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quinta-feira, 4 de abril de 2019

OLHAR AS CAPAS


O Inverno do Nosso Descontentamento

John Steinbeck
Tradução: João Belchior Viegas
Capa: Teresa Dias Coelho
Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1993 

A minha mulher, a minha Mary, adormece como se fecha a porta de um armário. Quantas vezes a contemplei com inveja? Enrosca o lindo corpo como se se instalasse num casulo, suspira, os olhos fecham-se e os lábios tomam a forma daquele sorriso sábio e vago dos antigos deuses gregos. Ela sorri toda a noite no seu sono e a respiração faz ronrom na garganta. Não ressona, ronrona como um gatarrão. Durante alguns momentos a sua temperatura sobe a tal ponto que a sinto irradiar calor junto de mim. Depois desce, e Mary como que se afasta. Não sei para onde. Ela diz que não sonha. Mas, no entanto, deve sonhar. O que sucede é que os sonhos não a perturbam, ou então perturbam-na de tal maneira que os esquece antes de acordar. Gosta de dormir e o sono faz-lhe bem. Queria ser como ela. Luto contra o sono e desejo-o com ânsia.
Talvez, digo-o a mim próprio, isso seja devido ao facto de a minha Mary saber que viverá para sempre. Passará desta existência a outra com a mesma facilidade com que se passa do sono ao despertar. Todo o seu corpo o sabe com uma tal certeza que ela não pensa nisso, como não pensa em respirar. Assim tem tempo de dormir, de repousar, de cessar de existir por algum tempo.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Os Náufragos do Autocarro

John Steinbeck
Tradução: L. de Almeida Campos
Colecção Excelsior
Empresa nacional de Publicidade, Lisboa, 1962

Havia um pequeno restaurante situado atrás das bombas de gasolina, um restaurante com um largo balcão junto do qual se alinhavam altos bancos redondos, fixos, e com três mesas para as pessoas que desejavam comer com um certo requinte. Estas não eram usadas muitas vezes pois costumava-se gratificar a Srª Chicoy quando ela servia à mesa, o que não acontecia se o serviço se fazia ao balcão. Na primeira prateleira por detrás do balcão havia pãezinhos doces, bolos de massa tenra, tortas de noz; na segunda, sopas enlatadas, laranjas e bananas; na terceira, caixas com rações individuais de flocos de aveia, milho, arroz e outros cereais. Num dos extremos do lado de trás do balcão havia uma grelha, um lava-louças, reservatórios de cereveja e soda, uma caixa para gelados e, sobre o balcão, entre suportes com guardanapos de papel, moedas para fazer funcionar o juke-box, sal, pimenta e molho de tomate, estavam expostos bolos sob grandes coberturas de plástico. As paredes, onde havia espaço para isso, estavam profusamente decoradas com calendários e cartazes exibindo raparigas esplendorosas, de existência improvável, com os seios erguidos num ângulo impossível e sem ancas – loiras, morenas e ruivas, mas todas com o mesmo desenvolvimento do busto, de forma tal que um visitante de outros mundos poderia julgar, pela concepção do artista que o lugar da procriação residia nas glândulas mamárias.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


A Pérola

John Steinbeck
Tradução Mário Dionísio
Colecção Livros de Bolso Europa-América nº 152
Publicações Europa-América, Lisboa s/d

Joana, que estava inclinada para o lume, endireitou-se, tornou a deitar Coyotito no caixote, pôs-se a pentear os cabelos negros, separou-os em duas tranças, atou-os com fitas verdes. Kino acocorou-se junto do lume, tirou um bolo de milho bem quente, embebeu-o no molho e comeu-o. Bebeu um pouco de pulque. E foi o seu pequeno-almoço. Nunca conheceu outro, a não ser nos dias de festa e numa memorável pândega de guloseimas em que quase tinha rebentado. Kino acabou. Joana foi para junto do lume e tomou também o seu pequeno-almoço.
Uma vez, há muito tempo, haviam conversado. Mas não sentiam a necessidade de falara porque o fariam só por hábito. Kino suspirou com prazer – e isso era falar.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

OLHAR AS CAPAS



Viagens Com o Charley

John Steibeck
Tradução: Sousa Victorino
Capa: Infante do Carmo
Colecção Dois Mundos nº 92
Edição Livros do Brasil, Lisboa s/d

Quando eu era muito novo e sentia em mim o impulso irreprimível de estar em qualquer outro sítio, foi-me assegurado por pessoas de idade madura que a maturidade curaria este desejo ardente. Quando os anos me indicavam como amadurecido, o remédio prescrito foi a meia-idade. Na meia-idade asseguram-me que uns anos mais acalmariam a minha febre, e agora, que tenho cinquenta e oito, talvez a senilidade o consiga. Nada surtiu efeito. Quatro sopros roufenhos do apito de um navio ainda arrepiam o cabelo da minha nuca e põem os pés a sapatear. O som de um avião a jacto, de um motor a aquecer, até o bater de cascos ferrados no pavimento, provocam o antigo estremeção, a boca seca e o olhar vago, o calor das palmas das mãos e da agitação violenta do estômago, aos pulos sob a caixa das costelas. Por outras palavras não melhoro, ou, indo mais longe, quem foi vadio é sempre vadio. Receio que a doença seja incurável. Menciono este assunto, não para ensinar aos outros mas para me informar a mim mesmo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

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O Milagre de São Francisco

John Steinbeck
Tradução: Gervásio Álvaro
Capa: Daniel Barradas
Editora Livros do Brasil, Lisboa Janeiro de 2008

Havia um crepúsculo rosado. Era aquela doce hora em que a sesta já está terminada e o prazer e as conversas da noite ainda não começaram. Os pinheiros, muito escuros, recortavam-se contra o céu; no solo, todas as coisas estavam mergulhadas em escuridão. O céu, porém, estava tão melancolicamente brilhante como uma recordação. As gaivotas voavam preguiçosas para os seus ninhos nas rochas da costa depois de terem, durante o dia, visitado as fábricas de conserva de peixe de Monterey.

sábado, 23 de junho de 2012

OLHAR AS CAPAS


A Um Deus Desconhecido

John Steinbeck
Tradução de Manuel do Carmo
Capa de Sebastião Rodrigues
Colecção “Os Livros das Três Abelhas”nº 61
Publicações Europa-América, Lisboa Outubro de 1963

Depois de armazenadas as colheita na herdade dos Waynes, perto de Pittsford, em Vermont, depois de cortada a lenha para o Inverno e de terem caído as primeiras neves, Joseph Wayne, ao cair duma tarde, foi ter com o pai, que estava sentado no seu cadeirão ao pé do fogo, e parou, de pé, diante dele. Os dois homens eram semelhantes. Ambos tinham nariz grande, malares altos e duros; as caras dir-se-iam feitas de qualquer material mais rijo e durável do que a carne, de qualquer substância pétrea que não se alterasse facilmente. A barba de Joseph era negra e sedosa, ainda fina, a deixar ver o contorno sombrio do queixo. O velho tinha uma barba comprida e branca. Cofiava-a aqui e ali com dedos cautelosos e aconchegava-lhe as pontas cuidadosamente para as proteger. Só depois de um momento o velho notou que o filho estava ao seu lado. Ergueu os olhos, olhos velhos, sábios e plácidos e muito azuis. Os olhos de Joseph eram tão azuis como os dele, mas ferozes e curiosos de juventude. Agora, que enfrentava o pai, Joseph hesitava na sua nova heresia.
“A terra vai deixar de bastar, senhor pai”, disse ele humildemente.