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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

OS GOVERNADORES


Do melhor dos governadores
o povo mal sabe que existe.
Ao que vem a seguir, ama e elogia.
Ao que a este suceder, teme.
E ao que ainda sobreviver, recrimina.

Quando aqueles não regulamentam a fé do povo,
Alguns acabam perdendo a fé neles
e nessa altura recorrem aos oráculos.
Porém, o melhor disto tudo é após os deveres cumpridos e as tarefas terminadas,
o povo inteiro observar: “Fomos nós que realizámos tudo sozinhos”.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

RELACIONADOS


Este poema de Joaquim Pessoa foi musicado por Carlos Mendes e faz parte do álbum
Canções de Ex-Cravo e Malviver editado em 1977.
Num outro, Amor Combate, editado em 1976, Carlos Mendes também musicou poemas de Joaquim Pessoa.
São dois discos de grande qualidade em vinil e que, lamentavelmente, nunca tiveram edição em CD.
Hoje, apenas os podemos encontrar, a preços exorbitantes, em lojas e, em leilão, em sites de vendas de iscos de vinil.
Nos respectivos anos de publicação, a crítica distingui-os como Melhor Álbum do Ano.

Arranjos e Direcção Musical de Pedro Osório.

LADO 1

Lisboa Meu Amor
Palavras
Cantar de Vivo para um Camarada Morto
Nocturno
Monólogo do Operário

LADO 2

Ruas de Lisboa
Balada do Medo
Canto Chão
No Silêncio da Espera
Amélia dos Olhos Doces

Produção de «Toma Lá Disco, SCARL»





terça-feira, 13 de junho de 2017

LISBOA E DESFADOS


Construir a cidade e dá-la a toda gente.
Lisboa é uma cidade que vê com os pés. «andando pensa-se melhor do que sentado», diz o João Botelho
«O que há em Lisboa?» pergunta Bogart na tela da sala escura.
Lisboa de Cesário Verde, «nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, há tal melancolia», Lisboa de José Gomes Ferreira, Lisboa do Armindo «decerto esta é a mais bela cidade de todas as cidades do mundo, e hoje toda a cidade me fala de ti», Lisboa de Eugénio de Andrade «alguém diz com lentidão: Lisboa, sabes…». Lisboa de António de Sousa «de mal te conhecer é que eu sofria, cidade clara em tuas sete colinas!», Lisboa «cidade branca» de Tanner. Ou Fernando Assis Pacheco: «se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa», Lisboa que «cheira aos cafés do Rossio, cheira a castanha assada se faz frio. A fruta madura quando é Verão». Lisboa de José  Cardoso Pires, «logo a abrir, pareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar», Lisboa de José Saramago, Lisboa de José Rodrigues Miguéis, Lisboa de Alexandre O’Neill «se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa»,  a «Lisboa menina e moça de Ary dos Santos», Lisboa de tanta e tanta gente, «chamar-te a ti Lisboa camarada e depois eu sei lá enlouquecer», para citar Joaquim Pessoa, lembrar Desfado da Ana Moura e, hoje, por aqui ficar.

domingo, 14 de junho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Eis a costa do sangue. Aqui nasci, e ouvi cantar os homens. Com eles aprendi a cantar e a sofrer, aprendi o amor e a justiça. Com eles aprendi o verdadeiro nome de todas as coisas. Através deles, pude ver o negro focinho do lobo tingido de sangue. E vi o falcão devorar as entranhas da gaivota.
Era pequeno, lembro-me, e neste lugar o sangue rompia, de súbito, por detrás de tudo, como uma violenta e rápida tempestade de Maio. Então, os homens juntavam-se ou dispersavam, furiosos e ameaçadores, às vezes tristemente calados, com uma doce coragem feita de resignação magoada.
Com estes homens, aqui, na costa do sangue, aprendi a cantar. Depois vi-os morrer. E os seus nomes guardei-os.
Como um vinho. Uma lição.
Por isso o meu canto é um recado.
Por isso o meu nome é uma canção.

Joaquim Pessoa em Canções de Ex-Cravo e Malviver

domingo, 18 de janeiro de 2015

MINHA PALAVRA DITA À LUZ DO SOL POENTE


José Carlos Arydos Santos.

Morreu porque já não queria mais estar vivo.

Ao contrário de Vinicius, não morreu de tanto ter vivido.

Tinha 46 anos.

De cirrose, como se infere da certidão de óbito por que era bebedor com muito gosto.

A rataria deve estar contente, As madamas até vão dar chás-canasta, Pudera! Lá se foi mais um comuna, que alívio.

