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sábado, 9 de maio de 2020

POSTAIS SEM SELO


Ocorre-me um episódio que um dia me contou o poeta Jorge Fallorca. Certo pintor português, irritado com as críticas demolidoras ao seu trabalho, desabafou: “Está bem que não sou nenhum Leonardo da Vinci, mas esta merda também não é a Itália do Renascimento.

Ana Cristina Leonardo

Legenda: Jorge Fallorca

terça-feira, 15 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Quando a idade me devolve a luz e o ar, as dedicatórias chocalham no horizonte. À medida que os anos passam, sinto as árvores, o ar, cada vez mais inúteis. E as palavras também.
Já tive melhores ilusões para envelhecer.

Jorge Fallorca em Longe do Mundo

Legenda: pintura de Nels Hagerup

segunda-feira, 15 de abril de 2019

POSTAIS SEM SELO


Os melhores textos foram os que me ocorreram durante o sono, e não me levantei para os escrever. Porque o tempo é como as plantas: quanto mais atenção lhes damos, mais depressa crescem e devoram o espaço de quem as trata.

Jorge Fallorca em Longe do Mundo

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Não sei, permanecerá sempre a dúvida, e continuo a considerar a dúvida como o melhor dos incentivos para se continuar a seguir em frente.

Jorge Fallorca em Blues para uma Puta Velha

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

POSTAIS SEM SELO


A vida é uma ponte. Atravessa-a, mas não construas nenhuma casa em cima dela.

Provérbio indiano citado por Jorge Fallorca em Blues para uma Puta Velha

segunda-feira, 16 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS


 Blues Para Uma Puta Velha

Jorge Fallorca
Desenhos: André Bonito
Capa: JF/VST/PS
Edições &etc, Lisboa, Março de 2010

Este vento, o vento que sopra às revoadas mansas e pegajosas vindas do mar, é um vento cheio de cheiros que recordam histórias, cheio de histórias como um baú acabado de abrir, dos que só dão à costa trazidos pelos cheiros do vento.
Sem pianos, sem sereias.
Quando é tempo delas e o vento mas oferece, entretenho-me a descascar as ervilhas-de-cheiro dos outros cheiros todos, para dar uma volta pelo jardim-escola; outras vezes, deixo-me temperar pelo manjericão, o jasmim, a hortelã, para vogar neste vento tão pegajosos e tão atlântico até ao porto de Tânger.
Sou dos que acreditam – eu acreditei, a pés juntos, que um dia passei a estar «onde vejo o vento» -, e o vento tem-me seguido como uma sombra, fiel e dedicada, com um comportamento onde me reconheço e por isso nos confundimos; muitas vezes penso que tenho andado enganado e, afinal, não passo da sombra do que se entende como sombra.
E que ninguém se atreva a esperar por parágrafos de ferro forjado, como «sombra da minha sombra»; deixemo-los sossegadinhos para os teclados eruditos de quem gosta de se considerar e que se lhe chame escritor, debruçado sobre lombadas com malvas a aviar escrita e importância, notoriedade, sôfregos de eternidade.
Nunca me passou pela cabeça a canseira, a ansiedade que deve ser escolher a escrita por figurino, por catálogo, e continuo a escrever pelo puro prazer de escrever, sei lá se é poesia ou sei lá se é prosa, só sei que continuamos a brincar às escondidas, a curtir, quando não é uma urgência de fazer doer a alma a qualquer um.
E eu que o diga, a sério.
O vento é uma boa desculpa, podia ser um belíssimo pretexto se, entretanto, não me desse por contente com o que acabo de escrever e, precisamente por isso, vou mas é até lá fora sentar-me ao sol e deixar-me ficar só a ver o vento.
É que a escrita perde sempre piada quando a literatura começa a intrometer-se, quando permitimos que a literatura comece a meter o bedelho.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

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CARTA DE VITOR SILVA TAVARES

22.7.09

                                                     Caro Paulo

Disseste-me que o teu livro não é aquilo a que se pode chamar “um livro de memórias”. Em rigor em rigor, acho que é e não é. Não é, por certo, um livro “jornalístico” (o autor vai ali ao calendário da sua vida e dá notícia) mas é sim senhor, quanto a mim, um mergulho visceral – entenda-se, visceralmente poético, logo interventivo – naquele magma de impressões redivivas, experiências e encontros determinantes, obsessões e traumas que musculam mais que uma vocação – aliás, afirmada . um sentido de e para a vida (pelena).
Encaixa o que tem de encaixar, rejeita o que afinal não passou de acidentes de percurso, necessários embora.
O teu livro, até na sua formulação linguística, nada funcionária, funde-se no complexo da tua obra poética. Não ilumina, não revela, não toca e foge – faz parte.
Surpresa propriamente dita, não a tive. Mas foi-me grato o reencontro com a persona.
                                                        
