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sexta-feira, 14 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Com o Mar Por Meio- Uma Amizade em Cartas

Jorge Amado e José Saramago
Selecção, Organização e Notas de Paloma Jorge Amado, Bete Capinan e
Ricardo Viel
Companhia das Letras,  Rio de Janeiro, Novembro de 2017

Também vão publicados, os parabéns pelo Prémio Camões, não sendo exemplar, é exemplo. Tanta miséria moral mal escondida, tanta inveja, tanto desejo de morte por trás das fachadas compostas de muitos que, num momento, vão ser juiz e sentença. Não obrámos nós assim quando estivemos no júri da União latina. E certamente assim não obrei eu quando me bati pelo Prémio Rainha Sofia para João Cabral…  Meu querido Jorge, viveste mais e mais intensamente do que eu, sabes como muitas vezes é difícil (ou terrivelmente fácil) compreender certos comportamentos humanos. Quando estiveres a receber o prémio, pensa só nos teus leitores, são eles que valem a pena.
Creio entender o que se passa com o teu romance. Quando a ideia inicial de uma narrativa nos parece clara, claríssima, óbvia até, é quando mais vamos ter de sofrer para encontrar-lhe o bom caminho. Nunca sofri tanto, eu, como neste Ensaio Sobre a Cegueira, tão simples, aparentemente, que podia ser explicado em meia dúzia de palavras. Já tenho a meta à vista, mas o que me custou só eu sei. Não te digo que teimes – é o que tens feito toda a vida -, digo-te que não temos outra sina que pelejar com as palavras, e se é certo que elas sempre acabam por ganhar, ao menos que não fiquem a rir-se de nós.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Era Tormes e Amanhecia
Dicionário Gastronómico cultural de Eça de Queiroz
1º Volume

Dário de Castro Alves
Prefácio: Jorge Amado
Capa de A. Pedro
Livros do Brasil

Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: ”É divino!”.

De A Cidade e as Serras

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Brasil é longe – tanto mar! – tão grande, que dele quase nada sabemos.

O que os meios de comunicação social nos dão a ver, a ler, chega-nos deficiente, truncado.

Mas lemos Jorge Amado e outros, ouvimos Chico Buarque e outros.

Temos a nossa ideia.

Erros terão existido, mas a destituição de Dilma Rousseff da presidência do país, é um golpe.

Custa, mas custa mesmo, saber que Portugal tomou o partido dos golpistas:

O Governo português vem reiterar a sua vontade de continuar a aprofundar as relações bilaterais de excelência que ligam Portugal e o Brasil, alicerçadas num elo único e fraterno entre os dois povos", refere um comunicado do gabinete do ministro Augusto Santos Silva enviado às redacções. O comunicado é justificado pela "tomada de posse do Presidente Michel Temer" que se fez "no cumprimento das disposições constitucionais brasileiras", precisam os Negócios Estrangeiros,  rejeitando a tese de "golpe".

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

SERÁ ESSE O PRAZER DE QUE SE FALA?


Até ouço dizer que a velhice é boa coisa, tem encantos, prazeres, eu pergunto quis. Saber um pouco mais, ser menos limitado, menos preconceituoso? De que adianta se a vida já se vai e a experiência não serve a nada nem servirá a outem, experiência não se herda, não se doa em testamento.
A quantas misérias o homem se vê sujeito quando a idade pesa e o passo se faz trôpego, vacilante. Sem quere falar na solidão, a que tantos estão condenados na velhice, basta pensar no desencontro entre o desejo e a competência nas comarcas do leito: o desejo embacia os olhos, queima o peito, desce aos quimbas e os quimbas pururucas cumprem mal o seu dever, se é que o cumprem.
O douto descobrirá no ocaso da vida o prazer mais refinado, o mais subtil, servirá de consolo e de deleite, leio nos livros da sabedoria. Mirabeau, um sábio, vive na saudade: aqueles tempos – recorda-se, recorda-me – em que a gente era capaz de dar três e quatro sem tirar o pau de dentro. Recordar aqueles tempos será esse o prazer de que se fala?