( José Carlos Gonzalez em O Diário)

Um dos seus últimos actos, foi a assinatura de um contrato para a reedição, pelo Círculo de Leitores, da antologia Vinte Anos de Poesia.

Havia inúmeras garrafas de gin espalhadas pela sala.

Um vulcão de afectividade como lhe chamou esse outro vulcão que foi Natália Correia.

Um ser humano admirável no dizer de José Saramago

Através de um sobescrito lacrado consegui chegar à TV. De dentro do sobescrito saíu a Desfolhada e, sobretudo dois versos que escandalizaram a burguesia: Quem faz um filho fá-lo por gosto.

Quando o Joaquim Pessoa alertou-o para o facto de estar sempre a beber gin, que deveria por isso, ter o fígado mais que sofrido, teve esta resposta: «Cala-te, tu queres é que eu morra para ficares sozinho. Seres tu o poeta do povo. Mas fica sabendo que, quando eu morrer, vai ser em glória. Vai a classe operária toda ao meu funeral e eu, sentado no muro do cemitério, a vê-los passar.
(Em Ary dos Santos – O Homem, O Poeta, O Publicitário de Alberto Bemfeita).

Foi uma enorme manifestação de pesar.

Título de O Diário:

Nunca um Poeta teve um funeral assim.

Foi a assistir ao funeral de Ary dos Santos que Luiz Pacheco decide ser militante do Partido Comunista:

É porque é giro, um gajo morre e vai lá com abandeira no caixão. É que eu tinha visto o enterro do Ary dos Santos a subir a Morais Soares, com eles aos gritos – Ary, amigo, o Partido está contigo! – e pensei: «Isto é o que me convém, porra!» Pagam-me o enterro, pagam-me o caixão e levo a bandeira que me deixa aconchegado. Sabe, é que eu um sou um gajo muito friorento.

(Luiz Pacheco, em entrevista na revista Ler, Verão de 1995, citado de O Crocodilo que Voa de João Pedro George).

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado      não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é seu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já se não fala
‑ é tão vulgar que nos cansa
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
‑ a morte é branda e letal –
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
‑ Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
‑ Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
demagogo       mau profeta
falso médico       ladrão
prostituta       proxeneta
espoleta       televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!


José Carlos Ary dos Santos em Resumo

sábado, 27 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Viver é a coisa menos frequente do mundo.
A maior parte das pessoas existe e isso é tudo.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

HINO DE CAXIAS


Sempre tive como referência que a autoria do Hino de Caxias, pelo menos a sua letra, é do poeta Vasco da Costa Marques. Há fontes que também lhe atribuem a autoria da música.

Também há quem considere que o Hino de Caxias é um trabalho colectivo em que terá colaborado Vasco da Costa Marques juntamente com outros seus camaradas presos na mesma cela em Caxias.

A única versão que possuo do Hino de Caxias faz parte de uma gravação ao vivo, editada em cassette, de um espectáculo realizado no Pavilhão dos Desportos, nos dias 18 e 19 de Março de 1977, com texto de José Carlos Ary dos Santos, Manuel Branco, Joaquim Pessoa, Rui Pedro, João Rodrigues, Ruben de Carvalho e publicada pelas Edições Avante.

Todas as canções interpretadas no espectáculo têm indicação dos respectivos autores, excepto o Hino de Caxias o que, provavelmente, remete para a sua autoria colectiva.

Seja como for, trata-se de uma peça importantíssima da luta contra a ditadura.

 Longos corredores nas trevas percorremos
sob o olhar feroz dos carcereiros
mas nem a luz dos olhos que perdemos
nos faz perder a fé nos companheiros.

Vá camarada mais um passo
que já uma estrela se levanta
cada fio de vontade são dois braços
e cada braço uma alavanca.

Cortam o sol por sobre os nossos olhos
muros e grades encerram horizontes
mas nós sabemos onde a vida passa
e a nossa esperança é o mais alto dos montes.

Vá camarada mais um passo
que já uma estrela se levanta
cada fio de vontade são dois braços
e cada braço uma alavanca.

Podem rasgar meu corpo à chicotada
podem calar meu grito enrouquecido
que para viver de alma ajoelhada
vale bem mais morrer de rosto erguido.


Vá camarada mais um passo
que já uma estrela se levanta
cada fio de vontade são dois braços
e cada braço uma alavanca. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

PARA OS MEUS ALUNOS


Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos actos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,

gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,

saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vosso rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.

Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.
E os vosso rostos todos
hão-de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade
e a buscá-la juntos e a cumpri-la.

Victor Matos e Sá em Trabalho, antologia poética organizada por Armando Cerqueira, Joaquim Pessoa, José do carmo Francisco Edição do Sindicato dos Bancários, Lisboa s/d