Mostrar mensagens com a etiqueta Joaquim Namorado Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Joaquim Namorado Poemas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 16 de julho de 2018

AVISO À NAVEGAÇÃO


Alto lá!
Aviso à navegação!
Eu não morri:
Estou aqui
na ilha sem nome,
sem latitude nem longitude,
perdida nos mapas,
perdida no mar Tenebroso!

Sim, eu,
o perigo para a navegação!
o dos saques e das abordagens,
o capitão da fragata
cem vezes torpedeada,
cem vezes afundada,
mas sempre ressuscitada!

Eu que aportei
com os porões inundados,
as torres desmoronadas,
os mastros e os lemes quebrados
- mas aportei!

E não espereis de mim a paz…

Aviso à navegação:
Não espereis de mim a paz!

Que quanto mais me afundo
maior é a minha ânsia de salvar-me!
Que quanto mais um golpe me decepa
maior é a minha força de lutar!

Não espereis de mim a paz!

Que na guerra
só conheço dois destinos:
ou vencer - ai dos vencidos! -
ou morrer sob os escombros
da luta que alevantei!

                   - (Foi jeito que me ficou
                     não me sei desinteressar
                    do jogo que me jogar.)

Não espereis de mim a paz,
aviso à navegação!

Não espereis de mim a paz
que vos não sei perdoar!

Joaquim Namorado em Novo Cancioneiro

terça-feira, 17 de abril de 2018

A ILHA DOS NAVIOS PERDIDOS


Aqui é a ilha dos navios perdidos,
dos navios abalroados, afundados
nos naufrágios…
Esta é a ilha perdida nos mapas,
perdida no mar dos sargaços;
este é o mar das Tormentas,
das tormentas desta vida,
onde há só tempestades e agoiros;
o céu
é esta noite negra sem limites
onde não vive um astro, uma nuvem ou uma asa;
a terra é esta,
os cascos oscilantes
dos mil navios perdidos:
Naus da Índia,
barcos piratas de moiros,
fragatas e caravelas,
navios dos Corte-Reais
onde jazem insepultos
os heróis mais verdadeiros
e os sonhos mais colossais.
— Nos mastros desmantelados
flutuam,
rotos e desbotados,
estandartes imperiais
e nos porões arrombados,
nos cofres de segredos inúteis,
dormem os tesoiros arrancados
a todos os orientes.

Não há grandeza que baste
quando a desgraça é tamanha!…

Joaquim Namorado em Novo Cancioneiro

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

PORT-WINE


O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova Iorque e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças. 

Nas sobremesas finas as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris. 

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos do cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.
Em Londres, os lords e em Paris os snobs,
No Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino. 

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! — ou morre. 
                  
Joaquim Namorado

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

CAIS


                                        «… o cais é uma saudade de pedra».

Partem navios
e chegam navios
de todos os pontos cardeais,
só eu fiquei
sonhando os orientes
no cais.

Outros partiram...

- Tantas vezes me chorei perdido
e vencido me arrastei
ao sabor das tempestades e dos fados...
Tantas vezes fui o herói da aventura,
o navio naufragado...
e sempre ressuscitei
no cais.

Que em mim vive esta ânsia
sempre nova
da largada.

Eu não amo o que possuo,
o que sou
não é jamais onde estou;
eu sou o ausente:
a posse deixa-me inerte,
só o desejo me abraza...

Só eu fiquei
com saudade de mim
nunca embarcado...

Joaquim Namorado de Navegação à Vela em Novo Cancioneiro

Legenda: fotografia de Artur Pastor

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

LEGENDA PARA A VIDA DE UM VAGABUNDO


Nasci vagabundo em qualquer país,
minhas fronteiras são as do mundo.
Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais dez a matar.

O caminho é longo!...
- Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente…
E nunca o cansaço, é tão grande
que um passo mais se não possa dar.

Joaquim Namorado de Navegação à Vela em Novo Cancioneiro

Legenda: desenho de Cesar Tantapoma