Mostrar mensagens com a etiqueta John Huston. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta John Huston. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 24 de maio de 2019

DA MEMÓRIA DE UM LARGO E DOS FUMOS QUE DEIXOU DE FREQUENTAR...


Na meia dúzia de blogues em que, com mais assiduidade, vai viajando, há um que frequenta desde tempos bem recuados: o Largo da Memória de Luís Eme, jornalista, escritor e guardador das margens do Tejo.

Começou pelo agrado das fotografias e acabou a gostar do que lá por se escrevia.

Quando fumava cachimbo, cigarrilhas e charutos, gostou de ter lido no Largo esta pérola. 

Não por picuinhice, mas por um certo rigor, lamenta ter perdido a data em que foi escrita:

«Nunca tinha ouvido um elogio tão forte e sentido, a um não fumador activo, pelos frequentadores do seu escritório.

Embora ele nunca fumasse, nunca proibiu ninguém de fumar no seu espaço de trabalho e local de abrigo e de escrita, nem mesmo depois das proibições oficiais e da "publicidade assassina" nos maços de cigarro.


Depois de escutar os amigos, quase sem jeito, desculpou-se que sempre gostou do cheiro do tabaco.


Mas do que ele gosta muito, muito mais do que do cheiro do tabaco, é da liberdade.»

Esse inebriante cheiro da liberdade.

Os fumos, os gins...

Rigorosas instruções médicas, não lhe permitem fumar o cachimbo, as cigarrilhas, os charutos. 

Tem dias, não muitos, em que não consegue resistir…

O Gainsbourg tem uma canção em que diz que Deus é um fumador de Havanos e o Eça de Queiroz em AIlustre Casa de Ramires tem esta tirada:

«Mas reparando que escolhera um charuto, distraidamente o trincara:
- Oh! Perdão, minha senhora… ia fumar sem saber se V. Exª…
Ela saudou descendo as longas pestanas:
- O cavalheiro pode fumar; o Sanches não fuma, mas eu até aprecio o cheiro»

O cheiro do charuto incomodava a mulher de Groucho Marx.
Um dia disse-lhe:
- Ou eu os charutos!...
- Então ficamos bons amigos!

Legenda: Edward G. Robinson no filme Key Largo, um delicioso filme negro de John Huston

domingo, 16 de setembro de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


As terríveis saudades que tenho em ver um filme «noir» numa sala de cinema.

Claro que os tenho por aí em DVD mas, desculpem, não é bem a mesma coisa.

Aliás como todos os filmes, que obrigatoriamente foram criados para serem vistos numa sala escura.

Filmes negros é uma das minhas pancadas cinematográficas. É mais que um género, é uma obsessão.

Mais obsessões?

Juntem-lhe westerns, musicais, o cinema, enfim.

Mas estávamos nos filmes negros:

A Sede do Mal de Orson Welles, com Charlton Heston, Janet Leigh, Marlene Dietrich, Orson Welles,

O Terceiro Homem de Carol Reed com Alida Valli, Joseph Cotten, Orson Welles,

A Relíquia Macabra de John Huston com Humphrey Bogart, Elisha Cook, Mary Astor, Peter Lorre,

O Crepúsculo dos Deuses de Billy Wilder com Erich von Stroheim, Gloria Swanson,

A Dama de Xangai de Orson Welles com Orson Welles, Rita Hayworth, Everett Sloane, Glenn Anders,

Laura de Otto Preminger com  Gene Tierney, Dana Andrews, Cliffton Webb,

Key Largo de John Huston com Humphrey Bogart, Edward G. Robinson, Lauren Bacall, Lionel Barrymore, Claire Trevor,

Pagos a Dobrar de Billy Wilder com Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Edward G. Robinson,

À Beira do Abismo de Don Siegel com Humphrey Bogart, Lauren Bacall,

Tantos e tantos outros, mas não estou a esquecer Chinatown, de Roman Polanski, tanto de talento como de execrável, com  Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston e que tem uma das mais célebres frase do cinema, dita por John Huston,  no papel de Noah Cross:

«Sou respeitável, sou velho. Os políticos, os prédios feios e as putas tornam-se sempre respeitáveis se viverem muito tempo". 

domingo, 14 de janeiro de 2018

FOI HÁ 61 ANOS!


Não temos razões para ter pena dele, mas sim de nós, porque o perdemos.

John Huston, durante o serviço fúnebre.

domingo, 1 de outubro de 2017

RELACIONADOS


A publicação da capa de O Falcão de Malta, serve para reproduzir uma ida ao piolho já aqui publicada:

Não vi Relíquia Macabra no piolho.

