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quinta-feira, 28 de maio de 2020

CONVERSANDO


Como leitor fiz descobertas sem mapa, sem bússola, lembro José Gomes Ferreira, José Saramago, mais o Saramago que o Zé Gomes.

Havia a biblioteca do meu pai, havia os suplementos literários, quase todos a publicarem-se à quinta-feira.

Líamos os críticos, colhíamos orientações que eram, ou não, seguidas, mas orientações.

Lembro Eduardo Prado Coelho que terá sido, por aqui, o último moicano da crítica literária.

O Eduardo Prado Coelho era o Eduardo Prado Coelho, como em tempos recuados o João Gaspar Simões era o João Gaspar Simões.

Assim como uma espécie de instituições.

Quando morreram ficámos a saber da falta que nos ficaram a fazer, depois de, amiúde, termos andado a chamar-lhes todos os nomes e dando de barato que por vezes, um e outro, se punham a jeito.

Francisco Vale, que é editor da Relógio d’Água, também jornalista, também escritor, lembra Pierre Bayard que escreveu um livro, Como Falar dos Livros Que Não Lemos.

Deixa no ar que os críticos, por vezes, falam dos livros que nem sequer leram.

Será?

Também nos diz dessa coisa horrorosa de os críticos darem estrelas aos livros que criticam: «a classificação que se justifica nos hotéis, como questão de conforto dos quartos e serviço de bar, e que talvez faça sentido nas estrelas do Guia Michelin, é de todo inadequada para leitura e ensaio.»

Pegando no Expresso, no Público, ressalta que nas poucas críticas (?) que fazem o que por ali se nota é um certo amiguismo, a influência que as editoras mexem e remexem.

Legenda: pintura de Jean-Honoré Fragonard

segunda-feira, 11 de maio de 2020

RELACIONADOS


Gosto de livros que reúnem a correspondência entre personalidades da cultura.

Ajuda-nos, para além dos livros, dos filmes, das exposições, a compreender melhor os personagens.

Jorge de Sena é o intelectual de que conheço mais correspondência publicada.

Devemos esse trabalho a sua mulher Mécia de Sousa que, amorosa e ferreamente, se dedicou a esse extraordinário trabalho.

«E está longe de ser tudo, mesmo sem infindável arca. Assim eu tenha vida, saúde e lucidez para realizar essa monstruosa tarefa»

(Carta de Mécia de Sousa a João Gaspar Simões.).

Por alturas da Feira do Livro do ano passado o Luís Eme perguntava-me sobre a Correspondência entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões, se já tinha lido o livro.

Não tinha lido nem comprado.

Entendia que, apesar de amigos, acabaram por se desentender, e detestavam-se.

Não sabia que raio de correspondência existiria entre os dois.

Falava-lhe também de que os livros da «Guerra e Paz» atingiam preços algo pesados. As coisas são o que são e os livros saem caros. Resta-nos fazer uma gestão do orçamento mensal e por aí fora.

Mas a pergunta do Luís deixara  pozinhos a bailar por mim dentro.

Numa última ida à Feira, acabei por comprar o livro.

Folheado em casa, não me entusiasmou e acabou por ir para a secção de «Livros a Ler».

Em tempo de pandemia, a obra foi lida.

Não é daqueles livros imprescindíveis, mas não lamento o tempo que lhe dediquei.

Através da introdução de Filipe Delfim Santos, das cartas trocadas entre Gaspar Simões e Mécia de Sena, que a determinada altura, dado o grave ataque de coração que Sena sofreu, passa a responder às cartas que são dirigidas ao marido, se fica a perceber, um pouco mais, de como foram as relações, pessoais e de escrita, entre Sena e Gaspar Simões.

Pessoalmente, nunca apreciei o cidadão João Gaspar Simões, como crítico nada digo porque me falta tudo, e mais alguma coisa, para poder dizer o que quer que seja.

