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quarta-feira, 24 de abril de 2019

RUY BELO PORTUGALÊS


Ruy Belo porque é que já não escreves para A Bola?
Agora A bola está mais pobre sem os poetas do futebol
que fazem versos com a mesma saúde de quem faz desporto.

Só nos resta o Carlos Pinhão mas é um gozão
leva tudo a brincar só quer a bola para ele e quando
chega a vez de passar finta-nos transforma a bola
num bolo ou num bicho e nunca
numa laranja  para os jogadores descascarem
uns nos outros.

Ruy Belo não viste a malta ganhar à Áustria
nem o Benfica dar uma tareia no Sporting
(cinco a zero vê bem cinco a zero)
e a GNR dar muito mais no Alentejo.
Ai há quanto tempo a gente não via uma coisa e outra!

Olha abro este livro Português Suave
com o primeiro verso do teu Portugal sacro-profano
lugar onde
a tua poesia ficou por ler e a gente espera
que o Ruy Belo era uma vez
seja dado morto ou vivo
ao povo português.

Ruy Belo não eras mau rapaz
e eles não te mereciam.

Apetece dizer como diria
 a Raquel Maria

Bando de cagalhões!

Joaquim Pessoa em Português Suave.

Legenda: recorte de um dos artigos que Ruy Belo publicou em A Bola, este na edição de 6 de Maio de 1971.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

LISBOA MEU AMOR



Lisboa tem um vestido azul feito de mar e guerra.
E cheira a laranjas maduras.
Quando as gaivotas trazem no bico os primeiros pedaços de sol para acender o dia, Lisboa deixa correr os cabelos pelo Tejo e o Povo pelas ruas.
À mesma hora, a coragem agita no sangue duas grandes asas inquietas.
Por todas as janelas destruídas, já o mar entrou, derrubando acácias cantando hinos de espuma.
E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.

Chamar-te a ti, Lisboa, camarada,
e depois, eu sei lá, enlouquecer.
Que a loucura é quase um grão de nada
e tu tens um nome de mulher.
Ou dizer que és a minha namorada.
Devagar. Não vá alguém saber
que fizemos amor de madrugada
e tu trazes um filho por nascer.
Se eu inventar de noite a liberdade
de poder beijar-te os olhos e morrer,
no teu ventre não há fado nem saudade
mas apenas os filhos que eu fizer.
E pode ser que eu guarde a tempestade
de ter que aqui ficar. E então dizer
que sobre a minha boca ninguém há-de
pôr rosas de silêncio, se eu quiser.

Joaquim Pessoa

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A CAMINHO DAS ESTRELAS



Eternamente
hei-de amar a elegância dos sapatos de ténis
com Bjorn Borg venceu todos os adversários em Wimbledon
e deixou de boca aberta o nosso Ministro das Finanças
e com os quais ainda foi beber
o champanhe pela taça vestidinho de branco
como um anjo loiro e viking mostrando claramente
que nenhuma guerra é possível quando se tem olhos claros
e se usa uma fita no cabelo
sobre os olhos claros

E hei-de amar as finas tranças da 10 a Princesa das Conchas a Bo
Derek
como se amam as sedas importadas de Milão e
sobretudo aquelas covinhas que desesperam a Farrah Fawcett e
fazem adormecer e sonhar os adolescentes
e também o peito fértil que vale mais do que qualquer conspiração secreta
para definitivamente derrubar o Kremlin
amaldiçoando Lenine e todas as galinhas dos Kolkhoses
afinal as grandes responsáveis pela ameaça soviética
na Frente Ocidental

E como se torna evidente seguirei
o conselho das vedetas que desinteressadamente mostram o segredo de
como obter a felicidade através de uma pele aveludada e macia
usando o seu próprio sabonete;
amarei sempre o brinco de Barry Gibb que é um instrumento de paz
uma espécie de contrabomba de neutrões capaz de evitar o holocausto
a única esperança da Ecologia para a defesa e conservação das
espécies no deserto de Calaari e
do lince na Serra da Malcata
tornado um amuleto que nos protege a todos da loucura de Theo Maiman;
o Light Amplification by Stimulated Emissiom and Radiation que
corta uma parede de aço a alta velocidade
e é mais conhecido por Raio laser

