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segunda-feira, 4 de março de 2019

MAR DE SETEMBRO/OSTINATO RIGORE


Sobre a mesa os dois livros. Somente um
volume do “Mar de Setembro”, mas do “Ostinato
Rigore”, três exemplares. O meu, o do Manuel, o
do Joaquim. No final do dia ainda se juntaria

um outro, o do José Manuel Bulhão Martins.
Comprados nessa manhã na Guimarães; os três
decidiam-se pelo novo título, eu permaneci fiel,
até hoje, ao mar de setembro. Nenhum deles tinha

a minha relação com o mar, por isso viam no
verso de Eugénio um jovem a trabalhar a terra
vermelha do verão – o seu tronco, o vigor da argila vermelha do verão
mas o mar de setembro dava-me o melhor nadador
de agosto, o que perseguia desde maio até às marés vivas
o apelo absurdo da beleza
o espaço de tempo de um relâmpago

«com o rosto para sempre perdido / com o sorriso e
a sua tez dourada» algum de nós disse, mas nenhum
o chegou a escrever nas folhas que se espalhavam
sobre as mesas de fórmica.

João Miguel Fernandes Jorge

Legenda: Eugénio de Andrade

terça-feira, 1 de março de 2016

O QU'É Q"UE VAI NO PIOLHO?


O cinema não é uma paixão inocente. Forma-se através de ideias claras, pois só elas conseguem conduzir a treva a lugar seguro. Chega-se à sua imagem por um caminho de excessos e, se estes são a sua autonomia e independência, também constituem o seu pecado.

João Miguel Fernandes Jorge em O Que Resta Amanhã

Legenda: Marilyn Monroe

quinta-feira, 16 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Despeço-me da Terra da Alegria

Ruy Belo
Prefácio: João Miguel Fernandes Jorge
Capa: F.C.
Colecção Forma nº 10
Editorial Presença, Lisboa, 1978

Despeço-me da Terra da Alegria

Os pássaros da noite povoavam
 as tílias desta minha solidão
O juízo severo dos seus olhos
de olhar onde cabia o pensamento
a luz e a sombra de uma geração
precariamente iluminavam uma alma
que punha a salvação no mais profundo sono
Um castanheiro filho descuidado do meio-dia
de uma ramagem lenta e ondulante
sorria com sorrisos litorais
em um jardim em flor do meu desejo
Homenageio aquela primavera
primeira primavera da amizade.
Tudo era pensamento para ele mesmo até
caminhos que não levam a qualquer
parte sabida ou sequer desconhecida.
Belo país da arte eu te saúdo
as imagens levantam-se no ar
e um mundo litúrgico somente imaginado repovoa
as sendas dos amantes verdadeiros
onde as palavras só vinham depois
Põe só a tua mão perto de mim sob os
lobos de pedra em cada capitel
Oceanos de olvido na memória
esse país longínquo donde venho
nuvem de vida sobre a minha morte
Apaga o tempo de uma má reputação
anos de inquietação, de espanto, de vergonha
estrela da minha infância ergue-te de novo
tu que eras para mim o sol a lua
deslumbrante, manhã da existência

(excerto)

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

AINDA POR CIMA SE TEM UM LUGAR GARANTIDO NO CÉU



Em Queluz, 1978, morre Ruy Belo – um tipo porreiro que escrevia uns versos e gostava de futebol.

ENTÃO AGORA VAMOS FICAR SEM O RUY BELO

Quando morre um poeta é fatal a ANOP
«sempre em cima do evento» debita o seu telegrama
tantos anos uma «obra ímpar» etc.
foi assim com o Ruy Belo mas o flash
pedia para não se dar a notícia o que me levou
à conclusão irresistível de que mais uma vez este
se entretinha a reinar aos cowboys
ó Ruy tu mascarado de Jesse James o vingador vingando
as malas-artes da retórica idiota
o que me levou à conclusão irresistível
de que
esperaria mais pormenores para «confirmação da informação»

seguiram-se telefonemas de recurso a localizar em férias
o João Miguel Fernandes Jorge não estava
no Bombarral em casa dos pais não estava na Consolação
Lisboa: ele próprio atende e diz
que o Ruy Belo
foi-se em Queluz de não entende o quê
asma ou parecido há o problema do funeral quando
mas certamente para a aldeia «João» e ele
responde baixo «sozinho» «tinha vindo tratar de una papéis»