Mas entre as diversas referências que tenho sobre/de Gaspar Simões, apresento três, cada uma a seu modo:

Uma de JoséGomes Ferreira, no IX volume dos seus Dias Comuns, realçando a camaradagem de Gaspar Simões:

«2 de Julho de 1970
O João Gaspar Simões disse-me ontem pelo telefone que se vira obrigado a emendar algumas palavras na minha última crónica, para a gente de O Primeiro de Janeiro a deixar sair.
Que palavras?
Estas: tipa, macha, pernas, etc. (Incrível), consideradas impróprias por um energúmeno velhorro da redacção que as sublinhou com lápis vermelho.
Fiquei furioso. Duas censuras ( a oficial e a do velhorro paralítico cerebral) parecem-me cadeias demais para poder dançar!
Quanto à atitude de João Gaspar Simões – seria uma covardia escrever aqui o que não ousei dizer-lhe por delicadeza… Aliás, estou convencido de que da parte dele houve apenas camaradagem jornalística. Custava-lhe que eu perdesse os 400 paus do artigo – como me confessou.
Agradeci-lhe a camaradagem.»

Outra é a espantação de Mário-Henrique Leiria, numa carta à sua «querida menina», contando-lhe que o Gaspar Simões dissera bem de um seu livro:

Sabes que o Gaspar Simões botou elogio grosso aos CONTOS DO GIN-TÓNICO na página literária do “Diário de Notícias”? Pois foi: Só tenho coisas que me ralem; só me faltava o Gaspar Simões a dizer bem de mim. Ele há cada coisa!

Por fim, o passo de uma crítica de João Gaspar Simões ao livro As Solicitações e Emboscadas  de Mário Dionísio:

O que nos fica, finda a leitura deste livro, não é a imagem de um homem fazendo gestos para que o vejam: é a imagem de uma alma segredando aos outros qualquer coisa impossível de calar.

Não quero terminar este apontamento, sem referir uma frase de Adolfo Casais Monteiro que Filipe Delfim Santos coloca a abrir a introdução sobre a Correspondência de Sena e GasparSimões:

«… é muito difícil fazer crítica a um livro do Sena».

OLHAR AS CAPAS


Correspondência
(1943-1977)

Jorge de Sena/João Gaspar Simões
Incluindo o carteio de Mécia de Sena
Organização, estudo introdutório: Filipe Delfim Santos
Capa: Ilídio J.B. Vasco
Guerra e Paz Editores, Lisboa, Maio de 2013

Lx. 22/2/952

Gaspar Simões,

Não quero deixar de agradecer-lhe a referência longa, cuidadosa e atenta, que dedicou no Diário Popular ao meu Indesejado. Muito obrigado.
Só lamento que não tenha dito que a peça está pronta desde fins de 1945, visto que foi lida, tal qual publicada agora, em março de 1946. E isto é importante, porque é anterior à publicação de todas as peças do Montherlant, anterior a Christopher Fry, anterior a todas as peças históricas citadas no seu artigo. Mas não se pode exigir tudo.

Gratamente o

Jorge de Sena

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


O que nos fica, finda a leitura deste livro, não é a imagem de um homem fazendo gestos para que o vejam: é a imagem de uma alma segredando aos outros qualquer coisa impossível de calar.

João Gaspar Simões, crítica ao livro As Solicitações e Emboscadas de Mário Dionísio

Legenda: citação tirada da Frenesi Loja

segunda-feira, 8 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


O meu pai dizia que devemos ler alguns maus livros.

João Bénard da Costa era de opinião que devemos ver maus filmes porque podem ter por lá perdido algo que valha a pena ver.

Franz Kafka citado um destes dias pelo Manuel S. Fonseca na sua blogueira Página Negra: «Acho que deve­mos ler o tipo de livros que nos abram feri­das, que nos esfa­queiem».

Quando soube da publicação deste livro de Joaquim Vieira, sabendo de experiências anteriores como as que fez com Francisco Pinto Balsemão e Mário Soares, questionei-me se o iria ler.

Estava nesse mar de dúvidas, quando o meu filho Mário pediu um livro para me colocar no saco do Pai Natal e chutei o do Joaquim Vieira.

Corria ainda Dezembro, uma semana para ler as suas 751 páginas.

Repetir a leitura de algumas páginas pelos dias que se foram seguindo.