Jorge Amado em Navegaçãode Cabotagem

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS

Capitães da Areia

Jorge Amado
Publicações Europa-América, Lisboa, Maio de 1970


De punhos levantados, as crianças saúdam Pedro Bala, que parte para mudar o destino de outras crianças. Baradão grita na frente de todos, ele agora é o novo chefe.
De longe, Pedro Bala ainda vê os Capitães da Areia. Sob a Lua, num velho trapiche abandonado, eles levantam os braços. Estão em pé, o destino mudou.
Na noite misteriosa das macumbas, os ataques ressoam como clarins de guerra.
Anos depois os jornais de classe, pequenos jornais, dos quais vários não tinham existência legal e se imprimiam em tipografias clandestinas, jornais que circulavam nas fábricas, passados de mão em mão, e que eram lidos à luz de fifós, publicavam sempre notícias sobre um militante proletário, o camarada Pedro Bala, que estava perseguido pela polícia de cinco estados como organizador de greves, como dirigente de partidos ilegais, como perigoso inimigo da ordem estabelecida.
Nos anos em que todas as bocas foram impedidas de falar, no ano que foi todo ele uma noite de terror, esses jornais (únicas bocas que ainda falavam) clamavam pela liberdade de Pedro Bala, líder da sua classe que se encontrava preso numa colónia.
E no dia em que ele fugiu, em inúmeros lares, na hora pobre do jantar, rostos se iluminaram ao saber da notícia. E apesar de que lá fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e uma família.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

NÃO SIRVO PARA GRANDE COISA


Sou deveras incompetente, inepto, a lista das coisas que todo o mundo sabe fazer e eu não sei é longa. Aqui inscrevo apenas alguns exemplos: não sei dançar, assoviar, nadar, multiplicar, dividir por mais de dois números, empregar os verbos, pronunciar correctamente, dirigir automóvel (mas já soube andar de bicicleta com razoável equilíbrio). Não sirvo para grande coisa.

Jorge Amado em Navegaçãode Cabotagem

sábado, 27 de junho de 2015

SARAMAGUEANDO


As paixões acontecem, não se explicam.

Jorge Amado no seu livro memorialista, Navegação de Cabotagem:

As reedições de meus livros saem iguais às primeiras, apenas as gralhas vão em constante aumento, Paloma, que os andou relendo para saber o que os personagens comem, me informa que os erros gráficos se contam aos milhares. Tampouco jamais buli nas dedicatórias, também elas datadas – mesmo em se tratando de pessoas a quem deixei de estimar nem assim lhes retirei o nome da oferenda mesmo se retirei o indivíduo do meu bem-querer. Refiro-me, é claro, às edições brasileiras, as traduções fogem ao meu controlo. Lá estão os nomes todos, um a um – quando escrevi o livro estimava os admirava fulano a quem o dediquei, se depois ele se revelou calhorda, o nome permanece na dedicatória datando a escrita e a ingenuidade do autor.

José Saramago não teve este entendimento.

Desde que conheceu Pilar, as novas edições dos livros, antes dedicados a Isabel da Nóbrega, passam a não ter essa indicação.

Num lamento, Isabel da Nóbrega disse que foi uma atitude que não era preciso tomar.

Segundo o jornalista Luís Leal Miranda (jornal I  de 26 de Junho de 2010), Saramago pronunciou-se por várias vezes sobre o assunto, garantindo que as dedicatórias fizeram sentido na altura em que essas edições foram publicadas. E essas edições, já esgotadas, permanecem em sintonia com as inclinações amorosas da altura.

Num outro registo, Saramago salientou que as dedicatórias permanecem nas edições correspondentes ao tempo em que os livros foram escritos.

A história é conhecida.


Depois de ler livros de José Saramago, principalmente O Ano da Morte de Ricardo Reis, a jornalista espanhola Maria del Pilar ficou como que encantada.

Senti que tinha de agradecer ao autor os livros que me tinha dado a ler. E sobretudo dizer que tinha tratado os seus leitores como seres inteligentes. Tinha-me sentido respeitada como leitora e quis agradecer-lhe.

Veio até Lisboa e conseguiu uma conversa com Saramago.

Tal como na sinfonia de Beethoven, ambos terão sentido o destino a bater-lhes à porta.

Sabe-se o que aconteceu.

Desde então, os livros de José Saramago deixaram de ser dedicados à Isabel para passarem a ser dedicados a Pilar.

