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terça-feira, 19 de maio de 2020

ÁLCOOL


Partir,
sim, mas partir realmente,
definitivamente,
cobra que deixa a pela já crestada dos sóis
e se empoleira nas árvores como um pássaro

Partir,
mas com a espontaneidade de quem sente que parte,
e não com o desespero
de quem quer fazer-se partir.
Partir,
que os hotéis de luxo têm seus quartos guardados para mim,
e os salões embandeirados de luz
esperam-me.
Partir para Jungfraus e Niagaras,
e à noite embriagar-me entre cristais e mulheres!

Depois,
raspar com as unhas no chão e enterrar-me,
deixando os olhos de fora
para que neles poise
o último orvalho da manhã.

João José Cochofel em 46º Aniversário 

segunda-feira, 23 de março de 2020

OUTROS SERÃO



Outros serão
os poetas da força e da ousadia.
Para mim
-ficará a delicadeza dos instantes que fogem
a inutilidade das lágrimas que rolam
a alegria sem motivo de uma manhã de sol
o encantamento das tardes mornas
a calma dos beijos longos.

(Um ócio grande. Morre tudo
           dum morrer suave e brando...)

Que os outros fiquem com o seu fel
as suas imprecações
o seu sarcasmo.
Para mim
será esta melancolia mansa
que me é dada pela certeza de saber
que a culpa é sempre minha
se as lágrimas correm.

João José Cochofel

quarta-feira, 27 de junho de 2018

BATE A NOITE AS ASAS CONTRA O POENTE


Bate a noite as asas contra o poente
e tinge de escuridão as águas côncavas
que vêm dormir nos poços de silêncio
abertos sobre o mar
enquanto a risca do sol
lança uma ponte de luz
até às distâncias oceânicas
onde o dia vai alto.

Parte destas penedias um aceno
de quem viu nascer Vénus das ondas,
vogar o carro de Neptuno,
Hércules abrir a pulso o caminho a Colombo.

Um aceno distante.
Até vós, dominadores efémeros
de napalme, jazz e plástico,
coisas de que ninguém se lembrará
daqui a três mil anos.

Nem dos mortos
que jamais ressuscitarão.

João José Cochofel em 46º Aniversário

domingo, 8 de abril de 2018

ACORDEI HOJE TÃO DESAMPARADO


Acordei hoje tão desamparado
como se existisse só no Mundo
e a roda do Tempo tivesse parado.

O Outono declina. Voltará o grito
das aves de arribação
com Abril no bico?

Voltará, sim, para ti, árvore
que o não sabes
e te carregas de frutos na época devida.

Mas para ti, homem
que chegaste
ao outono da vida?

João José Cochofel em46º Aniversário

sábado, 13 de janeiro de 2018

QUANDO A ANGÚSTIA...


Quando a angústia me passa a corda ao pescoço
e das noites em branco
surgem todos os sonhos enforcados,
então apareces,
fantasma som contornos.
Nem sei dar-te o nome.
Apenas o rebate precipitado do coração te anuncia
E uma saudade dura que todo o corpo informula.

João José Cochofel em 46º Aniversário

sábado, 15 de abril de 2017

A POESIA NÃO É UM CARTÃO DE IDENTIDADE


Rio-me dos que fazem
profissão de poeta.

A poesia não é um cartão de identidade
para exigir nas relações cosmopolitas.
A poesia não é a prova malabar
das teorias dos exegetas.

Talvez a poesia seja afinal e apenas isto
apenas esta maneira discreta de adivinhar
os nexos ocultos que existem
entre a espera cansada dos homens
e o hálito fresco da maresia,
a violência quente das searas,
a nitidez metálica das máquinas.

João José Cochofel em 46º Aniversário

quarta-feira, 29 de março de 2017

SIM, É VERDADE, NÃO TENHO MOTIVO


Sim, é verdade, não tenho motivo
para esta tristeza, o desalento
que logo de manhã em mim acorda
com o abrir da janela e a certeza

de que outro dia igual em vão começa.
O sol, a chuva, a névoa, sempre o tédio
dos passos repetidos tudo aplaina.
O trabalho repugna, a arte enjoa

mastigada sem fome. Que fastio
por tudo! Mas não sei porquê, se o amor,
a esperança, resistiram ao pó do tempo,

secretos e intactos ao desgaste.
Que anemia soluça no meu sangue?
Dou-lhe o nome de exílio. Há quantos anos!...