Com a chegada da Primavera, o escrever, finalmente!, algumas palavras sobre as diversas leituras.

Começo por sentir excessivas as largas páginas que, ao longo do livro são dedicadas ao facto de José Saramago gostar de mulheres. Há mesmo um capítulo, o 6º, com as suas 30 páginas, que Vieira não resistiu à tentação de titular:  «O Pinga-Amor».

Em 1977, François Truffaut realizou L'Homme qui aimait les femmes.

É do filme que me lembro quando leio o rol de mulheres que andaram com, por, Saramago, mulheres por quem mostrou amor, simpatia ou quaisquer rituais de sedução.

Só ele saberia dizer o porquê, se a tanto achasse útil ou necessário.

Largamente referido é o relacionamento que Saramago manteve com a escritora Isabel da Nóbrega.

Corria o ano de 1954, Isabel da Nóbrega, com 31 anos, abandona o marido e os seus três filhos para ir viver com João Gaspar Simões, ao tempo um escândalo.

Pelo ano de 1966 acontece o grande romance entre José Saramago e Isabel da Nóbrega, «o amor da vida dela», no dizer de Maria Velho da Costa.

Em 1977 Saramago conhece Pilar mas a relação com Isabel da Nóbrega já, há algum tempo, esfriara.

Deixo apenas um pormenor curioso: Isabel da Nóbrega sempre acreditou que um dia, José Saramago ganharia o Prémio Nobel.

Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira conta a seguinte história:

 «Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»

Diversos são os depoimentos em que se procura transmitir que Isabel da Nóbrega escrevia, ou largamente emendava, as crónicas que Saramago publicava nos jornais.

De um depoimento de Ana Isabel, filha da escritora:

«A minha mãe escrevia em cima de uma tábua no sofá e ele na mesa de trabalho da minha mãe. Quando ele acabava de escrever as crónicas, levava-as à mãe e ela lia e dizia-lhe: “José, e se experimentasses pôr assim?” E ele sentava-se e tornava a escrever.»

Carlos Leça da Veiga: 

«Ela fez dele, que era um labrego, um senhor. Se não fosse a Isabel, quem seria o Saramago, que nem sabia comer à mesa?

Maria Velho da Costa:

 «Uma mulher que fez tudo por ele, ensinou-o a comer e beber.»

Passo ao lado dos muitos depoimentos de gente que entendeu não dar a cara porque foram amigos de Isabel da Nóbrega e Saramago, amigos ficaram quando Saramago se relacionou com Pilar.

Há depoimentos estranhos, como os de Mário Ventura Henriques, inúteis como os do Sr. Fernando Canhão, filho de um dos patrões da Estúdios Cor onde Saramago trabalhou como encarregado da produção literária, depoimentos de muita gente que desconheço e que outro propósito não têm senão o dum botabaixismo que apenas visa desacreditar a pessoa e o escritor José Saramago.

A dois depoimentos devidamente identificados, terei que dizer que estão no livro por pura inveja, despeito ou algo difícil de catalogar: os de Maria Teresa Horta e o de José Jorge Letria.

Maria Teresa Horta, algo que terá a ver com o relacionamento editorial de Luís de Barros, seu marido, com José Saramago, enquanto ambos estiveram na direcção do Diário de Notícias.

Mas ainda em vida, José Saramago referiu Maria Teresa Horta.

Faz parte da entrevista que Joaquim Vicente teve com José Manuel dos Santos que foi assessor de Mário Soares:

«Fui almoçar com ele ao Farta Brutos, até para combinar várias coisas, nomeadamente a condecoração. E no meio da glória nacional, ele diz-me assim:
«A Maria Teresa Horta disse que, lendo os meus livros, se percebia logo que eu nunca iria ser um grande escritor. Está-se a ver agora.» O que eu achei mais extraordinário foi esta conversa, dois ou três dias depois de o Saramago estar cá. No meio daquele coro de louvores. Fiquei muito impressionado, porque a grande coisa de que ele se lembrava era disso, A Maria Teresa Horta era uma pessoa que o estava a marcar profundamente, e ainda por cima tinha afinidades políticas com ela. Ela, aliás, saltou logo no dia do Prémio, dizendo que o Nobel não devia ter sido dado ao Saramago, devia ter ido para a Agustina ou para Sophia».

