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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Gosto dos filmes que começam com uma voz off.
A Fundação Calouste Gulbenkian, para comemorar o seu cinquentenário, nomeou João Bénard da Costa, como responsável pela selecção dos filmes para o ciclo Como Era Belo o Cinema.
O ciclo abriu, a 4 de Novembro de 2006, com O Vale Era Verde de John Ford, baseado no romance de Richard Llewellyn.
Escreveu João Bénard da Costa em Os Filmes da Minha Vida : não há filme que me faça mais saudades.
Para além de um filme de doces nostalgias, Bénard da Costa não deixa de salientar o cunho político-laboral que o filme encerra, quando o pai, à greve dos mineiros, em que os filhos estão envolvidos, chama socialist nonsense, recusando-se a aderir e tentando proibir os filhos de o fazer.
A discussão azeda em torno da velha mesa patriarcal. E o pai proíbe que continue. Quem quiser coisas  dessas não tem lugar naquela casa. E é então que, um a um, os cinco filhos mais velhos se levantam e saem. Fica só o mais novo, criança ainda e fica um enorme silêncio perante aquele primeiro “assassinato do pai”. De pois, o miúdo tosse e, sem o olhar, o pai diz muito devagar: “Yes, my son, I know you are there.
Cena deliciosa esta, uma das muitas que marcam indelevelmente o filme.



 Jorge Silva Melo no seu Século Passado:


Mas vê-se sempre O Vale era Verde, de maneira diferente porque de todas as vezes se chora de maneira diferente. Já ao ver este filme, chorei infâncias perdidas, quando mais para aí me dá o sentimento; ou a morte dos pais; ou a miséria da mina, ventre infernal do capitalismo; ou a honra dos trabalhadores; ou a coragem das mães; ou as refeições em silêncio; ou o casamento da irmã; ou as longas doenças da infância com os primeiros romances lidos na cama; ou  a chegada da Primavera, ou o cheiro a sabão azul e branco, o acreditar que “um homem não chora”, o acreditar no silêncio dos homens e na determinação das mulheres, na honra, no valor do trabalho, no fluir inexorável da vida, na impossibilidade do regresso, na consciência da luta. E também nos aventais brancos, nas grandes almofadas, no banho na celha, na água a ferver...
Digo eu, agora: também a lindíssima Maureen O’Hara, nos seus 21 anos de cabelos ruivos, no preto e branco do filme, a atingirem um brilho esplendoroso.
Um filme em que não há nada, mas mesmo nada, que não esteja no lugar certo.
A perfeição é possível?



Ainda João Bénard da Costa: Há quem diga que tudo o que vive é sagrado, Ford, que o não disse filmou-o.


A tal voz off, que eu tanto gosto nos filmes, inicia-nos os passos para o desenrolar do filme:
Estou a embalar os meus pertences no xaile que a minha mãe levava ao mercado, e vou-me embora do meu vale. Desta vez jamais voltarei. Deixo para trás as minhas memórias de 50 anos. A memória. Que estranho que a mente esqueça tanto do que só agora acabou de passar, ainda que mantenha viva a memória do que aconteceu há anos atrás, dos homens e mulheres há tanto tempo falecidos. Mas quem dirá o que é ou não real? Como posso crer que todos se foram, quando as suas vozes permanecem gloriosas nos meus ouvidos? Não. E levantar-me-ei sempre para voltar a dizer não, porque eles continuam a ser uma verdade viva na minha mente. Não há nem cerca nem sebe, em torno do tempo que passou. É possível ter de volta o que se gostou, se o recordarmos. Por isso posso fechar os olhos ao que o meu vale é agora e que já se foi, e vê-lo tal qual como ele era quando eu era miúdo. Verde como era e possuído pela abundância da terra. Em todo o País de Gales não havia outro tão bonito.Tudo o que alguma vez aprendi enquanto criança, aprendi-o com o meu pai, e nunca achei que nada do que ele me disse estivesse errado ou fosse inútil. As lições que me ensinou permanecem tão intensas e claras na minha mente como se as tivesse ouvido apenas ontem. Nesses dias, a escória negra, os resíduos dos poços de carvão, só então tinham começado a cobrir a encosta da nossa colina, mas ainda não tinham desfigurado o campo ou escurecido a beleza da nossa aldeia. A mina de carvão só então começara a enfiar os magros dedos negros por entre o verde. Ainda consigo ouvir a minha irmã Angharad a chamar-me. Mineiros eram o meu pai e os meus irmãos e orgulhosos do seu oficio. Alguém começava a cantar, e o vale repicava ao som de tantas vozes. Porque o cantar está para o meu povo como ver está nos olhos.



