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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

QUOTIDIANOS


É verdade, era assim que eu imaginava a idade adulta, uma espécie de longo Verão de São Martinho, um estado de tranquilidade, de calma e indolente indiferença, despojada da quase insuportável vizinhança indisciplinada da infância, depois de resolvidas todas as coisas que me intrigavam quando era pequeno, solucionados todos os mistérios, encontrada a resposta para todas as perguntas, e os momentos deslizando quase imperceptíveis, em gotículas douradas, subtilmente, até à quietude derradeira.

John Banville em O Mar

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Mar

John Banville
Tradução: Teresa Curvelo
Asa Editores, Porto, Junho de 2006

Pronunciei o nome dela mas limitou-se a fechar os olhos por breves instantes, indiferente, como se eu devesse saber que já não era Anna, que já não era ninguém, e depois voltou a abri-los e a olhar-me com uma expressão mais dura do que nunca, agora já não de surpresa mas com uma severidade imperiosa, querendo que eu ouvisse e entendesse, o que tinha para dizer. Largou-me o pulso e os dedos tactearam a cama à procura de qualquer coisa. Peguei-lhe na mão. Sentia-lhe o pulsar do sangue na base do polegar. Disse-lhe qualquer coisa, qualquer coisa insensata como Não partas ou Fica comigo, mas mais uma vez abanou a cabeça com o mesmo gesto impaciente e puxou-me a mão para me aproximar mais.
- Eles estão a parar os relógios - balbuciou, num sussurro quase inaudível, conspirativo. – Eu parei o tempo. – E esboçou um aceno de cabeça solene e consciente e sorriu também, juraria que era um sorriso.