Adoro o bigode de Dali e o chapéu de Sinatra
ambos monumentos simples mas significativos da divindade do Homem
quando pelos cinco continentes metade da Humanidade anda de gatas
os chineses ainda nem sequer inventaram o garfo
a macribiótica é o único caminho para o equilíbrio da Civilização Ocidental
e o governo argentino não deixa transferir para a Europa o meteórico Maradona
pelo preço da construção de pelo menos cinco hospitais

E hei-de delirar com as deliciosas gargalhadas dos nossos ministros
e com o ar enlutado que puseram quando faleceu o grande Partisan
e com a pressa que tiveram em emalar o pijama e a máquina de barbear
para estarem presentes no funeral
mostrando ao mundo inteiro quanto lamentamos a morte de Tito
quando mandam carregar a Guarda Nacional sobre as sementeiras no Alentejo
em nome da Lei e da Rosa
por uma sociedade mais justa
e mais fraterna

Estarei sempre ao lado da incomensurável dor dos Tribunais
e dos desgraçados juízes que não tiveram outra solução senão libertar os Pides
mas rezarei para que a morte de Pablo Neruda tenha sido
mais um bluff de Pinochet
e as tripas do duplo que foi a enterrar incendeiem o enxofre
e das alturas de Macchu-Picchu a lava faça levantar as águias e os condores
para que devorem nas praças públicas os olhos do Governo Fantoche
e sejam restituídos às mães os seus filhos mortos
agora de cobre e basalto
coroados de sangue

E seguirei o mesmo trilho das mulas na Província
dizendo os meus versos em esplanadas e colectividades de recreio
em Castro Verde ou Castelo Branco;
escreverei odes de louvor à nossa paciência e direi
para achega ao Problema da Habitação de Ruy Belo
como a Maria Velho da Costa
que de noite todas as casas são pardas
continuando a gostar de bombons e caldo verde
interessado pela notícia da destruição do Baleeiro Sierra
e pela defesa intransigente da BB das focas bebés
comendo sanduíches de presunto com uma dor na alma
como só podem sentir os grandes e verdadeiros artistas
a caminho das estrelas

Joaquim Pessoa em Os Dias da Serpente

terça-feira, 12 de junho de 2018

NENHUMA MORTE


  Eu estava tão perto de ti que tenho frio
  ao pé dos outros.

                                              Paul Éluard

Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas
                                           clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.

Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida e atormentada

desvendará em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.


Joaquim Pessoa de Os Olhos de Isa em Paiol de Pólen

terça-feira, 20 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS



Paiol de Pólen

Joaquim Pessoa
Círculo de Leitores, Lisboa, Agosto de 1983

As casas

Oh as casas as casas as casas suspirou Ruy Belo

Quando olhamos para as casas alguma coisa estremece
alguma coisa chama alguma coisa espera

Olho-te com os olhos das casas respiro-te ao abrir cada janela
e atravesso as portas como se penetrasse o teu corpo
angustiado e nu
conquistando o interior da casa o ventre do teu ventre
soltando meu grito quando o coração em vértice
desce para as mesas
e um fino pó se ouve cair das lâmpadas

Dentro da casa agitam-se as bandeiras do ar
quando os teus passos se moldam ao silêncio
e tudo é escuro espesso e escuro
e nada se passa no meu peito nada em festa corre para as tuas mãos

Se nos olhamos nos olhos olhamos para as casas
porque as casas têm um sol bancos de jardim e lâmpadas
que se acendem apenas com os beijos

Esquecemo-nos de tudo e olhando
construímos as casas
habitamos as casas
amamos as casas
pertencemos às casas
e morremos nas casas procurando conhecer o seu último segredo
sua voz
suas ruínas

As casas vestem o silêncio com uma roupa dura
entregam-no depois em nossas mãos
e permitem-nos palavras boca a boca
e gestos quase puros
porque nenhuma dor magoa a sua própria morte

Todas as casas são
o interior da noite

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

OLHAR AS CAPAS


Os Dias da Serpente

Joaquim Pessoa
Círculo de Poesia
Moraes Editores, Lisboa, 1981

Onde estavas tu quando fiz vinte anos
e tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
para com elas fazer posters cinzeiros e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
ao mesmo tempo que viamos Música no Coração
mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
retalhados na Coreia e no Vietname
nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylan
virando também as costas quando arrasaram Wiriammu e enterraram vivas
mulheres e crianças em nome
de uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
ou Allende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
que ninguém te encontrou em lugar algum.