Os dois primeiros livros de José Saramago, Terra do Pecado (1947), Os Poemas Possíveis (1966), não têm qualquer dedicatória.

Mas em Provàvelmente Alegria já se revela uma leve indicação do que serão as dedicatórias futuras:

«Para tão grande amor tão curta a vida.»
Cheguei tarde ao encontro deste verso,
Outro o escreveu por mim, mas dele tomo,
Como rosa colhida que te ofereço.

Em Deste Mundo e do Outro (1971), algo um pouco mais especifico:

Não se dirá aqui o nome. Mas da sua exaltação nasceu este poema, do seu rigor esta autobiografia, da sua verdade esta meditação e basta.

Mas é com o livro seguinte, A Bagagem do Viajante (1973) que o nome finalmente surge e que, por diversos livros, José Saramago manterá: 

Dir-se-á desta vez aqui o nome. Pelas mesmas razões da exaltação, do seu rigor e da sua verdade. E porque estes dias são mais exaltantes ainda, mais rigorosos e de uma verdade que já é unidade inultrapassável. Isabel.

Seguem-se:

As Opiniões que o DL Teve (1974):

Para a Isabel e para os meus amigos.

O Ano de 1993 (1975):

Para a Isabel. Este livro, o antes e o depois dele, todos os passos e todos os gestos, todas as palavras ditas e as que estão por dizer. Assim. Mesmo que o tempo não entenda já de coisas como esta.

Os Apontamentos (1976):

À Isabel, este livro e todos.
Aos trabalhadores do «Diário de Notícias» que foram o meu apoio e a primeira justificação de quanto escrevi.

Manual de Pintura e Caligrafia (1976):

Para a Isabel, tão inseparável deste livro como da minha vida.

Objecto Quase (1977):

Para a Isabel, porque me disse de que lado está a vida.

A Noite (1979)

À Luzia Maria Martins, que me achou capaz de escrever esta peça.

À Isabel



Levantado do Chão (1980):

À Isabel sempre.

A João Domingos Serra e João Besuga, e também a Mariana Amália Besuga, Elvira Besuga, Herculano António Redondo, António Joaquim Cabecinha, Maria João Mogarro, João Machado, Manuel Joaquim Pereira Abelha, Joaquim Augusto Badalinho, Silvestre António catarro, José Francisco Curraleira, Maria saraiva, António Vinagre, Bernardino barbas Pires, Ernesto Pinto Ângelo – sem eles não teria sido escrito este livro.
À memória de Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, assassinados.

Que Farei Com Este Livro? (1980):

À Isabel cada vez mais.

Viagem a Portugal (1981)

A quem me abriu portas e mostrou caminhos, à companheira constante que tantas vezes disse. «Repara» - e também em lembrança de Almeida Garrett, mestre de viajantes.

Memorial do Convento (1982):

À Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984):

À Isabel, outro livro, o mesmo sinal.

A Jangada de Pedra (1986)

Sem dedicatória

A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987):

Sem dedicatória.

A História do Cerco de Lisboa (1989) é o primeiro livro em que aparece Pilar:

A Pilar

A partir daqui todos os livros serão dedicados a Pilar.

Em As Pequenas Memórias (2006), pode ler-se:

A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.

Todo o ser humano é falível.

Felizmente!

Em 1944, José Saramago casa com a pintora Ilda Reis.
Entre 1954 e 1964, Isabel da Nóbrega viveu com o crítico João Gaspar Simões, que nunca perdoou ter sido trocado por um obscuro jornalista e tradutor.

A relação com Saramago durará de 1970 a 1976.

Pelo próprio Saramago fica a saber-se que Isabel da Nóbrega lhe abriu portas e novos caminhos.

Completamente despropositado e idiota existir quem defenda que foi Isabel da Nóbrega quem ensinou José Saramago a escrever.

Antes de Isabel, Saramago já era escritor.


Nota do editor: não foi possível encontrar uma fotografi de José saramago com Isabel da Nóbrega.

