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quarta-feira, 27 de junho de 2018

BATE A NOITE AS ASAS CONTRA O POENTE


Bate a noite as asas contra o poente
e tinge de escuridão as águas côncavas
que vêm dormir nos poços de silêncio
abertos sobre o mar
enquanto a risca do sol
lança uma ponte de luz
até às distâncias oceânicas
onde o dia vai alto.

Parte destas penedias um aceno
de quem viu nascer Vénus das ondas,
vogar o carro de Neptuno,
Hércules abrir a pulso o caminho a Colombo.

Um aceno distante.
Até vós, dominadores efémeros
de napalme, jazz e plástico,
coisas de que ninguém se lembrará
daqui a três mil anos.

Nem dos mortos
que jamais ressuscitarão.

João José Cochofel em 46º Aniversário

domingo, 8 de abril de 2018

ACORDEI HOJE TÃO DESAMPARADO


Acordei hoje tão desamparado
como se existisse só no Mundo
e a roda do Tempo tivesse parado.

O Outono declina. Voltará o grito
das aves de arribação
com Abril no bico?

Voltará, sim, para ti, árvore
que o não sabes
e te carregas de frutos na época devida.

Mas para ti, homem
que chegaste
ao outono da vida?

João José Cochofel em46º Aniversário

sábado, 13 de janeiro de 2018

QUANDO A ANGÚSTIA...


Quando a angústia me passa a corda ao pescoço
e das noites em branco
surgem todos os sonhos enforcados,
então apareces,
fantasma som contornos.
Nem sei dar-te o nome.
Apenas o rebate precipitado do coração te anuncia
E uma saudade dura que todo o corpo informula.

João José Cochofel em 46º Aniversário

sábado, 15 de abril de 2017

A POESIA NÃO É UM CARTÃO DE IDENTIDADE


Rio-me dos que fazem
profissão de poeta.

A poesia não é um cartão de identidade
para exigir nas relações cosmopolitas.
A poesia não é a prova malabar
das teorias dos exegetas.

Talvez a poesia seja afinal e apenas isto
apenas esta maneira discreta de adivinhar
os nexos ocultos que existem
entre a espera cansada dos homens
e o hálito fresco da maresia,
a violência quente das searas,
a nitidez metálica das máquinas.

João José Cochofel em 46º Aniversário

quarta-feira, 29 de março de 2017

SIM, É VERDADE, NÃO TENHO MOTIVO


Sim, é verdade, não tenho motivo
para esta tristeza, o desalento
que logo de manhã em mim acorda
com o abrir da janela e a certeza

de que outro dia igual em vão começa.
O sol, a chuva, a névoa, sempre o tédio
dos passos repetidos tudo aplaina.
O trabalho repugna, a arte enjoa

mastigada sem fome. Que fastio
por tudo! Mas não sei porquê, se o amor,
a esperança, resistiram ao pó do tempo,

secretos e intactos ao desgaste.
Que anemia soluça no meu sangue?
Dou-lhe o nome de exílio. Há quantos anos!...

João José Cochofel em 46º Aniversário

Legenda: José Gomes Ferreira e João José Cochofel no Senhor da Serra

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Visconti amigo,
tanto eu como tu nascemos tarde.
Ambos amamos os palácios,
ambos amamos as ruínas
que o tempo poupar, e as outras
mais ruínas ainda
por não querermos poupá-las.

Ruínas. Outono. Nostalgia.
Um agasalho, um ninho
da futura alegria.

João José Cochofel em 46º Aniversário.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


46º Aniversário

João José Cochofel
Prefácio de Urbano Tavares Rodrigues
Colecção Poetas de Hoje nº 20
Portugália Editora, Lisboa, Maio de 1966

Não,
não temos alma,
amigos poetas de longe,
não temos alma para cantar a certeza
até ao fundo.

A que revela ao mundo,
mesmo nas horas instáveis,
os olhos de Elsa
e os corpos memoráveis.
E traz com ela
o cio que acorda a terra
e tanto dá as árvores ao vento
e as praias ao mar,
como os seios às mãos
e os sexos à gula
de um corpo, lua tangível
e desnuda
em vossos versos reflectida.

Ânsia que vos não erra,
poetas de longe,
límpidos olhos
onde dorme a exacta flor prometida.

Num silêncio trespassado de lágrimas
mais duras que as choradas,
outro era o quinhão que nos cabia:
a cantar esta secura
de água sem nascente.
Um brejo de agruras
onde calam todas as fontes
dos dedos brotadas.

Enquanto num frémito de violinos
molhados de espanto de furar a treva
despertam flutuações carnais abrindo,
tão naturais
como te queremos, Terra!