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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

OS NEO-REALISTAS DE LISBOA NÃO ME GRAMAM


Carta de Óscar Lopes para António José Saraiva, enviada do Porto em 2 de Setembro de 1969:

Ninguém em Portugal criticou mais desassombradamente os neo-realistas do que eu. O próprio E.L. parece valorizar muito mais o Carlos de Oliveira, o Cochofel, o Joaquim Namorado do que eu! Eu seria incapaz de consagrar um ensaio à poesia de Namorado, com quem aliás me dou bem. Os neo-realistas de Lisboa, em geral, não me gramam, e, como sabes, há uns 11 anos cozinharam um artigo bota-abaixo que o Alexandre Pinheiro Torres assinou. E nunca fui grande admirados do Ferreira de Castro, como creio que tu.
                                 

Legenda: Ferreira de Castro

sábado, 26 de maio de 2018

O TEMPO PASSA


E outras iniciativas, publicações, antologias, a criação do PEN Clube português - possibilidade de encontros à luz do dia -, palestras, recitais on­de houvesse um recinto praticável. Maior ou mais pequeno. Estou vendo, lá para Alcântara, uma ga­ragem da CUF, que era ou me parece hoje que era imensa, cheia de operários erguendo-se de chofre e aplaudindo poesias, entre as quais a minha «Elegia ao companheiro morto», declamada, com a alma toda, pela Maria Barroso. Saia preta, blusa muito branca, uma imagem do povo inconformado. O tempo passa.
 «Convosco ou não, meu galope é em frente./ /Pertenço a outro mundo, a outra raça, a outra gente.// E andar! E andar!» Versos meus, de 42. Tendo ainda, como vêem, uma pontinha de in­fluência brasileira.
 Falei de amigos. Haverá melhor na vida do que tê-los? Muitos? Uns partem de vez (eram amigos a prazo), outros andaram por longe, regressaram, convertidos à ideia de que não há como beber um copo juntos. Nem que seja de café. Só na desgraça se conhecem bem: sabedoria popular. Fi-los em to­da a parte. No sanatório, por exemplo.
 No sanatório, onde, num daqueles dias infindá­veis, recebi, o mais inesperadamente que é possí­vel, uma carta do Joaquim Namorado a propor-me a inclusão do meu livro Poemas, que ele sabia pronto há muito, na colecção a que ele e outros tinham metido ombros e ia chamar-se «Novo Can­cioneiro». Êxito imprevisto. O volume, com uma gravura na capa do Manuel Ribeiro de Pavia, não chegou às livrarias. Vendeu-se rapidamente, de mão em mão, houve quem o passasse à máquina. Foi o segundo volume da colecção, que começara, com Terra, do Fernando Namora, também em 41.
 Fui e sou amigo de um bom punhado de gente. E, todavia (os absurdos da vida!), talvez ninguém tenha cortado tanto relações como eu. Chego a perguntar-me, descontente comigo, se chegará para o Guinness...
 Foi-me sempre difícil suportar, sem corte radi­cal, a mentira, a prepotência, a traiçãozeca. Ado­lescência retardada. Como se um corte de relações pudesse excluir da vida essas misérias pegajosas. Arrependido? Em grande parte dos casos, realmen­te não. Mal que não se tem em frente do nariz sente-se menos, não cheira. Noutros, hesito. No fundo, as pessoas mudam, eu próprio terei mudado alguma coisa. Talvez hoje pudesse conviver sem custo, bem pelo contrário, com gente a que não fa­lo por antigos excessos de rigor. Certas arranhade­las, de que simulei não dar-me conta na altura própria (necessidades de estratégia de outra or­dem), comprovam-me que sim.
 Porque ofensa, ofensa mesmo, e pública, só me lembro de três casos, biliosa de mais num, desrazoada de mais nos outros, para que fale aqui neles. Merecem só silêncio. Além de que até isso o tem­po vai gastando um pouco.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Maria Barroso, fotografia tirada daqui.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

PANCADAS DE MOLIÉRE


Em plena ditadura salazarista, vieram a Portugal algumas companhias brasileiras de Teatro

Recordo-me de o meu pai contar que, nos anos 60, assistiu no Capitólio à representação de A Alma Boa de Sé-Chuão de Bertolt Brecht, pela Companhia de Maria Della Costa, em que metade da assistência era composta por agentes da PIDE e legionários, que no final desataram a patear, mas foram engolidos pela ovação que ecoou pela sala, entremeada com Vivas à Liberdade e à Democracia.

