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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


Assinar a Pele
Antologia de Poesia Contemporânea Sobre Gatos

Organização João Luís Barreto Guimarães
Assírio &Alvim, Lisboa, Novembro de 2001

Zoologia: O Gato

Um gato, em casa sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel,
parece um objecto.

Fica assim para que o
invejem — indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

HISTÓRIA CLÍNICA


As mamas da dona Ana eram um
sítio maravilhoso. Maduras (qual
par de mangas) de entre elas saíam
coisas extraordinárias
(notas de 5 para os netos
lenços bordados no Minho) uma ou
outra medalha do mau-génio
do marido. Dessa vez veio à cidade e
o doutor ficou com uma –
ela deixou de poder encravar no meio delas
tudo aquilo e os santinhos
(deste lado uma colina alta e generosa desse
um prado dividido). Num ano
levou-lhe a outra e outra levou-lhe
o marido (ainda há mulheres com sorte:)
está
enfim livre de perigo.

João Luís Barreto Guimarães

Poema colocado por Nicolau Santos na sua coluna de Economia no Expresso, 15 de Março de 2014.

sábado, 28 de dezembro de 2013

ESTAMOS DENTRO DOS DIAS


estamos dentro dos dias eu: na cidade do mar hoje é Dezembro
quase Natal quase partilha conheço alguns que têm contribuído
para a construção da terra (oh peço perdão desculpe mas:)

nunca trago trocado comigo. edificamos barreiras nos dias
(a nossa pequena história) reconhecemos nossos passos
desejamos o corpo dos amigos por entre mesas de taberna

entre a sangria e o mimo. na hora de todas as coisas: para
onde vamos? alguém nos irá julgar? talvez não seja esse o
momento final (as partidas foram feitas para se poder
regressar). vivemos para o efémero tentando convencer um

deus mas deuses assim têm um tempo de humanos. passamos
ao lado dos barcos (o tempo avança por sílabas) pode parecer
estranho escrever assim mas é quase manhã e ninguém
confessou ainda quem foi que deu o desfalque no meu coração

João Luís Barreto Guimarães em Natal… Natais, antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Público, Lisboa s/d

Legenda. imagem do filme A Árvore da Vida.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

À CONVERSA


João Luís Barreto GuimarãesTenho o livro Lugares Comuns (2000) que é todo passado à mesa do café. O café é uma metáfora do mundo, é uma segunda casa.
Jorge Sousa BragaOs cafés: quanto mais rascas, melhor. Quanto mais barulho, melhor. O café onde se ouve falar a dona Ricardina, não funciona.

Entrevista no Público, 10 de Fevereiro de 2013.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

BAGAGEM PERDIDA


E
quando encontras no bolso do casaco das viagens
pequenos papéis esquecidos pelo gesto de
os reteres? Não o fazes por acaso. Investes
na epifania de veres regressar à mão
uma entrada nos Uffizi (a
magnificência
do Vasa) as cores da
Casa Batlló. Nesses papéis onde a data é
o cotão do que passou
reside a ilusão de te evadires daqui –
deste país a fingir que não
te deixa crescer (Europa
de ouropel) lesto
a nivelar por baixo. Chegam-te
vindos do nada quando já nada esperavas
(assim é este país
quando tornas de viagem:)
estás no carrossel dos dias e
nunca mais é a tua mala
(nunca mais
é a tua mala) nunca mais é
a tua mala.

João Luís Barreto Guimarães, poema inédito, citado do Público de 14 de Janeiro de 2012.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O ESPÍRITO DO NATAL


Ano após ano em Dezembro a
árvore artificial
deixa o encerro da cave para ser
a luz do frio. É um pinheiro da China. Quem
se deitar a fazer contas ao ágio
dessoutro negócio
(vinte e quatro mil escudos: já
lá vão nove invernos) a
coisa
está mais ou menos por
dois contos e tal
o natal. Mau grado à sua copa (inerte
 e inodora) falte
o olor a caruma dos natais da minha infância
nela escudo a floresta que ficou por abater
todo um mundo de plástico que
me sobrevirá.

João Luís Barreto Guimarães

Poema retirado de “Natal… Natais”, antologia de Oito Séculos de Poesia Sobre o Natal, organizada por Vasco Graça Moura, “Público”, Lisboa s/d