Penso que a primeira vez que o vi, das muitas que já levo, terá sido num dos muitos cinemas de “reprisse” lá do bairro, não lembro qual.

O filme, realizado por John Huston em 1941, encontra-se catalogado nos chamados “film noir”.

A expressão “fim noir” é usada para descrever os filmes americanos da década de 40 e começo da de 50, produzidos em Hollywood, nos quais era retratado o sub mundo escuro e sombrio do crime e da corrupção. Filmes cujos heróis, bem como os maus, eram cínicos, desiludidos e, frequentemente, solitários e inseguros, fortemente ligados ao passado e a borrifarem-se para o futuro. Passam-se quase sempre de noite e são filmados a preto e branco. Também há “films noir” a cores mas isso é uma outra história.

Esta designação de “film noir” apanhei-a já em tempos recentes, porque nos meus tempos do “Cine-Oriente”, para a malta da rua os filmes eram policiais ou de gangsters, de índios e cowboys, e tudo o resto, musicais incluídos, eram filmes de manteiga que víamos sem qualquer brilhozinho nos olhos.

Claro que o cinema não seria aquilo que hoje é, se não houvesse “film noir”. 
Grande parte dos filmes do meu panteão encontram-se aqui. 

Uma das características destes filmes são os seus personagens. Gente que entra, gente que sai, uns regressam outros não. Perco-me sistematicamente nos enredos e isso é um enorme gozo. Mesmo já tendo visto o filme, e avisado que estou, perco-me, e de caminho descubro, um prazer dentro de outros prazeres, coisas que me tinham escapado.

O Falcão de Malta é uma estatueta negra, perseguida por um bando de malfeitores, de “valor incalculável”, na expressão de Mr. Gutman.


Um tesouro pelo qual vale a pena matar. Sam Spade, um detective privado já curtido pelo tempo, com o seu solitário código de ética. Um bizarro ladrão chamado Joel Cairo, um homem gordo que dá pelo nome de Gutman e Brigid O'Shaughnessy, uma bela e traiçoeira mulher cuja lealdade muda com um tilintar de moedas.


O filme é a adaptação de um livro de Dashiel Hammett, O Falcão de Malta,cuja tradução portuguesa, de Baptista de Carvalho, é o número 34 da Colecção Vampiro. Por aqui existe também uma edição de “A Regra do Jogo”, traduzida por Helena Domingos, número 2  da Série Negra.

O livro começa assim:

O rosto de Samuel Spade era longo e ossudo e o seu queixo formava um pronunciado V, sob o V mais suave da boca. As narinas abriam-se, também sob a forma de um V mais pequeno. Os seus olhos verdes claros rasgavam-se horizontalmente, em forma de amêndoa. Sobranceiras a um nariz aquilino, viam-se duas rugas paralelas donde emergiam espessas sobrancelhas cuja configuração era, uma vez mais, a de um V bem vincado caprichosamente invertido. O cabelo castanho claro tinha como fronteira uma testa alta a despida de rugas sobre a qual avançara, como um istmo original, uma porção de cabelo que formava assim, no centro, um “bico de viúva”. À primeira vista, Spade tinha o aspecto agradável de um demónio saxão. Naquele momento, inquiria de Effie Perine.

- Que se passa, meu amor?

The Times Lierary Suplement considerou que O Falcão de Malta não é apenas a melhor história de detectives que alguma vez lemos; é um romance extraordinariamente bem escrito, enquanto que o The Boston Globe considerava que Dashiel Hammett é um mestre das histórias de detectives, sim, mas também um escritor dos diabo  e o The New York Times que a prosa de Hammett é limpa e totalmente excepcional. As suas personagens são as mais perspicazes e concisamente definidas da ficção americana.


No filme de Huston, são soberbas as interpretações de Humphrey Bogart e Mary Astor,  mas é justo salientar o desempenho de Peter Lorre na pele de um amaricado Joel Cairo.