Por sinal, José Saramago numa carta para José Rodrigues Miguéis,  datada de 22 de Março de 1960 fala da proibição das representações da Companhia de Maria Della Costa no Capitólio:

«… sabe que a «rapaziada» do Tempo Presente fez escândalo no Capitólio durante as representações da Alma Boa de Se-Tsuan, do Brecht, pela maria della Costa? Garrafinhas de mau cheiro, gritos de «fora!» e «abaixo!», intervenção da autoridade – um encanto! O cabecilha era o Goulart Nogueira, nazista honrado e confesso, que tem chorado amargamente lágrimas pela morte de S. Hitler, principal santo do seu (dele) agiológico. Conseguiram o que queriam: a peça foi retirada…»

Este é o bilhete que regista a minha presença no Recital que Paulo Autran realizou, no Teatro Monumental, na noite de 19 de Abril de 1966.

Paulo Autran fazia parte da Companhia de Tonia Carrero que, por esse tempo, esteve em Lisboa e aproveitou um intervalo nas representações para este Recital de Poesia.

Um deslumbramento.

Ouvimos o discurso de Marco António em Júlio César de Shakespeare, monólogos do Othelo, outra vez Shakespeare, monólogo do rei Creonte da Antígona de Sófocles, poemas dos poetas brasileiros Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Castro Alves, Carlos Drumond de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Alexandre O’ Neill, Mário Cesariny de Vasconcelos, António Gedeão, Joaquim Namorado.

Antes da recitação dos poemas dos poetas portugueses Paulo Autran teve o cuidado de dizer que no Brasil os poetas portugueses, da moderna geração eram completamente desconhecidos. Foi apenas em Lisboa que, mão amiga, lhe mostrara poemas desses poetas e pedia desculpa pelo pouco tempo que dedicara à  preparação da recitação desses poemas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

OLHARES


Dedicatória de Mário Dionísio para o poeta Joaquim Namorado.

Até domingo ainda podem ver a Exposição no Museu do Neo-Realismo.

domingo, 11 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC


Relógio da sopa? Oh! Lá está ele com o surrealismo.

O relógio de cavalinho da sala de Vítor Silva Tavares, na Rua das Madres (mora na casa da Madragoa onde nasceu, a 17 de Julho de 1937), quando era empenhado, nos seus tempos de miúdo de pé descalço e língua de trapos ("se quiser, língua de Gil Vicente", ironiza), garantia à família caldo melhorado com chouriço de sangue ou naco de toucinho.

A alma da editora & etc orgulha-se da miséria em que cresceu. O que ajuda a perceber a forma como assume uma vida "radicalmente independente", de quem foi retorquindo aos que queriam ser seus patrões que ninguém o punha no "olho da rua", pois nunca de lá tinha saído. Mesmo sabendo "a moeda que se paga por um suplemento de liberdade, que - essa sim - é impagável".

O criador da chancela livreira marginal é filho de um maquinista da marinha mercante, que terá privado com o líder comunista Bento Gonçalves no Arsenal e tinha uma biblioteca que ia de Alves Redol a Paço d'Arcos - todos os títulos devorados por Vítor, leitor compulsivo desde que começou a juntar sílabas, não lhe importando se a obra era assinada por Zola, Salgari ou Spillane -, e de uma mulher que tanto trabalhava nas descargas de carvão e peixe como na fábrica das anchovas e, na sua imaginação cinéfila, era uma Anna Magnani.O miúdo que a avó, remendeira de velas de barcos e cantora de fados em tabernas, levava à sopa dos pobres do Sidónio, chegou a ver filmes atrás do ecrã - "o cavalo de John Wayne, em vez de cavalgar da esquerda para a direita, andava ao contrário". Mais tarde, trocaria os piolhos pelos cineclubes, os musicais da MGM pelo neo-realismo italiano - e lembra que este cinema permitiu a Joaquim Namorado dar um nome ao realismo socialista português.



Filho ilegítimo, pela legislação da época, foi rejeitado na escola oficial e frequentou aulas particulares em casa de duas velhotas, que ensinavam pela pedagogia da I República e liam passagens de poemas de Junqueiro e João de Deus que o futuro editor de nomes como Pedro Oom, Cesariny ou Herberto Helder, o amigo de Manuel da Fonseca, de João César Monteiro, de outros mais, ainda sabe de cor. Aluno de quadro de honra, mas revoltado no liceu da elite, num exame do 5º ano (actual 9º) atirou o hemisfério de Magdeburgo à cabeça do professor e foi expulso
Coleccionou ofícios, de empregado de escritório numa firma importadora de bisturis cirúrgicos a pintor de Cristos a óleo que um marchand vendia para conventos. Fez cenografia e adereços no teatrinho de bolso das Janelas Verdes - e Almada ficou encantado com os figurinos dos anjos que Vítor Silva Tavares concebeu para a peça Deseja-se Mulher.