Quanto ao que José Jorge Letria diz ao longo do livro, remeto para a mente doentia que o tem acompanhado toda a vida. Um ódio que, certamente, por falta de coragem nunca o diria na cara de Saramago. Seria, simplesmente arrasado. Em 1978 pediu a José Saramago que lhe escrevesse um prefácio para o seu livro Os Dias Contados. Saramago sabendo das não qualidades literárias e intelectuais de Letria disse-lhe que não. Letria não lhe perdoou e Joaquim Vieira escreve que José Jorge Letria não o revelara antes, mas agora disse:

«Ele nunca foi para mim um escritor referencial. Eu teria visto também com satisfação o Nobel ser dado a Agustina Bessa-Luís, por exemplo. Não é por receber o Nobel que ele se transforma numa estátua.»

O que ressalta em muitos dos depoimentos recolhidos por Joaquim Vieira para o livro,  é que a atribuição do Prémio Nobel da Literatura não agradou aos companheiros de escrita de Saramago. Para muitos – e não são assim tão poucos! - custa a engolir que um pé descalço nascido na pobreza angustiante de uma aldeia ribatejana, um aprendiz de  serralheiro, um autodidacta que, em jovem, não tinha um único livro em casa,  que passava noites nas mais diversas leituras na Biblioteca de Galveias, um comunista confesso, sem vontade alguma de o deixar de ser, apesar de tanto coisa que o poderia ter levado a sair do Partido, tenha conseguido subir a pulso e construir a obra que lhe permitiu  um dia chegar aonde chegou.

Não é difícil perceber que na intelectualidade portuguesa, seja qual for a época, campeia o ciúme e a inveja.

Como observou Luiz Pacheco:

«Aí a raiva de muita gente não foi contra o escritor – que não lêem – nem foi contra o próprio Saramago - que não conhecem de parte nenhuma -, foi contra o comunista que ganhou o Nobel. E também contra o gajo que ganhou cento e tal mil contos! Inveja em estado puro.»

Dando-lhe os devidos descontos, por exemplo, entradas em domínio da vida privada algo desnecessárias, esta Rota de Vida ajudará muitos leitores a perceber o percurso de uma das personagens, doa a quem doer, mais importantes da nossa história recente.

José Saramago: a persistente ideia de morrer idêntico ao que sempre foi.

Durante alguns dias, irei Saramaguear por aqui, transcrevendo algumas passagens do livro de Joaquim Vieira que, por isto ou por aquilo, entendo terem algum interesse.

domingo, 2 de dezembro de 2018

DEMASIADOS LÁPIS!


2 de Julho de 1970

O João Gaspar Simões disse-me ontem pelo telefone que se vira obrigado a emendar algumas palavras na minha última crónica, para a gente de O Primeiro de Janeiro a deixar sair.
Que palavras?
Estas: tipa, macha, pernas, etc. (Incrível), consideradas impróprias por um energúmeno velhorro da redacção que as sublinhou com lápis vermelho.
Fiquei furioso. Duas censuras ( a oficial e a do velhorro paralítico cerebral) parecem-me cadeias demais para poder dançar!
Quanto à atitude de João Gaspar Simões – seria uma covardia escrever aqui o que não ousei dizer-lhe por delicadeza… Aliás, estou convencido de que da parte dele houve apenas camaradagem jornalística. Custava-lhe que eu perdesse os 400 paus do artigo – como me confessou.
Agradeci-lhe a camaradagem.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

Legenda: João Gaspar Simões

sábado, 1 de dezembro de 2018

NOTA DO AUTOR POR CAUSA DA PROVÍNCIA



O seu primeiro livro como escritor foi a Carta-Sincera a José Gomes Ferreira?