O filme tem excelentes diálogos, Na lista do American Film Institute para as cem melhores linhas de diálogo da história do cinema, há uma citação para Relíquia Macabra, quando no final o idiota inspector de polícia, depois de prender Brigid, pega na estatueta negra, vira-se para Sam e pergunta:

“É pesada. O que é?”
Sam Spade responde-lhe:
- É aquilo de que são feitos os sonhos.
Fiquemos com dois deliciosos diálogos do filme. O primeiro entre Sam Spade e Mr. Gutman, o outro entre o mesmo Sam e Brigid, quando ele lhe diz que sabe que ela matou o seu sócio e a vai denunciar à polícia:

Gutman – É um homem reservado?
Sam – Não, gosto de falar.
Gutman – Desconfio dos homens reservados. Normalmente escolhem mal a altura para falarem e dizem disparates. Falar é uma coisa que não se faz judiciosamente a não ser que se pratique muito. Se quiser podemos falar. Digo-lhe desde já que sou um homem que gosta de falar com um homem que gosta de falar.
Sam – Óptimo. Vamos falar do pássaro negro?
Gutman – É o homem certo para mim. Nada de rodeios: direito ao assunto. Falemos do pássaro negro. Pois, como sabe, no auge da acção os homens tendem a esquecer o que é melhor para eles e deixam-se levar pelas emoções.”

 “Sam – Se tiveres sorte, daqui a vinte anos sais da prisão, e nessa altura volta para mim. Espero que não te enforquem por esse pescoço lindo.
Brigid – Não vais
Sam – Vou pois, meu anjo. Deves apanhar prisão perpétua e se portares bem, sais daqui a vinte anos. Estarei à tua espera. Se te enforcarem, hei-de sempre lembrar-me de ti.
Brigid – Sam, não digas isso nem a brincar. Por um momento assustei-me. Pensei que ias mesmo… Fazes coisas tão estranhas e imprevisíveis!
Sam – Não sejas tola. Vais mesmo dentro. Mataste o MIles e vais pagar por isso.
Brigid – Como podes fazer-me isso. De certeza que o Archer não significava tanto para ti como…

Sam – Ouve, não vale a pena. Nunca vais compreender-me, mas vou tentar uma vez. Quando o colega de alguém é morto, esse alguém tem de fazer alguma coisa. Não interessa o que se pensava dele. Era colega, e há que fazer qualquer coisa e acontece que estamos na actividade de detectives. Quando alguém da organização é morto é mau deixar-se o criminoso fugir. É mau para toda agente. É mau para todos os detectives. Se tudo isto não significa nada para ti, então esquece tudo e ficamos assim; não faço o que queres, porque eu o quero também apesar das consequências, e porque estás a contar que eu o faça, tal como contaste com os outros também.

Brigid – Terias feito isso se o falcão fosse verdadeiro e tivesses recebido o dinheiro que esperavas?

Sam – Não penses que sou tão malandro como se pensa. Esse tipo de fama talvez fosse bom negócio, chamando trabalhos que pagassem bem e tornando mais fácil lidar com o inimigo mas muito dinheiro teria sido mais peso do teu lado da balança.
Brigid – Não esperas que o que estás a dizer seja razão suficiente para me mandares prender.

Sam – Deixa-me acabar, depois falas. Não tenho razão nenhuma para acreditar em ti e se eu te deixasse escapar terias sempre algo de que me  acusar sempre que quisesses como tenho agora contra ti, não sei se um dia não me darias um tiro. Tudo isso pesa de um lado. Nem todos estes factores são importantes. Não discuto isso. Mas vê quantos são. E do outro lado, o que é que temos? Que tu talvez gostes de mim e que eu talvez goste de ti.

Brigid – Sabes se gostas de mim ou não?

Sam – Talvez. Vou ter noites horríveis depois de te mandar prender mas isso passa.

Brigid – Se gostasses de mim, não precisavas de mais pesos desse lado”.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


«Faço um filme só com uma ruga de Bogart» - citou John Huston.

Dinis Machado  em O Lugar das Fitas.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Não vi Relíquia Macabra no piolho. 

Penso que a primeira vez que o vi, das muitas que já levo, terá sido num dos muitos cinemas de “reprisse” lá do bairro, não lembro qual.

O filme, realizado por John Huston em 1941, encontra-se catalogado nos chamados “film noir”.

A expressão “fim noir” é usada para descrever os filmes americanos da década de 40 e começo da de 50, produzidos em Hollywood, nos quais era retratado o sub mundo escuro e sombrio do crime e da corrupção. Filmes cujos heróis, bem como os maus, eram cínicos, desiludidos e, frequentemente, solitários e inseguros, fortemente ligados ao passado e a borrifarem-se para o futuro. Passam-se quase sempre de noite e são filmados a preto e branco. Também há “films noir” a cores mas isso é uma outra história.

Esta designação de “film noir” apanhei-a já em tempos recentes, porque nos meus tempos do “Cine-Oriente”, para a malta da rua os filmes eram policiais ou de gangsters, de índios e cowboys, e tudo o resto, musicais incluídos, eram filmes de manteiga que víamos sem qualquer brilhozinho nos olhos.