Em África, foi examinador de cartas de condução em Angola (embora sem nunca ter tido o documento que o habilitava a conduzir), jornalista de O Intransigente e director de informação do Rádio Clube de Benguela. Ali rodou, com Juca Branco, Uma História do Mar, que, se ainda existisse cópia, talvez fosse o primeiro filme de ficção angolano. Depois, escreveu crónicas de cinema na revista Flama, contos no Diário Popular, crónicas no República, textos sobre as mulheres no Jazz na Crónica Feminina, coordenou o suplemento literário do Diário de Lisboa.

Aos 24 anos, era director literário da Ulisseia e, nos dois ou três anos em que esteve na editora, publicou obras como Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon (que "era a Bíblia dos guerrilheiros africanos"), ou Viagem ao Fim da Noite, de Céline ("o que me valeu ser considerado um reaça do pior"). Além dos censores, tinha a visita, "mês sim, mês sim", de brigadas da PIDE, pois lançava títulos como Praça da Canção (Manuel Alegre) ou Feira Cabisbaixa (Alexandre O'Neill). Ao publicar Crítica de Circunstância (Os Doutores, a Salvação e o Menino Jesus), de Luiz Pacheco, um polícia político perguntou a Vítor Silva Tavares se não lhe parecia que farsista, como era designado o tirano Herodes, era parecido com fascista.
Em 1967, quando o Jornal do Fundão foi suspenso por seis meses, preparava-se um magazine de letras, artes e espectáculos para se publicar naquele semanário oposicionista, mas com a sageza de evitar que fosse logo proibido. E no primeiro dos 26 números desse suplemento & etc - que haveria de ser revista autónoma de 1973 a 1974, tornando-se, depois, apenas editora - havia textos sobre o filme Pedro, o Louco, o fadista Alfredo Marceneiro e o novo bar Snob.

O nome foi inventado por José Cardoso Pires, que nunca esqueceu o concelho de Aquilino, após lhe entregar um exemplar do livro de estreia, Os Caminheiros e Outros Contos : "Sabe o que é preciso para se ser escritor? Orelhinha!" E foi assim que, ao correr da conversa sobre o magazine, notando que Vítor Silva Tavares repetia a expressão & etc (talvez reminiscência do seu livro angolano Hot e Etc), Cardoso Pires soltou uma espécie de eureka.
E como está a chancela de culto, que só faz pequenas tiragens e (excepto O Bispo de Beja, apreendido pela PJ) nunca reedita qualquer título? "Está há 36 anos na falência", diz o amante de livros, que não tem automóvel, computador ou telemóvel.

Fernando Madail em Diário de Notícias, 4 de Setembro de 2010

Legenda: conjunto de capas de livros publicados pela &etc tiradas de &etc Uma Editora no Sibterrâneo

terça-feira, 28 de abril de 2015

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO


Série de nove "fascículos de poesia" publicados no Porto, entre 1957 e 1961, sob a direção de Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro. Incluíam poesia empenhada, que se insurgia contra o mundo circundante (a violência, a injustiça, a falta de liberdade) e afirmava o valor da solidariedade com o próximo.
A designação da revista, retirada do título de um poema de Egito Gonçalves, publicado no 4.° fascículo de Árvore, remete para um programa de poesia de resistência, aludindo metaforicamente ao cerco a que estavam submetidos os intelectuais portugueses.
Sem apresentar texto programático, nem textos de crítica ou teoria poética, a publicação reúne criação poética de autores com opções estéticas diversas (além da direção, Jorge de Sena, Casais Monteiro, Miguel Torga, Afonso Duarte, António José Fernandes, Vasco Costa Marques, Mário Henrique Leiria, Maria Almira Medina, João Ribeiro Melo, Orlando da Costa, José Fernandes Fafe, António Reis, Daniel Filipe, Joaquim Namorado, João Rui de Sousa, Alexandre O'Neill, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, José Augusto Seabra, Pedro Alvim, Maria Teresa Rita, Gastão Cruz), mas que colaboram sistematicamente com composições subordinadas a um intuito de denúncia e combate. Cada fascículo incluía, ainda, nas últimas páginas, tradução de poetas estrangeiros (Brecht, Guillevic, Stephan Hermlin, Jorge Carreara Andrade, Jean Todrani, Nicolau Vaptzarov). Os fascículos 6 e 8 são dedicados a poetas moçambicanos e angolanos.

Da Infopédia, Porto Editora

Este é o poema Notícias do Bloqueio de Egito Gonçalves, do livro A Viagem com o Teu Rosto (1958) e reunido em Os Arquivos do Silêncio:

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

Notícias do Bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
             e a esperança reproduz-se 


Esta é a canção Let My People Go cantada por Paul Robeson e referida no poema de Noémia de Sousa Deixa Passar o Meu povo