Legenda:
a) José Saramago, a mulher Ilda Reis, a filha Violante.
b) Isabel da Nóbrega.
c) José Saramago e Pilar.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Navegação de Cabotagem
(Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei)

Jorge Amado
Publicações Europa-América, Lisboa, Novembro de 1995

Romancista de putas e vagabundos, classifica-me com menosprezo um graúdo da crítica literária. A classificação ma agrada, passo a repeti-la para definir minha criação romanesca.
Gosto da palavra puta, simples, límpida, tenho horror aos termos prostituta, marafona, pejorativos e discriminatórios. Em três palácios de governo relembrei que sou apenas um romancista de putas e de vagabundos, colocando o acento na palavra puta com júbilo.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

HONRARIAS


Jorge Amado é uma dos muitos escritores que mereciam ter recebido o Prémio Nobel da Literatura.

Não aconteceu.

Diversas vezes nomeados, só a Academia, possivelmente, deverá saber os porquês.

Amado não tinha dúvidas:

De mim já se disse que sou apenas um escritor de vagabundos e de putas. Honro-me com isso.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

SARAMAGUEANDO


No número 3 de Blimunda, publicado no site da Fundação José Saramago, pode ler-se o texto, Jorge Amado vivo, escrito por José Saramago:

Escreverei sobre Jorge Amado como se estivesse vivo. Dizem-me que as suas cinzas, foram enterradas de baixo da mangueira a cuja sombra ele gostava de acolher-se lá no Rio Vermelho, mas cinzas, são cinzas, coisa nenhuma, muito mais têm pesado as palavras e o vento igualador, cedo ou tarde, tanto levou umas como outras. Por isso só quero falar de Jorge Amado vivo.

Um dia destes, Pilar e eu, desembarcaremos na Rua das Alagoinhas, a visitar Zélia e a família. Sentar-nos-emos de baixo da mangueira, no banco do Jorge, e eu levarei para entreter a espera, A Descoberta da América pelos Turcos. Sim não necessitam dizer-mo, o livro tem poucas páginas, não vai dar para muito, mas sendo a obra acabada que é, pode-se voltar ao princípio uma vez e muitas, que sempre o encontraremos intacto.
Se o Jorge tardar, se não vier, será apenas porque se atrasou no caminho, demorou-se a conversar com algum amigo, foi o que foi, talvez o Carybé, talvez o Calasans. Esperaremos pacientemente. Não há perigo de que não apareça. Ele está vivo.


Num artigo publicado no Público de 10 de Agosto, Os Cem Anos de Jorge Amado e Portugal, o jornalista António Valdemar conta que terá insistido em propor a candidatura de Jorge Amado ao Prémio Nobel:

Coloquei a questão, directamente, num dos almoços no pequeno restaurante do Parque Mayer. Jorge Amado de imediato interrompeu-me e advertiu: “Duvido muito. Não tenho qualquer hipótese. Deixei de ser comunista mas recebi o Prémio Estaline, a medalha Lenine, as mais altas condecorações da União Soviética e nunca eliminei essas distinções, nem da minha bibliografia nenhum dos meus livros comunistas. Por tudo isto, nunca terei o Nobel. O Nobel vai ser para saramago…”
E concretizou com veemência: “ele é comunista, mas não tem, como eu tenho, obras de exaltação comunista. É isto que interessa à Academia Sueca. O tempo dirá…”
Dois anos depois, a profecia cumpriu-se. Jorge Amado ainda conseguiu comprovar o vaticínio e… felicitar Saramago.

Legenda: Jorge Amado e José Saramago na Casa de Calazans, 1996.

domingo, 9 de setembro de 2012

PREFERÊNCIAS E GOSTOS DE JORGE AMADO


A parte final do livro de Jorge Amado, De Como o Mulato Porciúncula Descarregou Seu Defunto, é constituída por excerto de entrevistas  que o autor deu a jornais e revistas.

- Que  livro gostou mais de escrever?

- Qualquer dos meus livros.

- Personagem dos seus livros de que mais gosta:

- Nacib de Gabriela Cravo e Canela.

- Dos seus livros o preferido?

- Mar Morto.


Jorge Amado era um apaixonado pela comida e por vinhos.

As suas diversas vindas a Portugal traduziam-se em paragens por tascas e restaurantes simples, como Os Caracóis da Esperança na Rua da Esperança, em Lisboa, comer queijinhos frescos na Olaria de João Franco, no Sobreiro, meio caminho entre Mafra e Ericeira e tinha pela comida minhota uma predilecção especial.