João José Cochofel em 46º Aniversário

Legenda: José Gomes Ferreira e João José Cochofel no Senhor da Serra

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Visconti amigo,
tanto eu como tu nascemos tarde.
Ambos amamos os palácios,
ambos amamos as ruínas
que o tempo poupar, e as outras
mais ruínas ainda
por não querermos poupá-las.

Ruínas. Outono. Nostalgia.
Um agasalho, um ninho
da futura alegria.

João José Cochofel em 46º Aniversário.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


46º Aniversário

João José Cochofel
Prefácio de Urbano Tavares Rodrigues
Colecção Poetas de Hoje nº 20
Portugália Editora, Lisboa, Maio de 1966

Não,
não temos alma,
amigos poetas de longe,
não temos alma para cantar a certeza
até ao fundo.

A que revela ao mundo,
mesmo nas horas instáveis,
os olhos de Elsa
e os corpos memoráveis.
E traz com ela
o cio que acorda a terra
e tanto dá as árvores ao vento
e as praias ao mar,
como os seios às mãos
e os sexos à gula
de um corpo, lua tangível
e desnuda
em vossos versos reflectida.

Ânsia que vos não erra,
poetas de longe,
límpidos olhos
onde dorme a exacta flor prometida.

Num silêncio trespassado de lágrimas
mais duras que as choradas,
outro era o quinhão que nos cabia:
a cantar esta secura
de água sem nascente.
Um brejo de agruras
onde calam todas as fontes
dos dedos brotadas.

Enquanto num frémito de violinos
molhados de espanto de furar a treva
despertam flutuações carnais abrindo,
tão naturais
como te queremos, Terra!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O DIA SEGUINTE


Como só meia-dúzia de amigos nos lêem, não houve reparos ao facto de não termos deixado, por aqui, votos de um Bom Ano.

Ainda houve quem pensasse nisso, mas não apareceram pernas para andar.

Agora que terminadas estão as festividades (?), voltamos á realidade.

Alguma vez deixou de estar presente?

Por um destes dias, José Pacheco Pereira escrevia no Público que em 2013 nada vai correr bem.

Tudo o que está suficiente será medíocre. Tudo o que está mau ficará pior. Pobreza, desemprego, economia, dívidas, falências, direitos, liberdades, garantias, corrupção, ataques à democracia.

Em 1945, Fernando Lopes Graça, convocou os melhores poetas portugueses, pediu-lhes poemas e compôs música para esses poemas.

Chamou-lhe as Canções Heróicas.

As Canções Heróicas foram proibidas durante a ditadura, e apenas pós  25 de Abril voltaram a ser editadas, mas nunca deixaram de ser cantadas.

Não foi em vão que um ministro de Salazar disse ser mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.

A cantora lírica Ana Maria Pinto, nas comemorações oficiais do último 5 de Outubro, depois de Cavaco Silva ter proferido o seu discurso, cantou Firmeza, poema de João José Cochofel, uma das tais Canções Heróicas de Lopes Graça.

Ana Maria Pinto explicou, então, aos jornalistas que foi uma forma de mostrar a sua discordância em relação ao rumo do país. A cantora lírica já tinha cantado Acordai à porta do Palácio de Belém no protesto que decorreu no dia do último Conselho de Estado.

Fica aqui o poema.

Diz tudo o que há para dizer, nos primeiros passos de um Novo Ano:

Sem frases de desânimo,
Nem complicações de alma,
Que o teu corpo agora fale,
Presente e seguro do que vale.

Pedra em que a vida se alicerça,

Argamassa e nervo,
Pega-lhe como um senhor
E nunca como um servo.

Não seja o travor das lágrimas

Capaz de embargar-te a voz;
Que a boca a sorrir não mate
Nos lábios o brado de combate.

Olha que a vida nos acena

Para além da luta.
Canta os sonhos com que esperas,
Que o espelho da vida nos escuta.