Claro que o cinema não seria aquilo que hoje é, se não houvesse “film noir”.

Grande parte dos filmes do meu panteão encontram-se aqui.

Uma das características destes filmes são os seus personagens. Gente que entra, gente que sai, uns regressam outros não. Perco-me sistematicamente nos enredos e isso é um enorme gozo. Mesmo já tendo visto o filme, e avisado que estou, perco-me, e de caminho descubro, um prazer dentro de outros prazeres, coisas que me tinham escapado.

O Falcão de Malta é uma estatueta negra, perseguida por um bando de malfeitores, de “valor incalculável”, na expressão de Mr. Gutman.

Um tesouro pelo qual vale a pena matar. Sam Spade, um detective privado já curtido pelo tempo, com o seu solitário código de ética. Um bizarro ladrão chamado Joel Cairo, um homem gordo que dá pelo nome de Gutman e Brigid O'Shaughnessy, uma bela e traiçoeira mulher cuja lealdade muda com um tilintar de moedas.


O filme é a adaptação de um livro de Dashiel Hammett, O Falcão de Malta, cuja tradução portuguesa, de Baptista de Carvalho, é o número 34 da Colecção Vampiro. Por aqui existe também uma edição de “A Regra do Jogo”, traduzida por Helena Domingos, número 2  da Série Negra.


O livro começa assim:

O rosto de Samuel Spade era longo e ossudo e o seu queixo formava um pronunciado V, sob o V mais suave da boca. As narinas abriam-se, também sob a forma de um V mais pequeno. Os seus olhos verdes claros rasgavam-se horizontalmente, em forma de amêndoa. Sobranceiras a um nariz aquilino, viam-se duas rugas paralelas donde emergiam espessas sobrancelhas cuja configuração era, uma vez mais, a de um V bem vincado caprichosamente invertido. O cabelo castanho claro tinha como fronteira uma testa alta a despida de rugas sobre a qual avançara, como um istmo original, uma porção de cabelo que formava assim, no centro, um “bico de viúva”. À primeira vista, Spade tinha o aspecto agradável de um demónio saxão. Naquele momento, inquiria de Effie Perine_
- Que se passa, meu amor?

O The Times Lierary Suplement considerou que O Falcão de Malta não é apenas a melhor história de detectives que alguma vez lemos; é um romance extraordinariamente bem escrito, enquanto que o The Boston Globe considerava que Dashiel Hammett é um mestre das histórias de detectives, sim, mas também um escritor dos diabo  e o The New York Times que a prosa de Hammett é limpa e totalmente excepcional. As suas personagens são as mais perspicazes e concisamente definidas da ficção americana.


No filme de Huston, são soberbas as interpretações de Humphrey Bogart e Mary Astor,  mas é justo salientar o desempenho de Peter Lorre na pele de um amaricado Joel Cairo.

O filme tem excelentes diálogos, Na lista do American Film Institute para as cem melhores linhas de diálogo da história do cinema, há uma citação para Relíquia Macabra, quando no final o idiota inspector de polícia, depois de prender Brigid, pega na estatueta negra, vira-se para Sam e pergunta:


“É pesada. O que é?”

Sam Spade responde-lhe:

- É aquilo de que são feitos os sonhos.

Fiquemos com dois deliciosos diálogos do filme. O primeiro entre Sam Spade e Mr. Gutman, o outro entre o mesmo Sam e Brigid, quando ele lhe diz que sabe que ela matou o seu sócio e a vai denunciar à polícia:

Gutman – É um homem reservado?

Sam – Não, gosto de falar.

Gutman – Desconfio dos homens reservados. Normalmente escolhem mal a altura para falarem e dizem disparates. Falar é uma coisa que não se faz judiciosamente a não ser que se pratique muito. Se quiser podemos falar. Digo-lhe desde já que sou um homem que gosta de falar com um homem que gosta de falar.

Sam – Óptimo. Vamos falar do pássaro negro?

Gutman – É o homem certo para mim. Nada de rodeios: direito ao assunto. Falemos do pássaro negro. Pois, como sabe, no auge da acção os homens tendem a esquecer o que é melhor para eles e deixam-se levar pelas emoções.”

 “Sam – Se tiveres sorte, daqui a vinte anos sais da prisão, e nessa altura volta para mim. Espero que não te enforquem por esse pescoço lindo.

Brigid – Não vais

Sam – Vou pois, meu anjo. Deves apanhar prisão perpétua e se portares bem, sais daqui a vinte anos. Estarei à tua espera. Se te enforcarem, hei-de sempre lembrar-me de ti.

