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quarta-feira, 19 de abril de 2017

OLHAR AS CAPAS


Sonetos de Amor e Circunstância e uma Canção Desesperada

João Pedro Grabato Dias
Colecção O Som e o Sentido
Edição de Académica Lda, Lourenço Marques, 1975

Um silêncio vazio está demasiado perto da loucura.
Temos de ritmá-lo continuamente. E logo
esvaziá-lo dos especialíssimos silencios do remorso
alimentá-lo sem cessar de outros silencios
dar-lhe sempre e sempre o veludo das carícias.

Passeio-me na solidão como a um cão de luxo.
Povôo-a de regularidades e higiene.
Alço a metafísica como uma pesada para trazeira.
E com a possível e muito estudada simplicidade
jorro-me contente nos bocados mais amargos.

Agora cão, mão e dono e cão, passeio. Passo
por entre goivos dominicais em plástico.
Sou o olho vagaroso a deter viúvas, o sapato
a moer érres de saibro no ondular morno da alameda
o cheiro tudo nada pungente da cera.
E cão, mão, dono, olho, sapato, odor, sigo
curva tensa da trela
satisfatóriamente menos, qualquer coisa mais.  

Abri, suponho, a porta errada.
E saí para dentro desta calma máquina de moer cristal.
Tateio as engrenagens de mucosa
estou todo fora cá dentro, arranho-me e é bom.

Com extrema doçura amarelece a infância
nas caixas ordenadas em cada visita.
Sem pensamento possível, miro-me.
Reconheço-me: olá, subo à nespereira pela malícia acima
toco o arco das bruxas, e, enforquilhado
tiro a broa das alhadas do bife
e berlindo o Universo com dois olhos contentes
e, óbviamente incontáveis, caroços de nêspera.

Pita branca, pita preta, pinta branca – pinta preta.
À volta do olho redondo imobilizam-se as pintas
num plano de atenção. Dona pedrez roufeja
o convite, e o olho faz-se o pórtico enorme
por onde entro a patinar de barriga e um pouco surdo
no labirinto sem curvas de uma quente ansiedade
e torno a sair à mesa no amarelo do ovo
riso babão reflectido no bojo do candeeiro
a falar baixo da avó, o brilhar dos dentes da avó
o esmalte laranja das caçarolas, o tinir das malgas
o encher lento e morno da barriga a apertar o corção.
(o João pestana entrou agora e cerrou a porta
Avó tenho tosse. Queres um patacão?Toma.)
Do forro pingam bordões da guitarra.
E da boca da guitarra sai um silêncio grosso e contente
como  um jorro de sangue que me lava os olhos
me rodeia, me embala e onde navego
no exatíssimo instante que antecede
o grande mergulho no meio do Sol.

Recortada no estanho da hesitação tremeluz a sardinha.
Busca os fundos da memória, fende a carne mais antiga
Desce fresca entre duas águas, crepita num azul de escama
Meigo e seguro bisturi asséptico, a sardinha, revela agora
o pequeno nódulo perlífero que cresce girando
e, subitamente mole, é o branco duro da duna
é o orvalho das camarinhas, é o barulho morno dos pés na caruma
é um besugar sem vento nas canas, um rasquinhar de formigas
é o espantoso silencio do mar, só evidente
no segundo após a vaga quebrada

Buraco movediço na paisagem, borrão preto
elástico, roja a sombra que projecta
e transporta sem custo duas palhetas de hipnose.
Não faz ruidos , não é daqui, só vagueia
pelo presente. Determinado num sem rumo certo
presente-se-lhe a cabeça cheia de esmeraldas
que saiem em pedradas rápidas e se fundem
imediatamente na luz de antemanhã.
Sinto o peso da bola de sombra
o arripio da cerda na orelha
o apunhalar das unhas na coberta de papa
e o roronar desta máquina de meiguice.
Bichinho gato.
Bichinho. Meu gato,

(Poema ou parte do poema premiado no concurso da Câmara Municipal de Lourenço Marques, recuperado em fragmentos do original.)