Isso era uma carta, um panfleto, não era um livro. O meu primeiro livro foi a Crítica de Circunstância, edição Ulisseia e do Vítor Silva Tavares. Foi o gajo que de facto começou comigo e começou com coragem porque eles sabiam que o livro ia ser apreendido. E foi! Agora, a carta ao Gomes Ferreira, escrita em 1953, foi o meu primeiro texto com alguma dimensão, com alguma pontaria. Eu mandei-lhe o texto numa carta registada com aviso de recepção. Recebi o aviso de recepção assinado pelo José Gomes Ferreira mas ele nunca deu resposta. O Gomes Ferreira não percebeu aquela carta. Aquilo era uma irritação e uma homenagem, uma irritação porque ele estava a abandalhar-se como escritor e uma homenagem porque o Gomes Ferreira tinha sido um dos meus ídolos de juventude. Esse texto foi escrito para um projecto meu, do Cesariny e do Lisboa, que era “Duas gerações, Três cartas”. Eu escrevia uma carta ao Gomes Ferreira, o Cesariny ao Gaspar Simões e o Lisboa ao Casais Monteiro. A carta do Lisboa (“Carta Aberta ao Srº. Dr. Adolfo Casais Monteiro”) está naquela edição da Assírio & Alvim, o tijolo cor-de-rosa, organizada pelo Cesariny. Lembro-me perfeitamente de o Lisboa ter estado comigo na Inspecção dos Espectáculos, no r/c, na Calçada da Glória, com uma máquina muito velha, ele a ditar-me a carta e eu a escrever a carta à máquina. Dali o Lisboa foi ao Diário Popular para ser publicada como resposta à entrevista do Casais Monteiro ao Gaspar Simões... para elucidar esse texto do Lisboa há que ler a entrevista... Não sei se ele chegou a ir ao Popular, não sei se se arrependeu pelo caminho. Ora como é que essa carta chega à mão do Cesariny? Não sei. O que eu sei é que quando tentei fazer um trabalho sobre o Casais Monteiro, eu na altura não tinha envergadura para fazer aquilo, lembro-me que estava no Café Portugal, no Rossio, com um livro do Casais... aquele primeiro livro... o livro de ensaios... o Lisboa disse-me, muito sacana e perfurante: “estás a agarrar-te ao Casais porque não tens tomates para te agarrares ao José Régio”. É natural que o Lisboa tivesse preferência pela poesia do Régio ou que considerasse o Régio mais importante que o Casais... a poesia do Lisboa é muito mais achegada à poesia do Casais do que ao Régio. No Lisboa não havia problemas metafísicos, nem de Deus, nem do Além nem nada disso, como há no Régio e não há no Casais. Ora, anos depois, já eu estava no Pote d’Água, o Cesariny pediu-me para publicar a Carta-Sincera na Antologia em 1958, a colecção dele, que era feita na Rua Nova do Loureiro, na Editora Gráfica Portuguesa. O título completo era Carta-Sincera a José Gomes Ferreira com uma Nota do Autor por causa da Província.

domingo, 6 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


A Longa Viagem

Jorge Semprun
Tradução: João Gaspar Simões
Capa: Sebastião Rodrigues
Colecção Encontro nº 34
Editora Arcádia, Lisboa s/d

Há este amontoado de corpos no vagão, esta dor lancinante no joelho direito. Os dias, as noites. Num esforço tento contar os dias, tento contar as noites. Talvez isso me ajude a ver claro. Quatro dias, cinco noites. Mas devo ter contado mal ou então há dias que se transmudaram em noites. Tenho noites a mais; noites para dar e vender. Uma manhã, de facto, foi numa manhã que esta viagem principiou. Esse dia inteiro. Depois uma noite. Alço o polegar na penumbra do vagão. O polegar, por essa noite. E depois outro dia. Estávamos ainda em França e o comboio mal se havia movido. Ouvíamos vozes, por vezes, de ferroviários, para além das botas das sentinelas. Esquece essa noite, foi o desespero. Outra noite. Soergo outro dedo na penumbra. Um terceiro dia. Outra noite. Quatro dias, portanto, e três noites. Três dedos da minha mão direita. E o dia em que estamos. Quatro dias, portanto, e três noites. Caminhamos para a quarta noite, o quinto dia. Para a quinta noite, o sexto dia. Mas seremos nós quem avança? Nós estamos imóveis, amontoados uns em cima dos outros, a noite é que avança, a quarta noite, para os nossos futuros cadáveres imóveis. Dá-me vontade de rir: realmente, via ser a Noite dos Búlgaros.
- Não te canses, diz o camarada.

terça-feira, 17 de abril de 2018

ELE HÁ CADA COISA!