Brigid – Sam, não digas isso nem a brincar. Por um momento assustei-me. Pensei que ias mesmo… Fazes coisas tão estranhas e imprevisíveis!

Sam – Não sejas tola. Vais mesmo dentro. Mataste o MIles e vais pagar por isso.

Brigid – Como podes fazer-me isso. De certeza que o Archer não significava tanto para ti como…
Sam – Ouve, não vale a pena. Nunca vais compreender-me, mas vou tentar uma vez. Quando o colega de alguém é morto, esse alguém tem de fazer alguma coisa. Não interessa o que se pensava dele. Era colega, e há que fazer qualquer coisa e acontece que estamos na actividade de detectives. Quando alguém da organização é morto é mau deixar-se o criminoso fugir. É mau para toda agente. É mau para todos os detectives. Se tudo isto não significa nada para ti, então esquece tudo e ficamos assim; não faço o que queres, porque eu o quero também apesar das consequências, e porque estás a contar que eu o faça, tal como contaste com os outros também.

Brigid – Terias feito isso se o falcão fosse verdadeiro e tivesses recebido o dinheiro que esperavas?
Sam – Não penses que sou tão malandro como se pensa. Esse tipo de fama talvez fosse bom negócio, chamando trabalhos que pagassem bem e tornando mais fácil lidar com o inimigo mas muito dinheiro teria sido mais peso do teu lado da balança.

Brigid – Não esperas que o que estás a dizer seja razão suficiente para me mandares prender.
Sam – Deixa-me acabar, depois falas. Não tenho razão nenhuma para acreditar em ti e se eu te deixasse escapar terias sempre algo de que me  acusar sempre que quisesses como tenho agora contra ti, não sei se um dia não me darias um tiro. Tudo isso pesa de um lado. Nem todos estes factores são importantes. Não discuto isso. Mas vê quantos são. E do outro lado, o que é que temos? Que tu talvez gostes de mim e que eu talvez goste de ti.

Brigid – Sabes se gostas de mim ou não?

Sam – Talvez. Vou ter noites horríveis depois de te mandar prender mas isso passa.

Brigid – Se gostasses de mim, não precisavas de mais pesos desse lado”.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Todos os anos, na ressaca natalícia, recorro à melancolia, à poesia, à beleza do filme de John Huston “The Dead”. Não me perguntem porquê.


O enredo do filme salta de um conto de James Joyce, “The Dubliners”, adaptado por Tony Huston e que em Portugal se chamou “Gente de Dublin”.

Aquele jantar de Natal com que John Huston se despediu do número dos vivos.

Foi numa cadeira de rodas, com uma garrafa de oxigénio ao lado, que rodou o filme e, certamente, sabendo que não o iria concluir, teve a seu lado o filho Harry Huston que, após a sua morte, o concluiu.

Manuel Cintra Ferreira, numa das "Folhas da Cinemateca”, deixou escrito: “Se um filme pode conceber-se como um “testamento”, “The Dead” talvez seja o melhor exemplo disso. É um filme de despedida, contando também a história de uma despedida. Um adeus melancólico de alguém que apreciou bem a vida, e a refeição simboliza bem o prazer de viver que possuiu Huston. É também um adeus a tudo o que amou: a Irlanda, os amigos, o cinema. A este último dá uma das suas obras maiores e a mais perfeita. À sua amada Irlanda oferece o seu olhar sobre o maior escritor do país, James Joyce e para fazer o filme reuniu à sua volta a família (Angelica, Tony e Danny) e os amigos, actores de cinema e de teatro irlandeses (do Abbey e do Gate Theatre).”



José Saramago disse um dia que “o Natal é uma borbulha consumista que nos separa do Apocalipse”, mas se ainda não repararam, digo-vos agora que faltam 353 dias para que volte a ser Natal.

Tempo para, à maneira de Nick Hornby, valendo estas coisas o que valem, deixar-vos  a lista dos meus cinco filmes de Natal:

1)      “A Loja da Esquina”,“The Shop Around The Corner”, 1940, Ernest Lubitsch
2)      “Não Há Como a Nossa Casinha”, “Meet Me In St. Louis”, 1944,Vincente Minnelli
3)      “Gente de Dublin”, “The Dead”, 1987, John Huston
4)      “A Taberna do Irlandês”, “Donovan’s Reef”, 1963, John Ford
5)      “Do Céu Caiu Uma Estrela”, “It’s a Wonderful Life”, 1946, Frank Capra