 Tudo começava ao balcão do Natário, em Viana do Castelo, com uma empada e uma malga de vinho verde, pelava-se de gozo pelos bacalhaus da região e não prescindia nunca de uma cabidela de galo, vulgo pé descalço.

Em 11 de Março de 1993, almoçou com Miguel Torga. No seu Diário, volume XVI Torga deixa registo:

Almoço com Jorge Amado. Perdiz brava de Montesinho, posta mirandesa e tinto maduro do Doiro. Ementa a preceito, em homenagem à humanidade do escritor que na minha admiração parece ter aliado harmoniosamente, na vida e na obra, o calor da urbanidade baiana à grandeza da alma transmontana. A dizê-lo assim simplesmente. Arrisco-me a ser mal interpretado, mas foi o que senti justificadamente durante aquelas três horas, íntimas, simples, fraternas, sem literatura, só gustativas, de preito e comunhão.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

POSTAIS SEM SELO


Avô, mesmo que a gente morra, é melhor morrer de repetição na  mão, brigando com o coronel, que morrer em cima da terra, debaixo de relho, sem reagir. Mesmo que seja pra morrer nós deve dividir essas terras, tomar elas para gente. Mesmo que seja um dia só que a gente tenha elas, paga a pena de morrer.

Jorge Amado em Os Subterrâneos da Liberdade - Agonia da Noite.

OLHAR AS CAPAS


De Como o Mulato Porciúncula Descarregou seu Defunto

Jorge Amado
Colecção Antologia Best-Sellers
Editorial Organizações, Lisboa 1962

O gringo aportara ali há muitos anos, era calado e loiro, nunca vi ninguém gostar tanto de cachaça. Dizer que emborcava a branquinha como se fosse água não é vantagem, poi isso todos nós fazíamos, Deus seja louvado!, mas ele podia passar dois dias e duas noite mamando garrafas e não se alterava. Não dava para falador, não puxava briga, não cantava canções de outros tempos, não vinha recordar seus desgostos passados. Caladão era, caladão ficava, só os olhos azuis se apertavam, cada vez mais miúdos, uma brasa vermelha dentro de cada vista, queimando a azul.
Contavam muitas histórias sobre ele, algumas tão bem amarradas que dava gosto escutar. Tudo por ouvir dizer, porém, pois da boca do Gringo nada de certo se sabia, boca trancada, não se abrindo nem nos dias de festa gorda, quando as pernas ficavam como chumbo de tanta cachaça acumulada nos pés. Nem mesmo Mercedes, cujo fraco pelo Gringo não era segredo para nenhum de nós, curiosa como ela só, jamais conseguira arrancar sequer um dado preciosos sobre a tal mulher que o Gringo matara em sua terra e sobre o homem por ele perseguido anos a fio, por lugares sem conta, até lhe enfiar a faca no bucho. Quando ela perguntava, nos dias de cachaça maior que o respeito, o Gringo ficava olhando ninguém sabe o quê, com seus olhos miúdos, olhos azuis, agora rubros, apertadinhos, e articulava um som como grunhido, de duvidosa significação. Essa história da mulher com dezassete facadas nas partes baixas, nunca consegui saber como veio parar ali, entupida de minúcias, e mais o caso do moço patrício dele, perseguido de porto em porto, até o Gringo lhe enfiar a faca, a própria com que matara a mulher com as dezassete facadas, todas nas partes baixas.

À CONVERSA...


Perguntaram-lhe:

A sua saída do Partido?

Respondeu:

No começo de 56 houve o XX congresso do PC soviético. E, em geral, as pessoas pensam que eu deixei de militar profissionalmente no partido devido a essa crise. Não. Eu deixei de ser funcionário do Partido Comunista – e a única diferença entre mim e os funcionários era que eu recebia nem um centavo – porque decidi continuar o meu trabalho literário. Mas pouco depois veio a crise, e muita gente ainda hoje imagina outra coisa, e também nunca tive qualquer interesse em tornar públicas as verdadeiras razões. Muitos pensam que houve uma ruptura quando não houve. O que houve é que eu, realmente, voltei a ser exclusivamente escritor. Ao mesmo tempo, é claro, voltei a pensar pela minha cabeça, porque, quando se está dentro de um corpo partidário, sobretudo extremamente disciplinado como o Partido Comunista, a gente pensa muitas vezes pela cabeça dos outros e não pela sua própria. Por isso, daí em diante, eu passei também a pensar pela minha cabeça, sem que isso me tenha afastado de nenhuma das posições fundamentais do meu pensamento


Jorge Amado em Conversas de Mário Ventura, Publicações Dom Quixote, Lisboa 1986.