Em Carcavelos, a 25 de Novembro de 1973, Mário-Henrique Leiria envia, à «Querida Menina», uma carta em que pede desculpa por ser uma «carta um pouco desarticulada, mas confesso-te que a minha cabeça anda a entrar num cansaço que, por vezes, não digo coisa com coisa».
Também lhe fala da mãe e de livros:

Quanto à minha velha, vai numa recuperação magnífica. Já anda aí pela casa de um lado para o outro e até já quer voltar ao comando do barco. Cá por mim, acho óptimo que ela funcione o mais possível mas, discretamente, não a vou deixando abusar e vou mantendo o controlo na sombra, claro.
Como vês, querida, isto por aqui continua na chateza habitual.
Quanto ao meu livro, já está em primeiras provas. Talvez esteja na rua lá para meados de dezembro. Achei que tinha historietas demais e tirei um monte delas, não gosto de chatear demais os leitores.
Sabes que o Gaspar Simões botou elogio grosso aos CONTOS DO GIN-TÓNICO na página literária do “Diário de Notícias”? Pois foi: Só tenho coisas que me ralem; só me faltava o Gaspar Simões a dizer bem de mim. Ele há cada coisa!


Legenda: João Gaspar Simões

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Obras Em Prosa

Fernando Pessoa
Organização de João Gaspar Simões
Ilustrações de Jorge Colombo
Círculo de Leitores, Lisboa. Janeiro de 1974

As quatro paredes do meu quarto pobre são-me, ao mesmo tempo, cela e distância, cama e caixão. As minhas horas mais felizes são aquelas em que não penso nada, não quero nada, não sonho sequer, perdido num torpor de vegetal errado. De mero musgo que crescesse na superfície da vida. Gozo sem amargor a consciência a absurda de não ser nada o ante sabor da morte e do apagamento.
Nunca tive ninguém a quem chamasse “Mestre”. Não morreu por mim nenhum Cristo. Nenhum Buda me indicou um caminho. No alto dos meus sonhos nenhum Apolo ou Atena me apareceram, para que me iluminassem a alma.

(Do Livro do Desassossego)

sábado, 27 de junho de 2015

SARAMAGUEANDO


As paixões acontecem, não se explicam.

Jorge Amado no seu livro memorialista, Navegação de Cabotagem:

As reedições de meus livros saem iguais às primeiras, apenas as gralhas vão em constante aumento, Paloma, que os andou relendo para saber o que os personagens comem, me informa que os erros gráficos se contam aos milhares. Tampouco jamais buli nas dedicatórias, também elas datadas – mesmo em se tratando de pessoas a quem deixei de estimar nem assim lhes retirei o nome da oferenda mesmo se retirei o indivíduo do meu bem-querer. Refiro-me, é claro, às edições brasileiras, as traduções fogem ao meu controlo. Lá estão os nomes todos, um a um – quando escrevi o livro estimava os admirava fulano a quem o dediquei, se depois ele se revelou calhorda, o nome permanece na dedicatória datando a escrita e a ingenuidade do autor.

José Saramago não teve este entendimento.

Desde que conheceu Pilar, as novas edições dos livros, antes dedicados a Isabel da Nóbrega, passam a não ter essa indicação.

Num lamento, Isabel da Nóbrega disse que foi uma atitude que não era preciso tomar.

Segundo o jornalista Luís Leal Miranda (jornal I  de 26 de Junho de 2010), Saramago pronunciou-se por várias vezes sobre o assunto, garantindo que as dedicatórias fizeram sentido na altura em que essas edições foram publicadas. E essas edições, já esgotadas, permanecem em sintonia com as inclinações amorosas da altura.