a porra da a triste da a caca da vida que levamos sacudida sobre os ombros
passa esse dia do telegrama da ANOP os jornais afinal noticiam
redijo setenta linhas que acompanho com uma chamada de primeira página em
      positivo sobre rede pensando muito na hipótese de um dia um colega meu sacar
      da máquina um telex ou ouvir ao bogophone olha o gajo marchou dá lá recados
e o chefe (o meu sucessor de carteira) breve a «duas colunas com foto» havendo
      apesar de tudo um certo cuidado porque era da «malta»
e tu que eras da malta não tive cuidado nenhum fui um coiro devia esmerar-me
devia mesmo esmerar-me

então agora ficamos sem o Ruy Belo

Fernando Assis Pacheco em Lote de Salvados

PORTUGAL SACRO-POFANO
VILA DO CONDE

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vendo música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a puco e puco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

Ruy Belo Em Homem de Palavra(s)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

POSTAIS SEM SELO


A casa é onde temos o coração.

João Miguel Fernandes Jorge

Legenda: pintura de Hendi Malott.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

COMBOIO CORREIO



O comboio correio das 10 da noite partia da
minha terra para Lisboa. Fui tantas vezes
com o meu pai levar as cartas. Esperávamos
na gare. Se havia chuva ouvíamos o apito
quando passava à Granja vindo de Óbidos e

depois de correr o vale de S. Mamede.
O que mais me seduzia era o seu peso o negro
da máquina o movimento do êmbolo a nuvem de vapor
correndo toda a gare. Chegava entre videiras e
pântanos. O chefe da estação de

bandeirinha verde dava o sinal de entrada. Era
o intenso barulho os ferros da travagem
o bater das portas as carruagens verdes
enegrecidas, os castanhos wagons. Máquinas de carvão,
a diesel depois. O degrau de madeira ao

longo da carruagem, o romano nas portas I, II, e III.
Anos depois, já de mim se dizia «um homenzinho»
viajei nesse comboio das 10. Partia de
Coimbra, às cinco horas. Pelos campos do Mondego

a água, a matéria do ferro, confundi
com o caos. Reconheço neste comboio a forma
obscura, a intuição ridícula das imagens. A noite
corria de mistura com a triste lâmpada do
corredor, benefício do mistério, fogo fechado pela

trovoada sobre os campos do arroz, sobre o pinhal de Leiria.
Viajava em segunda. Vinha para casa no natal.
Eu tinha um emblema, vermelho e branco dos suíços,
na lapela do sobretudo. O meu irmão, as mãos
gretadas das frieiras sob umas luvas azuis. No

banco em frente,
uma professora de geografia rezava o terço
atenta à formação do espírito científico nascente.
Descolorido amor humano,
fornalha de comboio, coração das coisas a noite
corria fora e dentro da carruagem verde.

Meu pai estava na gare.
A longa fita de cabedal para fechar, abrir as
janelas. A rede onde pousava as malas.
Os corridos bancos de madeira ficavam na III.
Um guarda republicano cerrava todas as

noites sobre o azul do capote a portinhola.
O traço do comboio separa o céu da terra sob as estrelas
sob o limite da chama
a arte tanta vez a natureza.

João Miguel Fernandes Jorge

Legenda: fotografia tirada daqui

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

NUMA CIDADE DISTANTE


Um café onde não entro há vinte
anos. Numa cidade distante o café
ainda existe, mas é um corpo
esboroado e sujo. E desapareceram
os seus antigos clientes.
Um corpo que tive no meu corpo, um
instante  que durou nos meus dias
entre todos os lábios que estiveram
nos meus lábios
e eu não vou de novo descobri-lo
um amarelo que ficou perdido
na poeira do tempo passado e que
nenhum pintor consegue restaurar na
hora presente,
nem pela primavera de um amor futuro.

João Miguel Fernandes Jorge em O Barco Vazio

sábado, 13 de agosto de 2011

POSTAIS SEM SELO


0 que possuo cabe num bolso do casaco e uma viagem
de comboio é sempre tempo de férias.

João Miguel Fernandes Jorge