Legenda: Jorge Amado com José Saramago.
Fotografia tirada do site da Fundação José Saramago.

O CAPITÃO DA AREIA



E de repente, não sei porquê, lembrei-me de Jorge Amado. Talvez devido a uma fotografia em que estamos ambos com Ernesto Sábato num restaurante de Paris. Sábato cansava-me por viver num drama interior perpétuo, quase teatral, uma espécie de prisão de ventre crónica da alma, de que nos dava notícia com angústia pomposa. Jorge Amado, pelo contrário, era uma bonacheirona alegria de viver. Pequeno, redondo, de voz grossa e lenta, sempre gostei muito mais dele do que dos seus livros, quase todos com demasiadas dobradiças agora. Fizemos uma viagem pelo Sul da França com Gisèle Freund, a extraordinária fotógrafa que retratou, por exemplo, Virginia Woolf e Joyce, minúscula, muito velha já, com uns olhos completamente transparentes de inteligência e ironia. Poucas pessoas, até hoje, me impressionaram tanto como essa mulher que, ao rir, parecia feita de peças que se desencaixavam umas das outras e tombavam no chão em ruidozitos musicais. Ao ficar séria apanhava os fragmentos e reconstituía-se devagarinho: havia sempre um ou dois que ficavam fora do lugar. Às vezes um braço punha-se no sítio da testa ou uma das pernas nascia-lhe das costas: Gisèle Freund era um modelo para armar composto por uma criança distraída. Só a máquina, sempre pendurada do pescoço, se mantinha intacta, a medir a gente com o único olho de coruja. Jorge Amado, esse, estava eternamente no sítio, montadinho a preceito, todo cabelo branco e duplos queixos intactos: poisava-me a palma no ombro num afeto de urso generoso. Penso que nos conhecemos quando o Fado Alexandrino saiu em França e ele me mandou uma carta com a crítica de Jean Clementin lá dentro: "Uma crítica assim, por Jean Clementin, é a glória." As cartas de Jorge Amado eram documentos espantosos: escritos num teclado que se percebia antiquíssimo e de fita gasta e corrigidas à mão com acrescentos, supressões, entrelinhas. Desprovido de inveja, nunca o ouvi dizer mal fosse de quem fosse: achava uma qualidade qualquer no maior canalha e avaliava-o por isso. Passei manhãs com ele a andar de metropolitano

(adorava metropolitanos)

de modo que me dava ideia de conhecer melhor as minhocas da Terra do que os monumentos de Paris. E acompanhava o andar das mulheres no vértice dos seus saltos com um enternecimento de avô benigno. A sua amizade estava cheia de pudor e atenção

(Que se passa com você, rapaz?)

e lá vinha a grossa palma acalmar os cães negros que dentro de mim se devoravam. Homem de grande coragem física e moral, abandonou o Partido Comunista numa honestidade admirável, que o deixou rente à miséria e sem lugar onde viver: nunca lhe escutei um lamento. E tinha o difícil dom da camaradagem limpa de cálculos. Espontâneo como um menino entregava-se sem condições: na minha ideia era irmão das suas melhores personagens: o Cabo Martim, Quincas Berro de Águia, o comandante Vasco Moscoso de Aragão, Teresa Baptista cansada da guerra ou o Mestre Manuel no seu saveiro. E estou seguro de haver sido, em tempos, o negro António Balduíno. Fosse onde fosse que se achasse era num terreiro de Mãe de Santo que morava, entre criaturas de grandes saias engomadas e cachimbo nos dentes, com a eterna roseta da Legião de Honra na lapela: dava por mim a perguntar o que pensaria Napoleão da Dona Flor e dos seus dois maridos e qual o motivo de condecorar Vadinho, o safado. Ou Quincas, que chamava à irmã gorda "saco de peidos". Ou a senhora pretensiosa que parecia "estar sentindo cheiro de merda em toda a parte". Lembro-me tanto desta frase diante de certos políticos, certos gestores, certos escritores. Gisèle Freund

