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terça-feira, 21 de maio de 2019

A CASA


Entre o empedrado e a casa
não existe jardim
e tens de descer dois degraus
antes de encontrares a porta.
Cerrada e com dois batentes.
Aproxima a mão da gárgula esquerda.
O tempo passará sem que nada aconteça.
Debaixo de um vaso de begónias,
a chave.
Ainda assim terás de fazer força
com o ombro esquerdo
contra a madeira de carvalho.
Não esperes, porém que esse ruído
desperte qualquer lembrança,
em ti ou na casa.
Há mais de trinta anos que ninguém
aqui entra.
Apenas tu guardavas a memória,
sem o saber, este caminho.
Depois de teres atravessado escarpas,
florestas de enganos, desertos,
hoje o regresso?
Com palavras e prolongados silêncios
talvez o descubras.
Um conselho de amigo: ao entrares
não chames, não perguntes
ou digas o nome
de alguém.
Esta é a casa
que nalgum lugar da terra
te está destinada.
Senta-te à mesa com os mortos e escreve.

Jorge Gomes Miranda

Legenda: ilustração de Morten Morland

domingo, 28 de janeiro de 2018

ÀS VEZES TENHO MEDO DE ESQUECER TUDO


Às vezes tenho medo de esquecer tudo:
a casa onde nasci, o recreio
da escola, essas vozes
que lembram um copo de água
no verão.

Jorge Gomes Miranda

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

domingo, 10 de março de 2013

LAMENTO


Que vai ser do vento
sem o teu rosto por detrás da janela,
as mãos separando as cortinas?

Que vai ser da árvore
com os meus passos incapazes
de achar o caminho de casa?

Que vai ser do mar
sem as tuas palavras incitando-me
a abrir o portão de ferro?

Que vai ser do ar
que respiro sem as tuas mãos
por perto a impedirem-me de cair?

Jorge Gomes Miranda.
Legenda: ilustração de Izvor Pende.