                                                      Um abraço do teu
                                                                                   VST


Legenda: Paulo da Costa Domingos, Vitor Silva Tavares e Jorge Fallorca na Brasileira do Chiado, Janeiro 2009

sábado, 24 de setembro de 2016

SILÊNCIO


Creio que o vislumbrei através do espaço dos castigos:
o sótão, a parede, a sala vazia das escolas e colégios.
E também as igrejas e o quartel, que eram outras formas de punição.
Devo ter-me portado muito mal - como diz quem se porta bem - para a minha formação lhes ter merecido tantas atenções.
Depois aprendi outros silêncios:
a vastidão das fazendas, em Salgueirais, a solidão dos montes alentejanos, a parada do quartel, em Santa Margarida.
Quando comecei a fugir, às vezes parava o carro e saía para ouvir a noite.
Mas a única vez que me senti perto do silêncio, foi em Aragão, no meio dos Montblancs.
Ao contrário do que me disseram, ou julgava ter ouvido, a morte é a coisa menos silenciosa.
Pelo menos, a avaliar pelos vivos.
Dizem, ou melhor, acusam-me cada vez com mais frequência, que estou a ficar descompreendido.
Se calhar, julgam eles, para me pouparem o desgosto de estar a ensurdecer.
Quem me conhece, sabe como cultivo essa espécie de autismo, onde julgo encontrar-me com o silêncio.
Mas, embora silenciosa, não creio que a surdez seja a via do silêncio.

Jorge Fallorca em Longe do Mundo

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

ESCREVER


Antes que seja tarde, devo dizer que considero o acto de escrever pouco saudável.
E gostaria que o tom fosse considerado como um desabafo, e não confessional.
Decorrido meio século de existência, aprendi a coabitar comigo mesmo.
Quer essa relação se assuma como um comovido
 flash back, ou um severo ajuste de contas.
Felizmente, sobra-me mais tempo para esquecer do que para emendar.
Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita – como qualquer outro acto criador – antropófaga até à vileza.
Ninguém se surpreenderá se afirmar que a minha geração superou esse objectivo.
Excedendo-se no
 show off, ou no striptease onanista, onde um predisposto auditório se reconhece e excita.
A leitura das gerações que me precedem, em nada tem contribuído para perturbar, ou abalar, este assumido preconceito.
Os Pessoa, Kerouac, Ginsberg, Hemingway, Michaux, Aquilino, Cardoso Pires, o exaltante Saint-John Perse, ou o inevitável Herberto, todos me recusaram uma escrita límpida e saudável.
Até mesmo em
 O Sorriso aos Pés da Escada, o único Miller que conservo, a beleza é perversa e sublinhada por um fio de pus.
Todos eles me envenenaram uma predisposição que começou por ser saudada na escola, e onde a família se conformou em depositar esperança de que continuasse a ser bonita.
E, sobretudo, que tivesse futuro.
Antes que seja tarde, devo esclarecer que ainda hoje tenho relutância em considerar o futuro, e que me reservo o maior desprezo pelo presente.
Sem pretender a honestidade que, dificilmente, reconheço nos outros, arrisco que a escrita – como qualquer outro acto criador – precisa de vítimas.
E alimenta vítimas.


Jorge Fallorca

sexta-feira, 13 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Ninguém nasce ou morre à hora da sesta.
só  a memória vigia os trilhos por onde um dia a morte
virá como um vagabundo sequiosos,
enquanto puxamos o balde cabisbaixos e a corda nos
sulca as mãos envelhecidas.

Jorge Fallorca em Longe do Mundo

Legenda: fotografia de Antanas Sutkus

terça-feira, 12 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Nenhuma praia é suficientemente grande para me devolver o mar.