(tac)

retratou a gente, o capitão da areia e eu, e o Jorge, mais idoso que o meu pai, era o mais novo dos dois. Foi o sujeito mais novo que se me atravessou na vida. Nunca iria morrer. Não morreu, claro, visto que "impossível não há". Anda para aí, vivo da costa, na farra com Quitéria de Olho Arregalado. E, qualquer dia, recebo uma carta batida num teclado antiquíssaiassimo, com dúzias de acrescentos, supressões, entrelinhas. Volta e meia filava-me o pescoço, rosnava

- Gosto de lamber meus filhotes

e puxava-me o cotovelo para o metropolitano. Quando eu voltar a Paris passeamos horas, às sacudidelas, até fazermos as estações todas, numa carruagem a abarrotar de coronéis do cacau, malandros, pivetes e raparigas da vida. E serei eu, não ele, a garantir

- És meu irmão, rapaz

separando as letras como você fazia, Jorge, no vagar

António Lobo Antunes no Quarto Livro de Crónicas, Publicações Dom Quixote, Lisboa Abril de 2011.

AMADO CAPITÃO DA AREIA


 Jorge Amado nasceu há cem anos.

Se bem que livros de Jorge Amado (edições brasileiras) fizessem parte da biblioteca do meu pai, sou um leitor tardio das suas obras.

Tudo começou, em 1962, quando o meu pai apareceu com um livrinho de 32 páginas, com um nome sugestivo: De Como o Mulato Porciúncula Descarregou Seu Defunto.

A hstória está envolvida numa graça contagiante. Seu autor: Jorge Amado.

Li-o num sopro e ficou a ideia de que teria de ir à descoberta do autor.

Não aconteceu e os motivos devem estar relacionados com a dispersão de livros, de filmes, outras coisas, com que preenchi a adolescência.

Só em Fevereiro de 1966, mercê de uma pequeno texto publicado pelo jornal do Benfica, me dei conta que era mais que tempo, já tardio tempo, de conhecer Jorge Amado.

O estranho de tudo isto é como, em plena ditadura salazarista, um jornal de clube de futebol, publica um depoimento como este que podem ler aí em baixo.


O Benfica sempre foi um clube popular, nas assembleias gerais, praticava-se a democracia e ninguém, nem a PIDE, ousou contrariar o sentido do povo benfiquista.

Claro que, por lá, também havia uns ranhosos, mas… acontece em todos os lados, tal como, por outro motivo, Jorge Amado disse a Mário Ventura:

Eu sempre digo que as melhores pessoas que conheci na minha vida, eu as conheci no Partido. Algumas das piores, também. Mas isso acontece em todos os lados.

Recordo, como se fosse hoje, ter perguntado, ao meu pai, por onde começar. 

Não hesitou: Capitães da Areia

E acertou.

Antes já tinha lido Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, e nunca pude deixar de os sentir ligados.

Jorge Amado escreve Capitães da Areia em 1936, Soeiro Pereira Gomes escreve Esteiros em 1941.

Soeiro Pereira Gomes sempre disse que, entre os dois livros, não havia coincidências, mas diferenças essenciais.

Álvaro Pina, um estudioso do neo-realismo, realça que essas diferenças essenciais se situam no papel do trabalho e dos trabalhadores como protagonistas da sociedade nova, no protagonismo colectivo, no conteúdo revolucionário da luta por um futuro melhor, presentes mo livro de Pereira Gomes, ausentes no livro do Jorge Amado.

Puxando a brasa à sardinha: as diferenças essenciais entre os dois livros traduzem a qualidade nova do realismo de Soeiro – militante e socialista, reflexo e obreiro da resistência e da luta do povo

Discussão a dar muito para mangas.

Por agora importa realçar que estamos perante dois importantes e belíssimos livros que, cada um à sua maneira, mostram a luta pela libertação a construção de uma sociedade sem fome, sem miséria, sem crianças que nunca chegam a conhecer a felicidade de serem crianças.