Mostrar mensagens com a etiqueta João Cabral de Melo Neto Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta João Cabral de Melo Neto Poemas. Mostrar todas as mensagens

sábado, 26 de janeiro de 2019

A MULHER E A CASA


Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

RELACIONADOS


Maria Betania recitando Joao Cabral de Melo Neto.

A MULHER E A CASA


Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, 23 de maio de 2018

MORTE E VIDA SEVERINA


- Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
Eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida.
Eu não conheço a resposta,
se quer mesmo que lhe diga.
É difícil defender,
só com palavras, a vida,
(ainda mais quando ela é
esta que vê, severina).
Mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espectáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
(que também se chama vida),
que ela mesmo, se fabrica,
vê-la surgir como há pouco
em nova flor explodida;
(Mesmo quando é tão pequena
a explosão ocorrida.
Mesmo quando é a explosão
como a de há pouco, franzina.
Mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.)

João Cabral de Melo Neto, final de Morte e Vida Severina em Poemas Escolhidos

quinta-feira, 1 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Poemas Escolhidos

João Cabral de Melo Neto
Selecção: Alexandre O’Neill
Prefácio: Alexandre Pinheiro Torres
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Poetas de Hoje nº 9
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1963

Graciliano Ramos

Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:

de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.

Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:

que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.

Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:

e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.

Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:

que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.