Como isto não é um exercício de crítica ao filme, antes uma relembrança do quanto é belo o cinema, deixo o discurso de Mr. Gruffydd, o padre que vai ser julgado pelo conselho dos diáconos, gente que, ao longo dos tempos, a Igreja sempre guardou em si, como defensores de uma moral obsoleta, hipócrita, tão característica dos beatos e beatas de sacristia.


O meu avô paterno, anticlerical militante, adorava este discurso, o discurso de Mr. Gruffydd, interpretado por Walter Pidgeon:
Esta é a última vez que tomo a palavra nesta capela. Vou deixar o vale com mágoa, por aqueles que me ajudaram aqui, e que deixaram que eu os ajudasse. Mas... para os restantes, aqueles que provaram que desperdicei o meu tempo entre vós, só tenho uma coisa a dizer. Não houve um único entre vós que tenha tido a coragem de vir ter comigo e me acusar de alguma má acção. Mesmo assim, seja como fôr, se houve algum pecado, sou eu quem deve ser considerado pecador. Há alguém que queira erguer a voz, aqui e agora, para me acusar? Não. Também são cobardes para além de hipócritas. Mas eu não vos culpo. A culpa é tanto minha como vossa. As línguas ociosas e a pobreza de espirito que têm demonstrado, significam que não consegui transmitir à maioria a lição que me foi dada para ensinar. Quando era jovem pensava que  podia conquistar o mundo com a  verdade. Pensava vir a dirigir um exército maior do que Alexandre alguma vez sonhou. Não para conquistar nações mas para libertar a espécie humana.




Com a verdade. Com o som dourado da palavra. Mas só uns quantos escutaram. Só uns poucos de vocês compreenderam. Os restantes vestiram-se de preto e sentaram-se na capela. Porque é que cá vêm? Porque vestem de preto a vossa hipocrisia e a exibem perante Deus aos domingos? Por amor? Não. Já demonstraram que têm o coração demasiado definhado para receberem o amor do Vosso Pai Divino. Eu sei porque vieram. Vi-o nas vossas caras todos os domingos enquanto estavam aqui de pé perante mim. Foi o medo que vos trouxe cá. Um medo horrível e supersticioso. Medo da retribuição divina. Um relâmpago e o fogo dos céus, a vingança do Senhor e a justiça de Deus. Mas esqueceram-se do amor de Jesus. Ignoraram o seu sacrifício. A morte. O medo. As chamas, o horror e as roupas negras. Reúnam então o vosso conselho. Mas saibam que se estão a fazer isto em nome de Deus e na casa de Deus, estão a cometer uma blasfémia contra Ele e a sua palavra.
A mesma voz off que nos introduz o filme, encerra-o:
Homens como o meu pai não podem morrer. Permanecem ainda hoje, comigo, tão reais na memória com o eram na carne, amando e amados. Como era verde o meu vale.
Estive a rever o filme.
Quando chegou o The End, se vos disser que os meus olhos estavam secos, não acreditem.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

OLHAR AS CAPAS


John Ford: A Filmografia Completa

Scott Eyman
Tradução Constança Santana
Taschen, Colónia 2005

Os westerns de Ford têm tanto um sentido da vida como uma aura de lenda. Podemos ouvir o ranger da madeira nas suas combinações de temas da odisseia com o seu sentido da humanidade desleixada. Os westerns de Ford preenchem a necessidade essencial de qualquer coisa duradoura acerca da América – são sobre promessas, e por vezes sobre a traição a essas promessas. O mundo de Ford é feito de soldados e padres, de alcoólicos e médicos e empregados e prostitutas e homens enlouquecidos, guiados pela sua necessidade da solidão, mesmo quando viajam em direcção a casa, em direcção a uma reconciliação.
A melancolia irlandesa de Ford manifestava-se num sentimento de perda – por uma inocência desaparecida, por um amor perdido, uma comunidade, uma casa. Muitos dos filmes de Ford são grandiosos, quase épicos, mas são ao mesmo tempo íntimos, pois contém o mesmo calor, pormenor doméstico e intimidade dos filmes pequenos. Tinha sentido de humor, evidentemente, mas tinha também uma seriedade intensa e sustida e um sentido do dramático – tanto com as paisagens como com as pessoas. A sua afinidade com os homens e mulheres dos seus filmes era notável; Ford é um mundo de humanidade genial – não de pecados cardeais, mas de pecados venais, hedonísticos.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Wyatt Earp – Mac, já alguma vez estiveste apaixonado?
Mac – Não. Fui taberneiro toda a vida.