Jorge Fallorca em Longe do Mundo

Legenda: fotografia de Nadya

sexta-feira, 1 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Já ninguém escreve nas esplanadas,
Ou precisa de bússolas para atravessar os dias

Jorge Fallorca em Longe do Mundo

OLHAR AS CAPAS


Longe do Mundo

Jorge Fallorca
Desenhos: Ângelo de Sousa
Capa: Paulo da Costa Domingos
Frenesi, Lisboa, Maio de 2004

O Sul não existe.
E ninguém o explicou melhor que Montalbán.
Terá sido inventado pelos povos do Norte, e posto à venda pelas agências de viagens.
Também não fui indiferente ao Sul.
Mesmo que ele não fosse mais do que uma palavra.
Ataviei-me de cores e de cheiros minuciosamente elaborados na Beira, e parti para o Algarve.
O Sul.
Cedo me dei conta de que havia mais sul a Sul.
Mas apenas transpus o Estreito, seguindo a rota delineada pelos profetas da minha geração.
Paradoxalmente, esse outro Sul, a sul das praias de Tarifa, apenas me devolvia ao Norte.
Neste caso, o de África.
Os labirintos sempre me fascinaram, mas eu preferia mil vezes partir à procura do fim do arco-íris, do que decantar os vasos comunicantes do horizonte.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC


A & etc.surpreendentemente, criou em Dezembro de 2010, um blogue.

Claro que não foi o Vitor o homem da ideia.

Não gostava de novas tecnologias.

Se pudesse escreveria sempre em ardósia.

O blogue é obra dos amigos.

Ao ponto de pertencer a um deles, Jorge Fallorca, o primeiro comentário:

Eu não me acredito!!!
O Vitó electronetizou-se???


Foi pena que tivesse vida efémera.
Mas ainda lá encontrarão muitas das capas de livros que a &etc foi publicando.

Talvez ainda volte.

Era assim a apresentação na blogosfera:

Janeiro, 1973: sai o 1.º n.º da folheca cultural q.b. &etc. 25 reincidências depois, puf!, dá-lhe o badagaio. Entre outras graças, o sistema de distribuição & etc.; comercialização conseguiu apresentar um número de devoluções superior ao da própria tiragem.

(A tempo: pelo andar da carruagem, ainda nos volta a acontecer o mesmo...)

Dezembro, 73: sai o 1.º livro &etc, de seu título Coisas. Todo um programa, aqui para nós fielmente mantido até ao momento:

– originalidade gráfica (o tal formato de 15,5 x 17,5 cm. com um quadrado lá dentro forçando ao cânone);

– tiragens magrinhas;

– preços a condizer;

– materiais pobres-mas-honrados;

– recusa total de subsídios estatais ou outros;

– política editorial tresmalhada mas com sentidos a piscar-o-olho;
– nada de reedições;

– nada de retribuições tipo copigaitas;

– nada de subserviências face às “imposições” (ditaduras) de indústria e de “mercado”.

Falência, pois, assegurada desde o ovo, mas orgulhosamente sustentada até hoje graças a muita raiva à mistura com um romantismo (também ético) sabidamente anacrónico.

Prestes a fazer 38 aninhos de misérias materiais e luxos daqueles de só fazermos o que nos dá no gôto, somamos para aí uns 340 títulos publicados, coisa pouca, menos de 9 títulos-média por ano.
Grande parte (metade?) desses títulos encontra-se esgotada – e é muito apreciada por coleccionadores e alfarrabistas.

A coisa a continuar assim, ainda havemos de publicar apenas livros esgotados logo à saída dos prelos: êxito garantido!

Mas, enquanto não, cá nos vamos entretendo a ler as listas dos livros alegadamente “devolvidos” pelas livrarias, mesmo aqueles que sequer chegaram a cheirar-lhes as prateleiras.

Por estas e por outras, estamos a inaugurar este contacto virtual com virtuais interessados.

Senhoras & etc.; senhores, Meninas &etc.; Meninos:
se desejardes (agarrados pelo rabo) adquirir algum livrinho &etc, porventura não encontrado nas livrarias do costume, favor encaminhar tão prestimoso desejo para as seguintes livrarias, estas nossas dilectas amigas:

– UTOPIA (Porto) (email)


Legenda: capa de um livro de Jorge Fallorca publicada na &etc. 

domingo, 16 de junho de 2013

OLHAR AS CAPAS


Diário Volúvel

Enrique Vila-Matas
Tradução de Jorge Fallorca
Capa: Maria Manuel Lacerda
Editorial Teorema, Lisboa s/d

Tenho uma táctica para qualquer inimigo que me possa surgir: quando ataca, não me dou por achado, recorro à indiferença e podem passar-se anos; não alimento o adversário, respondendo-lhe e fazendo-lhe propaganda, deixo que continue a roer-se de inveja, que continue no seu lamaçal aspirando ocupara o meu lugar, esse patamar inalcançável.
Quando o inimigo se retira persigo-o. Quando está fatigado ou vejo que o imbecil já se esqueceu das suas bocas, ataco. Sem dó nem piedade.