Num outro registo, Saramago salientou que as dedicatórias permanecem nas edições correspondentes ao tempo em que os livros foram escritos.

A história é conhecida.


Depois de ler livros de José Saramago, principalmente O Ano da Morte de Ricardo Reis, a jornalista espanhola Maria del Pilar ficou como que encantada.

Senti que tinha de agradecer ao autor os livros que me tinha dado a ler. E sobretudo dizer que tinha tratado os seus leitores como seres inteligentes. Tinha-me sentido respeitada como leitora e quis agradecer-lhe.

Veio até Lisboa e conseguiu uma conversa com Saramago.

Tal como na sinfonia de Beethoven, ambos terão sentido o destino a bater-lhes à porta.

Sabe-se o que aconteceu.

Desde então, os livros de José Saramago deixaram de ser dedicados à Isabel para passarem a ser dedicados a Pilar.

Os dois primeiros livros de José Saramago, Terra do Pecado (1947), Os Poemas Possíveis (1966), não têm qualquer dedicatória.

Mas em Provàvelmente Alegria já se revela uma leve indicação do que serão as dedicatórias futuras:

«Para tão grande amor tão curta a vida.»
Cheguei tarde ao encontro deste verso,
Outro o escreveu por mim, mas dele tomo,
Como rosa colhida que te ofereço.

Em Deste Mundo e do Outro (1971), algo um pouco mais especifico:

Não se dirá aqui o nome. Mas da sua exaltação nasceu este poema, do seu rigor esta autobiografia, da sua verdade esta meditação e basta.

Mas é com o livro seguinte, A Bagagem do Viajante (1973) que o nome finalmente surge e que, por diversos livros, José Saramago manterá: 

Dir-se-á desta vez aqui o nome. Pelas mesmas razões da exaltação, do seu rigor e da sua verdade. E porque estes dias são mais exaltantes ainda, mais rigorosos e de uma verdade que já é unidade inultrapassável. Isabel.

Seguem-se:

As Opiniões que o DL Teve (1974):

Para a Isabel e para os meus amigos.

O Ano de 1993 (1975):

Para a Isabel. Este livro, o antes e o depois dele, todos os passos e todos os gestos, todas as palavras ditas e as que estão por dizer. Assim. Mesmo que o tempo não entenda já de coisas como esta.

Os Apontamentos (1976):

À Isabel, este livro e todos.
Aos trabalhadores do «Diário de Notícias» que foram o meu apoio e a primeira justificação de quanto escrevi.

Manual de Pintura e Caligrafia (1976):

Para a Isabel, tão inseparável deste livro como da minha vida.

Objecto Quase (1977):

Para a Isabel, porque me disse de que lado está a vida.

A Noite (1979)

À Luzia Maria Martins, que me achou capaz de escrever esta peça.

À Isabel



Levantado do Chão (1980):

À Isabel sempre.

A João Domingos Serra e João Besuga, e também a Mariana Amália Besuga, Elvira Besuga, Herculano António Redondo, António Joaquim Cabecinha, Maria João Mogarro, João Machado, Manuel Joaquim Pereira Abelha, Joaquim Augusto Badalinho, Silvestre António catarro, José Francisco Curraleira, Maria saraiva, António Vinagre, Bernardino barbas Pires, Ernesto Pinto Ângelo – sem eles não teria sido escrito este livro.
À memória de Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, assassinados.

Que Farei Com Este Livro? (1980):

À Isabel cada vez mais.

Viagem a Portugal (1981)

A quem me abriu portas e mostrou caminhos, à companheira constante que tantas vezes disse. «Repara» - e também em lembrança de Almeida Garrett, mestre de viajantes.

Memorial do Convento (1982):

À Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984):

À Isabel, outro livro, o mesmo sinal.

A Jangada de Pedra (1986)

Sem dedicatória

A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987):

Sem dedicatória.

A História do Cerco de Lisboa (1989) é o primeiro livro em que aparece Pilar:

A Pilar

A partir daqui todos os livros serão dedicados a Pilar.

Em As Pequenas Memórias (2006), pode ler-se:

A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.