Diálogo de A Paixão dos Fortes de John Ford.

Esta cena passa-se no bar de Tromstone, mas não é a cena do diálogo.

Foram infrutíferas as tentativas para encontrar essa cena, a cena em que Earp, mãos em cima do balcão, garrafa de whisky no meio, um candeeiro de petróleo, está face a face com Mac e faz-lhe a pergunta:


Wyatt Earp – Mac, já alguma vez estiveste apaixonado?
Mac – Não. Fui taberneiro toda a vida.

Com A Paixão dos Fortes, John Ford regressou a um seus cenários favoritos: Monument Valley, em plena Reserva dos Indios Navajos, na fronteira do Arizona com o Utah.

Um filme de persistentes silêncios, céus rasgados.

Manuel Cintra Ferreira chamou-lhe a quinta essência do western clássico.




Nenhum filme como este nos dá a sentir o cheiro das flores do deserto e o espírito da música popular nessa sequência única na história do cinema que conduz Wyatt Earp da porta da barbearia ao cimo da colina onde tem lugar o baile. E ninguém soube filmar os bailes como Ford, fazendo de cada movimento um verdadeiro ritual.

Como escreveu Scott Eyman: 

Fonda a mover-se com o passo deliberado de uma elegante cegonha.




John Ford morreu, de cancro, no dia 31 de Agosto de 1973. Tinha 79 anos.

Uma hora antes de morrer, John Ford gritou:

Alguém tem para aí um charuto?

Deram-lhe um. Fumou-o e apagou-o. Passados alguns momentos morreu.

Pedir um charuto, os seus tão amados charutos que fumava inteiros ou metades cortadas a canivete, terão sido as últimas palavras do homem que fazia westerns, que adorava fazer filmes, mas não gostava de falar deles e, tal como disse a Peter Bogdanivich, o seu filme preferido era sempre o próximo.

Mas na vida, nos filmes de Ford, as histórias tornam-se quase todas lendárias.

Assim como, sempre, ter dito que nasceu num bar da Irlanda.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


“The Grapes of Wrath retrata tempos de crise. Mostra uma família rural que perdeu a quinta para o banco e, com os bens decrépitos atulhados numa camioneta miserável, segue estrada fora em busca de trabalho e da Califórnia redentora. Tom Hard, Henry Fonda, é o filho, neto e sobrinho dessa família. Acossados, humilhados, roubados de tudo por bancos, impostos, polícias, só lhe resta a razão última da sua dignidade. Na mais escura das noites, Tom despede-se da mãe prometendo-lhe “I’ll be all around in the dark, I’ll be everywhere”, e é nessas sombras que mergulha para, bem-aventurado e sedento de justiça, estar em todo o o lado. Nos olhos de Henry Fonda, na sua voz calma e de uma vibração segura, a mãe, Ma Joad, descobre a força e a razão para não voltar a ter medo, “co’s we’re the people”, porque somos o povo que vive. E hoje, neste Portugal que atafulha os bens decrépitos numa camioneta de peneus furados, em cada grito zangado, no medo de cada mãe perplexa, no riso de cada miúdo que ignora o futuro hipotecado, volto a ouvir a voz do Tom Joad, volto a ver o olhar claro, a fé de Henry Fonda. Henry Fonda é mais do que o pai dos seus filhos. Nesse filme de John Ford, Henry Fonda é o povo que se vê “all around”, em todo o lado. Pode o povo copiar-lhe a voz firme e, ao olhar, roubar-lhe uma razão da esperança?”

Manuel S. Fonseca, numa crónica publicada no suplemento “Actual” do “Expresso” de 9 de Abril de 201ll.

Legenda: fotograma do filme de John Ford “As Vinhas da Ira”,  baseado no livro, com o mesmo nome, de John Steinbeck.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS



Segundo João Bénard da Costa, A Taberna do Irlandês, de John Ford, é o mais surpreendente Natal que o cinema mostrou.