arrepender? Esta não é propriamente uma comédia penitenciária.
O Barão tira um envelope do bolso do casaco.
João de Deus: Prefiro deixar este donativo para que não lhe falte nada em caso de aflição e para obras de beneficiação do convento. Basta uma chuvada para fazer ruir o tecto.
A freira recebe o donativo.
Madre Bernarda: Tantas notinhas! Não serão manhas de Lúcifer?
João de Deus: È dinheiro imaculado. De hora a hora, Deus melhora.
Madre Bernarda: Sede misericordioso. Sou uma mulher de pouca fé. É pena que não possamos celebrar esta dádiva à volta de um honesto cozido à portuguesa servido pela Joana. Comidinha caseira!
João de Deus: Irmã, Irmã, muito te será perdoado. Mas livra-me dessas tentações!

CENA 07

Cenário: Refeitório da Paroquia de Colares. Interior. Dia.
Personagens: João de Deus e a madre Bernarda, Joana, crianças, empregadas.
João de Deus e a madre Bernarda, sentados numa mesa posta: pão e vinho tinto.
Joana (rindo): Bom apetite.
João de Deus: Não páras de rir. Estás a rir-te de mim?
Joana: Estou a rir-me porque estou contente,
Madre Bernarda (servindo-se): Ri-se na alegria do Senhor. Abençoados sejam os pobres d espírito porque será deles o Reino dos Céus.
João de Deus: Já que é assim, esperemos que o cozido esteja de chorar por mais.
João de Deus e a madre Bernarda atacam o pitéu.
Joana continua a sua lide com a leveza graciosa de uma dançarina. As empregadas servem taças de gelado às crianças espalhadas pelas mesas do refeitório. Joana que, que transporta duas taças de gelados, aproxima-se da mesa de João de Deus e da madre Bernarda.
Joana: Desejam gelados?
João de Deus: Gelados? Nem vê-los.
Joana afasta-se.
A madre Bernarda enche os copos de vinho.
Madre Bernarda: Esta preciosidade é oferta da casa. Quem sabe se não estaremos no limiar de uma nova era? Suportámos longamente a era do abandono: Talvez estejamos a entrar na hora da hospitalidade.
João de Deus tira duas cigarrilhas e oferece uma à madre Bernarda.
João de Deus acendendo as cigarrilhas): Com a recrudescência dos fascismos à perna?
Madre Bernarda (expelindo uma baforada): Vou proferir uma blasfémia, mas como Staline dizia, o melhor fascista é o fascista morto. Para que a Besta do apocalipse não ressurja. Nunca mais.
Fazem um brinde e bebem. Joana olha para eles a rir.”