Todo o ser humano é falível.

Felizmente!

Em 1944, José Saramago casa com a pintora Ilda Reis.
Entre 1954 e 1964, Isabel da Nóbrega viveu com o crítico João Gaspar Simões, que nunca perdoou ter sido trocado por um obscuro jornalista e tradutor.

A relação com Saramago durará de 1970 a 1976.

Pelo próprio Saramago fica a saber-se que Isabel da Nóbrega lhe abriu portas e novos caminhos.

Completamente despropositado e idiota existir quem defenda que foi Isabel da Nóbrega quem ensinou José Saramago a escrever.

Antes de Isabel, Saramago já era escritor.


Nota do editor: não foi possível encontrar uma fotografi de José saramago com Isabel da Nóbrega.

Legenda:
a) José Saramago, a mulher Ilda Reis, a filha Violante.
b) Isabel da Nóbrega.
c) José Saramago e Pilar.

segunda-feira, 16 de março de 2015

ANTÓNIO BOTTO



Um dos maiores poetas da língua portuguesa.

Fernando Pessoa considerou-o o seu maior mestre na poesia.

O crítico João Gaspar Simões escreveu que a poesia de António Botto põe-nos diante de um dos mais delicados problemas do amor.

Federico Garcia Lorca: bom e amável como criança predestinada, conhecê-lo e ouvi-lo é ganhar tempo aprendendo muita coisa que só ele sabe dizer como ninguém.

Camilo Pessanha considerou Botto como um assombroso artista, um extraordinário poeta.

Para Raul Brandão, António Botto era o grande mestre da poesia moderna.

Poemas seus constam da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia:

A suprema originalidade de António Botto reside, sobretudo, no desassombro com que procura redimir o lado negro do erotismo, disputando luminosamente a homossexualidade a uma maldição que até aí a aprisionava à grilheta da sátira ou da musa obscena.

Em Novembro de 1942, foi demitido da função pública, era escriturário de primeira classe do Arquivo Geral de Identificação, por não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social, por fazer versos e recitá-los durante as horas regulamentares do funcionamento da repartição, prejudicando assim não só o rendimento dos serviços mas a sua própria disciplina interna.


Cinco anos depois, foi para o Brasil, levo comigo os meus versos, a minha alma e a minha angústia, mas a sua vida não deixou de ser atribulada.

Nos últimos anos, vivia da caridade alheia, vinte cruzeiros por um poema.

Na noite de 4 de Março de 1959, ao atravessar uma rua no Rio de Janeiro, foi atropelado, vindo a morrer no dia 16.

Tinha 61 anos.

Em 29 de Outubro de 1965 os seus restos mortais foram trasladados para Lisboa, por via aérea, mas só em 11 de Novembro de 1966 foram depositados num gavetão no Cemitério do Alto de São João.

 Na cerimónia fúnebre estiveram presentes, entre outras personalidades do meio intelectual, José Régio, Ferreira de Castro, David Mourão-Ferreira, Luís Amaro, Natália Correia. Assis Esperança, Dórdio Guimarães.

António Botto é, hoje, um poeta esquecido.

Não é o único.


Legenda: retrato de António Botto da autoria de Almada Negreiros.

                 Notícia do Diário de Lisboa de 10 de Novembro de 1966.               

terça-feira, 30 de outubro de 2012

OLHAR AS CAPAS


Confissões

Jean-Jacques Rousseau

Tradução: Fernando Lopes-Graça
Introdução: João Gaspar Simões
Colecção Documentos Humanos nº 3
Portugália Editora, Lisboa, Novembro 1964

Vou empreender uma coisa sem exemplo, e cuja realização não será imitada. Quero mostrar aos meus semelhantes um homem em toda a verdade da natureza, e esse homem serei eu. Eu só. Sinto o meu coração, e conheço os homens. Não sou feito como nenhum dos que tenho visto; ouso crer não ser feito como nenhum dos que existem. Se não valho mais, sou pelo menos diferente. Se a natureza fez bem ou mal, ao quebrar o molde em que me vazou, é o que só poderá ser julgado depois de me haverem lido.